sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte III - Como salvar uma Harpia

Brasil 2011 - Parte III - Harpia

Depois de Porto Jofre, seguimos de uma só tirada para a Pousada Piuval, que fica a uns trinta quilómetros da entrada da Transpantaneira. É mais ou menos o limite a que chega o "turismo de massas" na zona. A consequência é que é um hotel muito maior. 
Mesmo assim, quem se levanta antes do nascer do sol não se cruza nunca com muita gente. Nas nossas saídas nunca vimos ninguém. Provavelmente estariam na piscina, ou a ver outras partes da natureza, ou a andar a cavalo. Enfim aquele tipo de turismo que já fiz, mas que deixei de fazer quando me tornei sofredor profissional.


Harpia (Harpia harpyja)
No dia da chegada, num dos percursos que fizemos conseguimos o terceiro e o quarto dos "big five". Primeiro a Anta - Tapir (Tapirus terrestris). Apareceu do meu lado no carro. Só me lembro da travagem, com os pneus a raspar na terra assim que gritei "Está ali um tapir!". Na volta para o hotel, vimos um Cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus). Já só faltava o Papa-formigas.


 Tapir ou Anta (Tapirus terrestris).
Felizmente, esse sofrimento acabou rápido. No dia seguinte, na saída de antes do pequeno-almoço, nos arredores da pousada, ainda com muito pouca luz, tive a sorte de avistar um a alguma distância. A silhueta é inconfundível e soube logo o que estava a ver. Avisei o Ricardo e a Sandra. Estava histérico, mas não me lembro se gritei. A vontade de correr era muita, mas fomo-nos aproximando com cuidado, em silêncio e sempre tendo em conta o lado de que soprava o vento, para não sermos detetados.
Conseguimos ficar quase ao lado do animal. Que bicho! Parece extra-terrestre. Ainda estivemos com ele uns minutos valentes. Tirei algumas fracas fotos de registo, mas filmes nada. Porque é que não carreguei no botão "REC"? Nota mental, conhecer bem a câmara que se leva nestas viagens.
E pronto. Os Big Five do Pantanal Norte estavam no papo, e com o último que faltava UBBB. Under the belt before breakfast. Mais um ponto alto da viagem. Menos um stress.

Papa-formigas-gigante ou Tamanduá-bandeira
(Myrmecophaga tridactyla)
Mas o que é uma viagem destas sem stress? Próximo objetivo, Harpia (Harpia harpyja).
O lodge da Serra das Araras era engraçado, mas ficava poucos quilómetros ao lado de uma pedreira. A parte final do percurso não era nada bonita. Uma ave dessas por aqui? Custava a acreditar. 

Mas, a verdade é que logo à chegada, por volta da hora de almoço, ficámos a saber que estava uma harpia - por lá diz-se gavião-real - no chão nuns terrenos perto. Deveria estar em dificuldades, porque não voava, mesmo com a aproximação das pessoas. 
Reparando que o fazendeiro, dono da pousada, parecia pouco interessado no destino do animal, o Ricardo entrou de imediato em acção. Convidou-me para ir com ele falar com o fazendeiro, que tentou sensibilizar para a importância de proteger o animal. Afinal, todos os birders que iam ao Lodge, iam lá para tentar ver o casal de Harpias da zona.
O fazendeiro e a esposa foram amáveis e ofereceram-nos logo um cafezinho, mas não me livrei de uma ou duas piadas de Portugueses. No Brasil é assim. Quem lá vai a partir da Ocidental Praia Lusitana tem de se habituar. 
A conclusão do encontro foi que se iria falar com a Capital - Cuiabá -  para enviar alguém para recolher a águia. Soube uns minutos mais tarde que ia ser enviado um biólogo. O problema é que 400Km não se fazem em cinco minutos, e muito menos naquelas estradas. Ou seja ainda iam passar umas horas bem medidas, com o bicho vulnerável, no chão. 
Aí, o Ricardo teve um ato invulgar, corajoso. Colocou-nos a questão da seguinte forma:
   -Frederico, a viagem é sua e eu estou à vossa disposição. Mas, por mim, durante a tarde devíamos ir proteger a harpia, até que chegue o biólogo. Se ela fica lá sozinha, as pessoas podem matar ou cutucar ela. Se me disser que não, não há problema. Eu faço o que vocês quiserem.


Harpia (Harpia harpyja)
Não hesitámos. Não é todos os dias que temos uma oportunidade de ajudar a salvar um animal selvagem mítico. Perdem-se umas aves, ganha-se uma história para a vida. Por outro lado, no Brasil há sempre aves em qualquer lado. Vê-se sempre qualquer coisa.
Estivemos toda a tarde de plantão, a uma vintena de metros dela. Coitada, estava de pé, muito parada, à sombra de uns arbustos. Parecia uma estátua. É complicado de ver a águia mais poderosa do mundo desta forma. 
O biólogo tardou, mas chegou. Já estava no quarto, depois do jantar quando me chamaram. Não vi a melhor parte, quando a harpia se virou de costas com as garras para cima, defesa de último recurso. Quando cheguei já ela estava com o cobertor enrolado à volta. Os braços dele mal chegavam para rodear o bicho. Pegou-lhe ao colo, sentou-se traseira de uma pickup e disse "Vamos rápido, que eu não consigo aguentar muito tempo!". Deixaram-na um pouco mais à frente, confinada numa cavalariça.

Na manhã seguinte, logo ao nascer do sol, já estávamos a acrescentar aves à lista. Passámos na área das cavalariças e qual não é o nosso espanto quando a Harpia estava cá fora, junto à estrada. Mal se mexia, mas a verdade é que tinha conseguido sair do confinamento. Bom sinal. 
Aproximamo-nos a apenas uns metros para tirar mais umas dezenas de fotos. Assim a curta distância, o que mais me impressionou foi a grossura das patas. Eram quase do tamanho do meu pulso. Também deu para reparar numa ferida na asa, provavelmente a causa do seus males. O biólogo, no dia anterior, tinha dito que ela teria sido provavelmente mordida por um macaco. 


Harpia (Harpia harpyja) - pormenor das patas e das garras
Saímos da serra das araras com a Harpia em recuperação e com o coração cheio de esperança. Oxalá o bicho se salvasse. 
Soubemos o epílogo mais tarde, através de dois posts do Ricardo no Facebook. 

