domingo, 27 de maio de 2018

Um sonho feito de Lince


04/01/2017
Lince na Andaluzia

O Lince-Ibérico é uma espécie emblemática para qualquer entusiasta da fauna. Para um português, ainda mais. Faz parte da nossa identidade, da mesma forma que o facto de saber o que é e onde fica a Serra da Estrela. 

Para alguém que viveu sempre numa grande cidade, parece quase inimaginável que um animal destes exista algures por aí, na Península.
Lembro-me, há já longos anos, de ver uma notícia no telejornal em que aparecia um lince que tinha sido capturado na Serra da Malcata. A história mencionava qualquer coisa como "biólogos conseguem provar que ainda existem linces na serra da Malcata". Não me recordo do ano exacto mas, para o caso ser posto dessa forma, o "gato" já estaria dado praticamente como extinto em Portugal nessa altura.
Penso que terá sido aí que nasceu o meu sonho de ver um lince. Nunca soube era como.
Só em 2012 me cruzei com a informação de que há locais na Península com possibilidades razoáveis de fazer um avistamento. Uma dica de um guia em Espanha, a consulta a um site da especialidade e, assim, se começa a formar uma ideia. 

Lince-ibérico - O primeiro avistamento - Foto Emili Casals e Carme Jurado
Sempre com férias a menos e objectivos a mais, apenas em Janeiro de 2017 conseguimos encaixar uns dias para esta demanda. A Serra de Andújar, a 700km de distância, seria o objectivo. Para maximizar as possibilidades, iríamos ser ajudados por um guia local. 
Dia 4, de madrugada, saímos de Lisboa. A viagem não teve história, apesar de longa. Chegámos ao destino, um hotel já na Serra, por volta da hora de almoço (portuguesa), ou seja, pouco passava da uma da tarde. O restaurante ainda nem estava aberto. Tínhamos começado a andar para a recepção e já o nosso guia, Juan Carlos, vinha na nossa direcção.
-Frederico?
Bolas, já não se pode andar incógnito em Espanha. Claro que a nossa matrícula Portuguesa ajudou na identificação. Logo nas primeiras frases reparei no seu sotaque Andaluz. Considero o meu Castelhano bastante razoável, mas o sotaque Andaluz é estranho. Falta sempre a última sílaba.
-Estão prontos? Podemos ir?
Hum... Almoço ou lince? Vamos ao lince.
O local de observação mais popular fica a cerca de meia-hora, por uma estrada em mau estado. O Defender do Juan não se queixou muito e, mais solavanco, menos solavanco, chegámos.
Estávamos no melhor local da península e na melhor altura do ano. Haveria realmente uma hipótese? Esta estrada ao longo da serra funciona como um anfiteatro para um palco fantástico. Na primeira semana de Janeiro está cheia de entusiastas a esmiuçar cada metro da imensa serra em redor. Tudo parecia ajudar mas, um lince é um lince. Felino, pequeno, raro e com uma camuflagem soberba.
No local conhecemos logo um casal de catalães muito especial, a Carme Jurado e o Emili Casals. Ao longo dos dias seguintes fizemos uma aliança Luso-Catalã e acabámos por ficar amigos.


 
Lince-Ibérico - No penúltimo dia conseguimos filmar um acasalamento

Começou a espera. Esquadrinhámos cada metro da serra imensa à nossa frente.
Não teria passado nem uma hora, ouviu-se atrás de nós um som rouco, esquisito, tipo um gato com o cio, mas mais forte. Vejo a cara de espanto do Juan Carlos, a virar-se para trás na direção do som. Mais uns segundos, e aponta "Ali!". Ainda demorei algum tempo a conseguir distingui-lo no meio das pedras e da vegetação. Aquela camuflagem é impressionante. A cerca de vinte metros, um grande macho descia calmamente a encosta. Parava, olhava, dava mais uns passos. A vegetação não mexia, e não se ouvia nenhum som. Ignorava-nos completamente. Parecia que não estávamos ali. Nunca mais me vou esquecer da sua postura sentada. A vinte metros. Como era possível? A visão enchia-me os binóculos. 


 
O que acontece quando dois veados encontram dois linces?

Continuou a descer e parecia que ia passar mesmo à nossa frente. A excitação aumentava. Vários companheiros da estrada, ao aperceberem-se da situação, começaram a aproximar-se do nosso grupo. Comecei a preparar-me para filmar. Já tinha una observação cinco estrelas, agora era a fase de tentar registar o evento.
De repente, quase na hora H, aparece um espanhol de cabelo comprido aos gritos e palavrões - estaria com inveja? - a verdade é que o lince resolveu desaparecer, para nunca mais ser visto. Fiquei furioso, mas nada comparado com os seus compatriotas, que quase o lincharam. Vim a saber mais tarde que o personagem já tinha fama por ali. Aquele aspeto de louco é inconfundível. 


 
Macho e fêmea -  Preliminares

A verdade é que o primeiro dia acabou com o sonho cumprido. Melhor não podia ter corrido. Quer dizer, poder podia, porque não fiquei com registo do evento. Mas é como alguém dizia "Tomaram muitos!". Devo ter sonhado com linces nessa noite.
Só nos dois dias seguintes é que nos apercebemos da sorte que tivemos. Foram 48 horas sem linces. E não foi por falta de esforço. Nem a lontra, nem os veados, nem as aves que vimos compensaram essa falta. 

Além da estrada já referida, tivemos também acesso a uma herdade privada que tem uma parceria com o WWF, com um projecto para a recuperação do Lince-Ibérico. Tem uma boa densidade de linces mas, com menos olhos - só cinco pares - é sempre mais complicado ter sucesso. Na manhã do quarto dia, era aí que estávamos na espera. Já sem os nossos amigos catalães, ou seja, só tínhamos três pares de olhos. Lá para meio da manhã resolvi sentar-me um pouco numa cadeira que lá estava. Esperar por esperar, mais vale esperar sentado. Mas, claro, nunca larguei os binóculos. Nem estava na cadeira há cinco minutos, quando vejo, ao longe, duas "chitas" a andar e sentar-se naquela postura triangular típica que vi nos documentários da televisão tantas vezes. Na minha cabeça era isso que estava a ver, mas qualquer coisa me dizia que o raciocínio não estava certo. Chitas ainda não há por cá, por enquanto. De repente faz-se luz. "Lince! Lince! Lince! Lince!". Era uma fêmea e uma cria. A resposta imediata veio de seguida. "Onde!?". Lá expliquei, com bastante dificuldade. A excitação era mais que muita. A minha, a da Sandra e a do Juan. Conseguimos acompanhá-las na sua caminhada durante uns bons dez minutos. 


