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21 maio 2026

Um Sonho Siberiano

Japão, Fevereiro de 2026 (English version)
Hokkaido

Desde há muitos anos que via com atenção os documentários onde apareciam dezenas de Pigargos-gigantes a caçar em cima do gelo no norte de Hokkaido. Em Inglês chamam-lhes Steller's Sea Eagle e o nome científico é Haliaeetus pelagicus mas, este é daqueles casos em que o nome pouco importa. Há que ver em carne e osso e ver para crer.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Diziam eles na TV que estes bichos vão invernar ali e que passam o resto do ano na Sibéria. O sonho de ver um bicho daqueles foi crescendo e tomando forma. Mais ainda quando apareceu um na costa Leste da América do Norte em 2021. Nessa altura segui com atenção o carrossel de gente que veio de todo o continente para o ver. Foi interessante mas, o melhor é mesmo ir à fonte e, como à Sibéria é quase impossível, comecei a pensar que tinha de ir ao Japão um dia. Era difícil e caro mas, essa viagem já seria, talvez, possível.
Após uma pesquisa prolongada, acabei por encontrar uma empresa que fazia tours mais curtos que o habitual, concentrados nas espécies mais emblemáticas. Na expedição Flock to Marion  - ver  O Dia mais Longo - tive oportunidade de falar com o dono - Gunnar - e acabei por me decidir umas semanas mais tarde, pouco menos de um ano antes da viagem acontecer.

O tour começava na ilha do sul - Kiushu - seguindo depois para Hokkaido e, finalmente, para Tóquio e arredores. Fixei um dia no calendário, 17 de fevereiro, dia D para os pigargos-gigantes. Era nesse dia que estava marcada a pelágica para ir ter com eles. Como todas as viagens de barco, as variáveis são muitas e há até o risco de um cancelamento puro e simples. Mas a vida é um risco e, no dia previsto, lá seguimos numa longa viagem, de quase um dia, para Tóquio. 
O tour foi memorável,  com muitas peripécias à mistura mas, nesta crónica vamos concentrar-nos num dos dias mais longos, o tal dia D, terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Na véspera da pelágica, o dia 16 tinha acabado de forma cómica, para dizer o mínimo. 
Chegados ao hotel, verifiquei que, nos quartos, além da cama ser daquelas tradicionais lá do sítio, em que, basicamente, se mete um colchão de enrolar, fininho, no chão. Também não havia duche nem banheira na casa de banho. Percebi que era um hotel onde existem aquelas fontes termais com piscinas aquecidas (onsen em Japonês). Nesses hotéis com termas, mesmo nos de alto luxo, a coisa funciona assim. Cansado como estava, comecei a dizer mal da vida. 
Pouco conformado, resolvi ir chatear os dois japoneses e a japonesa da receção. Com a serenidade de quem já teria lidado com o mesmo problema muitas vezes, disseram-me, educadamente, que para tomar banho, o local indicado seriam os duches coletivos do andar de cima, podendo de seguida usar as termas à vontade. Quando me perguntaram "OK?", eu limitei-me a encolher os ombros e a assentir com a cabeça, com ar meio triste, meio resignado. Começaram os três a rir às gargalhadas, a pensar que tinham à sua frente mais um estrangeiro inadaptado. Ainda os ouvia rir quando cheguei ao quarto.
Custou mas, acabei por me render. Em Roma sê Romano. Um princípio bastante útil quando se viaja e sobretudo, quando não existe alternativa. 
Lá fui tomar duche onde ele existia. Era coletivo sim senhor, mas, era um luxo. Desde toalhas, pentes, cremes, escovas, secadores, água para beber, cacifos e sei lá o que mais. Tudo incluído. Ainda por cima tive aquilo só para mim. Uma experiência, em todos os sentidos. Saí de lá completamente convertido ao conceito.

Blakiston's Fish Owl (Ketupa blakistoni)

Foi assim que, depois de um sono reparador, chegámos ao Dia 17, o dia mais sonhado dos últimos tempos e a razão principal desta expedição ao Japão.
A luta começou excepcionalmente cedo, quando fomos tentar, pela segunda vez, ver a coruja mais famosa das redondezas. Em Inglês chamam-lhe Blakiston's Fish Owl e é a maior coruja do mundo. Não tinha sido muito simpática na tentativa anterior, antes de jantar. A espera foi infrutífera e o frio de rachar. Muito, muito difícil de suportar, mesmo com os múltiplos aquecedores do abrigo. A temperatura era bastante negativa. Aquilo que por cá chamamos de "calor esquisito". Saímos derrotados para ir jantar mas, não chegou a haver tempo para carpir mágoas e discutir o falhanço. O Gunnar prontamente abriu a porta a uma segunda tentativa, às quatro da manhã (!). 
Trabalho é trabalho. Disse logo que estaria interessado. Como disse alguém, quando morrer logo descanso. A Sandra e outros do grupo resolveram ficar a dormir mas, quatro de nós, mais persistentes, lá estávamos à hora marcada. 
Não tivemos de esperar muito. Ainda nem estava sentado quando ouço alguém a dizer que a coruja estava na árvore, junto ao comedouro. Mal olhei, já ela estava no palco, a olhar para o pequeno lago cheio de peixes. Não pesquisei o nome em português mas bem que poderia ser Coruja-pesqueira-gigante, tal era o tamanho do bicho. Com as asas abertas mal cabia no enquadramento da câmara. 
Nem um minuto lá esteve. Pegou num peixe e saiu como se tivesse um comboio para apanhar. Consegui algumas fotos que não chegaram para a cova de um dente. 
Soube a pouco mas, logo ao lado tinha um companheiro que nem uma foto tinha tirado. São os riscos de quem anda sempre com a câmara enfiada bem no fundo da mochila. A tristeza era aparente, estampada no rosto. Por solidariedade mas, também por interesse, todos concordámos em esperar mais um pouco para ver se a estrela voltava a aparecer. Nem uma hora passou e lá estava ela. Na segunda vez esteve mais tempo, a escolher o peixe com cuidado e a comê-lo com calma. Quando saiu, toda a gente estava contente. 