25 de Outubro de 2011
Olá Frederico e Sandra!!!  Boas novas!!! Hoje a Harpia foi vista recontruindo o ninho na Serra das Araras, macho e femea!!! Vamos torcer!! Legal saber que fizemos parte de um momento importante nessa estória que esta por vir... Abraço

23 de Agosto de 2012
GAVIÃO REAL.( FILHOTÃO) HARPY EAGLE (Harpia harpyja) Essa foto tem um gostinho muito especial pra mim, em  Agosto de 2011 estávamos eu, Frederico Morais e Sandra Meneses cuidando da Mãe desse pequeno Gigante, depois de um acidente. Pois bem, ela se recuperou e deu continuidade à batalha da perpetuação dessa tão incrível espécie!! Parabéns a VIDA!!!


Foto Ricardo Casarin
Neste caso fomos mesmo "Eco Warriors - Guerreiros do Planeta" (quem vê o canal Odisseia sabe do que falo). Ajudámos, de forma direta, na conservação de uma espécie emblemática.
Mais uma história irrepetível, para recordar de vez em quando e ficar com um sorriso nos lábios. Ninguém me tira da cabeça que foi esta boa acção que foi premiada em 2015 com outra excelente observação de Harpia na Amazónia. O Karma não é para brincadeiras.


Depois do sucesso na Serra das Araras, última paragem do tour era na Chapada dos Guimarães e num novo ecossistema, o Cerrado.
Era aí que o Ricardo vivia na altura. Ele estava em casa e, por inerência, nós também. Conhecemos a filha, o pai, alguns amigos.
Um dos episódios mais hilariantes foi quando o Ricardo nos apresentou a um casal amigo. Ela pensou que fôssemos anglófonos, como a maioria dos clientes do Ricardo. Cumprimentou-nos em Inglês.
   -Hello. Nice to meet you. My name is…
Eu entrei na brincadeira e respondi, já meio a rir:
   -Hi. My name is Frederico.
Aí, o Ricardo disse qualquer coisa como:
   -Não vê que eles são portugueses? Pode falar Português.
A resposta foi espontânea, e ficará para sempre na minha memória:
   -Portugueses? Desculpe! Pensei que fossem estrangeiros.

A resposta resume aquele sentimento de conforto inexplicável que tenho sempre que vou ao Brasil (hoje, já a caminho do quarto tour). Uma pessoa atravessa o Atlântico, e é recebido em Português. Não é em inglês, nem em Espanhol, nem em Francês. Comecei a compreender aquilo que alguém escreveu um dia “A minha pátria é a língua portuguesa”.


Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata)
Das aves, recordo-me de algumas, especiais, que vimos na Chapada e arredores. O espetacular Campainha-azul (Porphyrospiza cearulescens), o Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata), o Soldadinho (Antilophia galeata), a Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus), a Arara-canindé (Ara ararauna), o João-bobo (Nystalus chacurup). Por outro lado, ficou-me atravessada a péssima observação de Urubu-rei (Sarcoramphus papa), que vimos muito mal, tipo mosquito, à entrada da Chapada. Esse ainda não consegui ver melhor até hoje.
As viagens são assim e temos de estar preparados para isso. Nunca se vê tudo e nunca se vê tudo como queremos. Os números finais do tour ficaram em 244 espécies de aves e 13 de mamíferos. 

Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus)
Foi com pena que regressámos a Cuiabá, já a pensar na viagem de regresso. O jantar do último dia foi num centro comercial. Rodízio de pizza. Lembro-me que estava a dar na tv um programa de crimes - "Cadeia Neles!". A empregada achou o nosso sotaque estranho. Não o conseguia identificar e olhava para nós desconfiada. O Ricardo, sempre na brincadeira, disse-lhe:
   -Sabe o que é? É que eles são de Pernambuco.
   -Ahhh! – disse ela.
Deve haver poucos portugueses em Cuiabá. Um ditado popular que ouvi na viagem foi algo do tipo “para Cuiabá nem os mortos querem ir!”.

No dia seguinte, de manhã, antes de seguir para o aeroporto, ainda me cruzei no pátio do hotel com um casal de americanos com binóculos ao peito. Como membro da tribo, meti conversa. Ao saberem que era português, disseram logo que isso era muito bom porque dessa forma não tinha a barreira linguística. Dá que pensar...

Pouco depois, iniciámos a longa viagem de regresso, sem história, que incluiu mais uma espera de muitas horas em São Paulo. 

Todas as viagens deixam marca, mas esta foi especial. O Pantanal é diferente.
Na altura, fiz o voto de um dia regressar. Oxalá seja possível.



Deixo aqui um grande abraço ao Ricardo Casarin. Não podíamos ter tido um guia melhor nesta primeira aventura na América do Sul. 
Obrigado também pela foto do filhote de Harpia, que ajuda a ilustrar a história.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte II - Onça-pintada

Brasil 2011 - Parte II - Jaguar

Após três dias e três noites de aperitivo, mais a manhã com o urutau, seguimos para o final da Transpantaneira, para Porto Jofre. É aí que reside o jaguar ou, como dizem por lá, a onça-pintada. No caminho, à medida que nos íamos aproximando, a tensão ia aumentando. Será que íamos atingir o objetivo? Seria possível?

Jaguar (Panthera onca)
 Durante o percurso lembro-me de ter visto uma Irara - Eira barbara, um mustelídeo - a correr na estrada e de o Ricardo dizer que estávamos com sorte, porque era um bicho que raramente se via assim, a descoberto, e muito menos em plena luz do dia.
Numa das paragens vimos fezes na berma, que foram prontamente identificadas por ele como sendo de onça. Comecei a reparar numa das expressões cómicas que usava, "Qui medo!". Pensando bem, tinha toda a razão, mas nem me lembrei disso. O Jaguar estava cada vez mais perto... 
Uns quilómetros mais à frente vi, muito ao longe, um felino adulto e uma cria a atravessar a estrada. A distância era tal que nem deu para perceber se seria jaguar - onça-pintada - ou puma - onça-parda. Disse qualquer coisa como "O que é aquilo?" ao Ricardo e ele gritou "Onça!" e acelerou a toda a velocidade. Quando lá chegámos e saímos do carro já não havia nada à vista. Felinos são assim mesmo. "Qui medo!" disse o Ricardo. 
Chegámos a Porto Jofre à hora de almoço. A primeira saída de barco só estava prevista para o dia seguinte de manhã mas, sentindo a minha ansiedade desde o primeiro dia, o Ricardo achou por bem antecipar a saída para essa tarde. Não estávamos à espera disso mas achámos boa ideia. Podia ser que o stress acabasse de uma vez. 
Ao chegar ao nosso bungalow, na porta estava uma foto de um Jaguar com a legenda Frederico e Sandra. E esta, hein?! Isto sim é serviço ao cliente. Antes do almoço, ainda deu para descobrir algumas Araras-azuis-grandes - Anodorhynchus hyacinthinus - que andavam nas imediações do hotel. Esta arara é gigante. Um metro de comprimento de um azul pouco comum.   

