sábado, 17 de novembro de 2018

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

10/11/2018
Romaria no Baixo-Vouga

O Perna-amarela-grande (tringa melanoleuca) era, desde há anos, uma ave do topo da minha lista de desejos. Nas minhas quatro viagens ao Brasil nunca tive a sorte de me cruzar com um, e isso só fez com que a sede aumentasse. Em Portugal havia apenas quatro observações até à data, sendo a última em 2011, com uma foto em voo e uma identificação posterior.
Com este panorama, nunca tive muita esperança de ver um por estas bandas.

Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
É uma ave bonita e elegante, de dimensão razoável.
Contudo, por outro lado, em termos de raridades, as coisas andavam muito imprevisíveis ultimamente, com a chegada das aves que apelidei como “filhas do furacão”.
Nas últimas semanas tinham sido descobertas em Portugal uma juruviara-boreal, dois socó-mirim, um falaropo-tricolor. Tudo aves do outro lado do Atlântico. Em Espanha havia também sinais de que as coisas estavam ainda quentes. Era mais ou menos consensual entre a comunidade que haveria e haverá por aí muitas raridades americanas ainda por descobrir. Restava apenas esperar que o que fosse descoberto fosse arrolável, por um lado, e aparecesse o mais próximo do fim de semana possível.

Mais uma vez, como quase tudo nesta vida, a realidade não replicou o sonho. 
Dia 7/11/2018, uma quarta-feira, aparecem no "Fórum Aves" umas fotos que, desde o primeiro minuto, não deixaram dúvidas a ninguém. Estava um perna-amarela-grande no Baixo-Vouga, descoberto pela Ana Botelho e Tiago Carvalho. E agora?!

Com uma semana cheia de compromissos profissionais, tive mais uma vez de me sujeitar à espera angustiante da chegada do fim de semana. Logo no próprio dia da descoberta , as tentativas de relocalização durante a tarde foram infrutíferas. Na maré cheia o local fica alagado e do bicho nem sinal. A dúvida instalava-se.
Restava esperar pelo dia seguinte, Quinta-feira. 

O suspense não durou muito. Às 8h40 já havia notícias de que o bicho estava à vista. 
Nesse dia, mais um grupo de observadores teve a sorte de ver a estrela. Desta vez mais em cima das 9h. A maré avançava um pouco todos os dias e os avistamentos avançavam com a maré. A mim, o reavistamento só aumentou a angústia. O bicho estava ao alcance, mas sexta-feira estava fora de hipótese. 


Perna-amarela-grande - foto Luís Rodrigues
Sempre à distância
As contas estavam cada vez mais difíceis. A meteorologia do fim de semana estava muito complicada. Domingo era dia de dilúvio. Chuva contínua. 
Restava, assim, o sábado. Apesar de chover muito de madrugada, iria haver uma aberta a partir das 8h. A escolha parecia simples, mas não era. Nesse dia tinha um almoço em Lisboa ao qual era proibido faltar. Se fosse ao bicho no sábado teria de sair às 10h, o mais tardar. 
Com uma janela de tempo tão pequena, a viagem teria de ser a solo. Obviamente, ninguém se queria juntar a um plano com tantas variáveis, onde basta um cabelo para o comboio descarrilar. Sentia-me como o caracol no fio da navalha. Aquele de que fala o Marlon Brando no célebre monólogo do "Apocalipse Now".

Resumindo, as condicionantes eram "poucas". Havia o tempo instável, a maré a avançar meia hora todos os dias e os minutos contados. Além disso a distância era razoável,  viajaria sozinho e a chegada a Lisboa teria de ser no máximo às 12h30. Tudo sem stress, portanto. Como disse aos meus companheiros de loucura "Para quem gosta de adrenalina sábado é o melhor!".  

Claro que havia também a hipótese de ficar em casa mas, seguindo a máxima de "quem dá o que tem a mais não é obrigado", decidi arriscar. 
Para maximizar o tempo no local e minimizar o cansaço, comecei a pensar em ir para cima sexta à noite e, como quem tem amigos tem quase tudo, o António Martins ofereceu logo a sua casa, a 15 minutos do local, como base. "Dormes cá em casa!". 
A hospitalidade do norte no seu melhor, e melhor era impossível. 

O plano ficou completo já a tarde de sexta ia bem avançada. Lembrei-me de uma frase muito usada na minha última viagem ao Brasil, em Outubro. "Vai dar tudo certo!". Os dados estavam lançados. 


Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
Saí do trabalho, agarrei na trouxa e arranquei para cima. Às sete e pouco já estava na A1. Cheguei a Azurva por volta das 21h30, sem apanhar uma gota de chuva no caminho, tal como previsto. O Windguru parecia estar certo e o plano estava a começar bem. 

Os meus anfitriões incluindo a simpática cadela - Farrusca - receberam-me de braços abertos. Consegui dormir a noite quase toda. Um luxo, apesar de os nervos me obrigarem a acordar mais cedo que o costume. Tudo normal, portanto.

Apesar de saber que não ganhava nada em chegar muito cedo, porque a maré ia estar muito alta, estava no local ainda antes das 8h. Começava a espera enervante mas, pelo menos desta vez, esta não poderia ser longa, infelizmente. 
O pessoal da zona e arredores começou a chegar. Acabámos por nos ir espalhando pelos vários pontos de observação onde o bicho já tinha sido avistado nos dias anteriores. Mais uma meia hora, e já lá estava um carro do Ribatejo e outro de Lisboa. Já dava quase para fazer uma equipa de rugby com suplentes e tudo. 

Numa ocasião reparei no Luís Rodrigues e no Paulo Leite, que tinham passado por mim de carro, irem para uma zona mais à direita, e a andar em cima do dique. 
Por volta das 8h30 ligaram ao Pedro Moreira a dizer que o tringa tinha aparecido em voo perto deles. Havia foto e tudo. Teria vindo do outro lado do dique, juntamente com um perna-verde, investigar o estado da maré e teria regressado à procedência, quando viu que ainda havia muita água. Maldita maré, que nunca mais descia. 
Escusado será dizer que para o outro lado do dique a visibilidade era zero.  

A aparição inicial do dia - Foto Paulo Leite
"Menos mal", pensei. O bicho ainda andava por ali. Também pensei que bem que podia  mas era ter passado junto ao meu posto. Aguenta coração!
A espera continuou. Mais uma volta de carro e resolvi ir para o local do avistamento inicial. A ideia era que ele acabaria por ir para lá mais tarde ou mais cedo. Porque não? Era uma estratégia tão boa como outra qualquer. 
A verdade é que a água continuava alta e o bicho não aparecia. Mais cinco minutos, mais quinze minutos, mais meia hora. Nove horas. Nove e meia. Nada. 
Comecei a fazer contas de cabeça. "No limite, se sair às dez e meia e for para baixo à velocidade da luz ainda consigo chegar a tempo". O stress aumentava, aumentava, aumentava. Raio do bicho que nunca mais aparece!

À bonita hora 9h49, toca o telefone. Era o Paulo Alves. "Pegas no carro, metes a primeira e vens ter ao sítio onde estavas há bocado!". Nem quis ouvir mais nada, nem olhei para trás. Passei a informação ao Luís Rodrigues e ao Paulo Leite, que estavam comigo, e segui a correr para o carro. Correr é como quem diz, qualquer coisa entre o andar rápido e o correr sem tirar os pés no chão. Aquela figura ridícula que se faz quando os joelhos já tiveram melhores dias. Segui a toda a velocidade pela estrada alagada e cheia de buracos - another one drives the Duster. Um minuto depois estava no local referido. Nada! Nem carros nem pessoas. Mau... 
Liguei ao Paulo. 
   -Onde é que vocês estão? Não está aqui ninguém!
   -Continua em frente! Segue! Segue! Estou a ver o teu carro! Vira à esquerda no fim da estrada!
Percebi que estava a caminho do dique, com a estrada cada vez mais alagada. Quando passava nas poças a acelerar a água subia acima do tejadilho.  
   -Paulo, isto está cheio de água! Vou ficar atascado!
   -Bora! Segue! Se o carro do Pedro Moreira passou, o teu também passa! - e passou.
Lá comecei a ver pessoal em cima do dique e os carros parados. Saí do carro e subi para junto da malta.
   -Está à vista? 
   -Não, pá! Voou para o outro lado das canas, mas está ali.
"Que surpresa!" - Pensei.
Mas todos os malandros têm sorte. Passado mais um ou dois minutos o pessoal mais à direita detetou o tringa. Apontei os binóculos e lá estava ele. Umas fotos, uma olhadela num telescópio emprestado. Perna-amarela-grande...Check. 
Olhei para o relógio. Eram 9h57! Adoro quando um plano dá certo! 