Alvorada em tons de rosa em Rausu

Chegámos ao hotel por volta das 5h30 mas, quem corre por gosto não cansa. Ainda consegui dormir mais de uma hora antes de seguir para o excelente pequeno-almoco. Pelo meio, fui ao último piso, ao terraço panorâmico do hotel, ver as vistas. Nada como uma alvorada em tons de rosa, com montanhas geladas de um lado e o mar do outro, para despertar a alma. E o melhor é que ainda tive de lá voltar uma segunda vez, quando alguém avisou no grupo whatsapp da viagem que estava a ver patos-arlequim. Um pato com uma plumagem quase irreal, a fazer jus ao nome. Com o pequeno-almoço, a vista e os patos, foi das melhores alvoradas da minha vida. Já nem me lembrava que a noite tinha sido mal dormida. 

O momento alto da viagem aproximava-se a toda a velocidade. Sonhava com os Steller's Sea Eagles há anos. Eram estas águias enormes a razão principal para me ter metido num tubo de metal um total de dezoito horas.
O Gunnar tinha, entretanto, dado indicação de que poderíamos deixar as malas no quarto, uma vez que o cruzeiro era de duas horas e começava às 9h00. O hotel era a cerca de dez minutos do porto. As contas faziam sentido, mas... Olhei, pensativo, para as malas prontas e fechadas no meio do quarto. Levo? Não levo? Ficaram no quarto, mas eu não fiquei descansado. O diabo esconde-se nos detalhes, como se sabe.

Águia-rabalva (Haliaeetus albicilla)

Fomos para o porto num dos carros, enquanto o Gunnar foi levantar os bilhetes ao escritório, no outro. Quando chegou, por volta das 8h30 deu-nos uma brilhante novidade, com a sua calma habitual:
-Ah e tal, afinal o cruzeiro é de 2h30, temos de ir buscar as malas ao hotel.
Tive vontade de o matar mas, em vez de começar aos gritos, resolvi ser pragmático e fazer contas. Dez minutos para lá, dez para cá, cinco para ir buscar as malas. Ainda sobravam cinco minutos para os gastos. 
-Vamos embora!
O trânsito não era muito e chegados ao hotel, prontamente fomos buscar as malas e carregámos o carro. Passaram uns minutos e nada de Gunnar. Onde estava o nosso condutor? Fiquei eu no carro à espera, enquanto a Sandra prontamente foi ver onde é que ele andava. Aparece-me em pânico:
-Não vamos conseguir! Não vamos conseguir! 
Explicou que tinha espreitado o quarto dele e que ainda estava tudo espalhado no chão. 
Aquilo não estava famoso mas, a verdade é que nem um minuto depois ele lá apareceu, calmamente. Seguimos para o porto. Faltavam menos de quinze minutos. O trânsito estava complicado mas, em terra de cumpridores, o incumpridor é rei. Com meia dúzia de ultrapassagens e outras tantas transgressões, chegámos ao destino três minutos antes das nove. Saímos do carro e corremos para o barco. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Disse-me mais tarde um dos companheiros, que falava um pouco de japonês que, desde que estacionámos até entrarmos no barco, se ouviu múltiplas vezes em Japonês nos altifalantes do mesmo:
-Despachem-se! Despachem-se!
Pelos vistos o stress era completo, para nós, para o resto dos companheiros de viagem e até para a tripulação. 
Embarcámos e, nem um minuto depois, o barco saiu. 
Afinal estava tudo controlado. Respirei fundo e pensei, Prooooóximo!...

E o próximo desafio era logo de seguida. Será que íamos ter gelo flutuante? As águias veêm-se sempre, de uma forma ou de outra mas, se houver gelo flutuante ficam quase em cima do barco e as fotos são indescritíveis, com o cenário espetacular, a luz matinal e a atmosfera sem distorções. 
Nos últimos dias tínhamos seguido o blogue da empresa e o gelo andava a aparecer num dia e a desaparecer logo no dia seguinte. Será que a sorte estava connosco?
Enquanto pensava na vida e o barco ia andando,  fui colocando o equipamento em ordem, casaco de penas, casaco grosso por cima, barrete, capuz, dois pares de luvas. Estava preparado. Só faltava o mais importante, os bichos. 