Arara-azul-grande - Anodorhynchus hyacinthinus
A seguir ao almoço fomos à procura do destino. A tensão sentia-se no ar. Nem as palavras do Ricardo - "Fique descansado que nunca saí daqui sem onça!" - ajudaram a acalmar os nervos. 
Os barcos do hotel são rápidos, mas mesmo assim ainda demoram uns quarenta e cinco minutos a chegar às melhores zonas para a onça. Normalmente há sempre mais alguns barcos a percorrer a área, que vão comunicando por rádio os avistamentos mas, nessa tarde, o único barco no rio era o nosso. Menos olhos, menos probabilidades. Por outro lado, a tranquilidade é maior.
Andámos um bom par de horas a percorrer a zona, sem grande sucesso. A técnica é ir olhando para a margem, e se estará lá alguma coisa a descansar à sombra, junto à água. O nosso piloto - diz-se "piloteiro" por lá -  tinha a teoria que é melhor andar rápido, porque assim os bichos têm menos tempo para se afastar com a aproximação do barco. O Ricardo não concordava muito com isso e ainda os vi a trocarem umas palavras sobre o assunto. Mais uma vez, teorias há muitas mas o que conta é "ver o bicho". E até ver o bicho todas as teorias são isso mesmo, teorias. 
De repente, depois de mais de mil curvas no rio, lá estava ela a descansar à sombra. A minha onça. Objetivo à vista! Lembro-me da adrenalina, do coração quase a saltar do peito e de pouco mais. As emoções fortes provocarão amnésia? Fundeámos o barco em frente ao animal e a pouco e pouco fui acreditando no que estava a ver. É realmente um felino espantoso. As cores suaves, os músculos fortíssimos. Cada mancha com as suas pintas no interior.  Inicialmente olhou a pensar se arrancava dali para fora, mas a moleza e o calor fizeram o seu trabalho. Foi simpática e deixou-se ficar.
Jaguar (Panthera onca)
Fartei-me de tirar fotos. Na altura tinha a minha primeira bridge há pouco tempo e ainda não a conhecia bem. Não sabia que, sobretudo nas fotos, estas câmeras têm algumas limitações. Mais ainda em condições de luz difíceis como aquelas. Nesses casos, mais vale filmar. Hoje já sei... 
Poucos filmes fiz nessa viagem mas foram todos de jaguar. Não sei se seria porque esse animal era o grande objetivo mas só me vinha o "filmar" à cabeça quando via um jaguar.
Fui fazendo um filme de vez em quando. Como é normal com os felinos, passou a maior parte do tempo a dormir. Levantava a cabeça, olhava, levantava-se e dava uns passos e dormia, sobretudo. E nós nas fotos e nos filmes. Minuto após minuto após minuto. No total passámos cerca de duas a sós com a "minha" onça. Que luxo!
No quarto de hora final resolveu ir fazer pela vida. Levantou-se e começou a caminhar na margem. Fomos avançando com ela no seu percurso. Levantávamos ferro e seguíamos na corrente. 
Bebeu água e ainda olhou para nós, provavelmente para decidir se estávamos ao alcance. Nadou um pouco junto à margem e, de repente, apareceram duas capivaras azaradas - mãe e a cria - só a uns dois ou três metros da onça. Elas e ela viram-se mutuamente pelo canto do olho e eu percebi logo que ia haver conversa. Na minha cabeça só pensava "Vai atacar! Vai atacar! Queres ver que vai mesmo atacar?". No barco reinava o silêncio. Predador e presa em acção. 
Não vou contar o desfecho. Uma imagem vale mais que mil palavras e está tudo no vídeo - "Flagra no Pantanal". 

 Flagra no Pantanal

Foi com ele que nasceu o "Canal do Xofred", cerca de um mês mais tarde. Hoje já vai com mais de três milhões e meio de visualizações. Um dos comentários que mais gostei ao longo dos anos foi de um amigo meu, poeta amador que, com a sensibilidade que o caracteriza, referiu que o vídeo chega até a ser comovente, na parte em que a mãe capivara tenta defender a cria. A Natureza é mesmo muito bonita.

Na altura soube logo que estava provavelmente a ver uma cena irrepetível. Até hoje nunca vi uma coisa parecida. E acreditem que estou sempre à procura. 
No caminho de regresso ao hotel confesso, sem vergonha, que fui sempre de lágrimas nos olhos. Devia ser da adrenalina... 
Dia 7 de Agosto de 2011 cumpri um dos sonhos da minha vida. 

A verdade é que, nas outras quatro saídas de barco que tivemos, vimos sempre onça. Às vezes mais outras vezes menos tempo. Às vezes com mais gente outras vezes com menos. Numa das vezes contei as pessoas - 86! - e os barcos - 14!. Nessa ocasião, passou um barco com pescadores. Estavam no nosso hotel mas eram de outra tribo, a dos fazendeiros ricos com avião particular, que vão para Porto Jofre pescar. Ainda pararam para perguntar o que estávamos a ver. "Onça?" E arrancaram dali a toda a velocidade. Cada maluco tem a sua mania. 
No segundo dia vimos também uma família de lontras-gigantes (Pteronura brasiliensis) - no Brasil chamam-lhe ariranha. Têm "só" dois metros. Além de gigantes são divertidas. Dormiam num tronco, nadavam, comiam peixe. As vocalizações são inimitáveis e passam o tempo a "falar" umas com as outras. Foi um encher a barriga. 