Um dos meus fracos registos. Não se pode ter tudo...
Abro um pequeno parêntesis para só para contar o que consegui apurar sobre este segundo avistamento do dia. O pessoal de Lisboa, Rui Machado, Pedro Marques, António Gonçalves e Bruno Herlander Martins resolveu ir para o dique e a dada altura o malandro do bicho passou por eles e pousou na lama bastante perto. Telefonaram ao Pedro Moreira que chamou o pessoal do Ribatejo. O Paulo telefonou para mim, e pronto. Assim se faz a alegria do povo.

Mais umas dezenas de fotos, mais uma olhadela nos binóculos, mais umas espreitadelas nos telescópios e, claro, uns palavrões para aliviar a tensão acumulada. 10h05.
   -Já te vais embora? - perguntaram-me.
   -Já. Estás a imaginar o stress, não estás?
As fotos não ficaram grande coisa. O bicho estava longe e o tempo manhoso. "Querias o quê? Tudo?", pensei.
Tive pena de não ter ficado mais tempo. Podia ser que o bicho se aproximasse. 
Contudo, parece que nesse dia ele manteve sempre a distância, e não foi para os locais onde andou nos dias anteriores, segundo consegui apurar.

A foto de uma família feliz. Mais uma vez fiquei de fora...
foto Pedro Moreira
Já só faltava o mais difícil. O regresso. Depois de levantar água em mais umas poças, lá consegui regressar ao alcatrão e seguir para Lisboa. E se chove? E se o carro avaria?
Nada. Deu mesmo tudo certo. Chuva, sim, mas nada de especial. Às 13h20 estava sentado à mesa do restaurante, com Lisboa aos pés e o castelo em frente, no cimo da colina. Com o tringa e a vista, sentia-me mesmo nas nuvens. A meio do almoço, começou o dilúvio.
Tudo dentro do plano. Há dias assim.

Uma nota final para agradecer a ajuda de todos nesse dia, a começar pelo António Martins e esposa. Também para agradecer ao Luís Rodrigues, Paulo Leite, Pedro Marques e Pedro Moreira as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica.

Epílogo: 
Apesar de na altura ter a forte convicção de que o bicho ia ficar uns meses, e inclusivamente ter dito aos meus companheiros que voltava lá no Natal, para o filmar e fotografar com calma, a verdade é que, desde esse dia, o perna-amarela nunca mais foi visto por ali. Pelo menos até à data em que escrevo esta crónica. 
É daquelas coisas que nos deixa a pensar...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Bodas de Prata, Socó de Ouro

21/10/2018
Bodas de Prata, Socó de Ouro

Depois da mítica juroviara-boreal de Esmoriz não ter dado sinal de vida na sexta 19, e sábado 20, o fim de semana perspectivava-se como normal, no sentido de não haver  nenhum bicho para arrolar. 
Confesso que até fiquei aliviado, uma vez que sábado à noite tinha o jantar comemorativo dos 25 anos de saída do Técnico, ao qual não queria faltar.

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
O Carl arriscou a vida, mas lá que ficou perto, ficou.
Assim, o sábado foi tranquilo e às 19h lá segui para o evento. Aquilo estava a correr bem e já ia a meio quando, caída do céu aos trambolhões, como sempre, aparece a notícia do Socó-mirim (butorides virescens) no Algarve. Mais uma primeira observação para Portugal Continental, mais uma ave filha do furacão. Foi o Simon Wates que enviou a bomba para o Facebook e ficou à espera que ela rebentasse. E não demorou muito.
A meio do jantar começam a chover mensagens e mais mensagens no messenger. Os meus antigos colegas começaram a aperceber-se que que eu estava desconcentrado e sempre agarrado ao telemóvel. Lá tive de revelar a razão e, por inerência, o meu hobby. À volta da mesa vi um misto de incompreensão, gozo e curiosidade nas expressões. Não liguei muito, uma vez que já começo a estar habituado.
O resto do jantar foi passado a combinar o domingo. Para mim iria começar à bonita hora das 4h45 da madrugada. Para outros, muito mais cedo. De Lisboa para baixo seria eu o condutor.
Mesmo saindo mais cedo do evento, cheguei a casa à 1h e deitei-me à 1h30. Se dormi, foi quase nada. Já acordei cansado, mas como era por gosto…

Socó-mirim - o vídeo

Fomos para baixo cumprindo a tradição. No carro íamos cinco - Flávio Oliveira, Paulo Ferreira, Pedro Ramalho, Matthias Tissot e eu. Um grupo de malucos, como de costume. Encontro no sítio do costume, conversa sobre os temas do costume. Na paragem do costume é que existiu uma nuance. Aquilo estava cheio de caçadores e íamos demorar mais tempo do que o costume. Ainda houve quem sugerisse voltar ao carro e parar na próxima área de serviço, mas foi prontamente apelidado de louco pelos outros, e a ideia foi abandonada de imediato. É preciso respeitar as tradições e em equipa que ganha não se mexe.

Por volta das 8h30 estávamos no local do acontecimento. Não fomos os primeiros, porque já lá estavam dois observadores algarvios, o Renato Bagarrão e o Pedro Caboz.
Rapidamente ultrapassámos a marca das 10 pessoas, juntando o pessoal que tinha vindo do Ribatejo. O circo estava a instalar-se rapidamente. Se não era o twitch mais concorrido de sempre, para lá caminhava.

Falei com o Renato e com o Pedro Caboz sobre possíveis locais onde poderia ter sido tirada a foto do dia anterior e transmiti a informação ao Paulo Ferreira quando estávamos os dois perto do sítio indicado. Ele rapidamente identificou o local exato. Olhou para a foto e depois para a vala à nossa frente. "Olha ali! Não estás a ver? Foi naquele pau que está ali!". Ficava do lado Leste da lagoa, do outro lado da estrada, por baixo dos omnipresentes eucaliptos. Era um princípio do princípio e já não faltava tudo.
Esquadrinhámos cada metro do local e redondezas. Da garça, nem sinal. Uma galinha-d’água que apareceu exactamente no tal pau ainda deu para assustar, mas infelizmente não a conseguimos transformar na sonhada garça. Será que estava escondida na vegetação alta? Estaria no Ludo? Estaria em Portugal? Estaria viva? 
As possibilidades são sempre infinitas.

Passámos a manhã espalhados e a procurar um pouco por todo o lado, mas sobretudo na margem da lagoa, a olhar para as ilhas de vegetação. Pela minha parte, passei a maior parte do tempo entre o abrigo e a zona dos eucaliptos. Esta estratégia tinha a ver com a minha expectativa de que ela aparecesse em voo, tal como tinha feito no dia anterior ao casal inglês que a descobriu. No abrigo, o campo de visão é o maior possível. Nos eucaliptos tinha a ver com o que chamei na altura de “crença do touro”, ou seja, no facto de acreditar que o bicho estaria algures por ali. 
As horas foram passando. Como não se passava nada e a sede apertava, resolvi ir buscar água ao carro. Para não voltar muito pesado, resolvi também deixar lá o tripé o que, mais tarde, se revelou ser um erro estratégico. Ainda por cima, aquele tripé nem pesa assim tanto. 

