sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Algarve 2017 - Parte IX - A Ressaca

08/10 Sagres
A Ressaca e a Despedida

Último dia de férias.
Depois de três semanas de "trabalho" quase seguidas, apenas interrompidas por três dias de trabalho, a moral não era a melhor. Já só faltava meio dia. A seguir ao almoço ia para Lisboa. Quando cheguei à Cabranosa estava claramente a pensar na vida. Mais tarde, o Carl Hawker mandou-me umas fotos da chegada ao posto, que confirmam essa ideia.


Ógea (falco subbuteo)

Neste caso estava, não com o "síndrome de domingo à noite", mas com algo muito mais grave. Parecia mais como a véspera do regresso às aulas depois das férias grandes.
Como era também o último dia do Festival, vivia-se um ambiente de fim de festa, com o pessoal a despedir-se e seguir viagem. Dos portugueses, o que conheci que tinha feito mais quilómetros foi o Vitor Correia. Ponta Delgada ainda é longe, sobretudo se formos a pé e, mesmo de carro, é complicado. Tenho de lá ir ver os Priolos e os meus primos, pensei eu quando o conheci.



A pensar na vida... - foto Carl Chaitanya Hawker

Não passou nenhuma raridade, mas viu-se uma ógea muito perto, mesmo por cima de nós, um abutre-do-Egito, um cyaneus, uma pesqueira, um açor, um pernis. Enfim, o dia foi-se fazendo.

Britango (Neophron percnopterus)

Dessa manhã, guardei no coração as palavras do Rui Eufrásia, que conheci há uns anos nos Salgados. “Frederico, vais-te embora? Isto aqui sem ti não é a mesma coisa!”.

Até já, Algarve!
A seguir ao almoço, lá segui para a minha terra.

Epílogo

Já em casa, no domingo à noite, o Lars publica no meu post do dia anterior:
"Finalmente  um dia sem a série mete-nojo!"
Ao que o Mathias respondeu:
"... chiuuu!!!! o dia ainda não acabou, ainda faltam 58 minutos para acabar o dia!!!!"



Os posts mete-nojo tinham feito história, e até já tinham seguidores...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Algarve 2017 - Parte VIII - Necas, O Alfaneque

07/10 Sagres 
O Meu Amigo Necas


Sábado de Festival, penúltimo dia de férias. A “luta” começou no Cabo de S. Vicente, à procura do Sula. Nada feito. Este Sula do Sul não queria nada connosco. Resolveu aparecer no domingo, precisamente quando decidi que não valia a pena ir ao Cabo outra vez. Os bichos são tramados…


Necas - O Alfaneque (Falco biarmicus) - foto Pedro Nicolau


Fomos para o sítio do costume. Estava muito mais gente do que era habitual. O elemento da Strix nesse dia era o meu amigo Pedro Nicolau. Mal me vê, dispara logo “Eh pá, Fred, tu és o ***** da Cabranosa!” - leia-se “o sortudo”. “Vens cá um dia, sacas a Pomarina, vens cá noutro sacas os Rüppel mais o Macrourus, bolas, Fred!”. A fama já me perseguia…
Lá começámos a trabalhar, ou “trabalhar”, como se queira. Olha para aqui, olha para ali. A Sandra fartou-se e disse que ia descansar para uma sombra qualquer.
Nisto, vejo passar por um intervalo da sebe um falcão. Nos três ou quatro segundos que lhe consegui colocar a vista em cima pareceu-me grande, tipo peregrino, mas tinha a cabeça estranhamente clara. Não percebi o que era. Ainda gritei para o Thijs Valkenburg, que também estava por lá, para olhar para a zona. Ele disse-me que só o viu um segundo ou menos, e que também não tinha conseguido perceber o que era. Como ia baixo, desapareceu atrás da sebe e deixámos de o ver. “Era um peregrino!”, pensei.



Alfaneque (Falco biarmicus)
Aqui o bicho já estava mais longe...