Lontra-gigante (Pteronura brasiliensis)
Aí começou a saga dos "Big Five" do Pantanal Norte. Como insatisfeito que sou, depois do objetivo jaguar, saltei logo para outro, o das lontras gigantes. Assim que vi as ariranhas, passei a querer ver o Tamanduá-bandeira (Papa-formigas-gigante - Myrmecophaga tridactyla). 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte I - Transpantaneira


Brasil 2011 - Parte I - Chegada à Transpantaneira

Confesso, envergonhado, que a primeira vez que ouvi falar no Pantanal foi só nos anos 90, quando a novela homónima passou em Portugal. Apesar de não seguir novelas há muito tempo, lembro-me de que o destino aparecia como uma imensidão semi-submersa, inexplorada, com muita vida selvagem.
Por outro lado, há muitos anos que tinha o sonho de ver um Jaguar - Panthera onca - mas sempre achei que era impossível. Como é que um amador poderia ver um animal esquivo e misterioso, o maior felino da América?
O facto de em 2009 ter visto o documentário “Jaguar Adventure with Nigel Marven”, em que a expedição andou vários dias à procura do felino no Pantanal, com vários batedores e barcos e em que só o viram quase à última hora só serviu para confirmar a ideia de ser praticamente impossível. Por outro lado, fiquei a saber que o Pantanal tinha jaguares. 
Em 2010, quando visitei a Birdfair em Rutland Waters, tinha ideia de questionar as empresas brasileiras que lá estivessem sobre o tema. E assim fiz.

A "minha" Onça-pintada (Panthera onca)
As respostas foram espantosas. Que sim, se fosse na data certa ao local certo havia excelentes possibilidades.
Dei o devido desconto mas, mesmo assim, fiquei com a ideia de fazer uma tentativa. Nessa altura, as viagens ao Brasil, sobretudo ao Nordeste, estavam na moda por cá e eu costumava dizer que devia ser o único português que ainda lá não tinha ido.
A novela, o documentário e a visita à Birdfair tinham feito o seu trabalho. O Pantanal ficou definitivamente no radar.

Tudo se concretizou em Agosto de 2011.
Iríamos ao Pantanal, fazendo toda a Transpantaneira de Poconé a Porto Jofre. A Transpantaneira é uma estrada mítica, de terra batida, com 150km e 120 pontes, que fica alagada uma parte do ano. O Pantanal tem esse nome por alguma razão. A viagem tinha também alguns dias em habitat de cerrado, na Chapada dos Guimarães e, nessa altura, quem fazia esse tour costumava também fazer uma visita de uma noite à Serra das Araras, para tentar ver a Harpia, a águia mais poderosa do mundo. 
Mas, sejamos claros, isto das aves é tudo muito bonito, mas o objetivo da expedição era um: VER UM JAGUAR. Sonhei muitas vezes com isso nos meses precedentes.

O início da Transpantaneira
Depois da viagem cansativa, que incluiu uma espera prolongada em São Paulo, a noite já ia avançada quando chegámos a Cuiabá, capital do Mato Grosso.
O Ricardo Casarin estava pacientemente à nossa espera. Segundo me recordo, apercebeu-se de quem éramos pelas roupas outdoor que tínhamos vestidas. Não me lembro de ver nenhum cartaz.
Saímos a porta e ouvimos quase de imediato:
- Frederico?”.
Uff! Pensei. Estávamos no destino e além das malas, tínhamos também o guia. Já não faltava tudo.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, seguimos para Poconé. É à saída dessa vila  que está o célebre portal que marca o início da Transpantaneira. É difícil de descrever a sensação que temos ao ver algo que já vimos muitas vezes na tv. Parecia que estava num documentário, só que este era o meu. Tirámos a foto da praxe, demos uma volta de poucos minutos e seguimos. Dessa volta recordo-me de ver, entre outras aves, um Pavãozinho-do-Pará (Europyga helias), o tal que tem um sol nas asas. 

As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) são omnipresentes
 O destino dos primeiros dias era um hotel mais ou menos a meio da Transpantaneira. Fomos fazendo algumas paragens no caminho e, logo desde o início, fiquei espantado com a quantidade de aves, caimões, capivaras e sei lá mais o quê que víamos por todo o lado. Além dos ubíquos Tuiuiús - Jabiru mycteria - símbolo do Pantanal, numa das paragens iniciais vimos logo Colhereiros (Ajaia ajaja), que por lá são cor-de-rosa, Talha-mar (Rynchops Niger), Martim-pescador-matraca (Megaceryle torquata). A lista ia aumentando e o nosso entusiasmo também. Neste habitat os bichos estão bastante expostos.  
Logo nas primeiras horas de convívio fui-me apercebendo de que o Ricardo tinha um entusiasmo contagiante a procurar e mostrar o que via. Tinha a mesma vontade de nos mostrar, que nós de ver os bichos. Ou seja, para um observador obsessivo como eu, foi o companheiro ideal de viagem.

Tuiuiú (Jabiru mycteria)
Os dias passados nesse hotel, a meio do percurso, funcionaram como um aperitivo para o resto da aventura. Como pontos altos recordo-me dos passeios de barco e de ver os cinco martins-pescadores presentes da América-do-Sul. 
Mas também me lembro de um episódio que me assombra ainda hoje. O falhanço da Garça-da-mata (Agamia agami). Essa garça é, para mim, a mais bonita da família. O azar é que também é das mais escassas e difíceis de ver, ou não fosse "da mata". Numa das viagens de barco o Ricardo viu uma uns metros dentro da margem, na sombra, e avisou "garça-beija-flor!", que é outro dos seus nomes comuns. Eu só ouvi "beija-flor" e fiquei à procura de um colibri junto ao barco. Quando perguntei "Qual beija-flor?" ele apercebeu-se que eu não estava a olhar para onde devia e disse "Frederico, caga no beija-flor, está ali a a garça!". Quando olhei, já ela se tinha escondido. Ainda hoje, sete anos depois, não a consegui colocar na lista e fico com com uma lágrima no olho. 
Na última noite nesse hotel veio à conversa o quando eu tinha gostado de ver o Urutau-grande - Nyctibius grandis - no documentário do Nigel. Fiquei espantado quando o Ricardo disse:
    -Pois nesse caso não lhe vou mostrar “um bicho”. Vou-lhe mostrar “o bicho”.
Ou seja, ele sabia onde estava a ave que tinha aparecido na tv. Na manhã seguinte “o bicho” estava lá à nossa espera, no poiso do costume, exatamente no mesmo ramo que tinha aparecido no National Geographic. É daquelas aves que quase vale uma viagem.

Urutau-grande - Nyctibius grandis

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Alma-negra com Champanhe

31/7/2018 - 02/08/2018
Portimão - Madeira

Já há uns anos que na tribo se falava do mito do ferry para a Madeira e de como este seria uma boa oportunidade para ver aves "impossíveis". O Alma-negra, Bulweria bulwerii, por exemplo. Esse fantasma do mar é uma ave quase impossível de ver de uma forma tradicional, seja a partir de terra, seja através de uma pelágica "normal". A solução óbvia seria um barco que fizesse um trajecto até ao limite da ZEE de Portugal Continental. Ora, como não existe oferta de pelágicas desse tipo, o ferry para a Madeira parecia ser a única hipótese. Havia apenas um pequeno problema. Esse serviço não existia desde o início de 2012.