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
A manhã chegou ao fim. Passou-se o meio dia e nada de garça. O cansaço ainda não se fazia sentir, mas vinha a caminho. Se tivéssemos que ficar até tarde ia ser duro, já para não falar da viagem de regresso. Enfim, nada que alguém que ande nesta vida não conheça já de cor e salteado.
Por volta das 12h30 estava outra vez na zona dos eucaliptos, juntamente com o Matthias e outros. De repente, ele chama-me a atenção - “Olha!” - para uma ave em que passou em voo por cima das nossas cabeças, a uns cinco metros de altura. Era do tamanho de um garçote e escura. Vi-a de imediato e apanhei-a nos binóculos por alguns segundos. Não tive dúvidas de que era a bomba a fazer a sua aparição. Bum! Socó-mirim…check! 

Foi para a lagoa, e pousou quase em frente da matilha de twitchers que se tinha instalado na margem quase toda a manhã.  “Era não era?”, perguntou o Matthias. Eu respondi afirmativamente, enquanto fingia que corria para junto do pessoal. Fosse pelos nossos sinais ou gritos, ou por a terem visto também em voo, o caos estava instalado no local. O espaço era exíguo e as pessoas eram mais que muitas. 
Não a apanhei pousada, mas vi-a levantar e seguir em voo mais para a direita. Acabou por pousar no extremo oeste do lago, já bem dentro do buraco 17 do campo de golfe. 
Foi tudo muito rápido e pensei que não existissem registos do acontecimento. Fiz a minha pergunta da ordem, “Não se ficou com evidência, pois não?”. O Renato saltou imediatamente, “Mas qual não há evidência?!”, e mostrou-me, na máquina, uma foto muito razoável da ave em voo. Assim sim, tudo nos conformes. Fiquei logo mais tranquilo.

A foto que o Renato Bagarrão me mostrou, ainda na máquina.
Evidência acima de tudo.
Acabámos por invadir o campo em força na zona do início do buraco, perante os olhares meio incrédulos, meio desconfiados de um ou outro golfista que ia aparecendo. Não estavam a gostar da brincadeira. Era aproveitar enquanto ninguém vinha correr connosco. 
O Carl arriscou a vida, ao ir para a zona exacta do bicho, a uns bons cem metros de distância, sujeito a levar com uma bola na cabeça ou eventualmente até em sítios piores. É que na cabeça sente-se a pancada e não se sente mais nada para sempre. O problema fica resolvido de vez.

Soube mais tarde, que dois golfistas acabaram por ceder à curiosidade e ir falar com o grupo, para apurar o que se passava. Quando lhes foi explicado que estávamos a ver uma ave que era a primeira vez que aparecia em Portugal Continental, acabaram, inclusivamente, por querer vê-la num dos telescópios disponíveis. E esta, hein?

Primeiro meio escondido, depois mais à vista. Toda a gente encheu a barriga com o bicho. E eram claramente mais de vinte pessoas, incluindo dois casais ingleses. Uma das senhoras até se emocionou quando soube que estava a ver uma "primeira para Portugal", segundo o Paulo Alves, que falou com ela e lhe explicou a situação. Esse detalhe não vi, mas lembro-me de ouvir parte da conversa. "Só viemos aqui porque estamos a ir embora e este ponto é próximo do aeroporto", disse ela. Há dias de sorte... 

Eu estava eufórico por um lado, mas irritado por outro, por não ter o tripé para filmar o socó com mais qualidade. Ou seja, em média estava normal, como diria um estatístico. Nunca se pode ter tudo. 
Depois de uns filmes e umas dezenas de fotos, resolvi ir rapidamente ao carro buscar o que me faltava. Eram só uns minutos, e podia ser que o bicho se mantivesse à vista até voltar. 

Socó-mirim (butorides virescens) - foto Carl Hawker
Quando voltei já vi a tropa toda a desmobilizar, sem olhar para trás. Já? Pensei. Inclusivamente tinham tirado a foto de grupo sem mim. É triste, mas é a vida. Os erros pagam-se, mas este até não foi muito caro. O que interessa é ver o bicho. 
Valeu-me o Lars que, quando publicou a foto no Facebook ainda me identificou nela como estando nas nuvens. E estava mesmo. Não é todos os dias que se vê uma ave destas, de encher o olho, e com uma observação 5 estrelas. 

Voltei ao campo de golfe, agora quase deserto. Só lá estava um fotógrafo alemão. 
“No. I still did not see the bird!”, disse ele. Realmente a ave estava outra vez meio escondida. Apanhei-a nos binóculos e apontei-lhe onde estava. Foi a minha boa ação do dia. Para socó-mirim tem de se seguir o código do escoteiro-mirim do Huguinho, Zezinho e Luisinho.
Infelizmente, o bicho não quis ficar mais a descoberto naqueles cinco ou dez minutos extra e não filmei nem mais um segundo. A ida ao tripé tinha realmente sido de uma utilidade extrema.

Resumindo, era uma da tarde, e já estávamos com o caso despachado. Eu ainda sugeri que fossemos directos para Lisboa, mas os meus companheiros nem quiseram ouvir falar no caso. Disse que um restaurante para mais de dez pessoas num domingo às 13h30 ia ser impossível. Não quiseram saber. 
O Bruno Herlander, com a calma habitual, arranjou uma solução. Acabámos por ir comer frango da Guia a um restaurante em Faro. Claro que ainda houve críticos a dizer que o frango era pequeno. Era o que faltava, não aparecer um crítico num twitch. “É frango da Guia”, expliquei. Também existiu quem comesse febras em vez de frango, mas isso para mim já roça o ofensivo. É como ir a um restaurante de leitão na Mealhada, e pedir um bife. 
Voltámos para cima e a verdade é que, mesmo com almoço, às 18h já estava em casa. Podia ter sido muito pior. 
Como certamente não estava cansado, adormeci por volta das 19h, sem jantar, e só acordei às 2h30 da manhã (!). Vesti o pijama e voltei a deitar-me. No fundo, foi quase como se dormisse duas noites seguidas.

Foto de grupo. Só faltei eu. Até a cadela do Bruno ficou registada. (foto do Paulo Alves) 
Não queria finalizar sem deixar uma nota sobre o nome comum que uso, Socó-mirim. Esta ave não está na lista de aves do Brasil, portanto não poderia usar essa lista como fonte, apesar desse nome ser certamente de inspiração brasileira. Acabei por seguir a nomenclatura que é usada na tradução portuguesa do guia Collins, que é o que faço normalmente nos vídeos do Canal do Xofred. 
Contudo, confesso que não desgosto do nome que o Gonçalo Elias “inventou” no local, Garçote-verde. Realmente é um garçote, e tem muito verde. 

Termino deixando um abraço a todos e todas – e foram muitos desta vez - os que estiveram presentes nesta aventura. Assim tem muito mais piada.

Agradeço também ao Carl Hawker, Paulo Alves e ao Renato Bagarrão a disponibilização das fotos que ajudam a ilustrar esta crónica.

#canaldoxofred

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte III - Como salvar uma Harpia

Brasil 2011 - Parte III - Harpia

Depois de Porto Jofre, seguimos de uma só tirada para a Pousada Piuval, que fica a uns trinta quilómetros da entrada da Transpantaneira. É mais ou menos o limite a que chega o "turismo de massas" na zona. A consequência é que é um hotel muito maior. 
Mesmo assim, quem se levanta antes do nascer do sol não se cruza nunca com muita gente. Nas nossas saídas nunca vimos ninguém. Provavelmente estariam na piscina, ou a ver outras partes da natureza, ou a andar a cavalo. Enfim aquele tipo de turismo que já fiz, mas que deixei de fazer quando me tornei sofredor profissional.


Harpia (Harpia harpyja)
No dia da chegada, num dos percursos que fizemos conseguimos o terceiro e o quarto dos "big five". Primeiro a Anta - Tapir (Tapirus terrestris). Apareceu do meu lado no carro. Só me lembro da travagem, com os pneus a raspar na terra assim que gritei "Está ali um tapir!". Na volta para o hotel, vimos um Cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus). Já só faltava o Papa-formigas.