Nem uns dez minutos de caminho percorremos quando se percebeu que tínhamos jackpot. Íamos ter tudo. O gelo flutuante estava logo ali e era até perder de vista. O sol estava radioso e o ar límpido. O mar era um autêntico lago. E as águias estavam por todo o lado. Eram dezenas de Águias-rabalvas e Pigargos-gigantes, o meu sonho Siberiano. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Há momentos assim, para além da imaginação. O espetáculo era tal que difícil era escolher para onde olhar. Algumas águias estavam tão perto que não cabiam na foto. Havia pousadas no gelo, isoladas. Havia grupos da mesma espécie e havia grupos onde as duas espécies se misturavam, sem nos explicarem se era por acordo ou para se roubarem umas às outras. Havia águias em voo com céu azul ao fundo, em voo por cima do gelo e em voo com montanhas ao fundo. Com a paisagem de tirar o fôlego, o gelo flutuante e as águias que nos cercavam, os sentidos estavam sobrecarregados, e com toda a razão para isso. Foram duas horas a disparar sem parar, intensas, que valeram por, pelo menos, dois anos. Tirei mais de oito mil fotos mas, mesmo as mais perfeitas são como um reflexo imperfeito do que se passou naquela manhã. Uma sombra de uma sombra. Mas de que raio de Alegoria me fui lembrar.

Quando começámos a viagem de regresso ao porto, com os rangidos do barco a lutar com o gelo para se libertar, percebi logo que ia demorar muitos meses a digerir as duas horas anteriores. Como se a cabeça tivesse de ser convencida de que o corpo lá esteve. Tinha mesmo vivido aquilo? Ainda hoje preciso das fotos para o confirmar.

O gelo a perder de vista


25 março 2026

Tesoura no Pico

Pico, Março de 2026 

No último dia de fevereiro de 2026, o Pedro Silva, residente na Ilha do Pico, e já falado aqui nas crónicas (ver O Primeiro Açor dos Açores) descobriu por lá, a seguir ao almoço, um Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus), mesmo por cima da casa dos pais. Podíamos pensar que eram efeitos de uma refeição bem regada mas, ele fez logo questão de colocar umas fotos a acompanhar a notícia. A ocorrência era raríssima. Era só a quinta observação de sempre no Paleártico Ocidental e quarta nos Açores. Ainda por cima era bem giro, o bicho. 
É preciso ter um grande olho e mérito para, no meio de um almoço de família, ainda ter tempo para descortinar uma ave rara. 
Ele diz que foi sorte. É verdade que é preciso ter sorte de vez em quando mas, esta dá muito trabalho e, quando aparece, convém estarmos lá para a agarrar. Grande abraço, Pedro!

O último destes a aparecer tinha sido em Março de 2021, em São Jorge. Ainda em plena pandemia, as viagens eram complicadas. Estive no Pico em Abril desse ano a passear e ainda cheguei a passar um dia em São Jorge à procura mas, tal como esperado, não tive sucesso. Já tinha passado mais de um mês desde o último avistamento. Valeu pela ida a essa ilha, que é de uma beleza extraordinária. 

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

Voltando ao Gavião-tesoura do Pedro, ou Tesoura para os amigos, contrariamente ao que esperava ele foi sendo avistado todos os dias, com mais ou menos dificuldade. Domingo, segunda, terça, as mensagens iam aparecendo no ciberespaço. 
Para mim, o dia fatal foi na quarta-feira, quando o Carlos Pereira, que tinha ido para o Pico de propósito para observar o Tesoura me manda um vídeo de telemóvel, do bicho a meia dúzia de metros a fazer mergulhos. Como se não bastasse, ainda me telefona a explicar o que estava a ver. "É só para teres uma ideia do comportamento". Lá está, a crueldade humana não tem limites.
A verdade é que eu já tinha visto o Elanoides no Brasil em 2015 mas, a observação não foi como eu gosto. A perspetiva de o conseguir ver mais perto e em Portugal não me tinha largado desde Domingo. Ainda o telefonema não tinha acabado e já tinha marcado o voo para o fim de semana de 7 de Março. "Pronto! Já me conseguiste enganar!", disse-lhe. Os dados estavam lançados e já não havia volta a dar.

Nestas viagens relâmpago, e nas viagens em geral, as variáveis são muitas e a margem de erro é quase inexistente. Eu costumo pensar em degraus de uma grande escada que vamos subindo um a um. Primeiro haver avião, depois ele sair, depois aterrar, e assim por diante. Ir ao Pico não é fácil. A pista é pequena, mal direcionada e o tempo é instável. O Pedro Silva, otimista por natureza, tinha-me dito para não me preocupar, que em todo o Inverno só tinham cancelado quatro voos. Oxalá essa estatística valesse para mim também.

A verdade é que, apesar do dilúvio que se abatia sobre a ilha, o voo aterrou à primeira e à hora prevista, o que era um bom prenúncio. Não se tinham concretizado as conversas dos meus vizinhos de trás "Ah e tal, aterramos no Pico ou vamos para o Faial? Pois é. Isto está mau...". É a conversa ideal para controlar a ansiedade nas viagens de avião. 

Até estar dentro do carro nem meia hora se passou e, ainda deu para beber um café. Meti as coordenadas no GPS e segui caminho. Já só faltavam 45 minutos para chegar ao destino que, neste caso era um canto longínquo da ilha chamado Calheta de Nesquim, perto da ponta leste. Pode parecer muito tempo mas, o Pico, é a segunda maior ilha dos Açores e as distâncias são agravadas pelo facto de não haver vias rápidas. Pelo menos, dá para ver a Natureza que, naquela ilha, é ainda mais bonita do que o costume. O problema naquele sábado é que nem a natureza se conseguia ver, tal era a chuva e o nevoeiro. 

