terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Vila Real...Felosa-Real

02/02/2019
Melanopogon: 5 horas em 3 segundos

2 de Fevereiro de 2019. Mais um dia em que estava descansado no sofá quando o céu me caiu em cima da cabeça e tive de sair de casa a correr.
Para se perceber melhor a história, faz sentido voltar uns dias atrás.



Felosa-real (foto Pedro Moreira)
Dia 30 de Janeiro de 2019, uma quarta-feira, surge no Facebook e, posteriormente na mailing list das raridades, a notícia do avistamento de uma, possivelmente duas Felosas-reais (Acrocephalus melanopogon) em Vila Real de Sto António. Os autores eram conhecidos da malta. O Ricardo Silva - que conheço pessoalmente - e o Rui Rufino, ambos observadores experientes. Toda a gente se engana - como disse alguém do meu círculo de amigos na altura - mas, a verdade é que foi logo assumido que a probabilidade de a notícia ser verdadeira era muito elevada. A única coisa estranha nisto era a pergunta do Ricardo no Facebook: 
"Acrocephalus melanopogon, Vila Real de st. António, numa zona húmida perto da linha do comboio. É comum?"


Felosa-real - finalmente a foto que desfez as dúvidas, mesmo desfocada
 (foto Nuno dos Santos)
Comum? Claro que não! Era raro. Era super mega raro! 
A Felosa-real já andava no topo da minha lista de desejos há bastante tempo. Por algumas vezes tinha pesquisado onde era possível observar esta espécie em Espanha. 
Mais uma vez, lá se instalou a habitual angústia misturada com entusiasmo. Será que estão mesmo por lá? E nesse caso será que vão ficar? Estariam de passagem? Será que vão aparecer mais notícias até ao fim de semana?  A tal espiral de pensamentos da qual é difícil sair, e em que acabo sempre por entrar. 
A verdade é que quinta e sexta não existiram grandes novidades. Quem lá foi não viu nada e quem ouviu qualquer coisa não achou que pudesse ser alguma coisa. Fui ficando cada vez mais convencido que, desta vez, iria poupar uma ida ao Algarve.
Sábado chegou tranquilo. O almoço de véspera tinha-me caído mal e achei por bem não concretizar os planos, que cheguei a ter, de ir ver marítimas a Peniche. Não estava, claramente, nos meus dias. 
Estava literalmente em pijama quando, às 9h13 o Sérgio Correia dá a notícia de que o bicho estava lá. Tinha ouvido o call e visto a cabeça a espreitar nos caniços por um instante. Aguenta coração!
Ainda antes de lhe perguntar de ele estava disposto a meter a cabeça no cepo por um "call e uma cabecita a espreitar", já estava o Pedro Marques a perguntar se ia alguém de Lisboa. 
Esperei uns minutos pela resposta do Sérgio, que foi suficientemente positiva para achar que tínhamos caso.
Apesar da meteorologia altamente desfavorável - leia-se vendaval - que colocava as maiores dúvidas ao empreendimento, rapidamente decidi que se alguém de Lisboa ia arriscar, eu também arriscaria. Se Sábado não se conseguisse, podia ser que alguém fosse Domingo e aí teríamos um segundo round. No fundo, estava disposto a ter um fim de semana alucinante. Diga-se de passagem que domingo também não tinha uma previsão muito melhor que sábado.
Ora, o Pedro, como já foi mencionado numa crónica anterior, reside na Ponta da Erva e raramente se mete nestas coisas. Por isso, percebi de imediato que se estava a preparar para seguir para baixo a toda a velocidade, se é que não estava já quase a chegar. Afinal, já tinham passado quinze minutos do aviso inicial. 
Quando o abordei, disse-me que já estava a caminho e ia só apanhar o António Gonçalves. A minha pergunta foi imediata:
   -Não me querem levar?

Acrocephalus melanopogon (foto Pedro Moreira)
Aquele supracilio não engana.
Combinámos um local de recolha e, pouco depois das 10h já estávamos a atravessar a ponte. A viagem teve pouca história. Tentámos ter as conversas do costume, para manter a tradição, mas falhámos redondamente na paragem do costume. Quando reparámos nisso já a tínhamos passado há uns quilómetros. Não é que acredite em bruxas mas, a verdade é que convém respeitar certas tradições. Mais tarde percebeu-se porquê.
A meio da viagem saiu mais uma nota do Sérgio, a jogar à defesa. Sim tinha visto o bicho, mas podia ser que não tivesse visto o bicho. Um pouco como estar no meio da estrada com um carro prestes a atropelar-nos a tentar decidir se avançamos ou recuamos. 
Bom, nós já íamos a caminho. Para nós o tempo das dúvidas tinha passado. Já não estávamos na fase do "Should I stay or should I go" que um dos meus amigos desta luta gosta tanto de usar nestas situações. Agora era uma questão de ver o que saía na roleta. Estávamos irredutíveis, apesar de termos muito mais medos do que apenas o de que o céu nos caísse em cima da cabeça.
Numa coisa estávamos todos de acordo. Este arrolamento ia ser muito complicado. Mesmo sabendo disso, lembro-me de ter dito algures no processo que achava que íamos ter sucesso e que, quando acho isso, normalmente o bicho aparece. 

Três horas de conversa e, lá para as 13h, estávamos em Vila Real de Sto. António. Decidimos seguir de imediato para o local do avistamento. Como quase sempre, as minhas já célebres e, por vezes desprezadas, coordenadas ajudaram a encontrar a estrada de terra certa. Estacionámos, voltámos a olhar para o Google Maps e, passado um quarto de hora, estávamos ao lado da charca mais importante dos últimos meses. 
É um local curioso, mesmo ao lado da linha do comboio. Por um lado é chato, pelo movimento e exposição, mas por outro acaba por nos proporcionar um acesso mais fácil ao local, e até um assento no "conforto" do cascalho onde assentam os carris. Confesso que pensava que a linha tinha menos movimento. Em vez de um ou dois, em cinco horas passaram por nós uns cinco ou seis comboios. Um deles até me apareceu pelas costas, enquanto ia a caminhar descansado pela linha. O que vale é que eles apitam de vez em quando. 


Eles passam perto... (vídeo Nuno dos Santos)

Em termos de aves é que a coisa não estava famosa. O vento não ajudava nada. Na charca só umas quantas felosinhas. Cantos ou chamamentos, nada. Os minutos foram passando e nenhum de nós conseguiu transformar as felosinhas na felosa-real. 
Após algum debate sobre os próximos passos, lá para as 14h30 resolvemos ir comer qualquer coisa, para estar com os sentidos mais despertos ao final da tarde, altura tradicionalmente melhor para observações. Por outro lado, o vento às 17h estaria no mínimo do dia. Após um repasto digno de um rei - uma sandes de queijo e um caracol seco - voltámos rapidamente para o posto. Teria decorrido pouco mais de meia hora.