Entretanto, apareceu mais um dos muitos grupos que andava por estas bandas, no caso da Limosa, guiado pelo Robin Chittenden, que eu não conhecia. Veio falar connosco meio nervoso, a dizer que ele e o grupo tinham visto no início da sebe um falcão grande com as partes superiores acastanhadas. Perguntou se, por acaso, nós teríamos visto essa ave. “Um falcão esquisito?” – pensei – “Não vimos.” – respondi. Nem me lembrei do “peregrino” esquisito dessa manhã.
Mais uma volta ao bilhar grande, aparece um grupo que participava numa atividade do Festival, guiado pelo Bruno Herlander Martins. O Bruno é um observador que é sempre referido no meio como tendo sorte. "Toda a gente" sabe isso. A Cabranosa estava quase lotada. Sem aviso, sem pedir licença, como um relâmpago, aparece um falcão na área. Reparei que tinha a cabeça clara. Era o tal “peregrino” esquisito. Ouve-se a voz do Bruno “E porque é que isto não é um Alfaneque? E porque é que isto não é um Alfaneque? Alfaneque!”. Era mesmo! Era um Alfaneque. O bicho era rápido mas, com calma, ainda consegui fazer umas fotos de registo. Houve fotógrafos que conseguiram fazer boas fotos. Confirmadíssimo! A festa na Cabranosa estava ao rubro. O Pedro Nicolau ligou logo para o Pedro Ramalho – a Reuters do birding português - com a notícia. Ainda por cima confidenciou-me que interrompeu a chamada com um “peraí, agora não posso falar mais. Alfaneque! Alfaneque!”. A crueldade humana não tem limites. A adrenalina só desapareceu passado umas horas.

Alfaneque (Falco biarmicus) - foto Pedro Nicolau
 
Tudo a ver o Necas... - foto Vitor Correia


Durante a tarde, o macrourus voltou a aparecer. Também tu, Circus? Era mais um dia triunfal. Duas rapinas-raridade dois dias seguidos? Pelos vistos é possível. 


Tartaranhão-pálido (Circus macrourus) - foto Pedro Nicolau

Até tive direito a um café expresso, que a Sandra me trouxe a seguir ao almoço. Deu para tudo!
Para terminar o dia em cheio, já só faltava o “post mete-nojo”. Foi aí que nasceu o meu amigo Necas, o Alfaneque. Os posts já tinham nota artística.

Café na mão esquerda, binóculos na direita (Pedro Nicolau ao fundo) 
foto Carl Chaitanya Hawker

"Finalmente um dia razoável, apesar de ser à custa de muito trabalho.
O macrourus lá se dignou a ser fotografado. E, claro, não podemos esquecer o amigo Necas, o Alfaneque que resolveu aparecer na festa.
Até deu para descontrair um bocado e beber um café expresso muito saboroso. Finalmente a Cabranosa começa a ter condições mínimas.
Amanhã continuamos na luta."


Desta vez houve gente que explodiu. Mais uma vez, o comentário de que mais gostei foi o do Matthias:

£®∆π-5&!!!!!! Mais um post como este e faço a desativação temporária da minha conta no Facebook até terminar a tua comissão de trabalho em Sagres!!!!!!


Deixo aqui um agradecimento ao Pedro Nicolau, ao Vitor Correia e ao Carl Hawker pelas fotos.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Inaudita Pelágica de Dezembro

03/12/2017
Técula e Selfie, mais dois novos amigos

Este ano, a habitual pelágica organizada pela SPEA foi sofrendo adiamento atrás de adiamento devido ao mau tempo. Ao longo dos anos, fui aprendendo que este negócio das idas ao mar não é nada fácil. Finalmente, dia 3 de Dezembro, os astros lá se alinharam e a saída aconteceu.
Entre participantes, organizadores e tripulantes, o barco levava menos de vinte pessoas. Número pequeno para um barco enorme e com excelentes condições para a observação, e para ver a natureza que, tal como estou sempre a dizer, é muito bonita.

Alcatraz-pardo (Sula leucogaster)

Quase todos os presentes eram habituais das pelágicas e observadores experientes. Experientes o suficiente para saber, por exemplo, que com a náusea não se brinca. Quem brinca e não toma a droga do costume, Vomidrine, acaba quase sempre por sofrer as consequências. Em rigor, isso até é bom para a expedição no seu conjunto, uma vez que significa mais engodo para as aves.
Outra questão é o mês de Dezembro propriamente dito. Normalmente o mar não permite sair. Por outro lado está frio e, por último, há menos aves. Ou, pelo menos, é o que se diz. Por tudo isto, não se realizam pelágicas em Dezembro. O que iria resultar de tão ousada aventura?
No meu caso levei cinco camadas de roupa em cima e três pares de calças por baixo. Barrete e luvas. Mal conseguia levantar os binóculos ou mexer na câmara. Mas enfim, antes ter calor do que frio, é o lema que tento aplicar nestes casos.
Pouco depois das sete da manhã, saímos do porto. Frio, mas não muito, ondas assim-assim. Para animar a malta, o Pedro Ramalho disse logo "Não vamos ver nada!".