No caminho contactei o Olof, um Sueco que também por lá andava à procura do Tesoura. Quando cheguei, fui encontrá-lo no porto da já referida Calheta. Já o conhecia do Corvo e o encontro foi efusivo, dentro do estilo nórdico. É sempre bom ver uma cara conhecida num momento de stress. Apesar das condições, ele não desistia, como observador de excelência que é. Disse-me que tinha até às duas da tarde para procurar e que era isso que ia fazer. Ainda lhe perguntei se não tinha visto que Sábado não era bom dia para aquilo, ao que respondeu que não tinha visto nada no que à meteorologia dissesse respeito. Cada um com a a sua estratégia, pensei. Concordámos que o melhor era dividir os esforços e foi cada um para seu lado. 
Aproveitei as horas seguintes para explorar os locais onde o bicho tinha aparecido, para compreender a zona e pensar num plano de ataque para o dia seguinte. A conclusão a que cheguei rapidamente foi a de que aquilo não iria ser nada fácil. Era uma faixa de cerca de quatro quilómetros, de uma estrada estreita parte alcatrão, parte gravilha. Um primeiro troço dentro da vila, urbano, com pouca visibilidade, seguido de outro, rural e com pouca visibilidade. Existia uma ou outra clareira que permitia ver qualquer coisa e os únicos locais com vista mais ou menos panorâmica eram o porto da Calheta e o ponto do último avistamento, já no fim do percurso, na estrada de gravilha. Aquilo era trabalho para uns sete ou oito e não para um ou dois mas, um ou dois era o que havia. Por volta da hora de almoço apareceu o Pedro Silva, com o sorriso habitual. Durante uma hora fomos três a andar para trás e para a a frente lá na zona. Parecia hora de ponta, ao estilo Calheta de Nesquim.

A chuva não parava e o bicho não aparecia, tal como já era previsível. As rapinas têm mais que fazer do que voar à chuva. 
O Pedro lá foi à sua vida, que isto quem tem filhos de três meses não tem muito tempo para este tipo de atividade. Pouco antes das duas da tarde, também o Olof teve de se resignar à sua sorte e abandonar a ilha sem Tesoura. 
Eu dei mais umas voltas mas, sem bicho e com chuva sem parar, achei que o esforço era inglório. Passava pouco das quinze horas quando optei por recolher ao alojamento, de seu nome Abrigos Baleeiros.
Foi o momento alto do dia. Aquilo era um verdadeiro luxo. Tudo novinho em folha e, ainda por cima, deram-me um dos quartos no cimo do monte. A vista era de sonho, com o mar em baixo, até ao infinito. Sentia-me literalmente um "King of the Hill". 
Instalei-me e tentei relaxar um bocado. Mesmo com o tempo manhoso, era impossível não estar sempre a desviar o olhar para aquela vista panorâmica. Virei o cadeirão para a janela e deixei-me ficar, a pensar na vida.

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

Lembro-me de repetir para mim próprio que domingo seria "o dia". Com tempo razoável, sem chuva e com algum vento, as condições eram aparentemente boas. Além disso, o Tesoura estaria com fome, devido ao dilúvio e teria de ir comer, mais tarde ou mais cedo. Mas isto, teorias cada um tem a sua, como já se sabe, e os bichos fazem sempre o que querem. Raramente seguem o guião que temos pensado para eles.

Eram umas quatro e meia quando a chuva pareceu querer parar. Será? Esperei mais uns dez minutos e, aparentemente, parecia haver uma pausa no mau tempo. Pensei que podia ser que o bicho aproveitasse para ir dar uma volta e, saí também eu de casa para dar uma volta à procura dele. Foi mais uma hora para trás e para a frente sem sucesso até que a chuva recomeçou a cair. Ora bolas! Sábado não era, definitivamente, o dia. Dei a busca por terminada e recolhi ao quartel general.

E foi assim que se chegou a Domingo, o dia D, ou o dia do tudo ou nada. 
O pequeno-almoço foi dos melhores dos últimos tempos e eu aproveitei, porque o dia tinha grandes possibilidades de ser longo. E ainda levei umas bananas do Pico para o caminho. Isto é sempre a aprender. Meia hora antes nem sabia que o Pico tinha bananas. Já se verá mais à frente que estas foram relevantes nesta história.

Por volta das nove horas comecei a trabalhar. À procura da agulha ou, neste caso, da tesoura naquele grande palheiro. O Pedro Silva esteve por lá até meio da manhã. O Olivier Coucelos, que conheci em 2021, aquando da minha estadia anterior na ilha, também por lá andou até por volta do meio dia. O Tesoura é que não parecia andar por lado nenhum. Estava a fazer-se difícil. 

A partir dessa hora, fiquei só. Eu, a ilha e o bicho mais querido últimos tempos. A situação não estava famosa mas, resolvi seguir o plano, que era não desistir enquanto houvesse luz. Tinha dois olhos, uns  binóculos, uma câmara e um Clio. Podia ser bem pior. 
Além disso, havia sempre a hipótese de, entretanto, alguém da zona dar o alerta. Na Calheta de Nesquim já toda a gente sabia que havia por lá um gavião-tesoura e, muitos até já o tinham visto. Inclusivamente, alguns dos avistamentos anteriores resultaram de alertas dados pelos residentes. 