Mais uns minutos, chega um dos proprietários da zona, o Gonçalo Elias, que eu e o Pedro Marques tínhamos tido o cuidado de avisar. A tarde foi decorrendo, connosco a olhar para aquela meia dúzia de metros. O Pedro e o António ainda fizeram umas incursões a outra área promissora uns cem metros mais à frente. Pelo meu lado, estive quase sempre mais concentrado na charca. Sobretudo numa área onde conseguia ter mais visibilidade, sentado no cascalho da linha. Costumo ter mais sorte quando estou sentado, pensei. Já conhecia cada caniço de cor. Malditas felosinhas que não se transformavam na felosa!

E assim chegamos às 17h, altura em que estava a olhar para as canas, em amena cavaqueira com o Gonçalo, que estava de costas para a charca. Devo ter-me apercebido de algum movimento com o olhar, porque levei instintivamente os binóculos ao rosto. Foi  atónito que vi que o movimento era, não da felosinha que esperava, mas da felosa-real, que já nem eu, nem ninguém, esperava. Passou da direita para a esquerda, rente à água, bem ao fundo da clareira à minha frente. O padrão da cabeça e a cor dos flancos não me deixou margem para dúvidas. É como se costuma dizer, quando é, não há dúvidas. Como sempre, não me lembro bem das palavras usadas. Julgo ter sido qualquer coisa como "Olha! olha! É a gaja! É mesmo! É mesmo! É a gaja!" tão depressa o disse, tão depressa ela desapareceu. O Gonçalo virou-se rapidamente, o Pedro e o António vieram a correr. A verdade é que ninguém mais viu nada. Quando lhes consegui apontar o local exato, já o bicho ia a chegar ao Porto. 
Fiquei com as mãos na cabeça, incrédulo. "Era a gaja! Era ela! Aíííííí! Não acredito!". Lembro-me de o António afirmar que a minha cara dizia tudo. A observação durou uns três segundos, mas foram daqueles que valem anos, em que o tempo pára.


Felosa-real (foto Nuno dos Santos)
Passei o resto do tempo, até à última réstia de luz, a escrutinar em desespero cada centímetro da charca, para tentar reencontrar o bicho para os meus companheiros de sofrimento. Até cheguei a dizer-lhes, mais de uma vez, para falarem menos e procurarem mais. Não me lembro de quem disse "Olha, olha, nós é que não vimos e ele é que está chateado!". 
Enfim, fosse como fosse, quando decidimos bater em retirada, lá para as 18h, só eu é que tinha sido o contemplado com a sorte grande. Pedi-lhes desculpa várias vezes. "A culpa não foi tua. Foi da melanopogon!" 
  - E agora?! O que é que eu faço? 
Já me aconteceu mais de uma vez ser o último do grupo a ver uma ave, agora ser o único, nunca me tinha acontecido. 
  - Tens de dizer ao pessoal que viste o bicho. 
  - Pois tenho... 
Lá me enchi de coragem e, depois de o António avisar o pessoal com um solene "Habemos SONP na Melanopogon!(*)", assumi o que tinha visto e forneci o pouco que tinha, ou seja, a descrição do que observei. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. 
É sempre uma situação complicada, ter de assumir um risco destes sem evidência mas, como não costumo ter alucinações, o que vi, vi, e havia que partilhar com a malta, que esperava ansiosamente por novidades. 
Cinco horas de seca, três segundos de êxtase.


Felosa-real (foto Nuno dos Santos)
Aqui está a descrição que partilhei na altura:
Vista durante cerca de 3s junto à água (a cerca de 10cm De altura). O local de avistamento estava à sombra. A distância seriam cerca de 8m e foram sempre utilizados binóculos. 
Cabeça e coroa de aspeto geral muito escuro, sendo que a coroa parecia preta. Supracílio de cor branca, largo, passando claramente o olho. Contraste espetacular entre a cabeça e o supracilio, quase parecendo que o mesmo teria sido pintado a corretor ortográfico, mesmo nas condições descritas. 
Flancos limpos - sem riscado - de um tom castanho vivo (quente talvez seja um termo correto e bem usado pelo Sérgio Correia para o descrever). Levantou muito a cauda uma vez tendo-se movimentado um pouco nessa postura. O movimento decorreu sempre em pequenos saltos de poucos centímetros e sempre a cerca de 10cm da água.

Foi um regresso agridoce. Vim para cima de coração apertado, com um peso enorme na consciência. Achava injusto que os meus companheiros não tivessem sido premiados. O café e bolachas que lhes paguei no caminho foram fraco consolo. Fiz-lhes também uma promessa solene, a de voltar ao local com eles, para vermos a felosa em conjunto.
Chegamos, assim, à grave lição a retirar desta mini-odisseia:
Pelo sim pelo não, quando se vai ao Algarve num twitch é melhor fazer a paragem do costume na área de serviço do costume. 
Outra nota, para ver Felosa-real, obviamente que o local indicado é Vila Real (de Sto. António).

Epílogo: no dia seguinte, domingo, começaram a surgir as muito esperadas evidências: Algumas gravações. O Sérgio conseguiu também uma observação mais prolongada da ave completa, que serviu para confirmar o que já tinha visto antes.
Na segunda-feira, o Nuno dos Santos - like a boss - conseguiu finalmente as fotos que faltavam. Fracas, mas preciosas.
Estava mais que confirmado que o bicho era complicadíssimo. De observar e de fotografar. 

Resta-me agradecer ao António Gonçalves e Pedro Marques, pela companhia, e ao Nuno dos Santos e Pedro Moreira pelas fotos e vídeo que ilustram esta crónica. 
Por fim ao Ricardo Silva e Rui Rufino, pela formidável descoberta e rápida divulgação.

(*) SONP - Single observer, no photo. 
Gíria usada pelos birders, quando apenas um observador viu a ave e não há fotos que confirmem a observação. É uma situação difícil e indesejável. 

#canaldoxofred 

sábado, 17 de novembro de 2018

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

10/11/2018
Romaria no Baixo-Vouga

O Perna-amarela-grande (tringa melanoleuca) era, desde há anos, uma ave do topo da minha lista de desejos. Nas minhas quatro viagens ao Brasil nunca tive a sorte de me cruzar com um, e isso só fez com que a sede aumentasse. Em Portugal havia apenas quatro observações até à data, sendo a última em 2011, com uma foto em voo e uma identificação posterior.
Com este panorama, nunca tive muita esperança de ver um por estas bandas.

Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
É uma ave bonita e elegante, de dimensão razoável.
Contudo, por outro lado, em termos de raridades, as coisas andavam muito imprevisíveis ultimamente, com a chegada das aves que apelidei como “filhas do furacão”.
Nas últimas semanas tinham sido descobertas em Portugal uma juruviara-boreal, dois socó-mirim, um falaropo-tricolor. Tudo aves do outro lado do Atlântico. Em Espanha havia também sinais de que as coisas estavam ainda quentes. Era mais ou menos consensual entre a comunidade que haveria e haverá por aí muitas raridades americanas ainda por descobrir. Restava apenas esperar que o que fosse descoberto fosse arrolável, por um lado, e aparecesse o mais próximo do fim de semana possível.