Alma-negra (Bulweria bulwerii) - Foto Luís Rodrigues
Muita conversa houve sobre este tema ao longo dos últimos anos. "Um dia vai haver outra vez" , "temos de aproveitar". A chamada "conversa de chacha".
Entre concursos anulados, repetidos e sei lá mais o quê, num belo dia de Junho de 2018, o ferry finalmente materializou-se. O serviço começaria no início de Julho.
As movimentações - leia-se conversas de Facebook - começaram de imediato. Pelo que li parecia que havia, pelo menos, umas duas ou três dezenas de interessados.
Como sempre, à boa maneira portuguesa, na hora da verdade sobraram quatro - Pedro Ramalho, Pedro Nicolau, Luís Rodrigues e eu - que acabaram por ficar cinco, com a inclusão do Alexandre Rica Cardoso.

Entre todos, conseguimos chegar a um consenso. Além da viagem de ferry, ainda iríamos incluir uma pelágica e um dia para ver as aves lá do sítio. Fosse como fosse, ia sempre ser uma viagem relâmpago, sempre a correr. A volta seria de avião.


O Ferry - Volcan de Tijarafe - parece grande mas não é...
Pelo meu lado tinha o grande objetivo de ver alma-negra no dia 31, ou seja, na ZEE Portuguesa. Tinha também o objetivo secundário de ver todas as aves que ainda produziam emails de alerta do ebird e que há anos me andavam a encher a caixa de correio. "Precisa de pombo-da-madeira", "precisa de canário-da-terra", "corre-caminho", "bis-bis". Irra! Já estava farto. Tudo o que viesse por acréscimo seria um bónus. 
Com o meu optimismo habitual, não depositava grande esperança no objetivo principal. Seria um tiro no escuro, ou quase.

A logística não foi nada fácil de pensar, uma vez que o ferry sai de Portimão e não de Lisboa. No meu caso lá consegui arranjar maneira de dormir já no Algarve na noite anterior e de ter apenas uma noite mal dormida, a do ferry. Os meus companheiros tiveram duas, uma vez que viajaram para o Algarve durante a noite de 30 para 31. Dessa viagem para baixo, na tarde/noite de dia 30, recordo um motorista de camioneta espirituoso que, na Gare do Oriente, quando lhe perguntei se a camioneta não ia ainda passar por Sete Rios, me deu a resposta "Ò amigo eu nem sei onde isso fica!".

Funchal - A gaivina e o ferry (Sterna hirundo)
Dia 31 lá nos encontrámos todos no cais de embarque, em Portimão. Surpreendeu-me a quantidade de carros e de pessoas presentes. Vim a saber mais tarde que, além do tráfego normal havia ainda as equipas que iam participar no Rally da Madeira. Enfim, lá se foi de vez a minha esperança de ter o ferry só para nós.
Embarcámos e tomámos logo conta de um canto junto ao bar cá de baixo. Depois começou a fase de exploração. Cadeiras tinha muitas, casas de banho poucas e más. A piscina - leia-se tanque da roupa - e os decks exteriores estavam cheios de gente, com aquele entusiasmo de estar num "cruzeiro de luxo".
Tal como previa, quando o barco começou a andar, as partes exteriores foram esvaziando a pouco e pouco, fosse do frio, do vento ou da náusea.

Por volta das 14h fomos para o deck exterior no piso mais baixo. Havia cadeiras e o bar e as casas de banho não estavam longe. Fomos experimentando bombordo e estibordo e acabámos por ficar do lado mais abrigado do vento. Com a inclinação do barco o corrimão e a amurada acabavam por não estorvar muito a visão. 
Lá nos instalámos, debaixo do escrutínio de muitos olhares curiosos "O que é que aqueles malucos esquisitos com binóculos estão a fazer?". As perguntas acabariam por começar um pouco mais lá para o fim do dia. 
Lembro-me de olhar para cima e ver que havia gente a espreitar na amurada dos dois decks superiores. Do último piso, o da piscina, ouviu-se uma voz feminina com sotaque madeirense a dizer com ironia "Nada de olhar para cima que eu não tenho cuecas!". Nem eu nem o Nicolau encontrámos uma resposta à altura. 


Cagarra vista a partir do ferry
Vê-se pouca coisa. Uma cagarra ou outra, e pouco mais. Às vezes o mar parece um autêntico deserto. Lembro-me que chegámos a estar mais de uma hora sem ver uma única ave. Aparecem apenas uma ou duas aves cada vez, intervaladas por grandes períodos de seca. Não foi um exercício fácil. A hora também não seria a melhor. 
Por volta das 16h45, numa altura em que estávamos apenas eu e o Nicolau de plantão, passou uma cagarra, que fiz questão de apontar ao Pedro. De repente, ele põe-se aos gritos "Bulwerii! Bulwerii!". Quando lhe perguntei "Onde?" já ele estava de pé, a correr para a amurada de máquina em punho. A verdade é que não a relocalizou, nem fotografou, nem ma apontou, nada. "Apareceu-me nos binóculos e estava perto. Pensei que era fácil apontá-la e fotografá-la mas enganei-me. Desculpa!". Não fiquei muito chateado mas fiquei triste. Estas situações são o pão nosso de cada dia em observações de marítimas, e temos de estar preparados. 
Quando o resto da malta chegou, o ambiente ficou pesado. O silêncio instalou-se. 
Pensei sempre que onde há uma pode haver mais e nunca desisti. Aqui, como na vida é sempre a melhor atitude. Às 17h35, estava eu a dizer qualquer coisa quando me aparece um vulto negro nos binóculos. Bulwerii? - pensei. Ainda me saiu um palavrão - ca****#! - numa fracção de segundo, o vulto desapareceu por trás dos calções do Nicolau, que estava de pé, à minha frente. Não o voltei a ver mas assumi que deveria ser "o desejado". Sobretudo pela asa esguia que me pareceu comprida e pela ausência de branco. O Luís Rodrigues também conseguiu vislumbrar a cor e o tamanho. Não havia certezas absolutas, mas, no meu íntimo sabia que tinha visto o grande objetivo da viagem. Perante as dúvidas que me foram sendo postas por quem não tinha visto nada, limitei-me a ripostar:
   -Sei bem o que vi. Não tenho a certeza absoluta da id porque nunca vi um Alma-negra. Amanhã, ao chegar à Madeira vamos ver muitos, certo? Amanhã confirmo ou não o diagnóstico. 
O Pedro Ramalho estava cada vez com ar mais sombrio e cabisbaixo. Olhei para ele e disse-lhe para não se preocupar, que eu ia arranjar um Alma-negra para o meu amigo Pedro Ramalho. "É a primeira vez que dizes que sou teu amigo", respondeu (injustamente). Seja como for, fiz essa promessa, e não mais larguei os binóculos. O Alexandre disse que se visse um nesse dia pagava o jantar. A pressão era gigantesca. Eu tinha mesmo de encontrar um Alma-negra. 
Cada vez havia menos gente no exterior. O frio aumentava. O spray das ondas ia ficando tatuado nos binóculos. Ouve-se um aviso no sistema sonoro. "Atenção Srs. passageiros, devido às condições climatéricas, a permanência no exterior é desaconselhada." 
É só para homens, pensei. E lá ficámos, estoicamente. 
Às 18h35, o sol já estava baixo, banhando com uma tonalidade de ouro tudo em que tocava. E foi assim, coberto de ouro, que vi um Alma-negra materializar-se nos binóculos, bastante perto do barco e quase ao nível do deck. Desta vez não havia dúvidas. Consegui apontar bem a zona e toda a gente o viu. Missão cumprida. A euforia instalou-se entre abraços e gritos. 