 
A minha descoberta - Nela e Gema

Ainda a esta distância me lembro da adrenalina e do calor que senti com a descoberta. Imbatível! Melhor que ver, é ver um "nosso". Nunca me esquecerei da Nela e da Gema.
A partir daí, na tarde e dia seguintes foi um fartote. Nessa tarde, na estrada, duas ou três horas de observação de um par, que culminaram com uma cena de cópula. Tudo devidamente registado em vídeo. No dia seguinte, outro par observado durante pelo menos duas horas, também com vídeo.
Em todos estes encontros imediatos com este magnifico animal, o que mais me impressionou foi a sua capacidade de aparecer e desaparecer sem deixar rasto. Sem movimento da vegetação, sem som. Um autêntico fantasma. Isso e a tranquilidade com que os vi movimentar-se quase sempre. Como alguém que está em sua casa - e está mesmo. 
No final da aventura, dia 8, saímos de Andújar com o coração cheio. De lince e de novos amigos
"I'll be back!" 

Lince-ibérico - O primeiro avistamento - Foto Emili Casals e Carme Jurado

Resta-me agradecer ao Emili Casals e à Carme Jurado pelas fotos e amizade. Um dia cá vos aguardamos em Portugal. 
Podem ver alguns dos excelentes trabalhos deles em:
http://croniquesnaturalistes.blogspot.pt/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pardilheira, ou a Influência do George Costanza

01/05/2018
Pardilheira, ou a Influência do George Costanza 

Sempre achei a Pardilheira (Marmaronetta Angustirostris) um dos patos mais bonitos da Fauna Europeia. Talvez por me identificar com as "olheiras" bem escuras das faces - o rosto angustiado. 


Pardilheira (Marmaronetta angustirostris)
Desde 2011 que o tentava encontrar sem sucesso. Tudo começou com o exemplar descoberto pelo Rui Caratão nas salinas de Alverca, onde me desloquei na altura por duas vezes. Nos últimos anos, sobretudo no EVOA, apareceram alguns exemplares na Primavera. Como infelizmente só há uma Primavera por ano, aconteceu que em duas das vezes estava no estrangeiro em explorações da passarada. Quando fazia a tentativa, já não havia pardilheira para ninguém. Por outro lado, mesmo não estando fora, como por exemplo em 2016, ia ao EVOA e nesse dia elas não apareciam. Eram vistas nos dias anteriores e posteriores. Ao fim da sexta tentativa comecei a achar que tinha claramente ali um novo enguiço. Uma nova Némesis. 
Como tenho a teoria de que a primeira é sempre a mais difícil, aproveitei a minha viagem em 2017 à Andaluzia para ver Lince-ibérico e fui vê-las a Doñana. Mais uma lifer! Já só faltava vê-las em Portugal. Oxalá ficasse mais fácil. 


Pardilheiras - EVOA - O filme possível

Chegámos a 2018. Apontei para Maio para intensificar a busca. Como os bichos fazem sempre o que querem, resolveram aparecer dois exemplares no dia 20 de Abril, uma sexta-feira. Foi um dos guias do EVOA, o Jaime Sousa que divulgou a informação por volta das 16h. 
A conclusão a que cheguei foi de que iria lá no dia seguinte, sábado. Como membro, até solicitei o acesso antes das portas abrirem. Às 8h30 já estava no abrigo. Fosse da chuva - leia-se dilúvio - ou doutra coisa qualquer, pardilheiras não houve. 
Mais uma desgraça. A moral desceu em flecha. "Costumam estar vários dias. Desta vez, que pude vir no dia seguinte, nada! É sempre a mesma coisa!". A maldição continuava... 
No fim de semana seguinte fui dar uma volta à ponta da Erva e parei no EVOA para picar o ponto, leia-se tomar um café, e saber novidades. Não havia grandes notícias. Depois de um ou dois minutos de indecisão, resolvi não entrar dessa vez. 
Contudo, fui formando na minha cabeça a ideia de lá voltar no feriado de terça-feira. Apesar de ser feriado, era durante a semana. Podia ser que lá estivesse menos gente. Não se perdia nada, e a Natureza é muito bonita. Chama-se a este tipo de diligência "atirar o barro à parede".
Contudo, alguma coisa teria de fazer de diferente em relação ao habitual. Se as escolhas que tinha feito até ali não resultaram, teria de pensar noutras. Foi aí que me comecei a recordar de um dos episódios do Seinfeld, em que o meu personagem favorito, o George Costanza, por achar que as escolhas racionais de vida que tinha feito até ali nunca tinham resultado, resolve passar a fazer exactamente o oposto do que pensasse como certo em determinada circunstância. 
Assim, no dia 1 de Maio, resolvi fazer exactamente o contrário do que costumava  fazer para ver (ou tentar ver) raridades no EVOA.


Costumava ir de manhã? Pois desta vez iria à tarde. 
Entrei e lá estava a Andreia, tal como no dia 21. Como tinha falhado nesse dia, a pergunta óbvia surgiu de imediato :
  -Vem tentar ver as pardilheiras?
  -Vou mesmo!
Deixei a Sandra - minha arma secreta - no café e segui para o observatório da Lagoa Principal a 3km. Fui sempre atento, não fossem passar uns patos esquisitos a voar. Não. Só uns poucos patos-reais e um milhafre-preto.
Quando estava a entrar no observatório, recebi uma chamada de um amigo de longa data, com quem já não falava há uns tempos. Em vez de dizer que lhe ligava mais tarde, para me poder concentrar na missão, fiz exatamente o contrário. Estivemos a falar mais de dez minutos. E nem baixei muito a voz. Estava mesmo a aplicar a máxima do George Costanza. Costumava montar o telescópio e só depois abrir o postigo? Pois desta vez abri logo o postigo sem montar o telescópio. Eram mais ou menos 16h30. Espreitei com os binóculos. Aquilo estava para o vazio, como sempre nesta altura. Olhei para o local tradicional das pardilheiras e estavam lá dois patos a dormir. Só conseguia ver os peitos e, à primeira vista, pareciam reais, ou frisadas. A distância não ajudava. "Mais uma banhada!", pensei. "Bom, vamos lá montar o telescópio". Montei e espreitei. Vejo imediatamente o marmoreado nos flancos. Olhei várias vezes e continuei a ver o mesmo. Eram mesmo elas, as minhas Némesis do momento.
Tirei logo umas fotos. Mesmo fracas, já serviam de evidência. Mais um pouco e lá acordaram. Sim! Já se viam as olheiras extensas. Liguei à Sandra a fazer o relato.
Filmei, fotografei e fotografei e filmei. De um a cinco, quatro e meio. Só não foi mais porque estavam longe. "Há sempre um crítico". É curioso que estive sempre calmo e nunca desatei aos saltos. As vitórias têm mais piada quando se está acompanhado.