Mais uma vez, como quase tudo nesta vida, a realidade não replicou o sonho. 
Dia 7/11/2018, uma quarta-feira, aparecem no "Fórum Aves" umas fotos que, desde o primeiro minuto, não deixaram dúvidas a ninguém. Estava um perna-amarela-grande no Baixo-Vouga, descoberto pela Ana Botelho e Tiago Carvalho. E agora?!

Com uma semana cheia de compromissos profissionais, tive mais uma vez de me sujeitar à espera angustiante da chegada do fim de semana. Logo no próprio dia da descoberta , as tentativas de relocalização durante a tarde foram infrutíferas. Na maré cheia o local fica alagado e do bicho nem sinal. A dúvida instalava-se.
Restava esperar pelo dia seguinte, Quinta-feira. 

O suspense não durou muito. Às 8h40 já havia notícias de que o bicho estava à vista. 
Nesse dia, mais um grupo de observadores teve a sorte de ver a estrela. Desta vez mais em cima das 9h. A maré avançava um pouco todos os dias e os avistamentos avançavam com a maré. A mim, o reavistamento só aumentou a angústia. O bicho estava ao alcance, mas sexta-feira estava fora de hipótese. 


Perna-amarela-grande - foto Luís Rodrigues
Sempre à distância
As contas estavam cada vez mais difíceis. A meteorologia do fim de semana estava muito complicada. Domingo era dia de dilúvio. Chuva contínua. 
Restava, assim, o sábado. Apesar de chover muito de madrugada, iria haver uma aberta a partir das 8h. A escolha parecia simples, mas não era. Nesse dia tinha um almoço em Lisboa ao qual era proibido faltar. Se fosse ao bicho no sábado teria de sair às 10h, o mais tardar. 
Com uma janela de tempo tão pequena, a viagem teria de ser a solo. Obviamente, ninguém se queria juntar a um plano com tantas variáveis, onde basta um cabelo para o comboio descarrilar. Sentia-me como o caracol no fio da navalha. Aquele de que fala o Marlon Brando no célebre monólogo do "Apocalipse Now".

Resumindo, as condicionantes eram "poucas". Havia o tempo instável, a maré a avançar meia hora todos os dias e os minutos contados. Além disso a distância era razoável,  viajaria sozinho e a chegada a Lisboa teria de ser no máximo às 12h30. Tudo sem stress, portanto. Como disse aos meus companheiros de loucura "Para quem gosta de adrenalina sábado é o melhor!".  

Claro que havia também a hipótese de ficar em casa mas, seguindo a máxima de "quem dá o que tem a mais não é obrigado", decidi arriscar. 
Para maximizar o tempo no local e minimizar o cansaço, comecei a pensar em ir para cima sexta à noite e, como quem tem amigos tem quase tudo, o António Martins ofereceu logo a sua casa, a 15 minutos do local, como base. "Dormes cá em casa!". 
A hospitalidade do norte no seu melhor, e melhor era impossível. 

O plano ficou completo já a tarde de sexta ia bem avançada. Lembrei-me de uma frase muito usada na minha última viagem ao Brasil, em Outubro. "Vai dar tudo certo!". Os dados estavam lançados. 


Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
Saí do trabalho, agarrei na trouxa e arranquei para cima. Às sete e pouco já estava na A1. Cheguei a Azurva por volta das 21h30, sem apanhar uma gota de chuva no caminho, tal como previsto. O Windguru parecia estar certo e o plano estava a começar bem. 

Os meus anfitriões incluindo a simpática cadela - Farrusca - receberam-me de braços abertos. Consegui dormir a noite quase toda. Um luxo, apesar de os nervos me obrigarem a acordar mais cedo que o costume. Tudo normal, portanto.

Apesar de saber que não ganhava nada em chegar muito cedo, porque a maré ia estar muito alta, estava no local ainda antes das 8h. Começava a espera enervante mas, pelo menos desta vez, esta não poderia ser longa, infelizmente. 
O pessoal da zona e arredores começou a chegar. Acabámos por nos ir espalhando pelos vários pontos de observação onde o bicho já tinha sido avistado nos dias anteriores. Mais uma meia hora, e já lá estava um carro do Ribatejo e outro de Lisboa. Já dava quase para fazer uma equipa de rugby com suplentes e tudo. 

Numa ocasião reparei no Luís Rodrigues e no Paulo Leite, que tinham passado por mim de carro, irem para uma zona mais à direita, e a andar em cima do dique. 
Por volta das 8h30 ligaram ao Pedro Moreira a dizer que o tringa tinha aparecido em voo perto deles. Havia foto e tudo. Teria vindo do outro lado do dique, juntamente com um perna-verde, investigar o estado da maré e teria regressado à procedência, quando viu que ainda havia muita água. Maldita maré, que nunca mais descia. 
Escusado será dizer que para o outro lado do dique a visibilidade era zero.  

A aparição inicial do dia - Foto Paulo Leite
"Menos mal", pensei. O bicho ainda andava por ali. Também pensei que bem que podia  mas era ter passado junto ao meu posto. Aguenta coração!
A espera continuou. Mais uma volta de carro e resolvi ir para o local do avistamento inicial. A ideia era que ele acabaria por ir para lá mais tarde ou mais cedo. Porque não? Era uma estratégia tão boa como outra qualquer. 
A verdade é que a água continuava alta e o bicho não aparecia. Mais cinco minutos, mais quinze minutos, mais meia hora. Nove horas. Nove e meia. Nada. 
Comecei a fazer contas de cabeça. "No limite, se sair às dez e meia e for para baixo à velocidade da luz ainda consigo chegar a tempo". O stress aumentava, aumentava, aumentava. Raio do bicho que nunca mais aparece!

