terça-feira, 7 de agosto de 2018

Alma-negra com Champanhe

31/7/2018 - 02/08/2018
Portimão - Madeira

Já há uns anos que na tribo se falava do mito do ferry para a Madeira e de como este seria uma boa oportunidade para ver aves "impossíveis". O Alma-negra, Bulweria bulwerii, por exemplo. Esse fantasma do mar é uma ave quase impossível de ver de uma forma tradicional, seja a partir de terra, seja através de uma pelágica "normal". A solução óbvia seria um barco que fizesse um trajecto até ao limite da ZEE de Portugal Continental. Ora, como não existe oferta de pelágicas desse tipo, o ferry para a Madeira parecia ser a única hipótese. Havia apenas um pequeno problema. Esse serviço não existia desde o início de 2012.

Alma-negra (Bulweria bulwerii) - Foto Luís Rodrigues
Muita conversa houve sobre este tema ao longo dos últimos anos. "Um dia vai haver outra vez" , "temos de aproveitar". A chamada "conversa de chacha".
Entre concursos anulados, repetidos e sei lá mais o quê, num belo dia de Junho de 2018, o ferry finalmente materializou-se. O serviço começaria no início de Julho.
As movimentações - leia-se conversas de Facebook - começaram de imediato. Pelo que li parecia que havia, pelo menos, umas duas ou três dezenas de interessados.
Como sempre, à boa maneira portuguesa, na hora da verdade sobraram quatro - Pedro Ramalho, Pedro Nicolau, Luís Rodrigues e eu - que acabaram por ficar cinco, com a inclusão do Alexandre Rica Cardoso.

Entre todos, conseguimos chegar a um consenso. Além da viagem de ferry, ainda iríamos incluir uma pelágica e um dia para ver as aves lá do sítio. Fosse como fosse, ia sempre ser uma viagem relâmpago, sempre a correr. A volta seria de avião.


O Ferry - Volcan de Tijarafe - parece grande mas não é...
Pelo meu lado tinha o grande objetivo de ver alma-negra no dia 31, ou seja, na ZEE Portuguesa. Tinha também o objetivo secundário de ver todas as aves que ainda produziam emails de alerta do ebird e que há anos me andavam a encher a caixa de correio. "Precisa de pombo-da-madeira", "precisa de canário-da-terra", "corre-caminho", "bis-bis". Irra! Já estava farto. Tudo o que viesse por acréscimo seria um bónus. 
Com o meu optimismo habitual, não depositava grande esperança no objetivo principal. Seria um tiro no escuro, ou quase.

A logística não foi nada fácil de pensar, uma vez que o ferry sai de Portimão e não de Lisboa. No meu caso lá consegui arranjar maneira de dormir já no Algarve na noite anterior e de ter apenas uma noite mal dormida, a do ferry. Os meus companheiros tiveram duas, uma vez que viajaram para o Algarve durante a noite de 30 para 31. Dessa viagem para baixo, na tarde/noite de dia 30, recordo um motorista de camioneta espirituoso que, na Gare do Oriente, quando lhe perguntei se a camioneta não ia ainda passar por Sete Rios, me deu a resposta "Ò amigo eu nem sei onde isso fica!".

Funchal - A gaivina e o ferry (Sterna hirundo)
Dia 31 lá nos encontrámos todos no cais de embarque, em Portimão. Surpreendeu-me a quantidade de carros e de pessoas presentes. Vim a saber mais tarde que, além do tráfego normal havia ainda as equipas que iam participar no Rally da Madeira. Enfim, lá se foi de vez a minha esperança de ter o ferry só para nós.
Embarcámos e tomámos logo conta de um canto junto ao bar cá de baixo. Depois começou a fase de exploração. Cadeiras tinha muitas, casas de banho poucas e más. A piscina - leia-se tanque da roupa - e os decks exteriores estavam cheios de gente, com aquele entusiasmo de estar num "cruzeiro de luxo".
Tal como previa, quando o barco começou a andar, as partes exteriores foram esvaziando a pouco e pouco, fosse do frio, do vento ou da náusea.

Por volta das 14h fomos para o deck exterior no piso mais baixo. Havia cadeiras e o bar e as casas de banho não estavam longe. Fomos experimentando bombordo e estibordo e acabámos por ficar do lado mais abrigado do vento. Com a inclinação do barco o corrimão e a amurada acabavam por não estorvar muito a visão. 
Lá nos instalámos, debaixo do escrutínio de muitos olhares curiosos "O que é que aqueles malucos esquisitos com binóculos estão a fazer?". As perguntas acabariam por começar um pouco mais lá para o fim do dia. 
Lembro-me de olhar para cima e ver que havia gente a espreitar na amurada dos dois decks superiores. Do último piso, o da piscina, ouviu-se uma voz feminina com sotaque madeirense a dizer com ironia "Nada de olhar para cima que eu não tenho cuecas!". Nem eu nem o Nicolau encontrámos uma resposta à altura. 


Cagarra vista a partir do ferry
Vê-se pouca coisa. Uma cagarra ou outra, e pouco mais. Às vezes o mar parece um autêntico deserto. Lembro-me que chegámos a estar mais de uma hora sem ver uma única ave. Aparecem apenas uma ou duas aves cada vez, intervaladas por grandes períodos de seca. Não foi um exercício fácil. A hora também não seria a melhor. 
Por volta das 16h45, numa altura em que estávamos apenas eu e o Nicolau de plantão, passou uma cagarra, que fiz questão de apontar ao Pedro. De repente, ele põe-se aos gritos "Bulwerii! Bulwerii!". Quando lhe perguntei "Onde?" já ele estava de pé, a correr para a amurada de máquina em punho. A verdade é que não a relocalizou, nem fotografou, nem ma apontou, nada. "Apareceu-me nos binóculos e estava perto. Pensei que era fácil apontá-la e fotografá-la mas enganei-me. Desculpa!". Não fiquei muito chateado mas fiquei triste. Estas situações são o pão nosso de cada dia em observações de marítimas, e temos de estar preparados. 
Quando o resto da malta chegou, o ambiente ficou pesado. O silêncio instalou-se. 
Pensei sempre que onde há uma pode haver mais e nunca desisti. Aqui, como na vida é sempre a melhor atitude. Às 17h35, estava eu a dizer qualquer coisa quando me aparece um vulto negro nos binóculos. Bulwerii? - pensei. Ainda me saiu um palavrão - ca****#! - numa fracção de segundo, o vulto desapareceu por trás dos calções do Nicolau, que estava de pé, à minha frente. Não o voltei a ver mas assumi que deveria ser "o desejado". Sobretudo pela asa esguia que me pareceu comprida e pela ausência de branco. O Luís Rodrigues também conseguiu vislumbrar a cor e o tamanho. Não havia certezas absolutas, mas, no meu íntimo sabia que tinha visto o grande objetivo da viagem. Perante as dúvidas que me foram sendo postas por quem não tinha visto nada, limitei-me a ripostar:
   -Sei bem o que vi. Não tenho a certeza absoluta da id porque nunca vi um Alma-negra. Amanhã, ao chegar à Madeira vamos ver muitos, certo? Amanhã confirmo ou não o diagnóstico. 
O Pedro Ramalho estava cada vez com ar mais sombrio e cabisbaixo. Olhei para ele e disse-lhe para não se preocupar, que eu ia arranjar um Alma-negra para o meu amigo Pedro Ramalho. "É a primeira vez que dizes que sou teu amigo", respondeu (injustamente). Seja como for, fiz essa promessa, e não mais larguei os binóculos. O Alexandre disse que se visse um nesse dia pagava o jantar. A pressão era gigantesca. Eu tinha mesmo de encontrar um Alma-negra. 
Cada vez havia menos gente no exterior. O frio aumentava. O spray das ondas ia ficando tatuado nos binóculos. Ouve-se um aviso no sistema sonoro. "Atenção Srs. passageiros, devido às condições climatéricas, a permanência no exterior é desaconselhada." 
É só para homens, pensei. E lá ficámos, estoicamente. 
Às 18h35, o sol já estava baixo, banhando com uma tonalidade de ouro tudo em que tocava. E foi assim, coberto de ouro, que vi um Alma-negra materializar-se nos binóculos, bastante perto do barco e quase ao nível do deck. Desta vez não havia dúvidas. Consegui apontar bem a zona e toda a gente o viu. Missão cumprida. A euforia instalou-se entre abraços e gritos. 