Resolveram voar em frente ao observatório e pousar num local fora de vista. Iriam voltar? 
Ainda lá fiquei um bocado, à espera. Passou um circus, que me pareceu uma águia-caçadeira. Apesar das limitações que têm as bridge, ainda lhe consegui tirar umas fotos em voo. Uns dias mais tarde, após estudo e algumas consultas, veio afinal a ser identificado como um tartaranhão-pálido, outra raridade (por enquanto). 
Chegou o grupo da visita da tarde. "Digo alguma coisa ou não?". Resolvi não dizer. Não estando os bichos à vista, também não gostaria que me dissessem algo como:
 -Estiveram aí as pardilheiras mas agora voaram e não estão à vista. 
Sei bem que é duro ouvir conversas desse tipo. 
Enfim, controlei-me e, além de não dizer nada, ajudei a guia a apontar uma ave ou outra. Claro, sempre com um olho no burro e outro no cigano, para ver se Elas voltavam a aparecer. 

Tartaranhão-pálido fêmea (Circus Macrourus)
Alguns minutos mais tarde lá aparecem outra vez a voar e aponto-as ao grupo. "Olha as pardilheiras!". Pousam no sítio do costume. "Não acredito!" diz a guia. Estava extasiada a olhar para os bichos. Para ela era uma lifer, e não descansou enquando não tirou uma ou duas fotos em digiscoping. "Para não dizerem que estou a inventar!". 
Partilhei o meu telescópio com quem quis ver, mas claramente os mais eufóricos eram eu e a guia que, vim a saber, se chama Sofia. Nisto da observação há vários níveis de desenvolvimento e envolvimento. No ínicio eu também ficava todo contente por ver um flamingo ou um camão. No primeiro ou segundo ano de observador vi o meu primeiro - e único até hoje - andorinhão-cafre, com o Simon Wates. Na altura ainda me faltava ver quase tudo. Vendo que eu e a Sandra não estávamos aos saltos, saiu-se com um "Acho que ainda não estavas preparado para ver isto!". E tinha razão. Um cafre vale bem mais que um papa-figos. As lifers não são todas iguais.
Mais uns minutos e o grupo foi andando. Eu ainda fiquei mais um pouco para mais uns filmes e umas fotos e um último olhar no telescópio. Quem espera oito anos tem direito a mais uns minutos. 
Cheguei ao edifício em triunfo. Já "toda" a gente - duas ou três pessoas - sabia. Não há mal que sempre dure! "Algum dia tinha de ser!", disse. A "Maldição do EVOA", como eu lhe chamava, tinha finalmente acabado, e logo com duas raridades duma vez. 
Confesso que o sentimento predominante que tive foi alívio. Mas do que alegria, alívio, com uma mais uma Némesis que desaparece. 

Obrigado George Costanza. 

 George Costanza does the Opposite


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tourada na Murtosa

31/03/2018
Tourada na Murtosa

No dia 5 de Fevereiro, na Murtosa, um fotógrafo local - Carlos André - fez um registo de um tartaranhão. Pelo que foi descrito pelo próprio no fórum aves, a ave terá parecido na altura um macho de águia-sapeira, o que é completamente normal na zona. No entanto, ao rever as fotos pareceu-lhe ser um tartaranhão-cinzento, o que já não é tão normal. Pelo sim, pelo não, colocou a dúvida no fórum no dia 13. O debate instalou-se e o consenso era de que, provavelmente, estávamos perante um tartaranhão-cinzento-americano, circus hudsonius. A confirmar-se, seria uma super mega raridade. A discussão acabou bruscamente no dia 16, quando Deus desceu à Terra. “O” Dick Forsman respondeu ao pedido de ajuda do Paulo Alves com a sentença de que se tratava claramente de um macho de circus hudsonius. Este desfecho só chegou onze dias depois da observação. Ou seja, uma eternidade.

Tartaranhão-cinzento-americano - Foto Carlos André
(05/02/2018) A história começou assim


Na altura, achei que ele já teria seguido caminho. As buscas infrutíferas nos dias 13 e seguintes pareceram confirmar essa teoria. Houve alguns avistamentos de circus sp., mas nada de definitivo, nem que colocasse a comunidade em alerta. Por isso, nunca coloquei seriamente a hipótese de ir ver a Ria à Murtosa. E assim, a pouco e pouco, o assunto foi morrendo, passando para as brumas da memória.

Mas estas questões raramente são simples (ver A Odisseia do Sula - Sete Meses de Sofrimento). No dia 27 de Março, uma terça-feira, pelas 16h, o Carlos voltou a fotografar o hudsonius. Desta vez, a divulgação foi mais rápida. Logo no dia seguinte, pela manhã, a comunidade já sabia do acontecimento. Quem é vivo sempre aparece. Neste caso, cinquenta dias depois. Pelos vistos, não só não tinha ido embora, como tinha gostado da zona. Estou sempre a dizer que, às vezes, parece que há aves que têm encontro marcado connosco. Nas duas aparições, o registo foi efectuado pelo mesmo fotógrafo. Não se materializou para mais ninguém, e não foi por falta de alma. Já muito esforço inglório tinha sido feito até ali por vários observadores, a começar pelo Samuel Patinha. 


Neste ponto, comecei a pensar que já me restavam poucas hipóteses além da óbvia, que era a de arriscar. Com cada vez menos aves para ver, quando há uma hipótese superior a um por cento, tem de se avançar. E neste caso teríamos, pelo menos, um e picos.