À bonita hora 9h49, toca o telefone. Era o Paulo Alves. "Pegas no carro, metes a primeira e vens ter ao sítio onde estavas há bocado!". Nem quis ouvir mais nada, nem olhei para trás. Passei a informação ao Luís Rodrigues e ao Paulo Leite, que estavam comigo, e segui a correr para o carro. Correr é como quem diz, qualquer coisa entre o andar rápido e o correr sem tirar os pés no chão. Aquela figura ridícula que se faz quando os joelhos já tiveram melhores dias. Segui a toda a velocidade pela estrada alagada e cheia de buracos - another one drives the Duster. Um minuto depois estava no local referido. Nada! Nem carros nem pessoas. Mau... 
Liguei ao Paulo. 
   -Onde é que vocês estão? Não está aqui ninguém!
   -Continua em frente! Segue! Segue! Estou a ver o teu carro! Vira à esquerda no fim da estrada!
Percebi que estava a caminho do dique, com a estrada cada vez mais alagada. Quando passava nas poças a acelerar a água subia acima do tejadilho.  
   -Paulo, isto está cheio de água! Vou ficar atascado!
   -Bora! Segue! Se o carro do Pedro Moreira passou, o teu também passa! - e passou.
Lá comecei a ver pessoal em cima do dique e os carros parados. Saí do carro e subi para junto da malta.
   -Está à vista? 
   -Não, pá! Voou para o outro lado das canas, mas está ali.
"Que surpresa!" - Pensei.
Mas todos os malandros têm sorte. Passado mais um ou dois minutos o pessoal mais à direita detetou o tringa. Apontei os binóculos e lá estava ele. Umas fotos, uma olhadela num telescópio emprestado. Perna-amarela-grande...Check. 
Olhei para o relógio. Eram 9h57! Adoro quando um plano dá certo! 


Um dos meus fracos registos. Não se pode ter tudo...
Abro um pequeno parêntesis para só para contar o que consegui apurar sobre este segundo avistamento do dia. O pessoal de Lisboa, Rui Machado, Pedro Marques, António Gonçalves e Bruno Herlander Martins resolveu ir para o dique e a dada altura o malandro do bicho passou por eles e pousou na lama bastante perto. Telefonaram ao Pedro Moreira que chamou o pessoal do Ribatejo. O Paulo telefonou para mim, e pronto. Assim se faz a alegria do povo.

Mais umas dezenas de fotos, mais uma olhadela nos binóculos, mais umas espreitadelas nos telescópios e, claro, uns palavrões para aliviar a tensão acumulada. 10h05.
   -Já te vais embora? - perguntaram-me.
   -Já. Estás a imaginar o stress, não estás?
As fotos não ficaram grande coisa. O bicho estava longe e o tempo manhoso. "Querias o quê? Tudo?", pensei.
Tive pena de não ter ficado mais tempo. Podia ser que o bicho se aproximasse. 
Contudo, parece que nesse dia ele manteve sempre a distância, e não foi para os locais onde andou nos dias anteriores, segundo consegui apurar.

A foto de uma família feliz. Mais uma vez fiquei de fora...
foto Pedro Moreira
Já só faltava o mais difícil. O regresso. Depois de levantar água em mais umas poças, lá consegui regressar ao alcatrão e seguir para Lisboa. E se chove? E se o carro avaria?
Nada. Deu mesmo tudo certo. Chuva, sim, mas nada de especial. Às 13h20 estava sentado à mesa do restaurante, com Lisboa aos pés e o castelo em frente, no cimo da colina. Com o tringa e a vista, sentia-me mesmo nas nuvens. A meio do almoço, começou o dilúvio.
Tudo dentro do plano. Há dias assim.

Uma nota final para agradecer a ajuda de todos nesse dia, a começar pelo António Martins e esposa. Também para agradecer ao Luís Rodrigues, Paulo Leite, Pedro Marques e Pedro Moreira as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica.

Epílogo: 
Apesar de na altura ter a forte convicção de que o bicho ia ficar uns meses, e inclusivamente ter dito aos meus companheiros que voltava lá no Natal, para o filmar e fotografar com calma, a verdade é que, desde esse dia, o perna-amarela nunca mais foi visto por ali. Pelo menos até à data em que escrevo esta crónica. 
É daquelas coisas que nos deixa a pensar...

#canaldoxofred 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Bodas de Prata, Socó de Ouro

21/10/2018
Bodas de Prata, Socó de Ouro

Depois da mítica juroviara-boreal de Esmoriz não ter dado sinal de vida na sexta 19, e sábado 20, o fim de semana perspectivava-se como normal, no sentido de não haver  nenhum bicho para arrolar. 
Confesso que até fiquei aliviado, uma vez que sábado à noite tinha o jantar comemorativo dos 25 anos de saída do Técnico, ao qual não queria faltar.

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
O Carl arriscou a vida, mas lá que ficou perto, ficou.
Assim, o sábado foi tranquilo e às 19h lá segui para o evento. Aquilo estava a correr bem e já ia a meio quando, caída do céu aos trambolhões, como sempre, aparece a notícia do Socó-mirim (butorides virescens) no Algarve. Mais uma primeira observação para Portugal Continental, mais uma ave filha do furacão. Foi o Simon Wates que enviou a bomba para o Facebook e ficou à espera que ela rebentasse. E não demorou muito.
A meio do jantar começam a chover mensagens e mais mensagens no messenger. Os meus antigos colegas começaram a aperceber-se que que eu estava desconcentrado e sempre agarrado ao telemóvel. Lá tive de revelar a razão e, por inerência, o meu hobby. À volta da mesa vi um misto de incompreensão, gozo e curiosidade nas expressões. Não liguei muito, uma vez que já começo a estar habituado.
O resto do jantar foi passado a combinar o domingo. Para mim iria começar à bonita hora das 4h45 da madrugada. Para outros, muito mais cedo. De Lisboa para baixo seria eu o condutor.
Mesmo saindo mais cedo do evento, cheguei a casa à 1h e deitei-me à 1h30. Se dormi, foi quase nada. Já acordei cansado, mas como era por gosto…

Socó-mirim - o vídeo

Fomos para baixo cumprindo a tradição. No carro íamos cinco - Flávio Oliveira, Paulo Ferreira, Pedro Ramalho, Matthias Tissot e eu. Um grupo de malucos, como de costume. Encontro no sítio do costume, conversa sobre os temas do costume. Na paragem do costume é que existiu uma nuance. Aquilo estava cheio de caçadores e íamos demorar mais tempo do que o costume. Ainda houve quem sugerisse voltar ao carro e parar na próxima área de serviço, mas foi prontamente apelidado de louco pelos outros, e a ideia foi abandonada de imediato. É preciso respeitar as tradições e em equipa que ganha não se mexe.

Por volta das 8h30 estávamos no local do acontecimento. Não fomos os primeiros, porque já lá estavam dois observadores algarvios, o Renato Bagarrão e o Pedro Caboz.
Rapidamente ultrapassámos a marca das 10 pessoas, juntando o pessoal que tinha vindo do Ribatejo. O circo estava a instalar-se rapidamente. Se não era o twitch mais concorrido de sempre, para lá caminhava.

Falei com o Renato e com o Pedro Caboz sobre possíveis locais onde poderia ter sido tirada a foto do dia anterior e transmiti a informação ao Paulo Ferreira quando estávamos os dois perto do sítio indicado. Ele rapidamente identificou o local exato. Olhou para a foto e depois para a vala à nossa frente. "Olha ali! Não estás a ver? Foi naquele pau que está ali!". Ficava do lado Leste da lagoa, do outro lado da estrada, por baixo dos omnipresentes eucaliptos. Era um princípio do princípio e já não faltava tudo.
Esquadrinhámos cada metro do local e redondezas. Da garça, nem sinal. Uma galinha-d’água que apareceu exactamente no tal pau ainda deu para assustar, mas infelizmente não a conseguimos transformar na sonhada garça. Será que estava escondida na vegetação alta? Estaria no Ludo? Estaria em Portugal? Estaria viva? 
As possibilidades são sempre infinitas.