O alma-negra das 18h35 (foto Pedro Nicolau)
A festa não passou despercebida a alguns passageiros mais atentos. Um deles perguntou-me mais tarde "Ouça lá, o que é que o Sr. viu há bocado?". Quando lhe respondi "Uma ave", vi-lhe a desilusão estampada no rosto, complementada com um "Ah..." inexpressivo. Cada um é como é.
Ainda, vimos mais uns dois ou três Bulwerii até ao final do dia, complementados com dois Pintainhos de bónus, que o Pedro Ramalho descobriu nesse palheiro que é o oceano. 
Quase com o sol a desaparecer lá resolvemos dar por terminada a sessão, sob os protestos do Nicolau, que teve de ser arrastado num colete de forças para dentro de portas. 
O Alexandre cumpriu a promessa e pagou o jantar, apesar das nossas objeções. Nas palavras dele, se não o fizesse a viagem iria correr pior a partir daí. 

Os nossos primeiros cinco avistamentos de Alma-negra na ZEE de Portugal Continental
(primeiro o do Nicolau, seguido dos "meus" quatro)
Para quem gosta de detalhes, no mapa acima vê-se onde começaram os avistamentos de Alma-negra. A azul-claro temos a ZEE Portuguesa. Os pontos, ordenados pela distância aproximada ao Cabo de S. Vicente:

X - 16h45 - 62Milhas Náuticas (MN) - 114Km - 1ª observação (Pedro Nicolau)
1 - 17h36 - 78MN - 145Km - 2ª observação 
2 - 18h35 - 98MN - 180Km - 3ª observação
3 - 19h33 - 118MN - 219KM - 4ª observação
4 - 19h50 - 124MN - 230Km - 5ª observação

A noite passou-se mal. O mais estranho foi ter conseguido dormir umas duas ou três horas, nem sei bem como. As cadeiras nem são desconfortáveis, mas dormir é numa cama. Entre o ressonar do vizinho do lado, o ressonar do vizinho da frente e o ressonar do vizinho de trás é muito complicado pregar olho. Às cinco e meia já estava de pé. 
Às seis e meia abre o bar e os passageiros começam dirigir-se para lá, estilo walking dead, à procura da primeira dose de café do dia. 


Um dos Almas-negras que consegui apanhar, já ao largo de Porto-Santo
Assim que a luz o permitiu, fomos lá para fora, para o sítio do costume. Via-se Porto Santo ao longe, na frente do barco.
Já não estávamos, claramente, num deserto. Imensas cagarras, inclusivamente em jangadas, muitos almas-negras. Algumas gaivinas e gaivotas. 
A estrela da manhã foi uma Pterodroma sp. ou Freira, bem perto. É realmente um bicho giro, com aquele capuz. Resta saber se as fotos conseguidas chegarão para uma id conclusiva. Um velhote que tinha ouvido o Pedro Ramalho gritar "Freira!" ainda me perguntou como é que estávamos a ver freiras no mar, se elas estavam no convento, ao que respondi que os meus binóculos eram especiais. 
O Alexandre contou também uma história engraçada. Uma senhora perguntou-lhe o que tínhamos estado a ver toda a viagem. Quando ele respondeu aves marítimas, ela terá dito que assim ficava mais descansada, porque pensava que estávamos a ver coisas que ela não conseguia ver. Ele terá que respondido que, no fundo, era exatamente assim. Há com cada uma...

A chegada ao porto do Funchal foi um momento alto. No meio das gaivotas e das gaivinas comuns, apareceram dois Garajaus-rosados - Sterna dougallii. Uma das aves que tinha esperança de ver e que há muito procurava. Depois do desembarque, e ainda antes do almoço passou um andorinhão-da-serra. A segunda parte da viagem começava bem.

Garajau-rosado (sterna dougalii) - Funchal
Resolvi não ir à pelágica da tarde. Com a noite mal dormida no barco as costas deram sinal e achei que não iria aguentar seis horas metido num semi-rígido a bater nas ondas. Não quis arriscar. O pessoal confirmou mais tarde, à chegada, que a viagem foi bastante dura.
Deixei os meus companheiros e ainda fiquei umas duas horas pela marginal. Voltei a ver as minhas amigas dougallii, muitas borboletas monarca - espetaculares - lagartixas-da-madeira e, claro, a estátua do CR7 à porta do museu.
Já no alojamento, consegui ver três canários-da-terra a caminho do café. Mais outra lifer, menos duzentos emails. 
O dia acabou com a chegada do pessoal, perto da meia noite. Nas palavras deles perdi, sobretudo, a espetada ao jantar, o que não é coisa pouca.

O dia 2 de Agosto começou com calma. Acabámos por sair apenas pelas 9h30. Que luxo!
Fomos primeiro ao Lugar de Baixo, onde quase nada se viu. Depois seguimos para os Balcões, onde chegámos tardíssimo. A consequência foi que aquilo parecia o Estádio da Luz em dia de jogo. Mesmo assim conseguimos rapidamente ver um Pombo-da-Madeira logo no início do trilho, o que diminuiu imediatamente o nível de stress. Vimos algumas estrelinhas no caminho e mais uns quatro ou cinco pombos no miradouro. Isto, claro, mais os omnipresentes tentilhões. 
Já só faltava a o corre-caminho. 