A tática era simples. Andar para trás e para a frente, com paragens nos pontos com maior visibilidade. Foi isso que fui fazendo até à exaustão. 
Por volta das 13h20, estava eu parado algures no caminho, quando recebo um telefonema da Sofia, a dona dos Abrigos Baleeiros. Andava pela vila à procura do bicho. Era uma ajuda inesperada mas muito bem vinda. 
-Já o viu?
-Infelizmente não. 
-Estou aqui a ver uma ave no fio no cruzamento do restaurante "Faia". Não sei se é ele mas, é uma rapina.
-Vou já para aí!
Era melhor jogar pelo seguro e ir investigar. Entrei no carro e segui, qual Colin McRae, o mais rápido que pude, para o tal cruzamento. Foi por pouco mas, lá consegui que o carro não saísse da estrada. Foram dois ou três minutos que mais pareceram duas ou três horas. Em menos de nada tinha chegado. Saio do carro e, para variar, o bicho não estava à vista. "Desceu para trás daquele muro", disse-me ela. 
A espera durou nem uns cinco minutos até que saiu de lá um Milhafre. Ora bolas! Não era o Tesoura. Paciência! Valeu pela intenção, pelo esforço e pela adrenalina. Afinal não estava sozinho. A Sofia e a filha também estavam a contribuir para a causa.

Fundo escuro, que alternava com o céu claro.

Agradeci a ajuda e voltei ao trabalho. Do bicho nem sinal. Eram quase duas horas quando resolvi fazer uma pausa. Almoço não havia, que era perigoso ir almoçar quando muitos avistamentos tinham sido precisamente a essa hora mas, tinha umas bolachas e, as já faladas bananas. Um luxo para aquelas circunstâncias. Fui para o fim do percurso, no tal local com vista panorâmica e parei o carro.  
Comi umas bolachas e uma banana e resolvi ligar para a Sandra. Ela não estava ali em pessoa para trazer boa sorte mas, podia ser que o telefonema ajudasse. Ah e tal, isto não está fácil. Vais ver que ele aparece, disse-me ela.
Desliguei e achei que ainda comia mais qualquer coisita. Olhei para a segunda e última banana e lá teve de ser. As bananas do Pico são bem boas, por sinal. 
Tinha acabado de guardar a casca da referida quando, de repente, como se fosse um relâmpago, sem pedir licença, aparece o Tesoura. Veio rente aos arbustos, do lado direito. A minha reação foi instintiva e, felizmente, o instinto não foi o de ficar paralisado de espanto. Por acaso, tinha a máquina comigo e não no carro. Sem pensar, comecei a disparar como se não houvesse amanhã, até encher a memória da câmara. O Tesoura passou-me à frente e, já do lado esquerdo, começou a andar aos círculos, sempre a meia altura, sem passar dos dez metros. Com o fundo a alternar entre o céu branco e a terra escura, fiz o que pude com as configurações da câmara e com o zoom enquanto, ao mesmo tempo, tentava manter o bicho enquadrado. A pouco e pouco ele foi-se afastando, até que desapareceu atrás da vegetação, a uns cinquenta metros. Achei que era a altura certa para pegar no Clio e ir tirar mais uns milhares de fotos. Agora é que ia ser. Ele havia de estar logo atrás daquela sebe a caçar e eu havia de estar a observá-lo mais uma meia hora. Ia ser um fartar, vilanagem. 

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

O excesso de confiança é tramado. A verdade é que, quando lá cheguei, passado nem um minuto, só lá estavam os tentilhões do costume. Onde é que o bicho se meteu? Procurei nos campos em volta, para cima e para baixo, com os binóculos, com o carro para trás e para a frente e ainda para a estrada de cima. Nada. Tinha desaparecido como um fantasma. 
Pensei que ele podia estar a regressar ao local  do primeiro avistamento, na vila, e fui lá procurá-lo. Nem sinal. À terceira volta tive de me resignar e pensar que aquela aparição estava terminada. 
Recomecei a raciocinar. Será que tinha mesmo visto o Tesoura ou tinha sido uma miragem? Espreitei as fotos na máquina. Lá estava ele. Não haviam dúvidas, De cima e de baixo, ao perto e ao longe. Entre focadas e desfocadas, tinha tirado umas cento e cinquenta fotos. Espreitei as horas e vi que todas tinham entre as 14h05 e as 14h06. Na minha cabeça achei que o evento tinha durado mais tempo mas, os números não mentem. Bem que dizem que o tempo é relativo. Confesso que revi as fotos umas dez vezes até interiorizar que tinha realmente visto o Elanoides e cumprido o objetivo do raid. Estava feito e, claro, com evidência é sempre melhor. 
Só tive pena de não ter ali ninguém comigo para partilhar a alegria estava a sentir. Não houve gritos nem abraços. Só silêncio.

De seguida, dei o alerta a quem o assunto pudesse interessar no imediato. À Sandra, que me trouxe a sorte, aos meus amigos picarotos e claro, ao Carlos Pereira que é picaroto honorário. Destaco a reação do Nuno Gonçalves, que me perguntou se estava aliviado. Quando lhe respondi que nem sabia o que dizer ele disse-me que não precisava, porque ele conhecia bem a sensação. 
Mais ao fim do dia, quando coloquei a notícia no grupo WhatsApp da passarada nos Açores também foi cómica a reação do Olof que, além de me dar os parabéns me perguntou, incrédulo, se tinha realmente visto o bicho só um minuto. 

Há daqueles minutos que valem por muitos meses e, este foi um deles. 
Obviamente que, nessa noite, houve jantar com sabor a triunfo. 

Epílogo: Apesar dos múltiplos esforços, até hoje o Gavião-tesoura não voltou a ser visto na Calheta de Nesquim. 