 Tapir ou Anta (Tapirus terrestris).
Felizmente, esse sofrimento acabou rápido. No dia seguinte, na saída de antes do pequeno-almoço, nos arredores da pousada, ainda com muito pouca luz, tive a sorte de avistar um a alguma distância. A silhueta é inconfundível e soube logo o que estava a ver. Avisei o Ricardo e a Sandra. Estava histérico, mas não me lembro se gritei. A vontade de correr era muita, mas fomo-nos aproximando com cuidado, em silêncio e sempre tendo em conta o lado de que soprava o vento, para não sermos detetados.
Conseguimos ficar quase ao lado do animal. Que bicho! Parece extra-terrestre. Ainda estivemos com ele uns minutos valentes. Tirei algumas fracas fotos de registo, mas filmes nada. Porque é que não carreguei no botão "REC"? Nota mental, conhecer bem a câmara que se leva nestas viagens.
E pronto. Os Big Five do Pantanal Norte estavam no papo, e com o último que faltava UBBB. Under the belt before breakfast. Mais um ponto alto da viagem. Menos um stress.

Papa-formigas-gigante ou Tamanduá-bandeira
(Myrmecophaga tridactyla)
Mas o que é uma viagem destas sem stress? Próximo objetivo, Harpia (Harpia harpyja).
O lodge da Serra das Araras era engraçado, mas ficava poucos quilómetros ao lado de uma pedreira. A parte final do percurso não era nada bonita. Uma ave dessas por aqui? Custava a acreditar. 

Mas, a verdade é que logo à chegada, por volta da hora de almoço, ficámos a saber que estava uma harpia - por lá diz-se gavião-real - no chão nuns terrenos perto. Deveria estar em dificuldades, porque não voava, mesmo com a aproximação das pessoas. 
Reparando que o fazendeiro, dono da pousada, parecia pouco interessado no destino do animal, o Ricardo entrou de imediato em acção. Convidou-me para ir com ele falar com o fazendeiro, que tentou sensibilizar para a importância de proteger o animal. Afinal, todos os birders que iam ao Lodge, iam lá para tentar ver o casal de Harpias da zona.
O fazendeiro e a esposa foram amáveis e ofereceram-nos logo um cafezinho, mas não me livrei de uma ou duas piadas de Portugueses. No Brasil é assim. Quem lá vai a partir da Ocidental Praia Lusitana tem de se habituar. 
A conclusão do encontro foi que se iria falar com a Capital - Cuiabá -  para enviar alguém para recolher a águia. Soube uns minutos mais tarde que ia ser enviado um biólogo. O problema é que 400Km não se fazem em cinco minutos, e muito menos naquelas estradas. Ou seja ainda iam passar umas horas bem medidas, com o bicho vulnerável, no chão. 
Aí, o Ricardo teve um ato invulgar, corajoso. Colocou-nos a questão da seguinte forma:
   -Frederico, a viagem é sua e eu estou à vossa disposição. Mas, por mim, durante a tarde devíamos ir proteger a harpia, até que chegue o biólogo. Se ela fica lá sozinha, as pessoas podem matar ou cutucar ela. Se me disser que não, não há problema. Eu faço o que vocês quiserem.


Harpia (Harpia harpyja)
Não hesitámos. Não é todos os dias que temos uma oportunidade de ajudar a salvar um animal selvagem mítico. Perdem-se umas aves, ganha-se uma história para a vida. Por outro lado, no Brasil há sempre aves em qualquer lado. Vê-se sempre qualquer coisa.
Estivemos toda a tarde de plantão, a uma vintena de metros dela. Coitada, estava de pé, muito parada, à sombra de uns arbustos. Parecia uma estátua. É complicado de ver a águia mais poderosa do mundo desta forma. 
O biólogo tardou, mas chegou. Já estava no quarto, depois do jantar quando me chamaram. Não vi a melhor parte, quando a harpia se virou de costas com as garras para cima, defesa de último recurso. Quando cheguei já ela estava com o cobertor enrolado à volta. Os braços dele mal chegavam para rodear o bicho. Pegou-lhe ao colo, sentou-se traseira de uma pickup e disse "Vamos rápido, que eu não consigo aguentar muito tempo!". Deixaram-na um pouco mais à frente, confinada numa cavalariça.

Na manhã seguinte, logo ao nascer do sol, já estávamos a acrescentar aves à lista. Passámos na área das cavalariças e qual não é o nosso espanto quando a Harpia estava cá fora, junto à estrada. Mal se mexia, mas a verdade é que tinha conseguido sair do confinamento. Bom sinal. 
Aproximamo-nos a apenas uns metros para tirar mais umas dezenas de fotos. Assim a curta distância, o que mais me impressionou foi a grossura das patas. Eram quase do tamanho do meu pulso. Também deu para reparar numa ferida na asa, provavelmente a causa do seus males. O biólogo, no dia anterior, tinha dito que ela teria sido provavelmente mordida por um macaco. 


Harpia (Harpia harpyja) - pormenor das patas e das garras
Saímos da serra das araras com a Harpia em recuperação e com o coração cheio de esperança. Oxalá o bicho se salvasse. 
Soubemos o epílogo mais tarde, através de dois posts do Ricardo no Facebook. 

25 de Outubro de 2011
Olá Frederico e Sandra!!!  Boas novas!!! Hoje a Harpia foi vista recontruindo o ninho na Serra das Araras, macho e femea!!! Vamos torcer!! Legal saber que fizemos parte de um momento importante nessa estória que esta por vir... Abraço

23 de Agosto de 2012
GAVIÃO REAL.( FILHOTÃO) HARPY EAGLE (Harpia harpyja) Essa foto tem um gostinho muito especial pra mim, em  Agosto de 2011 estávamos eu, Frederico Morais e Sandra Meneses cuidando da Mãe desse pequeno Gigante, depois de um acidente. Pois bem, ela se recuperou e deu continuidade à batalha da perpetuação dessa tão incrível espécie!! Parabéns a VIDA!!!


Foto Ricardo Casarin
Neste caso fomos mesmo "Eco Warriors - Guerreiros do Planeta" (quem vê o canal Odisseia sabe do que falo). Ajudámos, de forma direta, na conservação de uma espécie emblemática.
Mais uma história irrepetível, para recordar de vez em quando e ficar com um sorriso nos lábios. Ninguém me tira da cabeça que foi esta boa acção que foi premiada em 2015 com outra excelente observação de Harpia na Amazónia. O Karma não é para brincadeiras.


Depois do sucesso na Serra das Araras, última paragem do tour era na Chapada dos Guimarães e num novo ecossistema, o Cerrado.
Era aí que o Ricardo vivia na altura. Ele estava em casa e, por inerência, nós também. Conhecemos a filha, o pai, alguns amigos.
Um dos episódios mais hilariantes foi quando o Ricardo nos apresentou a um casal amigo. Ela pensou que fôssemos anglófonos, como a maioria dos clientes do Ricardo. Cumprimentou-nos em Inglês.
   -Hello. Nice to meet you. My name is…
Eu entrei na brincadeira e respondi, já meio a rir:
   -Hi. My name is Frederico.
Aí, o Ricardo disse qualquer coisa como:
   -Não vê que eles são portugueses? Pode falar Português.
A resposta foi espontânea, e ficará para sempre na minha memória:
   -Portugueses? Desculpe! Pensei que fossem estrangeiros.

A resposta resume aquele sentimento de conforto inexplicável que tenho sempre que vou ao Brasil (hoje, já a caminho do quarto tour). Uma pessoa atravessa o Atlântico, e é recebido em Português. Não é em inglês, nem em Espanhol, nem em Francês. Comecei a compreender aquilo que alguém escreveu um dia “A minha pátria é a língua portuguesa”.


Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata)
Das aves, recordo-me de algumas, especiais, que vimos na Chapada e arredores. O espetacular Campainha-azul (Porphyrospiza cearulescens), o Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata), o Soldadinho (Antilophia galeata), a Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus), a Arara-canindé (Ara ararauna), o João-bobo (Nystalus chacurup). Por outro lado, ficou-me atravessada a péssima observação de Urubu-rei (Sarcoramphus papa), que vimos muito mal, tipo mosquito, à entrada da Chapada. Esse ainda não consegui ver melhor até hoje.
As viagens são assim e temos de estar preparados para isso. Nunca se vê tudo e nunca se vê tudo como queremos. Os números finais do tour ficaram em 244 espécies de aves e 13 de mamíferos. 