Quinta era impossível. Sexta-feira Santa estava mau tempo. Sábado estava com uma previsão bastante razoável e afigurava-se como a melhor hipótese. Além disso, podia ser que alguém visse a ave entretanto, ajudando a estabelecer um padrão. A verdade é que isso não aconteceu.
Contudo, a decisão foi razoavelmente fácil de tomar. No fundo, já sabia que ia lá acima desde que a notícia apareceu. Foi só seguir o instinto. Na sexta disse a duas ou três pessoas que neste caso estava com uma fé inexplicável. Nesta atividade raramente sinto grande confiança de que vou ver o objetivo. Desta vez também ia sem grande expetativa, mas aquele tal sentimento ninguém me tirava. A coisa foi de tal maneira diferente do costume que até dormi descansado na noite anterior. Pouco, mas descansado.
 
Circus hudsonius - Foto Carlos André (05/02/2018)
Pormenor do dorso

Sábado, o dia começou por volta das seis da manhã. Do Sul mais ou menos profundo seguimos dois de Lisboa, um de Peniche e um de Leiria. No troço final de 150km até à Murtosa éramos quatro dentro do carro. Um quarteto - ou uma quadrilha - em busca da sorte. O António Gonçalves, Pedro Ramalho, o João Tomás e eu. 

Com a importância duma ave deste calibre, um primeiro indivíduo para Europa continental, acabaram por andar na zona mais de uma dezena de observadores ao longo do dia. Uns mais persistentes, outros menos.
A nossa quadrilha chegou ao local por volta das 10h. O céu ainda deixou cair umas últimas gotas, mas o tempo acabou por estabilizar, como previsto. Do tempo não nos íamos poder  queixar. 
No local já andavam o Samuel, o Marco Nunes e o Paulo Ferreira, entre outros. Um pouco mais tarde encontrámos o Flávio Oliveira. A tourada instalava-se. Parecia hora de ponta.
 

Viuvinha-bico-de-lacre
Foi um movimento jamais visto por aquelas bandas e que despertou de sobremaneira a curiosidade dos locais. Mais para a tarde até apareceu a dona de um dos terrenos, com a pergunta da praxe. “O que é que estão para aí a ver no meu terreno? Estão a filmar?”. Como sempre, nestas situações o primeiro abordado costumo ser eu. Um dia ainda hei de descobrir porquê. Dei a resposta número dois. “Nada! E não estamos a filmar.” Será que pensou que tínhamos encontrado ouro ou petróleo por ali? A tourada consumou-se quando apareceu uma carroça. “Não se mexam que o cavalo está a aprender!”. Já só faltava passar um porco a andar de bicicleta.

Durante a manhã, numa primeira fase acabámos por nos dividir em dois grupos, o que é sempre perigoso. Se uns veem e outros não é o diabo…
Andei com o Samuel e o Marco no carro, a fazer o circuito entre os dois pontos de observação conhecidos, a 5km um do outro. Milhafres, búteos, sapeiras e pouco mais. Deu para perceber que a tarefa não ia ser fácil. Os circus voam baixo e a zona é grande. As ervas altas também ajudavam à festa. 



Avistamento número 2 - Foto Carlos André
Quase me esquecia de referir que também vimos, claramente vista, a gaivota-polar que por lá anda, o que não é coisa pouca. Foi daqueles twitches perfeitos. Chegar, sair do carro e ver o bicho. Outra colateral do dia foi a viuvinha-bico-de-lacre. Finalmente acabaram-se os milhares de emails com alertas de viuvinhas. “Já não se perde tudo!”, pensei quando a vi.

Lá para o meio-dia houve “mudança de turno”. O Samuel e o Marco foram à sua vida. O Pedro Moreira, dono da zona, veio “controlar a situação” e reforçar a equipa. Todos concordámos que o melhor era ir almoçar. E assim foi, apesar de o António ter logo dito que não gosta nada de ir almoçar nestas situações. Lembrei-me logo de uma certa tichodroma. Mas isso são contas de outro rosário.
Qualidade de vida é assim. ‘Bora lá almoçar! 


Gaivota-polar
Depois do almoço, mais volta menos volta, acabámos por nos concentrar numa zona mais ou menos central, onde conseguíamos cobrir uma boa porção de terreno, incluindo a zona do último avistamento. Durante as horas que por lá estivemos, o costume. Milhafres, búteos, sapeiras e pouco mais. Três da tarde, três e meia, quatro da tarde – hora do último avistamento. “É agora!”, pensei. Mas não. Nada de bicho.
Lá para as cinco, comecei a pensar se seria hora de seguir para baixo. Ainda troquei umas impressões com o António, mas ele desconvenceu-me logo. “Tens horas para estar em casa? Já que estamos aqui, é aproveitar!”, disse ele. Como já não ia conseguir ir ao Estádio da Luz, o único local onde se ainda poderia ver alguma coisa para a história nesse dia era ali. Por isso, e por mais qualquer coisa indefinida, fiquei.

Resolvemos mudar de poiso e fomos para um talude ali perto. Quem andou apeado de manhã tinha gostado do sítio, uma vez que permitia ter mais um metro de altura em relação ao terreno. Também achei uma boa ideia, uma vez que durante a tarde tinha visto por segundos uma ou duas sapeiras a voar muito baixo por ali. Do talude sempre se veriam melhor. Why not?
Fomos alternando a conversa com a vigília. O frio começava a instalar-se. Alguns já falavam em fracasso aqui e ali. Não vou mencionar nomes, mas até houve alguém que apelidou este twitch de “o maior falhanço da história de Portugal” e, inclusivamente, o referiu em chamadas telefónicas efetuadas no local. Lembro-me de o António ter dito “Isto ainda não acabou!”, uma frase que eu já tinha usado mais de uma vez nessa tarde. 



Avistamento número 2 - Foto Carlos André

Por volta das 18h, resolvi ir ao carro beber água. O movimento era pouco, e os carros estavam a menos de cem metros. De qualquer forma, aquilo já estava quase a acabar, ou não estava? 
Comecei a andar. Ainda não tinha dado dez passos, começo a ouvir a voz do Pedro Ramalho aos gritos. Qualquer coisa como “É o gajo! É o gajo! Olha ali!”. Confesso que não registei as palavras exatas. 
Lembrei-me da história do Pedro e do Lobo. O “nosso” Pedro tinha feito uma dessas um mês antes em Sagres e, por isso, não dei grande credibilidade aos gritos nas minhas costas. Ainda andei mais um ou dois metros mas depois resolvi virar-me, para poder fazer aquela representação da figura típica com os braços abertos, como quem diz “Vai gozar com o c…!”.