O alma-negra das 18h35 (foto Pedro Nicolau)
A festa não passou despercebida a alguns passageiros mais atentos. Um deles perguntou-me mais tarde "Ouça lá, o que é que o Sr. viu há bocado?". Quando lhe respondi "Uma ave", vi-lhe a desilusão estampada no rosto, complementada com um "Ah..." inexpressivo. Cada um é como é.
Ainda, vimos mais uns dois ou três Bulwerii até ao final do dia, complementados com dois Pintainhos de bónus, que o Pedro Ramalho descobriu nesse palheiro que é o oceano. 
Quase com o sol a desaparecer lá resolvemos dar por terminada a sessão, sob os protestos do Nicolau, que teve de ser arrastado num colete de forças para dentro de portas. 
O Alexandre cumpriu a promessa e pagou o jantar, apesar das nossas objeções. Nas palavras dele, se não o fizesse a viagem iria correr pior a partir daí. 

Os nossos primeiros cinco avistamentos de Alma-negra na ZEE de Portugal Continental
(primeiro o do Nicolau, seguido dos "meus" quatro)
Para quem gosta de detalhes, no mapa acima vê-se onde começaram os avistamentos de Alma-negra. A azul-claro temos a ZEE Portuguesa. Os pontos, ordenados pela distância aproximada ao Cabo de S. Vicente:

X - 16h45 - 62Milhas Náuticas (MN) - 114Km - 1ª observação (Pedro Nicolau)
1 - 17h36 - 78MN - 145Km - 2ª observação 
2 - 18h35 - 98MN - 180Km - 3ª observação
3 - 19h33 - 118MN - 219KM - 4ª observação
4 - 19h50 - 124MN - 230Km - 5ª observação

A noite passou-se mal. O mais estranho foi ter conseguido dormir umas duas ou três horas, nem sei bem como. As cadeiras nem são desconfortáveis, mas dormir é numa cama. Entre o ressonar do vizinho do lado, o ressonar do vizinho da frente e o ressonar do vizinho de trás é muito complicado pregar olho. Às cinco e meia já estava de pé. 
Às seis e meia abre o bar e os passageiros começam dirigir-se para lá, estilo walking dead, à procura da primeira dose de café do dia. 


Um dos Almas-negras que consegui apanhar, já ao largo de Porto-Santo
Assim que a luz o permitiu, fomos lá para fora, para o sítio do costume. Via-se Porto Santo ao longe, na frente do barco.
Já não estávamos, claramente, num deserto. Imensas cagarras, inclusivamente em jangadas, muitos almas-negras. Algumas gaivinas e gaivotas. 
A estrela da manhã foi uma Pterodroma sp. ou Freira, bem perto. É realmente um bicho giro, com aquele capuz. Resta saber se as fotos conseguidas chegarão para uma id conclusiva. Um velhote que tinha ouvido o Pedro Ramalho gritar "Freira!" ainda me perguntou como é que estávamos a ver freiras no mar, se elas estavam no convento, ao que respondi que os meus binóculos eram especiais. 
O Alexandre contou também uma história engraçada. Uma senhora perguntou-lhe o que tínhamos estado a ver toda a viagem. Quando ele respondeu aves marítimas, ela terá dito que assim ficava mais descansada, porque pensava que estávamos a ver coisas que ela não conseguia ver. Ele terá que respondido que, no fundo, era exatamente assim. Há com cada uma...

A chegada ao porto do Funchal foi um momento alto. No meio das gaivotas e das gaivinas comuns, apareceram dois Garajaus-rosados - Sterna dougallii. Uma das aves que tinha esperança de ver e que há muito procurava. Depois do desembarque, e ainda antes do almoço passou um andorinhão-da-serra. A segunda parte da viagem começava bem.

Garajau-rosado (sterna dougalii) - Funchal
Resolvi não ir à pelágica da tarde. Com a noite mal dormida no barco as costas deram sinal e achei que não iria aguentar seis horas metido num semi-rígido a bater nas ondas. Não quis arriscar. O pessoal confirmou mais tarde, à chegada, que a viagem foi bastante dura.
Deixei os meus companheiros e ainda fiquei umas duas horas pela marginal. Voltei a ver as minhas amigas dougallii, muitas borboletas monarca - espetaculares - lagartixas-da-madeira e, claro, a estátua do CR7 à porta do museu.
Já no alojamento, consegui ver três canários-da-terra a caminho do café. Mais outra lifer, menos duzentos emails. 
O dia acabou com a chegada do pessoal, perto da meia noite. Nas palavras deles perdi, sobretudo, a espetada ao jantar, o que não é coisa pouca.

O dia 2 de Agosto começou com calma. Acabámos por sair apenas pelas 9h30. Que luxo!
Fomos primeiro ao Lugar de Baixo, onde quase nada se viu. Depois seguimos para os Balcões, onde chegámos tardíssimo. A consequência foi que aquilo parecia o Estádio da Luz em dia de jogo. Mesmo assim conseguimos rapidamente ver um Pombo-da-Madeira logo no início do trilho, o que diminuiu imediatamente o nível de stress. Vimos algumas estrelinhas no caminho e mais uns quatro ou cinco pombos no miradouro. Isto, claro, mais os omnipresentes tentilhões. 
Já só faltava a o corre-caminho. 