Papagaio-do-mar (Fratercula arctica) - foto Pierre Lemos Esteves

Como fui com a esperança de ver um papagaio-do-mar, fiquei a pensar na frase. Apesar de tradicionalmente pessimista, optei por continuar a acreditar que tinha possibilidade de ver esse bicho, que já me tinha fintado algumas vezes em Peniche. De qualquer maneira, dentro do barco já estava. Era melhor pensar que estava lá a fazer alguma coisa.
Fomos diretos aos Farilhões. Na primeira hora pouco se viu. Gaivotas, claro, e pouco mais. Uma pardela-balear, um ou outro alcatraz, um skua e um alcídeo sp, que foi anotado como uma provável torda.
Chegados ao primeiro objectivo, esquadrinhámos cada metro das falésias à procura de algo diferente. Um Oceanodroma Castro, por exemplo. Ou talvez o Alcatraz-pardo, o Sula que tem sido regularmente visto por lá. Nada de nada. Comecei a pensar que se calhar o Pedro tinha razão. 
Passámos os Farilhões e seguimos para mais longe, para perto da auto-estrada dos cargueiros. As coisas continuavam muito calmas. A dada altura, estava sentado à frente, com o Pedro Nicolau ao meu lado. Vemos três "mosquitos" a passar ao longe. Eram alcídeos. "Parecem-me tordas!", disse eu. O Nicolau permaneceu em silêncio e limitou-se a apontar e disparar. É um dos mais rápidos que conheço a fazer esse gesto. Uma espécie de Lucky Luke da fotografia. Acerta quase sempre no alvo e, neste caso, também acertou. Quando vamos ver as fotos no monitor da máquina, ele diz-me:

Os três "mosquitos" que eram tordas, que afinal eram papagaios-do-mar 
(foto Pedro Nicolau)

-Eh pá, acho que são papagaios!
-Papagaios? Vê-se mal. - digo, eu.
Dito isto, virámo-nos para trás, para mostrar a foto ao Pedro Ramalho. Estava já ele a dizer:
-Papagaios? Olhe que não! Olhe que não!
Vê a foto de seguida e diz:
-Olhe que sim! Olhe que sim!
Olho outra vez para o monitor e lá vejo o colar em duas das três aves. Eram mesmo.
Não sei se mais alguém além de nós dois viu esses três mosquitos. Pelo menos as caras indicavam que não. Entre os nossos gestos de regozijo e expressões de alegria o Nicolau deixa escapar um "Estavas sentado ao lado do gajo certo!". E estava. 
Objetivo cumprido! Virei-me para trás, para o capitão e disse:
-Chefe, por mim está feito! Pode voltar para trás!

Técula, o Fratercula (foto Pierre Lemos Esteves)

Ao fim de mais de oito anos lá vi o meu primeiro Fratercula arctica em Portugal. Há coisas piores...
O episódio também serviu para perceber duma vez por todas que isto das pelágicas é fotografar - Nicolau dixit. Quando os problemas de identificação apertam, o melhor é ficar com evidência, em vez de andar com a "conversa da treta" do "acho que" e do "tenho quase a certeza que".
O dia estava feito e ainda eram nove da manhã. Agora era só desfrutar...
Passado uns dez ou quinze minutos começam a aparecer papagaios e mais papagaios, para alegria de todos. Não há fome que não dê em fartura. Baptizei o que apareceu mais perto de Técula, o Fratercula. Deu para a foto, mas é como digo, "há sempre um crítico". Houve alguém que disse que o bicho apareceu sempre do lado errado do barco, esteve sempre de costas, etc. Pobre Técula.

Rissa Tridactyla (foto Pierre Lemos Esteves)

No total da pelágica, entre grupos, grupinhos e indivíduos devemos ter visto para aí uns vinte e tal. Começaram também a aparecer rissas, primeiro uma ou outra, mas depois em alguma quantidade. Até uma jangada de vinte acabámos por avistar ao longe.
Já quem esperava ver um airo não teve tanta sorte. De alcídeos, "só" papagaios e a tal sp inicial, que podia ser uma torda, mas também podia ser um papagaio. Temos pena!
O engodo não funcionou muito bem, mas ainda vimos um painho de cada, no caso um Oceanites e um Hydrobates.
Golfinhos, viram-se muitos. Alguns vieram investigar o barco em detalhe. A maioria golfinhos-comuns, mas as estrelas foram os golfinhos-riscados que resolveram fazer uma breve aparição. O Nicolau, mesmo com os nervos de estar a ver uma lifer, ainda os conseguiu apanhar. "Mais rápido que a própria sombra!", não é o que diz na contracapa? 