Não poderia estar mais enganado. Quando me virei, o que vi foi o pessoal a olhar todo para o mesmo lado. Era um circus, sem dúvida, e era claro. Quando o vi nos binóculos, juro que consegui ver as pintas laranja nos flancos, e o dorso de um cinza pouco uniforme, com tons castanhos aqui e ali. Era Ele, sem dúvida. A rapina mais procurada do último mês.
Ainda o apanhei na máquina, mas já um pouco para a esquerda e longe. Parecia uma seta. Passou para trás dos caniços e começou a andar para a direita, sempre a grande velocidade. Cada vez mais longe, mais longe. Perdemo-lo de vista junto a um engenho de rega. Foi um minuto de pura adrenalina.


Uma dos meus fracos registos - longe e à esquerda.
"Ligeiramente" diferente dos registos do Carlos André

Depois, as opiniões dividiram-se. Uns queriam ir atrás dele de carro, outros achavam que ele ia voltar. Ninguém teve razão. Este bicho é mágico e consegue aparecer e desaparecer sem deixar rasto.
Restavam os despojos do dia, ou seja, as fotos. Entre todos, conseguimos pouco mais de uma dezena de fotos manhosas. Não estavam perfeitas, mas era evidência que chegasse. Entre a observação e as fotos, de um a cinco, três e meio. Nada mau, para quem chegou a pensar num zero.

O dia acabou com mais uma descida triunfal até Lisboa, onde eu e o António só chegámos às 23h. Custa menos, com a barriga cheia.

Houve várias lições a reter neste evento. A última é minha, as outras são do Pedro Ramalho.

1. Mais vale uma bridge na mão que duas SLR no saco.
Sobre esta, cabe dar nota que ao longo da espera questionei o Paulo e o António sobre o paradeiro das respetivas câmeras, que nunca tinham na mão. Um respondeu-me que a dita estava no carro, o outro que estava no saco, mas que era rápido a sacar.

2. Quando alguém começa a gritar que a ave apareceu, convém não ignorar completamente o aviso.
Concordei com esta e até complementei na altura com uma adenda:
-Quando muito ignorar o aviso durante dois ou três segundos e virar-se para trás com ar de desprezo.

3. Uma SLR a funcionar mal apanha mais detalhe que uma bridge a funcionar bem.
Esta resulta da análise direta às fotos.


E foi isto... 
Deixo aqui um agradecimento ao Carlos André pelas fotos e à malta pela companhia, amizade e pelo dia excelente.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Marfim na Nazaré

18/11/2014
Marfim na Nazaré

No dia 17/11/2014, Segunda-feira, ao fim da manhã, surge a informação de que tinha sido avistada uma gaivota-marfim no porto da Nazaré.
O local está, normalmente, fora do radar dos birders Portugueses. Sendo a espécie que é, o anúncio soava ainda mais estapafúrdio. Era impossível. Apesar de me lembrar frequentemente de uma frase de um dos meus professores nesta vida de observador, o João Jara, que é “Aqui não há impossíveis!”, custava mesmo a acreditar.
A fonte era o sítio dinamarquês netfugl.dk, que foi citado no espanhol reservoirbirs.com. Os observadores eram desconhecidos por cá. Jens Röw e Franziska Güpner que, vim a saber mais tarde, eram Alemães, faziam inclusivamente referência a que era já o segundo dia em que a gaivota era observada. Toda a comunidade ficou em sobressalto. Será? Não será? Enfim, a chamada "conversa de chacha". Rapidamente apareceu uma foto  que desfez todas as dúvidas. Estava uma Pagophila eburnea na Nazaré, ou pelo menos teria estado, algures no tempo. Um primeiro registo para Portugal e para a Península Ibérica. "É disto que o meu povo gosta!"

Gaivota-marfim na Nazaré (foto Manuel Lemos)

O coração disparou e o nervoso miudinho instalou-se. E agora?!
Segunda-feira. Estava no emprego novo há relativamente pouco tempo. Pouco mais de um mês. Férias ainda não tinha. Não podia começar já a “gastar” parentes, e dizer que ia ao funeral do primo, da tia. Porque é que não nasci irresponsável?
A conclusão a que cheguei, ainda durante a tarde de trabalho foi a de que iria lá no fim-de-semana. Era um risco gigantesco – de segunda a sábado ainda é uma grande distância - mas, qual era a alternativa? Quando me perguntaram o que iria fazer, foi isso que respondi. “Vou lá no sábado”. Estava decidido.
Mas as coisas não foram assim tão simples.
O Pedro, que estava perto e é quase sempre rápido, foi lá quase de seguida e viu-a logo às 16h. Nem teve de a procurar. O update que fez para a lista raridades só serviu para espicaçar ainda mais os ânimos. Era linda, é um adulto, vale mesmo a pena, vi-a desde as 16 horas até ao pôr-do-sol, blá blá blá. Difícil de ler. A angústia instalava-se.
Cheguei a casa, contei à Sandra. “Vou lá no sábado”, disse.
E continuaram a surgir mails de todo o lado. No dia seguinte ia haver uma “invasão” na Nazaré.


Gaivota-marfim - pose para as selfies (foto Manuel Lemos)

Continuei a falar com a Sandra. “Olha! Vem malta do Algarve.”. “Olha! Vem pessoal de Espanha.” “Vou lá no sábado!”, dizia eu. O Pedro Ramalho ainda lançou, por email, a hipótese de estar lá às 7h e voltar para Lisboa. “Vou lá no sábado”, respondi.
Ao fim de umas horas, ela sai-se com um “Tu tens de lá ir! Eu vou contigo!”.
A verdade é que fizemos rapidamente umas contas e verificámos que, se estivéssemos lá ao nascer do sol e, tendo eu que estar a trabalhar mais ou menos até às 10h, havia uma janela de 30, 40 minutos para tentar ver a ave. Era direto da ave para o trabalho. Afinal era possível. Tinha de acordar por volta das cinco, mas era possível! Ainda por cima, pensei, a gaivota estava logo perto do parque de estacionamento. Ia ser fácil…
Engraçado como o estado de espírito muda em segundos. De repente, desapareceu a angústia e instalou-se a excitação. Mal dormi nessa noite.  