Passámos a manhã espalhados e a procurar um pouco por todo o lado, mas sobretudo na margem da lagoa, a olhar para as ilhas de vegetação. Pela minha parte, passei a maior parte do tempo entre o abrigo e a zona dos eucaliptos. Esta estratégia tinha a ver com a minha expectativa de que ela aparecesse em voo, tal como tinha feito no dia anterior ao casal inglês que a descobriu. No abrigo, o campo de visão é o maior possível. Nos eucaliptos tinha a ver com o que chamei na altura de “crença do touro”, ou seja, no facto de acreditar que o bicho estaria algures por ali. 
As horas foram passando. Como não se passava nada e a sede apertava, resolvi ir buscar água ao carro. Para não voltar muito pesado, resolvi também deixar lá o tripé o que, mais tarde, se revelou ser um erro estratégico. Ainda por cima, aquele tripé nem pesa assim tanto. 

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
A manhã chegou ao fim. Passou-se o meio dia e nada de garça. O cansaço ainda não se fazia sentir, mas vinha a caminho. Se tivéssemos que ficar até tarde ia ser duro, já para não falar da viagem de regresso. Enfim, nada que alguém que ande nesta vida não conheça já de cor e salteado.
Por volta das 12h30 estava outra vez na zona dos eucaliptos, juntamente com o Matthias e outros. De repente, ele chama-me a atenção - “Olha!” - para uma ave em que passou em voo por cima das nossas cabeças, a uns cinco metros de altura. Era do tamanho de um garçote e escura. Vi-a de imediato e apanhei-a nos binóculos por alguns segundos. Não tive dúvidas de que era a bomba a fazer a sua aparição. Bum! Socó-mirim…check! 

Foi para a lagoa, e pousou quase em frente da matilha de twitchers que se tinha instalado na margem quase toda a manhã.  “Era não era?”, perguntou o Matthias. Eu respondi afirmativamente, enquanto fingia que corria para junto do pessoal. Fosse pelos nossos sinais ou gritos, ou por a terem visto também em voo, o caos estava instalado no local. O espaço era exíguo e as pessoas eram mais que muitas. 
Não a apanhei pousada, mas vi-a levantar e seguir em voo mais para a direita. Acabou por pousar no extremo leste do lago, já bem dentro do buraco 17 do campo de golfe. 
Foi tudo muito rápido e pensei que não existissem registos do acontecimento. Fiz a minha pergunta da ordem, “Não se ficou com evidência, pois não?”. O Renato saltou imediatamente, “Mas qual não há evidência?!”, e mostrou-me, na máquina, uma foto muito razoável da ave em voo. Assim sim, tudo nos conformes. Fiquei logo mais tranquilo.

A foto que o Renato Bagarrão me mostrou, ainda na máquina.
Evidência acima de tudo.
Acabámos por invadir o campo em força na zona do início do buraco, perante os olhares meio incrédulos, meio desconfiados de um ou outro golfista que ia aparecendo. Não estavam a gostar da brincadeira. Era aproveitar enquanto ninguém vinha correr connosco. 
O Carl arriscou a vida, ao ir para a zona exacta do bicho, a uns bons cem metros de distância, sujeito a levar com uma bola na cabeça ou eventualmente até em sítios piores. É que na cabeça sente-se a pancada e não se sente mais nada para sempre. O problema fica resolvido de vez.

Soube mais tarde, que dois golfistas acabaram por ceder à curiosidade e ir falar com o grupo, para apurar o que se passava. Quando lhes foi explicado que estávamos a ver uma ave que era a primeira vez que aparecia em Portugal Continental, acabaram, inclusivamente, por querer vê-la num dos telescópios disponíveis. E esta, hein?

Primeiro meio escondido, depois mais à vista. Toda a gente encheu a barriga com o bicho. E eram claramente mais de vinte pessoas, incluindo dois casais ingleses. Uma das senhoras até se emocionou quando soube que estava a ver uma "primeira para Portugal", segundo o Paulo Alves, que falou com ela e lhe explicou a situação. Esse detalhe não vi, mas lembro-me de ouvir parte da conversa. "Só viemos aqui porque estamos a ir embora e este ponto é próximo do aeroporto", disse ela. Há dias de sorte... 

Eu estava eufórico por um lado, mas irritado por outro, por não ter o tripé para filmar o socó com mais qualidade. Ou seja, em média estava normal, como diria um estatístico. Nunca se pode ter tudo. 
Depois de uns filmes e umas dezenas de fotos, resolvi ir rapidamente ao carro buscar o que me faltava. Eram só uns minutos, e podia ser que o bicho se mantivesse à vista até voltar. 

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
Quando voltei já vi a tropa toda a desmobilizar, sem olhar para trás. Já? Pensei. Inclusivamente tinham tirado a foto de grupo sem mim. É triste, mas é a vida. Os erros pagam-se, mas este até não foi muito caro. O que interessa é ver o bicho. 
Valeu-me o Lars que, quando publicou a foto no Facebook ainda me identificou nela como estando nas nuvens. E estava mesmo. Não é todos os dias que se vê uma ave destas, de encher o olho, e com uma observação 5 estrelas. 

Voltei ao campo de golfe, agora quase deserto. Só lá estava um fotógrafo alemão. 
“No. I still did not see the bird!”, disse ele. Realmente a ave estava outra vez meio escondida. Apanhei-a nos binóculos e apontei-lhe onde estava. Foi a minha boa ação do dia. Para socó-mirim tem de se seguir o código do escoteiro-mirim do Huguinho, Zezinho e Luisinho.
Infelizmente, o bicho não quis ficar mais a descoberto naqueles cinco ou dez minutos extra e não filmei nem mais um segundo. A ida ao tripé tinha realmente sido de uma utilidade extrema.

Resumindo, era uma da tarde, e já estávamos com o caso despachado. Eu ainda sugeri que fossemos directos para Lisboa, mas os meus companheiros nem quiseram ouvir falar no caso. Disse que um restaurante para mais de dez pessoas num domingo às 13h30 ia ser impossível. Não quiseram saber. 
O Bruno Herlander, com a calma habitual, arranjou uma solução. Acabámos por ir comer frango da Guia a um restaurante em Faro. Claro que ainda houve críticos a dizer que o frango era pequeno. Era o que faltava, não aparecer um crítico num twitch. “É frango da Guia”, expliquei. Também existiu quem comesse febras em vez de frango, mas isso para mim já roça o ofensivo. É como ir a um restaurante de leitão na Mealhada, e pedir um bife. 
Voltámos para cima e a verdade é que, mesmo com almoço, às 18h já estava em casa. Podia ter sido muito pior. 
Como certamente não estava cansado, adormeci por volta das 19h, sem jantar, e só acordei às 2h30 da manhã (!). Vesti o pijama e voltei a deitar-me. No fundo, foi quase como se dormisse duas noites seguidas.