19 dezembro 2025

Hoje no Corvo, Amanhã no Corvo

Fragmentos do Corvo (English Version)

Outubro de 2025

Este ano chegámos ao Corvo dia 9 de outubro. Foi o quarto ano e, aquele em que acabei por ficar mais tempo, voluntária e involuntariamente. Como sempre, houve aventuras e desventuras. Escolhi três histórias, das muitas que por lá se passaram. Mais três fragmentos para memória futura.

11 de Outubro - Frulhos no mar

O Hadoram Shirihai, que tenho o privilégio de conhecer, dedicou toda uma vida às aves, e é um apaixonado pela família das pterodromas (freiras em Português). Confidenciou-me que acredita que há muito por descobrir nos mares dos Açores, especialmente naquela zona Flores Corvo. Não foi preciso muito para que ele me tornasse também um crente e, embarquei na aventura, dentro das minhas possibilidades.

Frulho à mão de semear (puffinus baroli)

Este ano, em parceria com o Carlos Mendes, skipper bem conhecido no arquipélago, programou quatro saídas pelágicas com engodagem naquela área. O objetivo final seria o de ver aves muito especiais como a freira-das-bermudas ou a freira-das-antilhas, entre outras. Parece ficção científica mas, os dados GPS recolhidos todos os anos não mentem. Essas e outras espécies da família andam por lá e são regulares. 

Já sabemos que a logística é complicada naquele canto do mundo e, há ainda a condicionante meteorológica. Foi por isso que, entre avarias e meteorologia, só à terceira tentativa conseguimos sair para o mar. O Carlos veio cedo das Flores para o Corvo com o Hadoram e o seu barco, claramente o melhor da redondezas. Embarcámos e, lá fomos nós. O barco não ia cheio, propositadamente, para que o pessoal tivesse espaço para se mexer com as câmeras. Éramos pouco mais de uma dezena, todos cheios de esperança de ver unicórnios. 

A ondulação não era grande, mas também não era pequena. Rapidamente percebi que o Carlos é muito hábil ao leme, limitando ao máximo o desconforto para os passageiros. Quando lho disse mais tarde e lhe dei os parabéns ele limitou-se a responder, meio envergonhado, "bom, sempre são trinta anos de experiência". 

Painho-de-cauda-forcada (Hydrobates leucorhous)

Fomos percorrendo os pontos indicados pelo Hadoram e as coisas foram aparecendo. Além das omnipresentes cagarras, tivemos mais de uma dezena de painhos-de-cauda-forcada muito perto. Foi um espetáculo vê-los assim, na sua vida, sem ser após uma tempestade. A surpresa da manhã foram dois ou três frulhos (Puffinus baroli). Um deles proporcionou-nos as observações de uma vida. Estava pousado relativamente perto do barco quando o detetámos e, manteve-se por perto a alimentar-se. Dava pequenas corridas na crista das ondas e mergulhava o pescoço para capturar o que encontrasse. Fez isso uns bons vinte minutos. Nunca mais me hei-de esquecer de estar a ver aquele espetáculo, a fotografar o que consegui e a ouvir ao meu lado, em francês, "Incroyable! Incroyable!". Era mesmo verdade. Nunca na vida pensei ver aquela espécie críptica e esquiva tão perto e a alimentar-se quase como se não estivéssemos ali. Ajudou ao espetáculo ter alguém como o Carlos a manobrar, em conjunto com as instruções do Hadoram, que foram colocando o barco de forma que a posição fosse sempre a melhor possível em relação ao alvo, ao sol e às ondas.

Mais para a tarde, quando o vento começou a aumentar, com condições melhores para que as freiras cheirassem o engodo, fomos para o ponto P, de pterodroma. No caminho vimos cachalotes, golfinhos de várias espécies e mais cagarras e painhos. A animação foi contínua.

Cachalote (Physeter macrocephalus)

Chegámos e estivemos lá umas duas horas. O vento estava na direção certa e as condições eram boas mas, a verdade, é que freiras, nem vê-las. De nada adiantaram os pensamentos positivos, as rezas de quem era religioso ou as receitas de engodo especial. Imaginei várias vezes uma freira a vir, rente às ondas, naquele mar mas, nada feito. Quando o tempo se esgotou, tivemos de vir embora sem freiras. Seria por não termos ficado tempo suficiente? Por falta de vento? Nunca saberemos.

Golfinho-pintado (Stenella frontalis)

Quando desembarcámos no Corvo e nos despedimos do Hadoram, do Carlos e da sua tripulação, não vi ninguém com má cara. Não tinha saído o jackpot mas também não nos podíamos queixar. Aqueles mares ainda têm muito para explorar e não cedem os seus segredos com facilidade. 

14 de outubro - Estrelinha-de-Fogo

O dia estava manhoso. Daqueles dias em que, se tivesse de apostar, diria que não se iria ver nada. Humidade pegajosa, nevoeiro, enfim, se estivesse em Lisboa nem saía do sofá. 

Mas aquilo no Corvo é uma Twilight Zone permanente. As regras do costume não se aplicam. É proibido ficar em casa.

Nesse dia, escolhemos ir para a Ribeira da Ponte, mais conhecida por "Da Ponte", pelos não Portugueses. A ideia era ir à procura da mariquita-de-colar (Northern Parula) que por lá tinha sido vista no dia anterior. Podia ser que voltasse a aparecer, quem sabe. Por outro lado, quando chovesse, as árvores sempre podiam dar alguma proteção. 