Afinal ela existe - Gaivota-Marfim
o filme possível

Lá seguimos para o destino, numa viagem sem história. Quando chegámos, ainda era noite escura. O Pedro Ramalho já lá estava. “Tomaste juízo!”, disse-me.
Lá foi chegando mais um ou outro carro. Mais um ou outro maluco como nós. A luz começou a aparecer, a pouco e pouco começavam a ver-se os contornos do porto. Mais uns minutos, já se conseguiam ver as gaivotas no porto. Começou a busca. Ao fim pouco tempo já se tinha percebido que o objetivo não estava à vista. Alargou-se a busca a todo o porto. Nada feito. Gaivotas sim, mas não a nossa. Começou a sentir-se o medo no ar. “Querem ver que o bicho já não está cá?”
A busca intensificou-se. Já estariam cerca de vinte pessoas no local. Nem sinal em todo o porto. O desespero começou a instalar-se. Começaram a formar-se grupinhos. Uns foram dar uma volta mais alargada nos arredores do porto, outros foram para a praia do lado sul. Há também o caso do Pedro Nicolau, que resolveu ir verificar todas as mais de mil gaivotas da praia a Norte. Como atleta que é, rapidamente se afastou mais de um quilómetro. Pela minha parte estudei o terreno e resolvi ficar num mini-pontão que existe à entrada. Daí consegue ver-se a entrada e o interior do porto, bem como a praia norte e o cimo da duna da praia sul. "Daqui vê-se a maior área possível", pensei.


Gaivota-marfim (foto Manuel Lemos)
E o tempo foi passando. Já só faltavam vinte minutos para a hora limite em que teria de me ir embora. Nada de gaivota. Do meu posto conseguia ver o pessoal em movimento por todo o lado, quais formigas em pânico. Quinze minutos…
Entra no porto um barquito pequeno com um pescador. Trazia duas ou três gaivotas com ele. Fiquei a olhar para os bichos, sem usar os binóculos. De repente ouço a voz da Sandra, que estava ao meu lado, aos gritos “Está ali! Está ali!”. E estava mesmo. Era uma delas. Lá levei os binóculos aos olhos, e lá estava ela em todo o seu esplendor. Bum!!!!

A chegada do "Pessoal".
O Pedro Nicolau ainda com o pé no ar.
(Foto Manuel Lemos)


Aí começou a parte mais cómica desta história, quando começámos os dois a chamar o pessoal, que estava espalhado. Era vê-los a correr o mais rápido que conseguiam, em desespero. Ao fim de algumas – poucas – dezenas de segundos lá chegaram os primeiros, espavoridos, ofegantes. “Está onde? Mas está à vista? Não vejo!”. É espectacular ver o desenrolar da situação do alto do conforto de já ter o tick no bucho ou under the belt como dizem os Ingleses. O último a chegar foi o Pedro Nicolau, claro. Deve ter batido o recorde nacional dos 1500 metros. Há fotos que mostram precisamente estes dois minutos divertidos. Registo também uma saída espectacular do Pedro Ramalho “#!%&, não sei porque é que este gajo não traz sempre a mulher para estas m**das!”. Leia-se, “Bolas, não sei porque é que este homem não traz sempre a mulher para estes eventos”.
 

A chegada e a alegria da vitória
(Foto Manuel Lemos)
A partir daí foi tudo fácil. Até à hora de saída tirei fotos, filmei, deu para tudo. Foram quinze minutos especiais. A luz não era perfeita, mas já tive muito pior. Há sempre um crítico, como estou sempre a dizer. Resultado final de um a cinco, quatro e meio.
Durante o dia, fui seguindo à distância o acontecimento. Houve um corrupio de gente a ir e vir. O bicho deu show. Até deu para umas selfies.
Resta dizer que a gaivota desapareceu na sexta mais ou menos pela hora de almoço. “Foi vista a sair do porto a boa altitude”, comunicaram. Quem foi lá no sábado saiu de mãos a abanar e até houve quem viesse da Galiza. Fiquei a pensar como é que iria gerir mentalmente a situação, se não tivesse ido lá logo. Teria sido muito complicado. Tive sorte? Exatamente em quê? É daqueles labirintos onde o pensamento entra e de onde nunca mais sai. 

Resta-me agradecer ao Manuel Lemos pelas fotos. Alguém que teve o sangue frio de além da gaivota, fotografar a "invasão".

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Loucura em Loulé

28/12/2017
O Unicórnio Proregulus

Na quarta-feira, 27/12/2017, por volta da hora de jantar, apareceu no ebird uma lista muito estranha. O autor era Sueco, Fredrik Sundberg, e só tinha uma ave. O problema é que a ave era uma Felosa-de-Pallas, praticamente um unicórnio para os birders portugueses. Só existiam duas observações e a última tinha sido há quinze anos, em 2002. Para ajudar à festa, o local era a Fonte Benémola, em Loulé. Não me lembro de alguma vez ter sido vista alguma coisa razoável por lá. Pessoalmente, tinha lá ido apenas uma vez, e pouco vi. O local é bonito, sim, mas aves é que nada. Denso como tudo.
Como é que uma ave espectacular daquelas pode ser observada num local daqueles?



Felosa-de-Pallas (phylloscopus proregulus) - Foto Pedro Marques

Durante essa noite, apareceu também no Facebook um post do mesmo autor referindo a coordenada exacta e a referência de que tinha observado a ave durante dez minutos, em alimentação no "Portuguese bamboo". Não havia fotos. Tratava-se portanto de uma observação SONP (Single Observer No Photo). Visitei o perfil do Fredrik e vi que é biólogo. Por outro lado, no perfil do Facebook as fotos eram sobretudo de peixes. 
Toda esta informação foi debatida por mim e alguns amigos no chat. Será que a ave existia? Tal como era esperado, o pessoal estava muito desconfiado. "O homem é mais peixes!", "Se calhar viu foi uma estrelinha!", foram algumas das frases que apareceram. Eu verifiquei que o Fredrik, para além de ser biólogo, tem um cargo relevante, onde a credibilidade é importante.

Cheirava a esturro - no bom sentido - e eu estava com um pressentimento. O Pedro Ramalho também estava, e referiu logo um memorável twitch a um Corredor em 2013, no Alvor. Nesse caso foi também uma observação estranha de um Inglês. 