Foto de grupo. Só faltei eu. Até a cadela do Bruno ficou registada. (foto do Paulo Alves) 
Não queria finalizar sem deixar uma nota sobre o nome comum que uso, Socó-mirim. Esta ave não está na lista de aves do Brasil, portanto não poderia usar essa lista como fonte, apesar desse nome ser certamente de inspiração brasileira. Acabei por seguir a nomenclatura que é usada na tradução portuguesa do guia Collins, que é o que faço normalmente nos vídeos do Canal do Xofred. 
Contudo, confesso que não desgosto do nome que o Gonçalo Elias “inventou” no local, Garçote-verde. Realmente é um garçote, e tem muito verde. 

Termino deixando um abraço a todos e todas – e foram muitos desta vez - os que estiveram presentes nesta aventura. Assim tem muito mais piada.

Agradeço também ao Carl Hawker, Paulo Alves e ao Renato Bagarrão a disponibilização das fotos que ajudam a ilustrar esta crónica.

#canaldoxofred

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte III - Como salvar uma Harpia

Brasil 2011 - Parte III - Harpia

Depois de Porto Jofre, seguimos de uma só tirada para a Pousada Piuval, que fica a uns trinta quilómetros da entrada da Transpantaneira. É mais ou menos o limite a que chega o "turismo de massas" na zona. A consequência é que é um hotel muito maior. 
Mesmo assim, quem se levanta antes do nascer do sol não se cruza nunca com muita gente. Nas nossas saídas nunca vimos ninguém. Provavelmente estariam na piscina, ou a ver outras partes da natureza, ou a andar a cavalo. Enfim aquele tipo de turismo que já fiz, mas que deixei de fazer quando me tornei sofredor profissional.


Harpia (Harpia harpyja)
No dia da chegada, num dos percursos que fizemos conseguimos o terceiro e o quarto dos "big five". Primeiro a Anta - Tapir (Tapirus terrestris). Apareceu do meu lado no carro. Só me lembro da travagem, com os pneus a raspar na terra assim que gritei "Está ali um tapir!". Na volta para o hotel, vimos um Cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus). Já só faltava o Papa-formigas.


 Tapir ou Anta (Tapirus terrestris).
Felizmente, esse sofrimento acabou rápido. No dia seguinte, na saída de antes do pequeno-almoço, nos arredores da pousada, ainda com muito pouca luz, tive a sorte de avistar um a alguma distância. A silhueta é inconfundível e soube logo o que estava a ver. Avisei o Ricardo e a Sandra. Estava histérico, mas não me lembro se gritei. A vontade de correr era muita, mas fomo-nos aproximando com cuidado, em silêncio e sempre tendo em conta o lado de que soprava o vento, para não sermos detetados.
Conseguimos ficar quase ao lado do animal. Que bicho! Parece extra-terrestre. Ainda estivemos com ele uns minutos valentes. Tirei algumas fracas fotos de registo, mas filmes nada. Porque é que não carreguei no botão "REC"? Nota mental, conhecer bem a câmara que se leva nestas viagens.
E pronto. Os Big Five do Pantanal Norte estavam no papo, e com o último que faltava UBBB. Under the belt before breakfast. Mais um ponto alto da viagem. Menos um stress.

Papa-formigas-gigante ou Tamanduá-bandeira
(Myrmecophaga tridactyla)
Mas o que é uma viagem destas sem stress? Próximo objetivo, Harpia (Harpia harpyja).
O lodge da Serra das Araras era engraçado, mas ficava poucos quilómetros ao lado de uma pedreira. A parte final do percurso não era nada bonita. Uma ave dessas por aqui? Custava a acreditar. 

Mas, a verdade é que logo à chegada, por volta da hora de almoço, ficámos a saber que estava uma harpia - por lá diz-se gavião-real - no chão nuns terrenos perto. Deveria estar em dificuldades, porque não voava, mesmo com a aproximação das pessoas. 
Reparando que o fazendeiro, dono da pousada, parecia pouco interessado no destino do animal, o Ricardo entrou de imediato em acção. Convidou-me para ir com ele falar com o fazendeiro, que tentou sensibilizar para a importância de proteger o animal. Afinal, todos os birders que iam ao Lodge, iam lá para tentar ver o casal de Harpias da zona.
O fazendeiro e a esposa foram amáveis e ofereceram-nos logo um cafezinho, mas não me livrei de uma ou duas piadas de Portugueses. No Brasil é assim. Quem lá vai a partir da Ocidental Praia Lusitana tem de se habituar. 
A conclusão do encontro foi que se iria falar com a Capital - Cuiabá -  para enviar alguém para recolher a águia. Soube uns minutos mais tarde que ia ser enviado um biólogo. O problema é que 400Km não se fazem em cinco minutos, e muito menos naquelas estradas. Ou seja ainda iam passar umas horas bem medidas, com o bicho vulnerável, no chão. 
Aí, o Ricardo teve um ato invulgar, corajoso. Colocou-nos a questão da seguinte forma:
   -Frederico, a viagem é sua e eu estou à vossa disposição. Mas, por mim, durante a tarde devíamos ir proteger a harpia, até que chegue o biólogo. Se ela fica lá sozinha, as pessoas podem matar ou cutucar ela. Se me disser que não, não há problema. Eu faço o que vocês quiserem.


Harpia (Harpia harpyja)
Não hesitámos. Não é todos os dias que temos uma oportunidade de ajudar a salvar um animal selvagem mítico. Perdem-se umas aves, ganha-se uma história para a vida. Por outro lado, no Brasil há sempre aves em qualquer lado. Vê-se sempre qualquer coisa.
Estivemos toda a tarde de plantão, a uma vintena de metros dela. Coitada, estava de pé, muito parada, à sombra de uns arbustos. Parecia uma estátua. É complicado de ver a águia mais poderosa do mundo desta forma. 
O biólogo tardou, mas chegou. Já estava no quarto, depois do jantar quando me chamaram. Não vi a melhor parte, quando a harpia se virou de costas com as garras para cima, defesa de último recurso. Quando cheguei já ela estava com o cobertor enrolado à volta. Os braços dele mal chegavam para rodear o bicho. Pegou-lhe ao colo, sentou-se traseira de uma pickup e disse "Vamos rápido, que eu não consigo aguentar muito tempo!". Deixaram-na um pouco mais à frente, confinada numa cavalariça.