Pombo-da-Madeira (Columba trocaz) - longe, mas foi o que se arranjou.
Em relação ao próximo destino, gerou-se alguma discussão. Uns queriam ir almoçar, outros, como eu e o Luís queríamos despachar o último objetivo quanto antes. Tento sempre seguir a ideia inglesa do UBBB (under the belt before breakfast). Ou, neste caso, UBBL (under the belt before lunch). 
Ao fim de uns minutos de indecisão lá seguimos para a Ponta de S. Lourenço, à procura das berthelotii. Ainda parámos no caminho, no Faial. Aves havia zero, mas foi uma oportunidade única na viagem para ver e fotografar a costa Norte que é, tal como a Natureza, muito bonita.


Costa Norte (vista a partir do Faial)
A ponta de S. Lourenço parecia a baixa lisboeta em Agosto, cheia de carros e de gente. Comecei a ver a vida a andar para trás mas, ao que parece, umas centenas de metros antes, na Quinta do Lorde, o Pedro Ramalho tinha reparado em alguns corre-caminho. Retrocedemos e vimos os bichos quase de imediato, com mais uns canários de bónus. Deu para fotos, tudo. Observação cinco estrelas.
Resumindo, ainda não eram 15h e tínhamos todos os objetivos cumpridos. O almoço foi tarde, em Machico, mas assim foi mais descansado. 

Corre-caminho (Anthus berthelotii)
Depois de almoço, explorámos a zona, sem grande sucesso. Convenci o pessoal a tentar o Cigarrinho, a subespécie de tomilheira da Madeira, num miradouro próximo. Consegui ver a sylvia, mas não me livrei de uma queda, que poderia ter estragado a festa. Felizmente, não foi muito grave. 
Acabámos a tarde no Caniçal, a comer lapas e bolo do caco. Vida difícil...

A ideia era ir direto para o aeroporto mas, como o avião estava atrasado, ainda houve um desvio inútil instigado pelo mais jovem do grupo. Não se perdeu tudo. Pelo menos ficámos a saber que não vale a pena voltar a esse spot. 
Finalmente, lá seguimos para o aeroporto, de onde levantámos tardíssimo, cerca das 23h.

Depois de um dia cansativo, já dentro do avião, mais uma surpresa.
-É o Sr. Frederico Morais? O Sr. está no lugar errado!
Lá "tive" de mudar para fila um. Não foi uma estreia, mas nada melhor que acabar o dia em grande, em Executiva, com uma taça de champanhe sobre o Atlântico. A cereja no topo do bolo.

Quem tem amigos tem tudo...
Um grande abraço Gonçalo! 

e
Foto de família depois da chegada ao Funchal (foto Luís Rodrigues)
Resta-me agradecer ao Pedro Nicolau e ao Luís Rodrigues as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica, e a todo o grupo por ajudar a tornar esta experiência inesquecível. Um abraço e obrigado a todos!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Algarve 2018 - O Affinis do São Vicente

Algarve 2018
O Affinis do São Vicente

Já não me recordo da última vez que fui de férias para o Algarve em Junho. Seguramente há mais de vinte anos. Este ano teve de ser.
Inicialmente, vi a questão como uma fatalidade mas, a pouco e pouco, fui fazendo os meus planos da pólvora. Em vez da Cabranosa e das rapinas, teria de escolher outros alvos, e assim fiz. Comecei a pensar que seria uma boa oportunidade para rever aves que já não via há anos como o Andorinhão-cafre, o Solitário ou a Calhandrinha-das-marismas, por exemplo.


Andorinhão-pequeno (Apus affinis) - foto Nuno dos Santos

Para raridades, as expectativas eram muito baixas. Junho é tradicionalmente um mês mau para isso. Mas, não vou mentir se disser que tinha uma réstia de esperança. Nos últimos anos saí sempre feliz do Algarve e a tradição tem sempre alguma força, apesar de já não ser o que era, como dizia o anúncio. Talvez uma gaivina ou, já que entramos no domínio das impossibilidades, porque não um Andorinhão-pequeno (Apus affinis)? Junho é o mês com mais avistamentos. Imaginei-me a dar com ele por cima do passadiço dos Salgados numa saída matinal, de câmara em punho. Enfim, sonhos há muitos e a imaginação não tem limites.


As férias foram avançando tranquilamente, com visitas ao local patch conjugadas com alguns passeios mais compridos.
Este ano as coisas iam ser mais calmas... No Facebook fui dando um ou outro sinal de vida. Dia 12, quando demos uma volta com o Gonçalo Elias pelo Algarve interior, tivemos a sorte de ver três andorinhões-cafre. Um evento digno de nota, uma vez que na vida tinha visto apenas um e há já sete anos. Mesmo assim, achei que não se justificava iniciar mais uma série mete-nojo, como no ano passado. Limitei-me a postar um simples "Há sete anos que não via um destes."

Andorinhão-cafre (Apus caffer)
O problema foi que, logo no dia 13, o Algarve voltou a entrar na Twilight Zone.
O Guillaume Réthoré reportou um avistamento de um andorinhão-pequeno no Alvor e o caos começou a instalar-se. A notícia surgiu a seguir ao almoço, e eu segui direto para lá. De "certeza" que o bicho não se iria manter na zona mas, estando apenas a vinte minutos de distância "tinha" de lá ir. O Nuno dos Santos, sempre rápido, apareceu por lá por volta das 17h. Até às 20h vimos muitos andorinhões, mas não o que queríamos ver. Não fiquei muito afetado com o falhanço, porque a expetativa nunca foi muito alta. A minha teoria de que para ver esta espécie tem de ser o próprio a encontrá-la parecia confirmar-se. "Caso Affinis" encerrado, pensei.
Ou afinal, talvez não. No final desse mesmo dia, o Guillaume volta a reportar um Affinis, desta vez no Cabo de S. Vicente. E esta, hein? Parecia impossível. O "caso" não era assim tão simples e tinha de ser reaberto.

Dia 17, quando consegui outro dos objetivos das férias, o rouxinol-do-mato, coloquei mais uma nota no facebook - "Há cinco anos que não via um destes" - e preparei-me para acabar com tranquilidade mais um dia de férias. Não podia estar mais enganado! Nesse dia, o omnipresente Guillaume volta a ter um encontro imediato, o terceiro, desta vez na Fóia. Para compor o ramalhete, outro observador - Miguel Caldeira Pais - reporta outro Affinis no Carvoeiro.
O impossível tornava-se cada vez mais impossível. Quatro registos em cinco dias, sendo três do mesmo observador. Na altura até comentei num post que para ver um bicho desses bastaria andar o dia todo atrás do denominador comum, o Guillaume. Pelos vistos estes bichos seguiam-no, da mesma forma que os estorninhos seguiam o José da Jangada de Pedra.