Fonte Benémola - A Natureza é muito bonita
(foto Georg Shreier)


Uma das frases que usei foi "Estou com medo!". E estava mesmo com medo que fosse verdade, porque me apetecia ter um dia descansado, a ver aves marítimas em Peniche. Sim, estava a esquecer-me de dizer que a combinação para o dia seguinte era essa. Como observar aves marítimas a partir de terra também não é uma das minhas preferências, saiu-me também o desabafo "Já estou mesmo a ver! Às nove horas sai a notícia e vamos ter de ir a correr para o Algarve. Por que é que que eu me meti nisto?! ". Não me apetecia nada ter um dia assim, de loucura. E se, ainda por cima, não se visse ave nenhuma? O pessoal do Algarve, leia-se o Nuno dos Santos e o Sérgio Correia, iam lá de manhã cedo e logo decidiriam o nosso destino. Enfim, fosse por estar mal disposto ou nervoso ou com um pressentimento, dormi mal. Apenas umas quatro horas no máximo. 


 Vídeo da felosa, que fiz no local.
(A foto inicial é do Pedro Marques)
#canaldoxofred

No dia 28,  lá seguimos para Peniche eu, o José Frade o Pedro Nicolau e o Bruno Herlander Martins. Fui mal disposto o caminho todo. Já estava a adivinhar nos astros o que iria acontecer.
Por volta das 8h, já estávamos a olhar para o mar. Aquilo estava razoável. Airos, uma mobelha-grande, um moleiro-pomarino. Nove horas e pouco. O Pedro Reuters Ramalho não tinha notícias positivas. Parecia que não havia ave. "#$%! Foi a primeira boa notícia que tive desde ontem à noite! ", saiu-me.
Resolvi contactar directamente o Nuno, no Algarve. A resposta foi rápida. "A situação é a seguinte..." Ui!!! A situação é a seguinte é logo uma frase complicada. Por um lado é indefinida, por outro mostra que há uma "situação". O meu coração já estava aos pulos. Mensagem seguinte, "99,999% de certeza, mas só vimos a ave por breves instantes". Está feito, pensei, tenho de ir para o Algarve. O destino já estava selado desde o dia anterior e o Destino é poderoso. "Não consigo contactar o Pedro Ramalho", disse ainda o Nuno. Lá me levantei do lugar e fui falar com o Pedro.
-Então não tens nada aí no telemóvel? - perguntei.
-Estou sem rede...
-‎Fala lá com o Nuno.
Resumindo, a situação acabou por se definir, ou indefinir, da seguinte forma:
O Sérgio tinha quase a certeza de ter ouvido o chamamento e o Nuno tinha uma foto escura onde pouco se via. A ave tinha sido observada por breves instantes, sem permitir conclusões definitivas. Além disso, também se falou que tinha sido vista uma inornatus.
Ou seja, o cenário tinha risco. Não era um tiro no escuro, mas era um tiro no lusco-fusco.

Do grupo que estava em Peniche, cerca de dez pessoas, houve quatro destemidos, ou loucos, como se queira chamar, que decidiram arriscar. Pela minha parte depois de espernear um pouco comigo próprio, lá resolvi aceitar o Destino. Não havia mais nada a fazer. Ficava em Peniche a fazer o quê?


Felosa-de-Pallas - é kiduxa ou quê ?
(foto Pedro Nicolau)
Despedimo-nos de quem ficou e seguimos para baixo. Eu, o Pedro Ramalho, o João Tomás e o Pedro Nicolau. No caminho contactámos o Pedro Marques, que estava na Ponta da Erva, onde reside. Pelos vistos ele tem um fetiche pela Proregulus e nem hesitou. "Sim. Quero ir!". Combinámos encontro em Loures e seguimos cinco para baixo. Já ia no quarto carro do dia. Lisboa-Loures no meu, Loures-Peniche no do José Frade, Peniche-Loures no do Pedro Ramalho e de Loures para baixo no do Pedro Marques.
Na viagem para baixo, temos já a tradição de ter de falar nos mesmos temas, e parar na mesma área de serviço. Não se pode ir contra a tradição, e nós cumprimos. Retenho uma frase do Pedro Ramalho:
-Isto vai ser mítico, quer vejamos ou não a ave!
É verdade. Mítico, sim, mas com ave a viagem para cima faz-se melhor, digo eu. Lembro-me de dizer que estava optimista, e que quando estou optimista - o que é raro - normalmente acabamos por ver a ave, com mais ou menos esforço.
A expectativa na Net crescia. Ainda íamos a caminho e já havia gente a perguntar novidades. 
Chegámos finalmente ao local, onde encontrámos o Nuno dos Santos e o Georg. Ainda não eram 13h. Da ave nem sinal. Que surpresa!
Lá começou a espera. Como a área é muito fechada, há poucos locais com alguma visibilidade. Um deles é um pequeno açude onde a "ave" teria sido observada de manhã. Foi aí que resolvi concentrar o meu esforço. Lembro-me de ter dito, pelo menos ao Nuno dos Santos, "Para mim, é aqui! Só aqui é que se vê alguma coisa." E fiquei quase todo o tempo por ali. 
Pouco se via. Fosse pela hora do dia, ou por a área ser densa, as aves não apareciam. Mesmo sons, ouviam-se poucos. Como quem espera, desespera, o pessoal começou a espalhar-se pela zona, investigando outros locais. Aqui, ali, acolá, teorias para aqui, teorias para ali. A ave é que nada.


Felosa-de-Pallas - Foto Pedro Marques

Passado umas horas, o pessoal já começava a falar em fracasso. O Georg resolveu ir andando. Por volta das 15h45, resolvi ir investigar o local onde a ave teria sido vista originalmente, a cerca de 200m. "Como ontem foi vista aí às 16h, pode ser que hoje apareça outra vez às 16h", pensei. Estive por lá um bocado e nada. O dia estava perto do fim. Resolvi ir para perto de uma casa abandonada, onde também se tem um bom ponto de vista sobre o local. Pelo menos sempre se via a natureza, que é muito bonita. 
Estava lá com o Pedro Marques e pouca coisa  se mexia. Às 16h35 toca o telefone. "Pedro Ramalho", dizia. Confesso que a única coisa que me passou pela cabeça foi "estão fartos, querem ir-se embora". Mas não! A voz do outro lado da linha só disse "Corre!!!!". Onde é que já tinha ouvido isto?
E lá fui eu e o Pedro Marques a correr, ou no meu caso a fingir que corria, com o telescópio na mão. Foram uns duzentos metros dramáticos. Cheguei ao açude a ofegar e a pensar que era desta que o joelho tinha ido desta para melhor. O certo é que,  quando cheguei, estava lá toda a gente e a ave tinha desaparecido há uns dez segundos. Contaram-me que tinha aparecido qualquer coisa na árvore do lado esquerdo e que o João Tomás  começou a gritar "É ela!!! É ela!!! É ela!!!".