Arara-vermelha-grande (Ara chloropterus)
Foi com pena que regressámos a Cuiabá, já a pensar na viagem de regresso. O jantar do último dia foi num centro comercial. Rodízio de pizza. Lembro-me que estava a dar na tv um programa de crimes - "Cadeia Neles!". A empregada achou o nosso sotaque estranho. Não o conseguia identificar e olhava para nós desconfiada. O Ricardo, sempre na brincadeira, disse-lhe:
   -Sabe o que é? É que eles são de Pernambuco.
   -Ahhh! – disse ela.
Deve haver poucos portugueses em Cuiabá. Um ditado popular que ouvi na viagem foi algo do tipo “para Cuiabá nem os mortos querem ir!”.

No dia seguinte, de manhã, antes de seguir para o aeroporto, ainda me cruzei no pátio do hotel com um casal de americanos com binóculos ao peito. Como membro da tribo, meti conversa. Ao saberem que era português, disseram logo que isso era muito bom porque dessa forma não tinha a barreira linguística. Dá que pensar...

Pouco depois, iniciámos a longa viagem de regresso, sem história, que incluiu mais uma espera de muitas horas em São Paulo. 

Todas as viagens deixam marca, mas esta foi especial. O Pantanal é diferente.
Na altura, fiz o voto de um dia regressar. Oxalá seja possível.



Deixo aqui um grande abraço ao Ricardo Casarin. Não podíamos ter tido um guia melhor nesta primeira aventura na América do Sul. 
Obrigado também pela foto do filhote de Harpia, que ajuda a ilustrar a história.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte II - Onça-pintada

Brasil 2011 - Parte II - Jaguar

Após três dias e três noites de aperitivo, mais a manhã com o urutau, seguimos para o final da Transpantaneira, para Porto Jofre. É aí que reside o jaguar ou, como dizem por lá, a onça-pintada. No caminho, à medida que nos íamos aproximando, a tensão ia aumentando. Será que íamos atingir o objetivo? Seria possível?

Jaguar (Panthera onca)
 Durante o percurso lembro-me de ter visto uma Irara - Eira barbara, um mustelídeo - a correr na estrada e de o Ricardo dizer que estávamos com sorte, porque era um bicho que raramente se via assim, a descoberto, e muito menos em plena luz do dia.
Numa das paragens vimos fezes na berma, que foram prontamente identificadas por ele como sendo de onça. Comecei a reparar numa das expressões cómicas que usava, "Qui medo!". Pensando bem, tinha toda a razão, mas nem me lembrei disso. O Jaguar estava cada vez mais perto... 
Uns quilómetros mais à frente vi, muito ao longe, um felino adulto e uma cria a atravessar a estrada. A distância era tal que nem deu para perceber se seria jaguar - onça-pintada - ou puma - onça-parda. Disse qualquer coisa como "O que é aquilo?" ao Ricardo e ele gritou "Onça!" e acelerou a toda a velocidade. Quando lá chegámos e saímos do carro já não havia nada à vista. Felinos são assim mesmo. "Qui medo!" disse o Ricardo. 
Chegámos a Porto Jofre à hora de almoço. A primeira saída de barco só estava prevista para o dia seguinte de manhã mas, sentindo a minha ansiedade desde o primeiro dia, o Ricardo achou por bem antecipar a saída para essa tarde. Não estávamos à espera disso mas achámos boa ideia. Podia ser que o stress acabasse de uma vez. 
Ao chegar ao nosso bungalow, na porta estava uma foto de um Jaguar com a legenda Frederico e Sandra. E esta, hein?! Isto sim é serviço ao cliente. Antes do almoço, ainda deu para descobrir algumas Araras-azuis-grandes - Anodorhynchus hyacinthinus - que andavam nas imediações do hotel. Esta arara é gigante. Um metro de comprimento de um azul pouco comum.   

Arara-azul-grande - Anodorhynchus hyacinthinus
A seguir ao almoço fomos à procura do destino. A tensão sentia-se no ar. Nem as palavras do Ricardo - "Fique descansado que nunca saí daqui sem onça!" - ajudaram a acalmar os nervos. 
Os barcos do hotel são rápidos, mas mesmo assim ainda demoram uns quarenta e cinco minutos a chegar às melhores zonas para a onça. Normalmente há sempre mais alguns barcos a percorrer a área, que vão comunicando por rádio os avistamentos mas, nessa tarde, o único barco no rio era o nosso. Menos olhos, menos probabilidades. Por outro lado, a tranquilidade é maior.
Andámos um bom par de horas a percorrer a zona, sem grande sucesso. A técnica é ir olhando para a margem, e ver se estará lá alguma coisa a descansar à sombra, junto à água. O nosso piloto - diz-se "piloteiro" por lá -  tinha a teoria que é melhor andar rápido, porque assim os bichos têm menos tempo para se afastar com a aproximação do barco. O Ricardo não concordava muito com isso e ainda os vi a trocarem umas palavras sobre o assunto. Mais uma vez, teorias há muitas mas o que conta é "ver o bicho". E até ver o bicho todas as teorias são isso mesmo, teorias. 
De repente, depois de mais de mil curvas no rio, lá estava ela a descansar à sombra. A minha onça. Objetivo à vista! Lembro-me da adrenalina, do coração quase a saltar do peito e de pouco mais. As emoções fortes provocarão amnésia? Fundeámos o barco em frente ao animal e a pouco e pouco fui acreditando no que estava a ver. É realmente um felino espantoso. As cores suaves, os músculos fortíssimos. Cada mancha com as suas pintas no interior.  Inicialmente olhou a pensar se arrancava dali para fora, mas a moleza e o calor fizeram o seu trabalho. Foi simpática e deixou-se ficar.
Jaguar (Panthera onca)
Fartei-me de tirar fotos. Na altura tinha a minha primeira bridge há pouco tempo e ainda não a conhecia bem. Não sabia que, sobretudo nas fotos, estas câmeras têm algumas limitações. Mais ainda em condições de luz difíceis como aquelas. Nesses casos, mais vale filmar. Hoje já sei... 
Poucos filmes fiz nessa viagem mas, foram todos de jaguar. Não sei se seria porque esse animal era o grande objetivo, mas só me vinha o "filmar" à cabeça quando via um jaguar.
Fui fazendo um filme de vez em quando. Como é normal com os felinos, passou a maior parte do tempo a dormir. Levantava a cabeça, olhava, levantava-se, dava uns passos e dormia, sobretudo. E nós nas fotos e nos filmes. Minuto após minuto após minuto. No total passámos cerca de duas a sós com a "minha" onça. Que luxo!
No quarto de hora final resolveu ir fazer pela vida. Levantou-se e começou a caminhar na margem. Fomos avançando com ela no seu percurso. Levantávamos ferro e seguíamos na corrente. 
Bebeu água e ainda olhou para nós, provavelmente para decidir se estávamos ao alcance. Nadou um pouco junto à margem e, de repente, apareceram duas capivaras azaradas - mãe e a cria - só a uns dois ou três metros da onça. Elas e ela viram-se mutuamente pelo canto do olho e eu percebi logo que ia haver conversa. Na minha cabeça só pensava "Vai atacar! Vai atacar! Queres ver que vai mesmo atacar?". No barco reinava o silêncio. Predador e presa em acção. 
Não vou contar o desfecho. Uma imagem vale mais que mil palavras e está tudo no vídeo - "Flagra no Pantanal". 

 Flagra no Pantanal

Foi com ele que nasceu o "Canal do Xofred", cerca de um mês mais tarde. Hoje já vai com mais de três milhões e meio de visualizações. Um dos comentários que mais gostei ao longo dos anos foi de um amigo meu, poeta amador que, com a sensibilidade que o caracteriza, referiu que o vídeo chega até a ser comovente, na parte em que a mãe capivara tenta defender a cria. A Natureza é mesmo muito bonita.