 
Golfinho-riscado (foto Pedro Nicolau)

Fomos regressando, tendo como objetivo passar nas Estelas e tentar encontrar o tal sula que nos andava a fugir.
Lá chegados, tirei umas fotos à paisagem. Ainda não tinha acabado a última há um minuto, já estávamos rodeados de gaivotas. Ouve-se a voz do Pedro Ramalho, "Olha o gajo ali!". Lá estava ele, no meio das gaivotas. Veio com elas investigar o barco e já não nos deixou. Começámos a largar sardinhas. O bicho dava uma volta ao barco e vinha apanhar o peixe, sempre perseguido pelas gaivotas. Cada volta, cada sardinha. E a vocalização é  muito cómica.

 Sula leucogaster ataca as sardinhas e grasna
(Vídeo smartphone - João tomás)

Ao fim de uns minutos, lá resolveu pousar numa ilhota. Fomos ter com ele e o espetáculo repetiu-se. Sai sardinha, volta ao barco, vocaliza, come sardinha, foge das gaivotas, volta ao barco. Sei que houve fotógrafos que nem tinham distância suficiente para conseguir focar. O Pierre, com o seu canhão, por exemplo. 

Selfie, o Sula (Sula Leucogaster)

Quando resolveu voltar a pousar, parámos com as sardinhas. O sula era tão simpático que até deu para as selfies. O João Tomás veio mostrar um vídeo que fez com o telefone (!). Realmente, às vezes é mesmo tudo ou nada. 
Foi assim que arranjei um novo amigo, Selfie, o Sula.

Nós e o Selfie lá ao fundo (foto Pedro Ramalho)

Melhor era impossível. Um regresso de barriga cheia, que terminou no café com um excelente convívio.  
Foi um dia mítico, como diria alguém. Afinal sempre se vê qualquer coisa em Dezembro...


Selfie, o Sula (foto Pierre Lemos Esteves)
Resta-me agradecer ao Nuno Oliveira e à SPEA, pelo passeio, e ao João Tomás, Pierre Lemos Esteves, Pedro Nicolau e Pedro Ramalho pelas fotos e vídeo.  Por último, a todos os participantes pela excelente companhia.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Algarve 2017 - Parte VII - Já não se pode estar descansado!

06/10 Sagres
Pomarina parte 3

Sexta-feira, dia de trabalho, “trabalho” e de Festival.
O dia começou no Cabo de S. Vicente. Tinha aparecido um Sula leucogaster no dia anterior. Estivemos lá até às 9h30 e não houve sula para ninguém. No Cabo recebi notícias de uma inornatus em Sagres, nos jardins de um hotel. Porque não passar por lá? Resumindo, nem sinal da inornatus. Onde andava a onda?
 
Águia-pomarina

Segui para a Cabranosa. Não estava lá há muito tempo quando surge a notícia de que o Thijs tinha visto uma Pomarina perto do forte do Beliche, mas muito alta. Vim mais tarde a saber que afinal foi o Vasco Flores Cruz que a viu e o Thijs que a identificou – whatever. Mais uma? Imediatamente avisei alguns amigos do norte - Paulo Ferreira, António Martins e o Samuel Patinha - que andavam algures a ver a Natureza - que é muito bonita - para virem rapidamente para o posto. Eles e outros tantos vieram o mais rápido que conseguiram. A verdade é que, na Cabranosa ninguém logrou pôr a vista em cima do bicho. O tempo foi passando, minuto após minuto. O ambiente ficou ainda mais pesado quando o João Tomás e o Paulo Belo trouxeram a notícia de que, quando estavam no estacionamento, a 100 metros de distância, tinham visto bem a águia, juntamente com um peneireiro-cinzento. Parecia impossível. Tantos olhos por ali e ninguém tinha conseguido ver nem a águia nem o peneireiro. Verbalizei o que estava a pensar e o resultado foi que o Filipe Canário, que estava de serviço nesse dia, me repreendeu a dizer que há muitos anos não tinha a pretensão nem a arrogância de conseguir ver todas a aves que passam num dia num determinado local. Eu também não tenho nada disso, mas lá que parecia estranho, parecia.