Pombo-da-Madeira (Columba trocaz) - longe, mas foi o que se arranjou.
Em relação ao próximo destino, gerou-se alguma discussão. Uns queriam ir almoçar, outros, como eu e o Luís queríamos despachar o último objetivo quanto antes. Tento sempre seguir a ideia inglesa do UBBB (under the belt before breakfast). Ou, neste caso, UBBL (under the belt before lunch). 
Ao fim de uns minutos de indecisão lá seguimos para a Ponta de S. Lourenço, à procura das berthelotii. Ainda parámos no caminho, no Faial. Aves havia zero, mas foi uma oportunidade única na viagem para ver e fotografar a costa Norte que é, tal como a Natureza, muito bonita.


Costa Norte (vista a partir do Faial)
A ponta de S. Lourenço parecia a baixa lisboeta em Agosto, cheia de carros e de gente. Comecei a ver a vida a andar para trás mas, ao que parece, umas centenas de metros antes, na Quinta do Lorde, o Pedro Ramalho tinha reparado em alguns corre-caminho. Retrocedemos e vimos os bichos quase de imediato, com mais uns canários de bónus. Deu para fotos, tudo. Observação cinco estrelas.
Resumindo, ainda não eram 15h e tínhamos todos os objetivos cumpridos. O almoço foi tarde, em Machico, mas assim foi mais descansado. 

Corre-caminho (Anthus berthelotii)
Depois de almoço, explorámos a zona, sem grande sucesso. Convenci o pessoal a tentar o Cigarrinho, a subespécie de tomilheira da Madeira, num miradouro próximo. Consegui ver a sylvia, mas não me livrei de uma queda, que poderia ter estragado a festa. Felizmente, não foi muito grave. 
Acabámos a tarde no Caniçal, a comer lapas e bolo do caco. Vida difícil...

A ideia era ir direto para o aeroporto mas, como o avião estava atrasado, ainda houve um desvio inútil instigado pelo mais jovem do grupo. Não se perdeu tudo. Pelo menos ficámos a saber que não vale a pena voltar a esse spot. 
Finalmente, lá seguimos para o aeroporto, de onde levantámos tardíssimo, cerca das 23h.

Depois de um dia cansativo, já dentro do avião, mais uma surpresa.
-É o Sr. Frederico Morais? O Sr. está no lugar errado!
Lá "tive" de mudar para fila um. Não foi uma estreia, mas nada melhor que acabar o dia em grande, em Executiva, com uma taça de champanhe sobre o Atlântico. A cereja no topo do bolo.

Quem tem amigos tem tudo...
Um grande abraço, Gonçalo! 

e
Foto de família depois da chegada ao Funchal (foto Luís Rodrigues)
Resta-me agradecer ao Pedro Nicolau e ao Luís Rodrigues as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica, e a todo o grupo por ajudar a tornar esta experiência inesquecível. Um abraço e obrigado a todos!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Algarve 2018 - O Affinis do São Vicente

Algarve 2018
O Affinis do São Vicente

Já não me recordo da última vez que fui de férias para o Algarve em Junho. Seguramente há mais de vinte anos. Este ano teve de ser.
Inicialmente, vi a questão como uma fatalidade mas, a pouco e pouco, fui fazendo os meus planos da pólvora. Em vez da Cabranosa e das rapinas, teria de escolher outros alvos, e assim fiz. Comecei a pensar que seria uma boa oportunidade para rever aves que já não via há anos como o Andorinhão-cafre, o Solitário ou a Calhandrinha-das-marismas, por exemplo.


Andorinhão-pequeno (Apus affinis) - foto Nuno dos Santos

Para raridades, as expectativas eram muito baixas. Junho é tradicionalmente um mês mau para isso. Mas, não vou mentir se disser que tinha uma réstia de esperança. Nos últimos anos saí sempre feliz do Algarve e a tradição tem sempre alguma força, apesar de já não ser o que era, como dizia o anúncio. Talvez uma gaivina ou, já que entramos no domínio das impossibilidades, porque não um Andorinhão-pequeno (Apus affinis)? Junho é o mês com mais avistamentos. Imaginei-me a dar com ele por cima do passadiço dos Salgados numa saída matinal, de câmara em punho. Enfim, sonhos há muitos e a imaginação não tem limites.


As férias foram avançando tranquilamente, com visitas ao local patch conjugadas com alguns passeios mais compridos.
Este ano as coisas iam ser mais calmas... No Facebook fui dando um ou outro sinal de vida. Dia 12, quando demos uma volta com o Gonçalo Elias pelo Algarve interior, tivemos a sorte de ver três andorinhões-cafre. Um evento digno de nota, uma vez que na vida tinha visto apenas um e há já sete anos. Mesmo assim, achei que não se justificava iniciar mais uma série mete-nojo, como no ano passado. Limitei-me a postar um simples "Há sete anos que não via um destes."

Andorinhão-cafre (Apus caffer)
O problema foi que, logo no dia 13, o Algarve voltou a entrar na Twilight Zone.
O Guillaume Réthoré reportou um avistamento de um andorinhão-pequeno no Alvor e o caos começou a instalar-se. A notícia surgiu a seguir ao almoço, e eu segui direto para lá. De "certeza" que o bicho não se iria manter na zona mas, estando apenas a vinte minutos de distância "tinha" de lá ir. O Nuno dos Santos, sempre rápido, apareceu por lá por volta das 17h. Até às 20h vimos muitos andorinhões, mas não o que queríamos ver. Não fiquei muito afetado com o falhanço, porque a expetativa nunca foi muito alta. A minha teoria de que para ver esta espécie tem de ser o próprio a encontrá-la parecia confirmar-se. "Caso Affinis" encerrado, pensei.
Ou afinal, talvez não. No final desse mesmo dia, o Guillaume volta a reportar um Affinis, desta vez no Cabo de S. Vicente. E esta, hein? Parecia impossível. O "caso" não era assim tão simples e tinha de ser reaberto.