Na altura, soube logo que estava provavelmente a ver uma cena irrepetível. Até hoje nunca vi uma coisa parecida. E acreditem que estou sempre à procura. 
No caminho de regresso ao hotel confesso, sem vergonha, que fui sempre de lágrimas nos olhos. Devia ser da adrenalina... 
Dia 7 de Agosto de 2011 cumpri um dos sonhos da minha vida. 

A verdade é que, nas outras quatro saídas de barco que tivemos, vimos sempre onça. Às vezes mais outras vezes menos tempo. Às vezes com mais gente outras vezes com menos. Numa das vezes contei as pessoas - 86! - e os barcos - 14!. Nessa ocasião, passou um barco com pescadores. Estavam no nosso hotel mas eram de outra tribo, a dos fazendeiros ricos com avião particular, que vão para Porto Jofre pescar. Ainda pararam para perguntar o que estávamos a ver. "Onça?" E arrancaram dali a toda a velocidade. Cada maluco tem a sua mania. 
No segundo dia vimos também uma família de lontras-gigantes (Pteronura brasiliensis) - no Brasil chamam-lhe ariranha. Têm "só" dois metros. Além de gigantes são divertidas. Dormiam num tronco, nadavam, comiam peixe. As vocalizações são inimitáveis e passam o tempo a "falar" umas com as outras. Foi um encher a barriga. 

Lontra-gigante (Pteronura brasiliensis)
Aí começou a saga dos "Big Five" do Pantanal Norte. Como insatisfeito que sou, depois do objetivo jaguar, saltei logo para outro, o das lontras gigantes. Assim que vi as ariranhas, passei a querer ver o Tamanduá-bandeira (Papa-formigas-gigante - Myrmecophaga tridactyla). 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Flagra no Pantanal - Parte I - Transpantaneira


Brasil 2011 - Parte I - Chegada à Transpantaneira

Confesso, envergonhado, que a primeira vez que ouvi falar no Pantanal foi só nos anos 90, quando a novela homónima passou em Portugal. Apesar de não seguir novelas há muito tempo, lembro-me de que o destino aparecia como uma imensidão semi-submersa, inexplorada, com muita vida selvagem.
Por outro lado, há muitos anos que tinha o sonho de ver um Jaguar - Panthera onca - mas sempre achei que era impossível. Como é que um amador poderia ver um animal esquivo e misterioso, o maior felino da América?
O facto de em 2009 ter visto o documentário “Jaguar Adventure with Nigel Marven”, em que a expedição andou vários dias à procura do felino no Pantanal, com vários batedores e barcos e em que só o viram quase à última hora só serviu para confirmar a ideia de ser praticamente impossível. Por outro lado, fiquei a saber que o Pantanal tinha jaguares. 
Em 2010, quando visitei a Birdfair em Rutland Waters, tinha ideia de questionar as empresas brasileiras que lá estivessem sobre o tema. E assim fiz.

A "minha" Onça-pintada (Panthera onca)
As respostas foram espantosas. Que sim, se fosse na data certa ao local certo havia excelentes possibilidades.
Dei o devido desconto mas, mesmo assim, fiquei com a ideia de fazer uma tentativa. Nessa altura, as viagens ao Brasil, sobretudo ao Nordeste, estavam na moda por cá e eu costumava dizer que devia ser o único português que ainda lá não tinha ido.
A novela, o documentário e a visita à Birdfair tinham feito o seu trabalho. O Pantanal ficou definitivamente no radar.

Tudo se concretizou em Agosto de 2011.
Iríamos ao Pantanal, fazendo toda a Transpantaneira de Poconé a Porto Jofre. A Transpantaneira é uma estrada mítica, de terra batida, com 150km e 120 pontes, que fica alagada uma parte do ano. O Pantanal tem esse nome por alguma razão. A viagem tinha também alguns dias em habitat de cerrado, na Chapada dos Guimarães e, nessa altura, quem fazia esse tour costumava também fazer uma visita de uma noite à Serra das Araras, para tentar ver a Harpia, a águia mais poderosa do mundo. 
Mas, sejamos claros, isto das aves é tudo muito bonito, mas o objetivo da expedição era um: VER UM JAGUAR. Sonhei muitas vezes com isso nos meses precedentes.

O início da Transpantaneira
Depois da viagem cansativa, que incluiu uma espera prolongada em São Paulo, a noite já ia avançada quando chegámos a Cuiabá, capital do Mato Grosso.
O Ricardo Casarin estava pacientemente à nossa espera. Segundo me recordo, apercebeu-se de quem éramos pelas roupas outdoor que tínhamos vestidas. Não me lembro de ver nenhum cartaz.
Saímos a porta e ouvimos quase de imediato:
- Frederico?”.
Uff! Pensei. Estávamos no destino e além das malas, tínhamos também o guia. Já não faltava tudo.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, seguimos para Poconé. É à saída dessa vila  que está o célebre portal que marca o início da Transpantaneira. É difícil de descrever a sensação que temos ao ver algo que já vimos muitas vezes na tv. Parecia que estava num documentário, só que este era o meu. Tirámos a foto da praxe, demos uma volta de poucos minutos e seguimos. Dessa volta recordo-me de ver, entre outras aves, um Pavãozinho-do-Pará (Europyga helias), o tal que tem um sol nas asas. 

As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) são omnipresentes
 O destino dos primeiros dias era um hotel mais ou menos a meio da Transpantaneira. Fomos fazendo algumas paragens no caminho e, logo desde o início, fiquei espantado com a quantidade de aves, caimões, capivaras e sei lá mais o quê que víamos por todo o lado. Além dos ubíquos Tuiuiús - Jabiru mycteria - símbolo do Pantanal, numa das paragens iniciais vimos logo Colhereiros (Ajaia ajaja), que por lá são cor-de-rosa, Talha-mar (Rynchops Niger), Martim-pescador-matraca (Megaceryle torquata). A lista ia aumentando e o nosso entusiasmo também. Neste habitat os bichos estão bastante expostos.  
Logo nas primeiras horas de convívio fui-me apercebendo de que o Ricardo tinha um entusiasmo contagiante a procurar e mostrar o que via. Tinha a mesma vontade de nos mostrar, que nós de ver os bichos. Ou seja, para um observador obsessivo como eu, foi o companheiro ideal de viagem.

Tuiuiú (Jabiru mycteria)
Os dias passados nesse hotel, a meio do percurso, funcionaram como um aperitivo para o resto da aventura. Como pontos altos recordo-me dos passeios de barco e de ver os cinco martins-pescadores presentes da América-do-Sul. 
Mas também me lembro de um episódio que me assombra ainda hoje. O falhanço da Garça-da-mata (Agamia agami). Essa garça é, para mim, a mais bonita da família. O azar é que também é das mais escassas e difíceis de ver, ou não fosse "da mata". Numa das viagens de barco o Ricardo viu uma uns metros dentro da margem, na sombra, e avisou "garça-beija-flor!", que é outro dos seus nomes comuns. Eu só ouvi "beija-flor" e fiquei à procura de um colibri junto ao barco. Quando perguntei "Qual beija-flor?" ele apercebeu-se que eu não estava a olhar para onde devia e disse "Frederico, caga no beija-flor, está ali a a garça!". Quando olhei, já ela se tinha escondido. Ainda hoje, sete anos depois, não a consegui colocar na lista e fico com com uma lágrima no olho. 
Na última noite nesse hotel veio à conversa o quando eu tinha gostado de ver o Urutau-grande - Nyctibius grandis - no documentário do Nigel. Fiquei espantado quando o Ricardo disse:
    -Pois nesse caso não lhe vou mostrar “um bicho”. Vou-lhe mostrar “o bicho”.
Ou seja, ele sabia onde estava a ave que tinha aparecido na tv. Na manhã seguinte “o bicho” estava lá à nossa espera, no poiso do costume, exatamente no mesmo ramo que tinha aparecido no National Geographic. É daquelas aves que quase vale uma viagem.