Rouxinol-do-mato (Cercotrichas galactotes)

A minha cabeça parecia prestes a explodir. Eles estavam em todo o lado. Que confusão!
Onde ir e quando? Haveria mesmo um influxo de andorinhão-pequeno no Algarve?
Decidi não decidir. Dia 18 de manhã não fui a lado nenhum.
Mas, não podemos esquecer que a normalidade já havia sido ultrapassada há muito. Por volta das onze horas, o Georg Schreier dá a notícia de que estava a ver um Affinis no Cabo de São Vicente. Quinta observação em seis dias.
Curiosamente, em vez de ter um ataque cardíaco, começou a fazer-se luz. Segunda observação no Cabo implicava que a tentar qualquer coisa seria aí. Por outro lado, iria estar em Lagos por uns dias e chegaria lá depois de almoço. Os astros alinhavam-se.
Fiquei ainda mais convencido quando troquei umas impressões com o Nuno e percebi que ele tinha chegado à mesma conclusão. O raid seria ao Cabo. E ele estava otimista. "Hoje vai ser o nosso dia!", disse-me. "Vemos um hoje no Cabo e eu um amanhã na Ponta da Piedade!", respondi. Para otimista, otimista e meio.

Andorinhão-pequeno (Apus affinis)

A caminho de Sagres tentei manter a cabeça ocupada com outras coisas, para a ansiedade não levar a melhor. Mas confesso que perdi uns minutos a pensar no post que faria no Facebook, caso tivesse a sorte de ver o objetivo. Não tinha grandes expetativas, mas com tanto bicho na zona, a probabilidade era claramente superior a 0.

Cheguei por volta das quatro e meia e instalei-me junto ao farol. Havia algumas dezenas de andorinhões na zona mas, infelizmente, nenhum deles tinha branco nas costas. Lá para as cinco chegou o Nuno.
   -Já deste com o bicho?
   -Quase! - respondi.
Cerca das 17h30, na quinquagésima espreitadela, reparei que um dos andorinhões que estava mais alto no bando parecia ter um anel branco na zona posterior do corpo. Contudo, parecia muito estreito e diagonal, mais do tipo andorinhão-cafre. Na cabeça tinha o que já me tinham dito mais de uma vez, de que o uropígio branco do Affinis é um "barrão" muito conspícuo, e não uma "barrinha", como no cafre.Estava claramente esquecido do princípio que tento seguir, que é o de ver com os teus próprios olhos e formar a tua própria opinião. Os preconceitos não são bons nesta atividade.


Andorinhão-pequeno (Apus affinis)
Nunca larguei os binóculos, enquanto falava com o Nuno, que tentava encontrar o sujeito. Cheguei à brilhante conclusão de que esse bicho devia ter algo esquisito e branco nas patas. Nem me ocorreu que os andorinhões "não têm patas". A verdade é que o Nuno, que já tinha experiência com a espécie em Espanha, começou a olhar para a mesma zona e passado nem um minuto entra em transe. Qualquer coisa como "Peraí, que temos novidade! Peraí! Peraí! É o gajo! É o gajo!". Com a calma possível lá tentei encontrar a estrela, seguindo as indicações. "Está ali ao pé dos Melba!". Demorei uns segundos angustiantes mas lá o vi, finalmente. Ainda me veio à cabeça a história do abelharuco-persa, que foi referido como estando perto de umas ovelhas, em Castro Verde. Nessa zona há poucas, como se sabe.

A observação foi muito acima do expectável, pelo menos para mim. Prolongou-se durante uns minutos e culminou com uma passagem rasante junto ao nosso posto. O Nuno conseguiu umas fotos bastante razoáveis. Eu, só uns registos fracos. Ainda o descortinei uma segunda vez no meio do bando. Mais dois minutos de adrenalina. O Nuno estava completamente transformado, elétrico. Em vez da reserva e das poucas palavras do costume, estava eufórico e a falar pelos cotovelos. Assisti a um autêntico episódio de Dr. Jekyll e Mr Hyde.
Após mais uns minutos de busca infrutífera, com os ombros e as costas a doer de tanto olhar para cima, resolvemos fazer um intervalo. Descobri que, ao contrário do que pensava, as rulotes do Cabo de São Vicente têm alguma utilidade. Lá saiu mais uma imperial com sabor a triunfo e umas mensagens com foto do animal para os amigos. Tudo em nome da rápida divulgação, claro. A curiosidade na rulote era muita. Não é todos os dias que aparece lá pessoal a beber imperiais com grandes lentes e aspeto estranho. A senhora era bastante comunicativa.
   -Mas as fotos são para alguma revista?
   -São só para nós - respondi.

Andorinhão-pequeno (Apus affinis) - foto Nuno dos Santos
Reparei no nome da barraca ao lado, "The last sausage before America" e pensei que se aplicava também ao nosso caso. "A última raridade antes da América". A minha primeira no Cabo de São Vicente. Depois de uns minutos a saborear a vitória, com os ombros a doer menos, resolvemos ir ao Affinis round 2.
   -Bom, vamos trabalhar! - disse eu.
   -Trabalhar? Um trabalho como esse também eu gostava de ter! A tirar fotografias! - respondeu ela.

O crítico - ou neste caso a crítica - da zona estava encontrada. Mais meia hora de investimento acabou por não produzir resultados. O ar frio começava a aparecer e os andorinhões a desaparecer. Ouvia-se trovoada no mar. O dia estava feito e tinha realmente sido nosso. Pelos vistos é possível arrolar um andorinhão destes. Ou este bicho não seria o mesmo que o Georg viu umas horas antes? Quando pensei nessa hipótese comecei automaticamente a ouvir a música do genérico da Twilight Zone na minha cabeça (tininini tininini).

Depois de jantar lá fiz o post que tinha planeado a caminho de Sagres.
"Nunca tinha visto um destes!", com uma foto onde se via claramente um andorinhão "sem cauda" e com o uropígio branco.


Resta-me deixar aqui um agradecimento ao Nuno dos Santos pelas fotos e companhia em mais uma pequena aventura.

domingo, 27 de maio de 2018

Um sonho feito de Lince


04/01/2017
Lince na Andaluzia

O Lince-Ibérico é uma espécie emblemática para qualquer entusiasta da fauna. Para um português, ainda mais. Faz parte da nossa identidade, da mesma forma que o facto de saber o que é e onde fica a Serra da Estrela. 