Abutre-do-Egpito juvenil

Mas quem estava a sofrer – não era o meu caso - não teve de esperar muito. Passado nem meia hora, começou a ver-se um “mosquito” ao longe. Passaram uns longos segundos até que se ouve a voz do Filipe Canário. Disse qualquer coisa do género “Até pode ser, mas não quero ficar muito nervoso sem razão”. Mais uns segundos, o mosquito já era uma mosca. Por mim já estava confirmado. Ouve-se de novo a voz do Filipe, “têm as câmaras preparadas?”. A  Pomarina tinha resolvido voltar para trás e fazer uma passagem mesmo por cima do posto. Não foi muito perto, mas deu para a foto e tudo. A minha terceira observação de Clanga pomarina em Portugal, e tudo no espaço de uma semana. Isso sim, é que parecia impossível.  Saiu quase de imediato um post no Facebook “Directly from the field part 2” com uma foto da águia. Os "posts mete-nojo" estavam de volta.




O dia não acabou sem aparecer um tartaranhão-pálido. Um macho. As cunhas pretas nas asas bem nítidas, o voo delicado. Espetacular! Adoro este bicho. 

 
Tartaranhão-pálido (Circus macrourus)

Duas rapinas-raridade num dia. Estávamos claramente na twilight-zone, ou na “zona do lusco-fusco” em Português. Onde é que isto iria acabar? 
Nessa noite escrevi:

"Pois já não sei bem o que dizer.
Mais um dia se passou, pouco ou nada de jeito se viu por cá.

Uns abutres-do-Egipto juvenis com plumagens esquisitas, uma cegonha-preta ou duas e, vá lá, um macrourus, mas muito longe. Nem deu para a foto. Ah! Quase me esquecia de dizer que passou uma Pomarina outra vez. Já não se pode estar descansado.
Amanhã continuamos na luta."

Não sei porquê, sentia que as férias ainda tinham qualquer coisa para dar. “Amanhã continuamos na luta”.


 

sábado, 25 de novembro de 2017

Como ajudei o Big Year WP 2017 em Lisboa

Como ajudei o Big Year WP 2017 em Lisboa


Na 4a feira 22 de Novembro, a equipa sueca fez um convite via Facebook aos birders lisboetas. Qualquer coisa como:

"Estamos cá para a vossa Felosa-sombria.... Apareçam lá em casa 5a à noite que nós fornecemos o vinho e os snacks."


Quem me chamou a atenção para o convite foi o meu amigo Pedro Ramalho. Confesso que ao longo do ano não tenho seguido com grande detalhe as aventuras deles. Fui vendo um post aqui e ali. Contudo, a curiosidade acabou por falar mais alto e decidi aparecer. Era uma oportunidade única de conhecer os futuros recordistas. Do gigantesco universo de observadores lisboetas apenas compareci eu, o Pedro Nicolau e um amigo dele, o Manuel, um birder madeirense.

Foi um serão muito bem passado, onde se falou de muitas histórias, deles e nossas. Com muitos copos à mistura, e onde acabei até por me aperceber que já tinha visto há uns anos um dos elementos, o Mårten Wikström, em Sagres. Ele esteve por lá numa campanha da Strix.



Mais para o final, acabou por vir a lume o facto de terem falhado a fuscatus nesse dia. "Estava a chover, não temos sorte nos twitches", bla bla bla. Quando se falha, a lista de lamentações é sempre bastante extensa. Falo por experiência própria.

Como a partida para as Canárias seria só no dia seguinte ao fim da manhã, eles ainda tinham uma pequena janela para ir a algum lado antes.
Discutimos em conjunto as alternativas, que eram quatro, pelo menos à luz do discernimento que ainda tínhamos depois de uns copos valentes. 


-Deixar a preguiça funcionar e não fazer nada.
-‎Ir para o Campo Grande tentar ver periquitões.
-‎Ir a Sesimbra tentar encontrar a Larus Smithsonianus. Aqui convém referir que teriam apenas uma janela de 40 minutos ou menos.
-‎Tentar outra vez a Fuscatus de 38 Moios. 


Deu para perceber que não estavam de acordo em relação à melhor alternativa, e nem sei bem se havia uma no topo das preferências. Uma coisa é certa, a última hipótese não era de certeza. Tinham saído de lá nesse dia bem molhados e frustrados. O Claes estava completamente contra.

Aí, eu e o Pedro Nicolau demos a nossa opinião, que coincidia. "Se estivesse no vosso lugar, ia outra vez à Fuscatus". Para nós parecia lógico por várias razões, mas a verdade é que só depois de algum tempo é que eles começaram a considerar essa hipótese.
"Se forem ao nascer do sol terão boas hipóteses, porque conheço alguém que já a viu várias vezes nessa altura" , disse eu. "A ave ainda lá está", disse o Pedro.