A "Árvore" (foto Pedro Ramalho)

Fosse como fosse, eu não a estava a ver. O Pedro Marques, que tinha chegado uns segundos antes de mim também nada, ou quase nada, viu. O drama, a dor intensificavam-se. O Pedro Nicolau disse-me mais tarde que a minha cara dizia tudo. Foi ele que, passado menos de um ou dois minutos, decidiu explorar a zona por detrás das canas, do lado direito, para onde ela tinha desaparecido. O João Tomás acompanhou-o. 
 
Felosa-de-Pallas - Detalhe da lista central da cabeça e uropígio dourado
(foto Pedro Nicolau)

Pouco depois, ouve-se a voz dele lá atrás "Foi agora para as canas, na vossa direção!". Mais uns segundos e vê-se uma ave a voar para a árvore do lado esquerdo. Era ela ou, pelo menos, era uma ave pequena. Confesso que só descansei quando lhe consegui ver a lista central na cabeça. Quando disse "Têm a certeza? Ainda não vi a lista central nem o uropígio amarelo", o pessoal quase que me bateu. Mas eu sou assim, ver para crer. E vi e, finalmente, acreditei. 
O bicho ficou contente por nos ver e ficou por lá mais de meia-hora. Fotos, vídeo, foi um fartar, vilanagem. Até houve logo gente que começou a fazer fotos dos observadores e posts mete-nojo no Facebook. Quando dissemos que íamos embora, a ave ainda estava à vista. Há dias assim. 

 
Uma das fotos usadas num dos posts mete-nojo do dia.
(Foto do visor da máquina do Pedro Marques)


 Fomos para Lisboa de barriga cheia. Lembro-me que o Pedro Ramalho disse, e com razão, que se eu não tivesse visto a ave, não queria ir para cima no carro comigo. Podia ter acontecido, e eu estava preparado psicologicamente para isso. Neste caso não era merecido mas, só não acontece a quem fica em casa.
Na viagem tive também oportunidade de agradecer pessoalmente ao Fredrik, que ficou impressionado com a nossa odisseia. Teve a amabilidade de me enviar a história da sua descoberta, que complementa na perfeição esta crónica. Alguém que acreditou em si próprio e que, mesmo não tendo evidência, teve a coragem de divulgar rapidamente o que tinha observado, procurando e usando os canais mais adequados. Ele sabia que era uma ave importante. 
Aqui está a sua história, em Inglês: 
(AVISO: Tem algumas frases cómicas)


Felosa-de-Pallas (foto Pedro Nicolau)

I found the bird during a short treck after doing some shopping with my family whom I am visiting just for the holidays. All for the sake of letting the dog out on a walk. I already left cellphone and camera at home since I didn't need it going shopping. Binoculars is always with me though. I'm the only one in the family who care about birds.

During the track, the bird appeared like 5 meters from the road. I was sure it was a firecrest before looking closer. Firecrests are somewhat rare in Sweden so i was pretty sad when i saw it was not a firecrest. But, as I watched the bird I realised quickly that this was a bird I've seen once in Sweden, a Pallas. I recognized the mid head stripe and the yellow rump that I learned are the unique features of the bird. The bird was hoovering in front of my face time after time after time for 10 minutes. There could not be any doubt in my heart that this was a Pallas.
I know this is a Asian bird and knew it does not belong in Europe. It appears 10-20 times every year in Sweden and my main thought is that the bird is probably even less rare in Portugal since I saw it on my 4th day in the country - before even seing a firecrest. I made an eBird account and reported it, in case some local wanted to go there and confirm it.
Out of curiousity i wanted to know how many times it has been seen. When I found out in an article from 2015, it has only been seen two times in Portugal, I panicked and I did everything I could to reach out to the community.
I was completely restless until the point when someone finally said they saw the bird and got good evidence. 

This has been the most epic and thrilling birding experience in my life.
 
Thanks to all the portuguese birders who took the words of a stranger for serious! This has been so much fun and made my journey to Portugal unforgetable. 


O Pessoal a trabalhar... (foto Pedro Ramalho)
Resta-me agradecer ao Pedro Marques, Pedro Nicolau, Pedro Ramalho e Georg Shreier pelas fotos. Agradeço também a todos os que lá estiveram a excelente companhia num dia memorável.


 







sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Algarve 2017 - Parte IX - A Ressaca

08/10 Sagres
A Ressaca e a Despedida

Último dia de férias.
Depois de três semanas de "trabalho" quase seguidas, apenas interrompidas por três dias de trabalho, a moral não era a melhor. Já só faltava meio dia. A seguir ao almoço ia para Lisboa. Quando cheguei à Cabranosa estava claramente a pensar na vida. Mais tarde, o Carl Hawker mandou-me umas fotos da chegada ao posto, que confirmam essa ideia.


Ógea (falco subbuteo)

Neste caso estava, não com o "síndrome de domingo à noite", mas com algo muito mais grave. Parecia mais como a véspera do regresso às aulas depois das férias grandes.
Como era também o último dia do Festival, vivia-se um ambiente de fim de festa, com o pessoal a despedir-se e seguir viagem. Dos portugueses, o que conheci que tinha feito mais quilómetros foi o Vitor Correia. Ponta Delgada ainda é longe, sobretudo se formos a pé e, mesmo de carro, é complicado. Tenho de lá ir ver os Priolos e os meus primos, pensei eu quando o conheci.



A pensar na vida... - foto Carl Chaitanya Hawker

Não passou nenhuma raridade, mas viu-se uma ógea muito perto, mesmo por cima de nós, um abutre-do-Egito, um cyaneus, uma pesqueira, um açor, um pernis. Enfim, o dia foi-se fazendo.

Britango (Neophron percnopterus)

Dessa manhã, guardei no coração as palavras do Rui Eufrásia, que conheci há uns anos nos Salgados. “Frederico, vais-te embora? Isto aqui sem ti não é a mesma coisa!”.

Até já, Algarve!
A seguir ao almoço, lá segui para a minha terra.

Epílogo

Já em casa, no domingo à noite, o Lars publica no meu post do dia anterior:
"Finalmente  um dia sem a série mete-nojo!"
Ao que o Mathias respondeu:
"... chiuuu!!!! o dia ainda não acabou, ainda faltam 58 minutos para acabar o dia!!!!"



Os posts mete-nojo tinham feito história, e até já tinham seguidores...