Para alguém que viveu sempre numa grande cidade, parece quase inimaginável que um animal destes exista algures por aí, na Península.
Lembro-me, há já longos anos, de ver uma notícia no telejornal em que aparecia um lince que tinha sido capturado na Serra da Malcata. A história mencionava qualquer coisa como "biólogos conseguem provar que ainda existem linces na serra da Malcata". Não me recordo do ano exacto mas, para o caso ser posto dessa forma, o "gato" já estaria dado praticamente como extinto em Portugal nessa altura.
Penso que terá sido aí que nasceu o meu sonho de ver um lince. Nunca soube era como.
Só em 2012 me cruzei com a informação de que há locais na Península com possibilidades razoáveis de fazer um avistamento. Uma dica de um guia em Espanha, a consulta a um site da especialidade e, assim, se começa a formar uma ideia. 

Lince-ibérico - O primeiro avistamento - Foto Emili Casals e Carme Jurado
Sempre com férias a menos e objectivos a mais, apenas em Janeiro de 2017 conseguimos encaixar uns dias para esta demanda. A Serra de Andújar, a 700km de distância, seria o objectivo. Para maximizar as possibilidades, iríamos ser ajudados por um guia local. 
Dia 4, de madrugada, saímos de Lisboa. A viagem não teve história, apesar de longa. Chegámos ao destino, um hotel já na Serra, por volta da hora de almoço (portuguesa), ou seja, pouco passava da uma da tarde. O restaurante ainda nem estava aberto. Tínhamos começado a andar para a recepção e já o nosso guia, Juan Carlos, vinha na nossa direcção.
-Frederico?
Bolas, já não se pode andar incógnito em Espanha. Claro que a nossa matrícula Portuguesa ajudou na identificação. Logo nas primeiras frases reparei no seu sotaque Andaluz. Considero o meu Castelhano bastante razoável, mas o sotaque Andaluz é estranho. Falta sempre a última sílaba.
-Estão prontos? Podemos ir?
Hum... Almoço ou lince? Vamos ao lince.
O local de observação mais popular fica a cerca de meia-hora, por uma estrada em mau estado. O Defender do Juan não se queixou muito e, mais solavanco, menos solavanco, chegámos.
Estávamos no melhor local da península e na melhor altura do ano. Haveria realmente uma hipótese? Esta estrada ao longo da serra funciona como um anfiteatro para um palco fantástico. Na primeira semana de Janeiro está cheia de entusiastas a esmiuçar cada metro da imensa serra em redor. Tudo parecia ajudar mas, um lince é um lince. Felino, pequeno, raro e com uma camuflagem soberba.
No local conhecemos logo um casal de catalães muito especial, a Carme Jurado e o Emili Casals. Ao longo dos dias seguintes fizemos uma aliança Luso-Catalã e acabámos por ficar amigos.


 
Lince-Ibérico - No penúltimo dia conseguimos filmar um acasalamento

Começou a espera. Esquadrinhámos cada metro da serra imensa à nossa frente.
Não teria passado nem uma hora, ouviu-se atrás de nós um som rouco, esquisito, tipo um gato com o cio, mas mais forte. Vejo a cara de espanto do Juan Carlos, a virar-se para trás na direção do som. Mais uns segundos, e aponta "Ali!". Ainda demorei algum tempo a conseguir distingui-lo no meio das pedras e da vegetação. Aquela camuflagem é impressionante. A cerca de vinte metros, um grande macho descia calmamente a encosta. Parava, olhava, dava mais uns passos. A vegetação não mexia, e não se ouvia nenhum som. Ignorava-nos completamente. Parecia que não estávamos ali. Nunca mais me vou esquecer da sua postura sentada. A vinte metros. Como era possível? A visão enchia-me os binóculos. 


 
O que acontece quando dois veados encontram dois linces?

Continuou a descer e parecia que ia passar mesmo à nossa frente. A excitação aumentava. Vários companheiros da estrada, ao aperceberem-se da situação, começaram a aproximar-se do nosso grupo. Comecei a preparar-me para filmar. Já tinha una observação cinco estrelas, agora era a fase de tentar registar o evento.
De repente, quase na hora H, aparece um espanhol de cabelo comprido aos gritos e palavrões - estaria com inveja? - a verdade é que o lince resolveu desaparecer, para nunca mais ser visto. Fiquei furioso, mas nada comparado com os seus compatriotas, que quase o lincharam. Vim a saber mais tarde que o personagem já tinha fama por ali. Aquele aspeto de louco é inconfundível. 


 
Macho e fêmea -  Preliminares

A verdade é que o primeiro dia acabou com o sonho cumprido. Melhor não podia ter corrido. Quer dizer, poder podia, porque não fiquei com registo do evento. Mas é como alguém dizia "Tomaram muitos!". Devo ter sonhado com linces nessa noite.
Só nos dois dias seguintes é que nos apercebemos da sorte que tivemos. Foram 48 horas sem linces. E não foi por falta de esforço. Nem a lontra, nem os veados, nem as aves que vimos compensaram essa falta. 

Além da estrada já referida, tivemos também acesso a uma herdade privada que tem uma parceria com o WWF, com um projecto para a recuperação do Lince-Ibérico. Tem uma boa densidade de linces mas, com menos olhos - só cinco pares - é sempre mais complicado ter sucesso. Na manhã do quarto dia, era aí que estávamos na espera. Já sem os nossos amigos catalães, ou seja, só tínhamos três pares de olhos. Lá para meio da manhã resolvi sentar-me um pouco numa cadeira que lá estava. Esperar por esperar, mais vale esperar sentado. Mas, claro, nunca larguei os binóculos. Nem estava na cadeira há cinco minutos, quando vejo, ao longe, duas "chitas" a andar e sentar-se naquela postura triangular típica que vi nos documentários da televisão tantas vezes. Na minha cabeça era isso que estava a ver, mas qualquer coisa me dizia que o raciocínio não estava certo. Chitas ainda não há por cá, por enquanto. De repente faz-se luz. "Lince! Lince! Lince! Lince!". Era uma fêmea e uma cria. A resposta imediata veio de seguida. "Onde!?". Lá expliquei, com bastante dificuldade. A excitação era mais que muita. A minha, a da Sandra e a do Juan. Conseguimos acompanhá-las na sua caminhada durante uns bons dez minutos. 


 
A minha descoberta - Nela e Gema

Ainda a esta distância me lembro da adrenalina e do calor que senti com a descoberta. Imbatível! Melhor que ver, é ver um "nosso". Nunca me esquecerei da Nela e da Gema.
A partir daí, na tarde e dia seguintes foi um fartote. Nessa tarde, na estrada, duas ou três horas de observação de um par, que culminaram com uma cena de cópula. Tudo devidamente registado em vídeo. No dia seguinte, outro par observado durante pelo menos duas horas, também com vídeo.
Em todos estes encontros imediatos com este magnifico animal, o que mais me impressionou foi a sua capacidade de aparecer e desaparecer sem deixar rasto. Sem movimento da vegetação, sem som. Um autêntico fantasma. Isso e a tranquilidade com que os vi movimentar-se quase sempre. Como alguém que está em sua casa - e está mesmo. 
No final da aventura, dia 8, saímos de Andújar com o coração cheio. De lince e de novos amigos
"I'll be back!" 