Urutau-grande - Nyctibius grandis

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Alma-negra com Champanhe

31/7/2018 - 02/08/2018
Portimão - Madeira

Já há uns anos que na tribo se falava do mito do ferry para a Madeira e de como este seria uma boa oportunidade para ver aves "impossíveis". O Alma-negra, Bulweria bulwerii, por exemplo. Esse fantasma do mar é uma ave quase impossível de ver de uma forma tradicional, seja a partir de terra, seja através de uma pelágica "normal". A solução óbvia seria um barco que fizesse um trajecto até ao limite da ZEE de Portugal Continental. Ora, como não existe oferta de pelágicas desse tipo, o ferry para a Madeira parecia ser a única hipótese. Havia apenas um pequeno problema. Esse serviço não existia desde o início de 2012.

Alma-negra (Bulweria bulwerii) - Foto Luís Rodrigues
Muita conversa houve sobre este tema ao longo dos últimos anos. "Um dia vai haver outra vez" , "temos de aproveitar". A chamada "conversa de chacha".
Entre concursos anulados, repetidos e sei lá mais o quê, num belo dia de Junho de 2018, o ferry finalmente materializou-se. O serviço começaria no início de Julho.
As movimentações - leia-se conversas de Facebook - começaram de imediato. Pelo que li parecia que havia, pelo menos, umas duas ou três dezenas de interessados.
Como sempre, à boa maneira portuguesa, na hora da verdade sobraram quatro - Pedro Ramalho, Pedro Nicolau, Luís Rodrigues e eu - que acabaram por ficar cinco, com a inclusão do Alexandre Rica Cardoso.

Entre todos, conseguimos chegar a um consenso. Além da viagem de ferry, ainda iríamos incluir uma pelágica e um dia para ver as aves lá do sítio. Fosse como fosse, ia sempre ser uma viagem relâmpago, sempre a correr. A volta seria de avião.


O Ferry - Volcan de Tijarafe - parece grande mas não é...
Pelo meu lado tinha o grande objetivo de ver alma-negra no dia 31, ou seja, na ZEE Portuguesa. Tinha também o objetivo secundário de ver todas as aves que ainda produziam emails de alerta do ebird e que há anos me andavam a encher a caixa de correio. "Precisa de pombo-da-madeira", "precisa de canário-da-terra", "corre-caminho", "bis-bis". Irra! Já estava farto. Tudo o que viesse por acréscimo seria um bónus. 
Com o meu optimismo habitual, não depositava grande esperança no objetivo principal. Seria um tiro no escuro, ou quase.

A logística não foi nada fácil de pensar, uma vez que o ferry sai de Portimão e não de Lisboa. No meu caso lá consegui arranjar maneira de dormir já no Algarve na noite anterior e de ter apenas uma noite mal dormida, a do ferry. Os meus companheiros tiveram duas, uma vez que viajaram para o Algarve durante a noite de 30 para 31. Dessa viagem para baixo, na tarde/noite de dia 30, recordo um motorista de camioneta espirituoso que, na Gare do Oriente, quando lhe perguntei se a camioneta não ia ainda passar por Sete Rios, me deu a resposta "Ò amigo eu nem sei onde isso fica!".

Funchal - A gaivina e o ferry (Sterna hirundo)
Dia 31 lá nos encontrámos todos no cais de embarque, em Portimão. Surpreendeu-me a quantidade de carros e de pessoas presentes. Vim a saber mais tarde que, além do tráfego normal havia ainda as equipas que iam participar no Rally da Madeira. Enfim, lá se foi de vez a minha esperança de ter o ferry só para nós.
Embarcámos e tomámos logo conta de um canto junto ao bar cá de baixo. Depois começou a fase de exploração. Cadeiras tinha muitas, casas de banho poucas e más. A piscina - leia-se tanque da roupa - e os decks exteriores estavam cheios de gente, com aquele entusiasmo de estar num "cruzeiro de luxo".
Tal como previa, quando o barco começou a andar, as partes exteriores foram esvaziando a pouco e pouco, fosse do frio, do vento ou da náusea.

Por volta das 14h fomos para o deck exterior no piso mais baixo. Havia cadeiras e o bar e as casas de banho não estavam longe. Fomos experimentando bombordo e estibordo e acabámos por ficar do lado mais abrigado do vento. Com a inclinação do barco o corrimão e a amurada acabavam por não estorvar muito a visão. 
Lá nos instalámos, debaixo do escrutínio de muitos olhares curiosos "O que é que aqueles malucos esquisitos com binóculos estão a fazer?". As perguntas acabariam por começar um pouco mais lá para o fim do dia. 
Lembro-me de olhar para cima e ver que havia gente a espreitar na amurada dos dois decks superiores. Do último piso, o da piscina, ouviu-se uma voz feminina com sotaque madeirense a dizer com ironia "Nada de olhar para cima que eu não tenho cuecas!". Nem eu nem o Nicolau encontrámos uma resposta à altura. 


Cagarra vista a partir do ferry
Vê-se pouca coisa. Uma cagarra ou outra, e pouco mais. Às vezes o mar parece um autêntico deserto. Lembro-me que chegámos a estar mais de uma hora sem ver uma única ave. Aparecem apenas uma ou duas aves cada vez, intervaladas por grandes períodos de seca. Não foi um exercício fácil. A hora também não seria a melhor. 
Por volta das 16h45, numa altura em que estávamos apenas eu e o Nicolau de plantão, passou uma cagarra, que fiz questão de apontar ao Pedro. De repente, ele põe-se aos gritos "Bulwerii! Bulwerii!". Quando lhe perguntei "Onde?" já ele estava de pé, a correr para a amurada de máquina em punho. A verdade é que não a relocalizou, nem fotografou, nem ma apontou, nada. "Apareceu-me nos binóculos e estava perto. Pensei que era fácil apontá-la e fotografá-la mas enganei-me. Desculpa!". Não fiquei muito chateado mas fiquei triste. Estas situações são o pão nosso de cada dia em observações de marítimas, e temos de estar preparados. 
Quando o resto da malta chegou, o ambiente ficou pesado. O silêncio instalou-se. 
Pensei sempre que onde há uma pode haver mais e nunca desisti. Aqui, como na vida é sempre a melhor atitude. Às 17h35, estava eu a dizer qualquer coisa quando me aparece um vulto negro nos binóculos. Bulwerii? - pensei. Ainda me saiu um palavrão - ca****#! - numa fracção de segundo, o vulto desapareceu por trás dos calções do Nicolau, que estava de pé, à minha frente. Não o voltei a ver mas assumi que deveria ser "o desejado". Sobretudo pela asa esguia que me pareceu comprida e pela ausência de branco. O Luís Rodrigues também conseguiu vislumbrar a cor e o tamanho. Não havia certezas absolutas, mas, no meu íntimo sabia que tinha visto o grande objetivo da viagem. Perante as dúvidas que me foram sendo postas por quem não tinha visto nada, limitei-me a ripostar:
   -Sei bem o que vi. Não tenho a certeza absoluta da id porque nunca vi um Alma-negra. Amanhã, ao chegar à Madeira vamos ver muitos, certo? Amanhã confirmo ou não o diagnóstico. 
O Pedro Ramalho estava cada vez com ar mais sombrio e cabisbaixo. Olhei para ele e disse-lhe para não se preocupar, que eu ia arranjar um Alma-negra para o meu amigo Pedro Ramalho. "É a primeira vez que dizes que sou teu amigo", respondeu (injustamente). Seja como for, fiz essa promessa, e não mais larguei os binóculos. O Alexandre disse que se visse um nesse dia pagava o jantar. A pressão era gigantesca. Eu tinha mesmo de encontrar um Alma-negra. 
Cada vez havia menos gente no exterior. O frio aumentava. O spray das ondas ia ficando tatuado nos binóculos. Ouve-se um aviso no sistema sonoro. "Atenção Srs. passageiros, devido às condições climatéricas, a permanência no exterior é desaconselhada." 
É só para homens, pensei. E lá ficámos, estoicamente. 
Às 18h35, o sol já estava baixo, banhando com uma tonalidade de ouro tudo em que tocava. E foi assim, coberto de ouro, que vi um Alma-negra materializar-se nos binóculos, bastante perto do barco e quase ao nível do deck. Desta vez não havia dúvidas. Consegui apontar bem a zona e toda a gente o viu. Missão cumprida. A euforia instalou-se entre abraços e gritos. 