Estavam a ficar convencidos. Percebi isso quando começaram as perguntas.
"Então mas como é que entramos? O portão só abre às 9 horas", pergunta um. "Têm de ter cartão. ", respondi.
"E onde é que arranjamos isso?"
"Eu tenho um e está ali na minha carteira". Vi-os subitamente a arregalar os olhos e a aumentar o interesse. Parecia o Destino. "Posso emprestá-lo, mas têm de mo devolver amanhã".
"Nos somos credíveis. Podes confiar!" disse o Claes. Confesso que lhe entreguei o cartão a pensar que era a última vez que lhe punha as mãos em cima.
Quando me despedi, desejei-lhes boa sorte e fiquei com aquele nervoso miudinho que tenho sempre que vou tentar ver uma ave. Quase parecia que era eu que lá ia.

No dia seguinte, pelas 9 horas, ao chegar ao trabalho o trânsito estava infernal, devido a um camião avariado mesmo à porta da empresa. Mandei-lhes uma mensagem a dizer para terem cuidado com o trânsito e a resposta veio de seguida. "Já aí deixamos o cartão, e vimos o bicho! Graças a vocês temos a fuscatus!".


"Hi! We already returned the card. And we saw the Warbler!!!
Thanks a million for the help. Thanks to you we got the Dusky!" 


Lindo! De certeza que não fiquei tão feliz como eles, mas fiquei muito contente. Era quase como se fosse uma lifer das minhas. Os conselhos e a ajuda acertaram "na mouche", como disse o Pedro Nicolau.

E foi assim, quase por acaso, que escrevi uma linha naquela aventura Sueca. Afinal parece que sempre havia uma razão para ir àquele apartamento no meio de Lisboa.
Mais uma história para as memórias.

Link do blog do Big Year WP 2017 com a história:
http://www.bigyearwp.com/index.php/2017/11/25/dusk-in-lisbon/


Resta-me, finalmente, agradecer ao Erik, Mårten e Claes por me terem recebido com tanta simpatia na minha cidade. Um grande abraço e boa sorte!



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Algarve 2017 - Parte VI - Regresso com Rüppel

05/10 Sagres
O Regresso com Rüppel

Após um interregno de três dias em Lisboa, voltámos a Sagres para o Festival.


Grifo-de-Rüppel

Este fim de semana grande no Algarve já estava previsto, mas com o objetivo Pomarina em mente. Com a observação de dia 28/09 e de 29/09, o objetivo foi mais do que alcançado. Confesso que não senti grande interesse em ir para Sagres “apenas” para o Festival. Contudo, a Sandra continuou a achar que era uma boa ideia e nem foi preciso grande conversa para decidirmos que mantínhamos o plano. Para o Sul e em força!
Fomos para baixo sem stress nem o “sangue nos olhos” de querer ver uma ave em especial.



Dia 5 de manhã lá estava eu na Cabranosa. Where else?

Águia-cobreira

Feriado e dia de festival significa “muita” gente. Pelo menos para o país onde nos encontramos.
Como sem stress é mais fácil, foi mais um dia em cheio. Pouco tempo depois de chegar ao posto, passa um pequeno bando de cerca de duas dezenas de grifos com dois Rüppel no meio. E esta, hein?! Quarta observação da espécie em Portugal! E sem dificuldade nenhuma. Normalmente, em Sagres, os Rüppel aparecem misturados em bandos de centenas de grifos, o que não foi, de todo, o caso.

Onde está o Wally?

Para ajudar à festa, ainda se viu uma águia-imperial, uma Bonelli, uma pesqueira. A meio do dia ainda deu para uma pelágica, onde se viram muitos painhos muito perto, uma pardela-preta ou duas e uma sterna que ainda nos deixou a pensar - mas que era uma hirundo - entre outros suspeitos do costume.



Alma-de-mestre
É cavalgar a onda enquanto ela dura…

No post dessa noite, a conversa do costume:

"Depois de três dias de interregno, voltei ao trabalho.
Mais uma vez foi complicado.

Dois grifos-de-Rüppell muito misturados com os outros grifos. Muitos painhos, mas todos muito rápidos. Uma Imperialzita. E pouco mais.
Mais um dia para esquecer..."




Houve alguns comentários, mas o destaque vai para um do Matthias, que me fez rir às gargalhadas:  "Irra!!!!!!"