Lince-ibérico - O primeiro avistamento - Foto Emili Casals e Carme Jurado

Resta-me agradecer ao Emili Casals e à Carme Jurado pelas fotos e amizade. Um dia cá vos aguardamos em Portugal. 
Podem ver alguns dos excelentes trabalhos deles em:
http://croniquesnaturalistes.blogspot.pt/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pardilheira, ou a Influência do George Costanza

01/05/2018
Pardilheira, ou a Influência do George Costanza 

Sempre achei a Pardilheira (Marmaronetta Angustirostris) um dos patos mais bonitos da Fauna Europeia. Talvez por me identificar com as "olheiras" bem escuras das faces - o rosto angustiado. 


Pardilheira (Marmaronetta angustirostris)
Desde 2011 que o tentava encontrar sem sucesso. Tudo começou com o exemplar descoberto pelo Rui Caratão nas salinas de Alverca, onde me desloquei na altura por duas vezes. Nos últimos anos, sobretudo no EVOA, apareceram alguns exemplares na Primavera. Como infelizmente só há uma Primavera por ano, aconteceu que em duas das vezes estava no estrangeiro em explorações da passarada. Quando fazia a tentativa, já não havia pardilheira para ninguém. Por outro lado, mesmo não estando fora, como por exemplo em 2016, ia ao EVOA e nesse dia elas não apareciam. Eram vistas nos dias anteriores e posteriores. Ao fim da sexta tentativa comecei a achar que tinha claramente ali um novo enguiço. Uma nova Némesis. 
Como tenho a teoria de que a primeira é sempre a mais difícil, aproveitei a minha viagem em 2017 à Andaluzia para ver Lince-ibérico e fui vê-las a Doñana. Mais uma lifer! Já só faltava vê-las em Portugal. Oxalá ficasse mais fácil. 


Pardilheiras - EVOA - O filme possível

Chegámos a 2018. Apontei para Maio para intensificar a busca. Como os bichos fazem sempre o que querem, resolveram aparecer dois exemplares no dia 20 de Abril, uma sexta-feira. Foi um dos guias do EVOA, o Jaime Sousa que divulgou a informação por volta das 16h. 
A conclusão a que cheguei foi de que iria lá no dia seguinte, sábado. Como membro, até solicitei o acesso antes das portas abrirem. Às 8h30 já estava no abrigo. Fosse da chuva - leia-se dilúvio - ou doutra coisa qualquer, pardilheiras não houve. 
Mais uma desgraça. A moral desceu em flecha. "Costumam estar vários dias. Desta vez, que pude vir no dia seguinte, nada! É sempre a mesma coisa!". A maldição continuava... 
No fim de semana seguinte fui dar uma volta à ponta da Erva e parei no EVOA para picar o ponto, leia-se tomar um café, e saber novidades. Não havia grandes notícias. Depois de um ou dois minutos de indecisão, resolvi não entrar dessa vez. 
Contudo, fui formando na minha cabeça a ideia de lá voltar no feriado de terça-feira. Apesar de ser feriado, era durante a semana. Podia ser que lá estivesse menos gente. Não se perdia nada, e a Natureza é muito bonita. Chama-se a este tipo de diligência "atirar o barro à parede".
Contudo, alguma coisa teria de fazer de diferente em relação ao habitual. Se as escolhas que tinha feito até ali não resultaram, teria de pensar noutras. Foi aí que me comecei a recordar de um dos episódios do Seinfeld, em que o meu personagem favorito, o George Costanza, por achar que as escolhas racionais de vida que tinha feito até ali nunca tinham resultado, resolve passar a fazer exactamente o oposto do que pensasse como certo em determinada circunstância. 
Assim, no dia 1 de Maio, resolvi fazer exactamente o contrário do que costumava  fazer para ver (ou tentar ver) raridades no EVOA.


Costumava ir de manhã? Pois desta vez iria à tarde. 
Entrei e lá estava a Andreia, tal como no dia 21. Como tinha falhado nesse dia, a pergunta óbvia surgiu de imediato :
  -Vem tentar ver as pardilheiras?
  -Vou mesmo!
Deixei a Sandra - minha arma secreta - no café e segui para o observatório da Lagoa Principal a 3km. Fui sempre atento, não fossem passar uns patos esquisitos a voar. Não. Só uns poucos patos-reais e um milhafre-preto.
Quando estava a entrar no observatório, recebi uma chamada de um amigo de longa data, com quem já não falava há uns tempos. Em vez de dizer que lhe ligava mais tarde, para me poder concentrar na missão, fiz exatamente o contrário. Estivemos a falar mais de dez minutos. E nem baixei muito a voz. Estava mesmo a aplicar a máxima do George Costanza. Costumava montar o telescópio e só depois abrir o postigo? Pois desta vez abri logo o postigo sem montar o telescópio. Eram mais ou menos 16h30. Espreitei com os binóculos. Aquilo estava para o vazio, como sempre nesta altura. Olhei para o local tradicional das pardilheiras e estavam lá dois patos a dormir. Só conseguia ver os peitos e, à primeira vista, pareciam reais, ou frisadas. A distância não ajudava. "Mais uma banhada!", pensei. "Bom, vamos lá montar o telescópio". Montei e espreitei. Vejo imediatamente o marmoreado nos flancos. Olhei várias vezes e continuei a ver o mesmo. Eram mesmo elas, as minhas Némesis do momento.
Tirei logo umas fotos. Mesmo fracas, já serviam de evidência. Mais um pouco e lá acordaram. Sim! Já se viam as olheiras extensas. Liguei à Sandra a fazer o relato.
Filmei, fotografei e fotografei e filmei. De um a cinco, quatro e meio. Só não foi mais porque estavam longe. "Há sempre um crítico". É curioso que estive sempre calmo e nunca desatei aos saltos. As vitórias têm mais piada quando se está acompanhado.

Resolveram voar em frente ao observatório e pousar num local fora de vista. Iriam voltar? 
Ainda lá fiquei um bocado, à espera. Passou um circus, que me pareceu uma águia-caçadeira. Apesar das limitações que têm as bridge, ainda lhe consegui tirar umas fotos em voo. Uns dias mais tarde, após estudo e algumas consultas, veio afinal a ser identificado como um tartaranhão-pálido, outra raridade (por enquanto). 
Chegou o grupo da visita da tarde. "Digo alguma coisa ou não?". Resolvi não dizer. Não estando os bichos à vista, também não gostaria que me dissessem algo como:
 -Estiveram aí as pardilheiras mas agora voaram e não estão à vista. 
Sei bem que é duro ouvir conversas desse tipo. 
Enfim, controlei-me e, além de não dizer nada, ajudei a guia a apontar uma ave ou outra. Claro, sempre com um olho no burro e outro no cigano, para ver se Elas voltavam a aparecer. 