Pelos vistos mais gente tinha tido o mesmo raciocínio e acabámos por ser cinco a escolher aquele local nesse dia. Eu e a Sandra, o sueco Jesper e, ainda dois finlandeses, o Pekka e o Petri. Pelas caras, ninguém estava com especial entusiasmo.

Faltava pouco para as nove horas quando começámos a labuta. 
Deixei o altifalante no muro e comecei a tocar os sons do costume. Toca um, toca outro, toca mais outro. Nada. Deixei passar uns minutos e voltei à carga. Toca um, toca outro. 
Viu-se um movimento em cima, nas copas, que rapidamente desapareceu. Não era nem tentilhão nem toutinegra. Seria a Parula que procurávamos? Provavelmente sim mas, a observação tinha sido só de relance e não foi possível tirar conclusões definitivas.
Toquei mais um som. Vimos outra vez  movimento, desta vez à esquerda da ponte. Rapidamente guardei o telemóvel e levantei os binóculos. Ainda mal tinha tido tempo de encontrar a ave e ouço o Petri ao meu lado aos gritos "Ruby-Crowned Kinglet!!!!". 
O bicho materializou-se. Não havia dúvidas. Era mesmo um unicórnio. Uma espécie de estrelinha desmaiada, mas esta era especial. 

Estrelinha-de-fogo (Corthylio calendula)
a estrela da temporada

No Corvo só se tinha visto uma anteriormente, em 2015 e, nos Açores, havia um total de duas observações (2013 e 2015). E foi logo aparecer à nossa frente, num dia que nada prometia.

Levantei a máquina. O bicho não parava quieto e a luz era a que sabíamos mas, fiz o que pude. A estrelinha foi da esquerda para a direita e depois para o outro lado da estrada, até que voou para as árvores de trás e desapareceu. No total, o transe durou nem três minutos. Às nove horas já tinha  terminado. Olhei para a máquina. Os registos eram pobres e cheios de grão mas, lá que o bicho estava lá, isso estava. Este já não fugia. Olhei em volta e reparei que o Petri estava completamente fora de si "Ruby-crowned kinglet! Oh my God! Oh my God!". As mãos tremiam que nem varas verdes. Nunca tinha visto um finlandês naquele estado. Há uma primeira vez para tudo.

Lá comecei a raciocinar e perguntei se alguém já tinha divulgado a observação, ao que o Jesper respondeu que sim. Fiquei tranquilamente a aguardar o que aí vinha, ou seja, toda a gente que estava na ilha, incluindo os veteranos que já lá vão há vinte anos. Tranquilamente, é como quem diz porque, na realidade fui-me apercebendo que tinha um sentimento profundo de angústia. Esta era daquelas aves tão importantes que, se por acaso não fosse vista por toda a gente, iríamos ganhar uma legião de haters para toda a vida. 

Stampede na Ribeira da Ponte

O pessoal foi chegando a conta-gotas, com aquele ar desesperado, de incerteza sobre o que vai acontecer. Fui contando a história a quem perguntou mas, percebi que isso não era catarse nem para mim, nem para ninguém. Isto só se resolvia se a estrelinha fizesse a sua parte e voltasse a aparecer.

Quando toda, mas mesmo toda a gente já lá estava, começou a labuta, ou seja, os chamamentos para ver se o bicho aparecia. Confesso que vi aquilo complicado. Ainda se passaram algumas dezenas de minutos angustiantes até que a estrela estrelinha voltasse a dar um ar da sua graça. Pelas minhas contas, só apareceu cerca das onze e quinze, mais de meia hora depois das primeiras tentativas. Foi nessa altura que consegui, em modo David Attenborough, testemunhar um fenómeno de que já tinha ouvido falar mas que nunca tinha observado por ali, a debandada (stampede, em inglês). Quando o bicho apareceu, alguém não identificado gritou, numa qualquer língua, o conhecido "Está ali!!!" e a multidão, como se fosse um só organismo vivo, correu o mais que pôde uma ou duas dezenas de metros, aos atropelos. Ainda bem que estávamos no alcatrão. Se fosse num qualquer vale, cheio de lama, a história poderia ser diferente. Vieram-me à memória alguns acidentes de que ouvi falar.

A estrela apareceu e foi simpática. Fez a felicidade de toda a gente. Até se deu ao luxo de, no final, ir para uns ramos nus e permitir a quem quis fazer uns registos fotográficos razoáveis. Foram dez minutos de adrenalina. 


Corrupião-laranja (Icterus galbula)
Uma das aves mais bonitas do ano

Aí está como um dia que nada prometia se transformou num dia do outro mundo. A moral da história, a que já aludi várias vezes nesta vida de arrolador é que a melhor forma de encontrar uma coisa, é ir à procura de outra coisa. Estrelinha-de-fogo. O nome diz tudo.

19 a 23 de Outubro - Hoje no Corvo, amanhã no Corvo.

Dia 19, Domingo, chegou. Era o fim minha quarta estadia no Corvo ou, pelo menos, isso era que tinha na cabeça quando acordei nesse dia. Mal sabia eu que era o começo de mais uma odisseia.

O vôo era às onze e, de mala feita, fomos para o aeroporto uma boa meia hora antes. Vê-se logo por aqui que não somos veteranos do Corvo. Quem sabe, só vai para o aeroporto quando o avião aterra ou, quando muito, quando ele sai do Faial. Estava precisamente a sair do hotel quando ouço alguém a comentar "Ah e tal, está atrasado porque ainda nem saiu de Ponta Delgada." Não liguei e segui. 