Na manhã seguinte, logo ao nascer do sol, já estávamos a acrescentar aves à lista. Passámos na área das cavalariças e qual não é o nosso espanto quando a Harpia estava cá fora, junto à estrada. Mal se mexia, mas a verdade é que tinha conseguido sair do confinamento. Bom sinal. 
Aproximamo-nos a apenas uns metros para tirar mais umas dezenas de fotos. Assim a curta distância, o que mais me impressionou foi a grossura das patas. Eram quase do tamanho do meu pulso. Também deu para reparar numa ferida na asa, provavelmente a causa do seus males. O biólogo, no dia anterior, tinha dito que ela teria sido provavelmente mordida por um macaco. 


Harpia (Harpia harpyja) - pormenor das patas e das garras
Saímos da serra das araras com a Harpia em recuperação e com o coração cheio de esperança. Oxalá o bicho se salvasse. 
Soubemos o epílogo mais tarde, através de dois posts do Ricardo no Facebook. 

25 de Outubro de 2011
Olá Frederico e Sandra!!!  Boas novas!!! Hoje a Harpia foi vista recontruindo o ninho na Serra das Araras, macho e femea!!! Vamos torcer!! Legal saber que fizemos parte de um momento importante nessa estória que esta por vir... Abraço

23 de Agosto de 2012
GAVIÃO REAL.( FILHOTÃO) HARPY EAGLE (Harpia harpyja) Essa foto tem um gostinho muito especial pra mim, em  Agosto de 2011 estávamos eu, Frederico Morais e Sandra Meneses cuidando da Mãe desse pequeno Gigante, depois de um acidente. Pois bem, ela se recuperou e deu continuidade à batalha da perpetuação dessa tão incrível espécie!! Parabéns a VIDA!!!


Foto Ricardo Casarin
Neste caso fomos mesmo "Eco Warriors - Guerreiros do Planeta" (quem vê o canal Odisseia sabe do que falo). Ajudámos, de forma direta, na conservação de uma espécie emblemática.
Mais uma história irrepetível, para recordar de vez em quando e ficar com um sorriso nos lábios. Ninguém me tira da cabeça que foi esta boa acção que foi premiada em 2015 com outra excelente observação de Harpia na Amazónia. O Karma não é para brincadeiras.


Depois do sucesso na Serra das Araras, última paragem do tour era na Chapada dos Guimarães e num novo ecossistema, o Cerrado.
Era aí que o Ricardo vivia na altura. Ele estava em casa e, por inerência, nós também. Conhecemos a filha, o pai, alguns amigos.
Um dos episódios mais hilariantes foi quando o Ricardo nos apresentou a um casal amigo. Ela pensou que fôssemos anglófonos, como a maioria dos clientes do Ricardo. Cumprimentou-nos em Inglês.
   -Hello. Nice to meet you. My name is…
Eu entrei na brincadeira e respondi, já meio a rir:
   -Hi. My name is Frederico.
Aí, o Ricardo disse qualquer coisa como:
   -Não vê que eles são portugueses? Pode falar Português.
A resposta foi espontânea, e ficará para sempre na minha memória:
   -Portugueses? Desculpe! Pensei que fossem estrangeiros.

A resposta resume aquele sentimento de conforto inexplicável que tenho sempre que vou ao Brasil (hoje, já a caminho do quarto tour). Uma pessoa atravessa o Atlântico, e é recebido em Português. Não é em inglês, nem em Espanhol, nem em Francês. Comecei a compreender aquilo que alguém escreveu um dia “A minha pátria é a língua portuguesa”.


Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata)
Das aves, recordo-me de algumas, especiais, que vimos na Chapada e arredores. O espetacular Campainha-azul (Porphyrospiza cearulescens), o Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata), o Soldadinho (Antilophia galeata), a Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus), a Arara-canindé (Ara ararauna), o João-bobo (Nystalus chacurup). Por outro lado, ficou-me atravessada a péssima observação de Urubu-rei (Sarcoramphus papa), que vimos muito mal, tipo mosquito, à entrada da Chapada. Esse ainda não consegui ver melhor até hoje.
As viagens são assim e temos de estar preparados para isso. Nunca se vê tudo e nunca se vê tudo como queremos. Os números finais do tour ficaram em 244 espécies de aves e 13 de mamíferos. 

Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus)
Foi com pena que regressámos a Cuiabá, já a pensar na viagem de regresso. O jantar do último dia foi num centro comercial. Rodízio de pizza. Lembro-me que estava a dar na tv um programa de crimes - "Cadeia Neles!". A empregada achou o nosso sotaque estranho. Não o conseguia identificar e olhava para nós desconfiada. O Ricardo, sempre na brincadeira, disse-lhe:
   -Sabe o que é? É que eles são de Pernambuco.
   -Ahhh! – disse ela.
Deve haver poucos portugueses em Cuiabá. Um ditado popular que ouvi na viagem foi algo do tipo “para Cuiabá nem os mortos querem ir!”.

No dia seguinte, de manhã, antes de seguir para o aeroporto, ainda me cruzei no pátio do hotel com um casal de americanos com binóculos ao peito. Como membro da tribo, meti conversa. Ao saberem que era português, disseram logo que isso era muito bom porque dessa forma não tinha a barreira linguística. Dá que pensar...

Pouco depois, iniciámos a longa viagem de regresso, sem história, que incluiu mais uma espera de muitas horas em São Paulo. 

Todas as viagens deixam marca, mas esta foi especial. O Pantanal é diferente.
Na altura, fiz o voto de um dia regressar. Oxalá seja possível.



Deixo aqui um grande abraço ao Ricardo Casarin. Não podíamos ter tido um guia melhor nesta primeira aventura na América do Sul. 
Obrigado também pela foto do filhote de Harpia, que ajuda a ilustrar a história.

#canaldoxofred 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte II - Onça-pintada

Brasil 2011 - Parte II - Jaguar

Após três dias e três noites de aperitivo, mais a manhã com o urutau, seguimos para o final da Transpantaneira, para Porto Jofre. É aí que reside o jaguar ou, como dizem por lá, a onça-pintada. No caminho, à medida que nos íamos aproximando, a tensão ia aumentando. Será que íamos atingir o objetivo? Seria possível?