Tartaranhão-pálido fêmea (Circus Macrourus)
Alguns minutos mais tarde lá aparecem outra vez a voar e aponto-as ao grupo. "Olha as pardilheiras!". Pousam no sítio do costume. "Não acredito!" diz a guia. Estava extasiada a olhar para os bichos. Para ela era uma lifer, e não descansou enquando não tirou uma ou duas fotos em digiscoping. "Para não dizerem que estou a inventar!". 
Partilhei o meu telescópio com quem quis ver, mas claramente os mais eufóricos eram eu e a guia que, vim a saber, se chama Sofia. Nisto da observação há vários níveis de desenvolvimento e envolvimento. No ínicio eu também ficava todo contente por ver um flamingo ou um camão. No primeiro ou segundo ano de observador vi o meu primeiro - e único até hoje - andorinhão-cafre, com o Simon Wates. Na altura ainda me faltava ver quase tudo. Vendo que eu e a Sandra não estávamos aos saltos, saiu-se com um "Acho que ainda não estavas preparado para ver isto!". E tinha razão. Um cafre vale bem mais que um papa-figos. As lifers não são todas iguais.
Mais uns minutos e o grupo foi andando. Eu ainda fiquei mais um pouco para mais uns filmes e umas fotos e um último olhar no telescópio. Quem espera oito anos tem direito a mais uns minutos. 
Cheguei ao edifício em triunfo. Já "toda" a gente - duas ou três pessoas - sabia. Não há mal que sempre dure! "Algum dia tinha de ser!", disse. A "Maldição do EVOA", como eu lhe chamava, tinha finalmente acabado, e logo com duas raridades duma vez. 
Confesso que o sentimento predominante que tive foi alívio. Mas do que alegria, alívio, com mais uma Némesis que desaparece. 

Obrigado George Costanza. 

 George Costanza does the Opposite


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tourada na Murtosa

31/03/2018
Tourada na Murtosa

No dia 5 de Fevereiro, na Murtosa, um fotógrafo local - Carlos André - fez um registo de um tartaranhão. Pelo que foi descrito pelo próprio no fórum aves, a ave terá parecido na altura um macho de águia-sapeira, o que é completamente normal na zona. No entanto, ao rever as fotos pareceu-lhe ser um tartaranhão-cinzento, o que já não é tão normal. Pelo sim, pelo não, colocou a dúvida no fórum no dia 13. O debate instalou-se e o consenso era de que, provavelmente, estávamos perante um tartaranhão-cinzento-americano, circus hudsonius. A confirmar-se, seria uma super mega raridade. A discussão acabou bruscamente no dia 16, quando Deus desceu à Terra. “O” Dick Forsman respondeu ao pedido de ajuda do Paulo Alves com a sentença de que se tratava claramente de um macho de circus hudsonius. Este desfecho só chegou onze dias depois da observação. Ou seja, uma eternidade.

Tartaranhão-cinzento-americano - Foto Carlos André
(05/02/2018) A história começou assim


Na altura, achei que ele já teria seguido caminho. As buscas infrutíferas nos dias 13 e seguintes pareceram confirmar essa teoria. Houve alguns avistamentos de circus sp., mas nada de definitivo, nem que colocasse a comunidade em alerta. Por isso, nunca coloquei seriamente a hipótese de ir ver a Ria à Murtosa. E assim, a pouco e pouco, o assunto foi morrendo, passando para as brumas da memória.

Mas estas questões raramente são simples (ver A Odisseia do Sula - Sete Meses de Sofrimento). No dia 27 de Março, uma terça-feira, pelas 16h, o Carlos voltou a fotografar o hudsonius. Desta vez, a divulgação foi mais rápida. Logo no dia seguinte, pela manhã, a comunidade já sabia do acontecimento. Quem é vivo sempre aparece. Neste caso, cinquenta dias depois. Pelos vistos, não só não tinha ido embora, como tinha gostado da zona. Estou sempre a dizer que, às vezes, parece que há aves que têm encontro marcado connosco. Nas duas aparições, o registo foi efectuado pelo mesmo fotógrafo. Não se materializou para mais ninguém, e não foi por falta de alma. Já muito esforço inglório tinha sido feito até ali por vários observadores, a começar pelo Samuel Patinha. 


Neste ponto, comecei a pensar que já me restavam poucas hipóteses além da óbvia, que era a de arriscar. Com cada vez menos aves para ver, quando há uma hipótese superior a um por cento, tem de se avançar. E neste caso teríamos, pelo menos, um e picos.

Quinta era impossível. Sexta-feira Santa estava mau tempo. Sábado estava com uma previsão bastante razoável e afigurava-se como a melhor hipótese. Além disso, podia ser que alguém visse a ave entretanto, ajudando a estabelecer um padrão. A verdade é que isso não aconteceu.
Contudo, a decisão foi razoavelmente fácil de tomar. No fundo, já sabia que ia lá acima desde que a notícia apareceu. Foi só seguir o instinto. Na sexta disse a duas ou três pessoas que neste caso estava com uma fé inexplicável. Nesta atividade raramente sinto grande confiança de que vou ver o objetivo. Desta vez também ia sem grande expetativa, mas aquele tal sentimento ninguém me tirava. A coisa foi de tal maneira diferente do costume que até dormi descansado na noite anterior. Pouco, mas descansado.
 
Circus hudsonius - Foto Carlos André (05/02/2018)
Pormenor do dorso

Sábado, o dia começou por volta das seis da manhã. Do Sul mais ou menos profundo seguimos dois de Lisboa, um de Peniche e um de Leiria. No troço final de 150km até à Murtosa éramos quatro dentro do carro. Um quarteto - ou uma quadrilha - em busca da sorte. O António Gonçalves, Pedro Ramalho, o João Tomás e eu. 

Com a importância duma ave deste calibre, um primeiro indivíduo para Europa continental, acabaram por andar na zona mais de uma dezena de observadores ao longo do dia. Uns mais persistentes, outros menos.
A nossa quadrilha chegou ao local por volta das 10h. O céu ainda deixou cair umas últimas gotas, mas o tempo acabou por estabilizar, como previsto. Do tempo não nos íamos poder  queixar. 
No local já andavam o Samuel, o Marco Nunes e o Paulo Ferreira, entre outros. Um pouco mais tarde encontrámos o Flávio Oliveira. A tourada instalava-se. Parecia hora de ponta.
 

Viuvinha-bico-de-lacre
Foi um movimento jamais visto por aquelas bandas e que despertou de sobremaneira a curiosidade dos locais. Mais para a tarde até apareceu a dona de um dos terrenos, com a pergunta da praxe. “O que é que estão para aí a ver no meu terreno? Estão a filmar?”. Como sempre, nestas situações o primeiro abordado costumo ser eu. Um dia ainda hei de descobrir porquê. Dei a resposta número dois. “Nada! E não estamos a filmar.” Será que pensou que tínhamos encontrado ouro ou petróleo por ali? A tourada consumou-se quando apareceu uma carroça. “Não se mexam que o cavalo está a aprender!”. Já só faltava passar um porco a andar de bicicleta.