Dia 17, quando consegui outro dos objetivos das férias, o rouxinol-do-mato, coloquei mais uma nota no facebook - "Há cinco anos que não via um destes" - e preparei-me para acabar com tranquilidade mais um dia de férias. Não podia estar mais enganado! Nesse dia, o omnipresente Guillaume volta a ter um encontro imediato, o terceiro, desta vez na Fóia. Para compor o ramalhete, outro observador - Miguel Caldeira Pais - reporta outro Affinis no Carvoeiro.
O impossível tornava-se cada vez mais impossível. Quatro registos em cinco dias, sendo três do mesmo observador. Na altura até comentei num post que para ver um bicho desses bastaria andar o dia todo atrás do denominador comum, o Guillaume. Pelos vistos estes bichos seguiam-no, da mesma forma que os estorninhos seguiam o José da Jangada de Pedra.

Rouxinol-do-mato (Cercotrichas galactotes)

A minha cabeça parecia prestes a explodir. Eles estavam em todo o lado. Que confusão!
Onde ir e quando? Haveria mesmo um influxo de andorinhão-pequeno no Algarve?
Decidi não decidir. Dia 18 de manhã não fui a lado nenhum.
Mas, não podemos esquecer que a normalidade já havia sido ultrapassada há muito. Por volta das onze horas, o Georg Schreier dá a notícia de que estava a ver um Affinis no Cabo de São Vicente. Quinta observação em seis dias.
Curiosamente, em vez de ter um ataque cardíaco, começou a fazer-se luz. Segunda observação no Cabo implicava que a tentar qualquer coisa seria aí. Por outro lado, iria estar em Lagos por uns dias e chegaria lá depois de almoço. Os astros alinhavam-se.
Fiquei ainda mais convencido quando troquei umas impressões com o Nuno e percebi que ele tinha chegado à mesma conclusão. O raid seria ao Cabo. E ele estava otimista. "Hoje vai ser o nosso dia!", disse-me. "Vemos um hoje no Cabo e eu um amanhã na Ponta da Piedade!", respondi. Para otimista, otimista e meio.

Andorinhão-pequeno (Apus affinis)

A caminho de Sagres tentei manter a cabeça ocupada com outras coisas, para a ansiedade não levar a melhor. Mas confesso que perdi uns minutos a pensar no post que faria no Facebook, caso tivesse a sorte de ver o objetivo. Não tinha grandes expetativas, mas com tanto bicho na zona, a probabilidade era claramente superior a 0.

Cheguei por volta das quatro e meia e instalei-me junto ao farol. Havia algumas dezenas de andorinhões na zona mas, infelizmente, nenhum deles tinha branco nas costas. Lá para as cinco chegou o Nuno.
   -Já deste com o bicho?
   -Quase! - respondi.
Cerca das 17h30, na quinquagésima espreitadela, reparei que um dos andorinhões que estava mais alto no bando parecia ter um anel branco na zona posterior do corpo. Contudo, parecia muito estreito e diagonal, mais do tipo andorinhão-cafre. Na cabeça tinha o que já me tinham dito mais de uma vez, de que o uropígio branco do Affinis é um "barrão" muito conspícuo, e não uma "barrinha", como no cafre.Estava claramente esquecido do princípio que tento seguir, que é o de ver com os teus próprios olhos e formar a tua própria opinião. Os preconceitos não são bons nesta atividade.


Andorinhão-pequeno (Apus affinis)
Nunca larguei os binóculos, enquanto falava com o Nuno, que tentava encontrar o sujeito. Cheguei à brilhante conclusão de que esse bicho devia ter algo esquisito e branco nas patas. Nem me ocorreu que os andorinhões "não têm patas". A verdade é que o Nuno, que já tinha experiência com a espécie em Espanha, começou a olhar para a mesma zona e passado nem um minuto entra em transe. Qualquer coisa como "Peraí, que temos novidade! Peraí! Peraí! É o gajo! É o gajo!". Com a calma possível lá tentei encontrar a estrela, seguindo as indicações. "Está ali ao pé dos Melba!". Demorei uns segundos angustiantes mas lá o vi, finalmente. Ainda me veio à cabeça a história do abelharuco-persa, que foi referido como estando perto de umas ovelhas, em Castro Verde. Nessa zona há poucas, como se sabe.

A observação foi muito acima do expectável, pelo menos para mim. Prolongou-se durante uns minutos e culminou com uma passagem rasante junto ao nosso posto. O Nuno conseguiu umas fotos bastante razoáveis. Eu, só uns registos fracos. Ainda o descortinei uma segunda vez no meio do bando. Mais dois minutos de adrenalina. O Nuno estava completamente transformado, elétrico. Em vez da reserva e das poucas palavras do costume, estava eufórico e a falar pelos cotovelos. Assisti a um autêntico episódio de Dr. Jekyll e Mr Hyde.
Após mais uns minutos de busca infrutífera, com os ombros e as costas a doer de tanto olhar para cima, resolvemos fazer um intervalo. Descobri que, ao contrário do que pensava, as rulotes do Cabo de São Vicente têm alguma utilidade. Lá saiu mais uma imperial com sabor a triunfo e umas mensagens com foto do animal para os amigos. Tudo em nome da rápida divulgação, claro. A curiosidade na rulote era muita. Não é todos os dias que aparece lá pessoal a beber imperiais com grandes lentes e aspeto estranho. A senhora era bastante comunicativa.
   -Mas as fotos são para alguma revista?
   -São só para nós - respondi.

Andorinhão-pequeno (Apus affinis) - foto Nuno dos Santos
Reparei no nome da barraca ao lado, "The last sausage before America" e pensei que se aplicava também ao nosso caso. "A última raridade antes da América". A minha primeira no Cabo de São Vicente. Depois de uns minutos a saborear a vitória, com os ombros a doer menos, resolvemos ir ao Affinis round 2.
   -Bom, vamos trabalhar! - disse eu.
   -Trabalhar? Um trabalho como esse também eu gostava de ter! A tirar fotografias! - respondeu ela.

O crítico - ou neste caso a crítica - da zona estava encontrada. Mais meia hora de investimento acabou por não produzir resultados. O ar frio começava a aparecer e os andorinhões a desaparecer. Ouvia-se trovoada no mar. O dia estava feito e tinha realmente sido nosso. Pelos vistos é possível arrolar um andorinhão destes. Ou este bicho não seria o mesmo que o Georg viu umas horas antes? Quando pensei nessa hipótese comecei automaticamente a ouvir a música do genérico da Twilight Zone na minha cabeça (tininini tininini).

Depois de jantar lá fiz o post que tinha planeado a caminho de Sagres.
"Nunca tinha visto um destes!", com uma foto onde se via claramente um andorinhão "sem cauda" e com o uropígio branco.


Resta-me deixar aqui um agradecimento ao Nuno dos Santos pelas fotos e companhia em mais uma pequena aventura.