Jaguar (Panthera onca)
 Durante o percurso lembro-me de ter visto uma Irara - Eira barbara, um mustelídeo - a correr na estrada e de o Ricardo dizer que estávamos com sorte, porque era um bicho que raramente se via assim, a descoberto, e muito menos em plena luz do dia.
Numa das paragens vimos fezes na berma, que foram prontamente identificadas por ele como sendo de onça. Comecei a reparar numa das expressões cómicas que usava, "Qui medo!". Pensando bem, tinha toda a razão, mas nem me lembrei disso. O Jaguar estava cada vez mais perto... 
Uns quilómetros mais à frente vi, muito ao longe, um felino adulto e uma cria a atravessar a estrada. A distância era tal que nem deu para perceber se seria jaguar - onça-pintada - ou puma - onça-parda. Disse qualquer coisa como "O que é aquilo?" ao Ricardo e ele gritou "Onça!" e acelerou a toda a velocidade. Quando lá chegámos e saímos do carro já não havia nada à vista. Felinos são assim mesmo. "Qui medo!" disse o Ricardo. 
Chegámos a Porto Jofre à hora de almoço. A primeira saída de barco só estava prevista para o dia seguinte de manhã mas, sentindo a minha ansiedade desde o primeiro dia, o Ricardo achou por bem antecipar a saída para essa tarde. Não estávamos à espera disso mas achámos boa ideia. Podia ser que o stress acabasse de uma vez. 
Ao chegar ao nosso bungalow, na porta estava uma foto de um Jaguar com a legenda Frederico e Sandra. E esta, hein?! Isto sim é serviço ao cliente. Antes do almoço, ainda deu para descobrir algumas Araras-azuis-grandes - Anodorhynchus hyacinthinus - que andavam nas imediações do hotel. Esta arara é gigante. Um metro de comprimento de um azul pouco comum.   

Arara-azul-grande - Anodorhynchus hyacinthinus
A seguir ao almoço fomos à procura do destino. A tensão sentia-se no ar. Nem as palavras do Ricardo - "Fique descansado que nunca saí daqui sem onça!" - ajudaram a acalmar os nervos. 
Os barcos do hotel são rápidos, mas mesmo assim ainda demoram uns quarenta e cinco minutos a chegar às melhores zonas para a onça. Normalmente há sempre mais alguns barcos a percorrer a área, que vão comunicando por rádio os avistamentos mas, nessa tarde, o único barco no rio era o nosso. Menos olhos, menos probabilidades. Por outro lado, a tranquilidade é maior.
Andámos um bom par de horas a percorrer a zona, sem grande sucesso. A técnica é ir olhando para a margem, e ver se estará lá alguma coisa a descansar à sombra, junto à água. O nosso piloto - diz-se "piloteiro" por lá -  tinha a teoria que é melhor andar rápido, porque assim os bichos têm menos tempo para se afastar com a aproximação do barco. O Ricardo não concordava muito com isso e ainda os vi a trocarem umas palavras sobre o assunto. Mais uma vez, teorias há muitas mas o que conta é "ver o bicho". E até ver o bicho todas as teorias são isso mesmo, teorias. 
De repente, depois de mais de mil curvas no rio, lá estava ela a descansar à sombra. A minha onça. Objetivo à vista! Lembro-me da adrenalina, do coração quase a saltar do peito e de pouco mais. As emoções fortes provocarão amnésia? Fundeámos o barco em frente ao animal e a pouco e pouco fui acreditando no que estava a ver. É realmente um felino espantoso. As cores suaves, os músculos fortíssimos. Cada mancha com as suas pintas no interior.  Inicialmente olhou a pensar se arrancava dali para fora, mas a moleza e o calor fizeram o seu trabalho. Foi simpática e deixou-se ficar.
Jaguar (Panthera onca)
Fartei-me de tirar fotos. Na altura tinha a minha primeira bridge há pouco tempo e ainda não a conhecia bem. Não sabia que, sobretudo nas fotos, estas câmeras têm algumas limitações. Mais ainda em condições de luz difíceis como aquelas. Nesses casos, mais vale filmar. Hoje já sei... 
Poucos filmes fiz nessa viagem mas, foram todos de jaguar. Não sei se seria porque esse animal era o grande objetivo, mas só me vinha o "filmar" à cabeça quando via um jaguar.
Fui fazendo um filme de vez em quando. Como é normal com os felinos, passou a maior parte do tempo a dormir. Levantava a cabeça, olhava, levantava-se, dava uns passos e dormia, sobretudo. E nós nas fotos e nos filmes. Minuto após minuto após minuto. No total passámos cerca de duas a sós com a "minha" onça. Que luxo!
No quarto de hora final resolveu ir fazer pela vida. Levantou-se e começou a caminhar na margem. Fomos avançando com ela no seu percurso. Levantávamos ferro e seguíamos na corrente. 
Bebeu água e ainda olhou para nós, provavelmente para decidir se estávamos ao alcance. Nadou um pouco junto à margem e, de repente, apareceram duas capivaras azaradas - mãe e a cria - só a uns dois ou três metros da onça. Elas e ela viram-se mutuamente pelo canto do olho e eu percebi logo que ia haver conversa. Na minha cabeça só pensava "Vai atacar! Vai atacar! Queres ver que vai mesmo atacar?". No barco reinava o silêncio. Predador e presa em acção. 
Não vou contar o desfecho. Uma imagem vale mais que mil palavras e está tudo no vídeo - "Flagra no Pantanal". 

 Flagra no Pantanal

Foi com ele que nasceu o "Canal do Xofred", cerca de um mês mais tarde. Hoje já vai com mais de três milhões e meio de visualizações. Um dos comentários que mais gostei ao longo dos anos foi de um amigo meu, poeta amador que, com a sensibilidade que o caracteriza, referiu que o vídeo chega até a ser comovente, na parte em que a mãe capivara tenta defender a cria. A Natureza é mesmo muito bonita.

Na altura, soube logo que estava provavelmente a ver uma cena irrepetível. Até hoje nunca vi uma coisa parecida. E acreditem que estou sempre à procura. 
No caminho de regresso ao hotel confesso, sem vergonha, que fui sempre de lágrimas nos olhos. Devia ser da adrenalina... 
Dia 7 de Agosto de 2011 cumpri um dos sonhos da minha vida. 

A verdade é que, nas outras quatro saídas de barco que tivemos, vimos sempre onça. Às vezes mais outras vezes menos tempo. Às vezes com mais gente outras vezes com menos. Numa das vezes contei as pessoas - 86! - e os barcos - 14!. Nessa ocasião, passou um barco com pescadores. Estavam no nosso hotel mas eram de outra tribo, a dos fazendeiros ricos com avião particular, que vão para Porto Jofre pescar. Ainda pararam para perguntar o que estávamos a ver. "Onça?" E arrancaram dali a toda a velocidade. Cada maluco tem a sua mania. 
No segundo dia vimos também uma família de lontras-gigantes (Pteronura brasiliensis) - no Brasil chamam-lhe ariranha. Têm "só" dois metros. Além de gigantes são divertidas. Dormiam num tronco, nadavam, comiam peixe. As vocalizações são inimitáveis e passam o tempo a "falar" umas com as outras. Foi um encher a barriga. 

Lontra-gigante (Pteronura brasiliensis)
Aí começou a saga dos "Big Five" do Pantanal Norte. Como insatisfeito que sou, depois do objetivo jaguar, saltei logo para outro, o das lontras gigantes. Assim que vi as ariranhas, passei a querer ver o Tamanduá-bandeira (Papa-formigas-gigante - Myrmecophaga tridactyla).

#canaldoxofred