Durante a manhã, numa primeira fase acabámos por nos dividir em dois grupos, o que é sempre perigoso. Se uns veem e outros não é o diabo…
Andei com o Samuel e o Marco no carro, a fazer o circuito entre os dois pontos de observação conhecidos, a 5km um do outro. Milhafres, búteos, sapeiras e pouco mais. Deu para perceber que a tarefa não ia ser fácil. Os circus voam baixo e a zona é grande. As ervas altas também ajudavam à festa. 



Avistamento número 2 - Foto Carlos André
Quase me esquecia de referir que também vimos, claramente vista, a gaivota-polar que por lá anda, o que não é coisa pouca. Foi daqueles twitches perfeitos. Chegar, sair do carro e ver o bicho. Outra colateral do dia foi a viuvinha-bico-de-lacre. Finalmente acabaram-se os milhares de emails com alertas de viuvinhas. “Já não se perde tudo!”, pensei quando a vi.

Lá para o meio-dia houve “mudança de turno”. O Samuel e o Marco foram à sua vida. O Pedro Moreira, dono da zona, veio “controlar a situação” e reforçar a equipa. Todos concordámos que o melhor era ir almoçar. E assim foi, apesar de o António ter logo dito que não gosta nada de ir almoçar nestas situações. Lembrei-me logo de uma certa tichodroma. Mas isso são contas de outro rosário.
Qualidade de vida é assim. ‘Bora lá almoçar! 


Gaivota-polar
Depois do almoço, mais volta menos volta, acabámos por nos concentrar numa zona mais ou menos central, onde conseguíamos cobrir uma boa porção de terreno, incluindo a zona do último avistamento. Durante as horas que por lá estivemos, o costume. Milhafres, búteos, sapeiras e pouco mais. Três da tarde, três e meia, quatro da tarde – hora do último avistamento. “É agora!”, pensei. Mas não. Nada de bicho.
Lá para as cinco, comecei a pensar se seria hora de seguir para baixo. Ainda troquei umas impressões com o António, mas ele desconvenceu-me logo. “Tens horas para estar em casa? Já que estamos aqui, é aproveitar!”, disse ele. Como já não ia conseguir ir ao Estádio da Luz, o único local onde se ainda poderia ver alguma coisa para a história nesse dia era ali. Por isso, e por mais qualquer coisa indefinida, fiquei.

Resolvemos mudar de poiso e fomos para um talude ali perto. Quem andou apeado de manhã tinha gostado do sítio, uma vez que permitia ter mais um metro de altura em relação ao terreno. Também achei uma boa ideia, uma vez que durante a tarde tinha visto por segundos uma ou duas sapeiras a voar muito baixo por ali. Do talude sempre se veriam melhor. Why not?
Fomos alternando a conversa com a vigília. O frio começava a instalar-se. Alguns já falavam em fracasso aqui e ali. Não vou mencionar nomes, mas até houve alguém que apelidou este twitch de “o maior falhanço da história de Portugal” e, inclusivamente, o referiu em chamadas telefónicas efetuadas no local. Lembro-me de o António ter dito “Isto ainda não acabou!”, uma frase que eu já tinha usado mais de uma vez nessa tarde. 



Avistamento número 2 - Foto Carlos André

Por volta das 18h, resolvi ir ao carro beber água. O movimento era pouco, e os carros estavam a menos de cem metros. De qualquer forma, aquilo já estava quase a acabar, ou não estava? 
Comecei a andar. Ainda não tinha dado dez passos, começo a ouvir a voz do Pedro Ramalho aos gritos. Qualquer coisa como “É o gajo! É o gajo! Olha ali!”. Confesso que não registei as palavras exatas. 
Lembrei-me da história do Pedro e do Lobo. O “nosso” Pedro tinha feito uma dessas um mês antes em Sagres e, por isso, não dei grande credibilidade aos gritos nas minhas costas. Ainda andei mais um ou dois metros mas depois resolvi virar-me, para poder fazer aquela representação da figura típica com os braços abertos, como quem diz “Vai gozar com o c…!”.

Não poderia estar mais enganado. Quando me virei, o que vi foi o pessoal a olhar todo para o mesmo lado. Era um circus, sem dúvida, e era claro. Quando o vi nos binóculos, juro que consegui ver as pintas laranja nos flancos, e o dorso de um cinza pouco uniforme, com tons castanhos aqui e ali. Era Ele, sem dúvida. A rapina mais procurada do último mês.
Ainda o apanhei na máquina, mas já um pouco para a esquerda e longe. Parecia uma seta. Passou para trás dos caniços e começou a andar para a direita, sempre a grande velocidade. Cada vez mais longe, mais longe. Perdemo-lo de vista junto a um engenho de rega. Foi um minuto de pura adrenalina.


Uma dos meus fracos registos - longe e à esquerda.
"Ligeiramente" diferente dos registos do Carlos André

Depois, as opiniões dividiram-se. Uns queriam ir atrás dele de carro, outros achavam que ele ia voltar. Ninguém teve razão. Este bicho é mágico e consegue aparecer e desaparecer sem deixar rasto.
Restavam os despojos do dia, ou seja, as fotos. Entre todos, conseguimos pouco mais de uma dezena de fotos manhosas. Não estavam perfeitas, mas era evidência que chegasse. Entre a observação e as fotos, de um a cinco, três e meio. Nada mau, para quem chegou a pensar num zero.

O dia acabou com mais uma descida triunfal até Lisboa, onde eu e o António só chegámos às 23h. Custa menos, com a barriga cheia.

Houve várias lições a reter neste evento. A última é minha, as outras são do Pedro Ramalho.

1. Mais vale uma bridge na mão que duas SLR no saco.
Sobre esta, cabe dar nota que ao longo da espera questionei o Paulo e o António sobre o paradeiro das respetivas câmeras, que nunca tinham na mão. Um respondeu-me que a dita estava no carro, o outro que estava no saco, mas que era rápido a sacar.

2. Quando alguém começa a gritar que a ave apareceu, convém não ignorar completamente o aviso.
Concordei com esta e até complementei na altura com uma adenda:
-Quando muito ignorar o aviso durante dois ou três segundos e virar-se para trás com ar de desprezo.

3. Uma SLR a funcionar mal apanha mais detalhe que uma bridge a funcionar bem.
Esta resulta da análise direta às fotos.


E foi isto... 
Deixo aqui um agradecimento ao Carlos André pelas fotos e à malta pela companhia, amizade e pelo dia excelente.