O alma-negra das 18h35 (foto Pedro Nicolau)
A festa não passou despercebida a alguns passageiros mais atentos. Um deles perguntou-me mais tarde "Ouça lá, o que é que o Sr. viu há bocado?". Quando lhe respondi "Uma ave", vi-lhe a desilusão estampada no rosto, complementada com um "Ah..." inexpressivo. Cada um é como é.
Ainda, vimos mais uns dois ou três Bulwerii até ao final do dia, complementados com dois Pintainhos de bónus, que o Pedro Ramalho descobriu nesse palheiro que é o oceano. 
Quase com o sol a desaparecer lá resolvemos dar por terminada a sessão, sob os protestos do Nicolau, que teve de ser arrastado num colete de forças para dentro de portas. 
O Alexandre cumpriu a promessa e pagou o jantar, apesar das nossas objeções. Nas palavras dele, se não o fizesse a viagem iria correr pior a partir daí. 

Os nossos primeiros cinco avistamentos de Alma-negra na ZEE de Portugal Continental
(primeiro o do Nicolau, seguido dos "meus" quatro)
Para quem gosta de detalhes, no mapa acima vê-se onde começaram os avistamentos de Alma-negra. A azul-claro temos a ZEE Portuguesa. Os pontos, ordenados pela distância aproximada ao Cabo de S. Vicente:

X - 16h45 - 62Milhas Náuticas (MN) - 114Km - 1ª observação (Pedro Nicolau)
1 - 17h36 - 78MN - 145Km - 2ª observação 
2 - 18h35 - 98MN - 180Km - 3ª observação
3 - 19h33 - 118MN - 219KM - 4ª observação
4 - 19h50 - 124MN - 230Km - 5ª observação

A noite passou-se mal. O mais estranho foi ter conseguido dormir umas duas ou três horas, nem sei bem como. As cadeiras nem são desconfortáveis, mas dormir é numa cama. Entre o ressonar do vizinho do lado, o ressonar do vizinho da frente e o ressonar do vizinho de trás é muito complicado pregar olho. Às cinco e meia já estava de pé. 
Às seis e meia abre o bar e os passageiros começam dirigir-se para lá, estilo walking dead, à procura da primeira dose de café do dia. 


Um dos Almas-negras que consegui apanhar, já ao largo de Porto-Santo
Assim que a luz o permitiu, fomos lá para fora, para o sítio do costume. Via-se Porto Santo ao longe, na frente do barco.
Já não estávamos, claramente, num deserto. Imensas cagarras, inclusivamente em jangadas, muitos almas-negras. Algumas gaivinas e gaivotas. 
A estrela da manhã foi uma Pterodroma sp. ou Freira, bem perto. É realmente um bicho giro, com aquele capuz. Resta saber se as fotos conseguidas chegarão para uma id conclusiva. Um velhote que tinha ouvido o Pedro Ramalho gritar "Freira!" ainda me perguntou como é que estávamos a ver freiras no mar, se elas estavam no convento, ao que respondi que os meus binóculos eram especiais. 
O Alexandre contou também uma história engraçada. Uma senhora perguntou-lhe o que tínhamos estado a ver toda a viagem. Quando ele respondeu aves marítimas, ela terá dito que assim ficava mais descansada, porque pensava que estávamos a ver coisas que ela não conseguia ver. Ele terá que respondido que, no fundo, era exatamente assim. Há com cada uma...

A chegada ao porto do Funchal foi um momento alto. No meio das gaivotas e das gaivinas comuns, apareceram dois Garajaus-rosados - Sterna dougallii. Uma das aves que tinha esperança de ver e que há muito procurava. Depois do desembarque, e ainda antes do almoço passou um andorinhão-da-serra. A segunda parte da viagem começava bem.

Garajau-rosado (sterna dougalii) - Funchal
Resolvi não ir à pelágica da tarde. Com a noite mal dormida no barco as costas deram sinal e achei que não iria aguentar seis horas metido num semi-rígido a bater nas ondas. Não quis arriscar. O pessoal confirmou mais tarde, à chegada, que a viagem foi bastante dura.
Deixei os meus companheiros e ainda fiquei umas duas horas pela marginal. Voltei a ver as minhas amigas dougallii, muitas borboletas monarca - espetaculares - lagartixas-da-madeira e, claro, a estátua do CR7 à porta do museu.
Já no alojamento, consegui ver três canários-da-terra a caminho do café. Mais outra lifer, menos duzentos emails. 
O dia acabou com a chegada do pessoal, perto da meia noite. Nas palavras deles perdi, sobretudo, a espetada ao jantar, o que não é coisa pouca.

O dia 2 de Agosto começou com calma. Acabámos por sair apenas pelas 9h30. Que luxo!
Fomos primeiro ao Lugar de Baixo, onde quase nada se viu. Depois seguimos para os Balcões, onde chegámos tardíssimo. A consequência foi que aquilo parecia o Estádio da Luz em dia de jogo. Mesmo assim conseguimos rapidamente ver um Pombo-da-Madeira logo no início do trilho, o que diminuiu imediatamente o nível de stress. Vimos algumas estrelinhas no caminho e mais uns quatro ou cinco pombos no miradouro. Isto, claro, mais os omnipresentes tentilhões. 
Já só faltava a o corre-caminho. 

Pombo-da-Madeira (Columba trocaz) - longe, mas foi o que se arranjou.
Em relação ao próximo destino, gerou-se alguma discussão. Uns queriam ir almoçar, outros, como eu e o Luís queríamos despachar o último objetivo quanto antes. Tento sempre seguir a ideia inglesa do UBBB (under the belt before breakfast). Ou, neste caso, UBBL (under the belt before lunch). 
Ao fim de uns minutos de indecisão lá seguimos para a Ponta de S. Lourenço, à procura das berthelotii. Ainda parámos no caminho, no Faial. Aves havia zero, mas foi uma oportunidade única na viagem para ver e fotografar a costa Norte que é, tal como a Natureza, muito bonita.


Costa Norte (vista a partir do Faial)
A ponta de S. Lourenço parecia a baixa lisboeta em Agosto, cheia de carros e de gente. Comecei a ver a vida a andar para trás mas, ao que parece, umas centenas de metros antes, na Quinta do Lorde, o Pedro Ramalho tinha reparado em alguns corre-caminho. Retrocedemos e vimos os bichos quase de imediato, com mais uns canários de bónus. Deu para fotos, tudo. Observação cinco estrelas.
Resumindo, ainda não eram 15h e tínhamos todos os objetivos cumpridos. O almoço foi tarde, em Machico, mas assim foi mais descansado. 

Corre-caminho (Anthus berthelotii)
Depois de almoço, explorámos a zona, sem grande sucesso. Convenci o pessoal a tentar o Cigarrinho, a subespécie de tomilheira da Madeira, num miradouro próximo. Consegui ver a sylvia, mas não me livrei de uma queda, que poderia ter estragado a festa. Felizmente, não foi muito grave. 
Acabámos a tarde no Caniçal, a comer lapas e bolo do caco. Vida difícil...

A ideia era ir direto para o aeroporto mas, como o avião estava atrasado, ainda houve um desvio inútil instigado pelo mais jovem do grupo. Não se perdeu tudo. Pelo menos ficámos a saber que não vale a pena voltar a esse spot. 
Finalmente, lá seguimos para o aeroporto, de onde levantámos tardíssimo, cerca das 23h.

Depois de um dia cansativo, já dentro do avião, mais uma surpresa.
-É o Sr. Frederico Morais? O Sr. está no lugar errado!
Lá "tive" de mudar para fila um. Não foi uma estreia, mas nada melhor que acabar o dia em grande, em Executiva, com uma taça de champanhe sobre o Atlântico. A cereja no topo do bolo.

Quem tem amigos tem tudo...
Um grande abraço, Gonçalo! 

e
Foto de família depois da chegada ao Funchal (foto Luís Rodrigues)
Resta-me agradecer ao Pedro Nicolau e ao Luís Rodrigues as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica, e a todo o grupo por ajudar a tornar esta experiência inesquecível. Um abraço e obrigado a todos!