No aeroporto fizemos o check-in e aguardámos. No Corvo, a sala de embarque é ao lado do check-in e o terminal todo é do tamanho de uma sala de jantar. Pode sempre aparecer qualquer coisa no que à passarada diz respeito e, por isso, é normal só passar a segurança no último segundo. Convém ter sempre um olho no burro e outro no cigano. 

Esperámos e esperámos. Nunca chegámos a ir para a sala de embarque. Chegou a hora e o avião ainda estava em Ponta Delgada. Começou a circular o boato que este tinha uma avaria. Finalmente começámos a ver o pessoal de terra a desmobilizar, o polícia a sair, enfim, um clima de fim de festa. Tudo terminou com um aviso envergonhado por parte do funcionário do check-in, de que não iria haver vôo, seguido da impressão dos vouchers para comer e para dormir.

Mariquita-do-cabo-may (Setophaga tigrina)

Naquele pequeno mundo as notícias circulam à velocidade da luz e, por isso, com o tempo ficámos a saber que o avião precisava de uma peça que vinha do Canadá e que a reparação ia demorar. Houve pormenores que foram sendo acrescentados mas aí já não sei se estaríamos no domínio da ficção e do mito urbano. 

Segunda e Terça-feira entrámos na triste rotina de acordar no limbo que é não saber onde se vai comer e onde se vai dormir nesse dia. Acorda, pega na mala, vai para o aeroporto, não há voo, pega nos vouchers, regressa ao hotel.  À medida que os dias avançavam, cada vez tínhamos mais companheiros de infortúnio. Não sei se seria verdade mas, em dada altura disseram-me que havia cinquenta pessoas para sair do Corvo. Cada um tinha de lidar com o seu drama pessoal. Faltas ao trabalho, a consultas, a cirurgias e mais sei lá o quê. Os portugueses já tinham ouvido falar que uma coisa destas poderia acontecer mas, para os estrangeiros, a situação era incompreensível. Para agravar o já complicado dilema, o mar não permitia a fuga para a vizinha ilha das Flores. Era como se estivéssemos numa prisão. "Como é possível? Onde é que está a Força Aérea?!", cheguei a ouvir por parte de alguns turistas. Não é que não tivessem razão mas, estamos em Portugal e, está tudo dito. Nesses dias achei por bem partilhar a história com as minhas primas de S. Miguel, que me responderam a propósito, “Agora vês o que é a insularidade!"

Por um lado insularidade, sim senhor, por outro vê-se também o que é incompetência continuada de dezenas de anos ao mais alto nível. Ter só dois aviões capazes de aterrar no Corvo e pôr um em manutenção programada a seguir ao verão, significa que, se acontece alguma coisa ao que resta temos problemas sérios, como se vê. Opiniões há muitas e leva-as o vento mas, sempre ouvi dizer que, para manter uma operação de qualquer tipo tem de se ter sempre três de cada. Um em manutenção, e os outros dois a assegurar-se um ao outro, para o caso de haver uma avaria. Não sei a história toda, é verdade, mas o facto é que a SATA só tem dois daqueles preciosos aviõezinhos mais pequenos. Lá está, Portugal no seu melhor. Fiquei também a saber que a situação não era, de todo, inédita.

Papa-lagarta-de-asa-vermelha (Coccyzus americanus)

Nada a dizer, no entanto, de todos com quem lidámos no aeroporto. SATA , PSP, foram todos impecáveis, profissionais e, até solidários. Ao longo dos dias íamo-nos encontrando um pouco por todo o lado e sendo saudados por aquele sorriso de reconhecimento, "Então ainda por cá?" 

Foi também por essa altura que aprendemos um dos mais célebres provérbios lá do sítio, "Hoje aqui, amanhã no Corvo" . Por vezes, ouvíamos variações, "Acho que ainda não é hoje que vai para casa. Acho que é hoje no Corvo, amanhã no Corvo" . Esboçávamos um sorriso mas, o sentimento era de tristeza e impotência. Outros tentavam animar-nos a dizer que era bem melhor o avião ter avariado no chão e não no ar. Enfim, todos por ali sabiam o que se passava. 

O dia mais difícil para mim, pessoalmente, foi na quarta-feira. A notícia era de que o avião já estava bom e havia três voos programados neste dia. O nosso era o terceiro, às 18 horas. Vimos no FlightRadar o primeiro a sair de Ponta Delgada e juro que cheguei a ouvir foguetes na minha cabeça. Claramente foram foguetes antes da festa, porque, passado 15 minutos vimos o avião a voltar à casa de partida. Cancelaram os dois primeiros voos do dia. Mau! Mais um dia de hoje no Corvo, amanhã no Corvo? Ah e tal a avaria é pequena e o voo das 18 ainda se vai fazer. Hum, vamos ver, pensei. Entretanto tomem lá mais um voucher para o almoço... À tardinha vimos o aviãozinho precioso a sair e, finalmente a aterrar no Faial. Era hoje! Já só faltavam 40 minutos.

O tempo passou, e o avião não saía do Faial. Sabe-se lá a razão, se era por já estar a escurecer, ou sei lá mais o quê. Finalmente, apareceu alguém a dizer que não havia voo, tomem lá os vouchers. 

A vista do quarto no último dia. 

Parecia que o céu me tinha caído em cima da cabeça. Fiquei em silêncio, sem reação, por uns bons dez minutos, a olhar para o infinito. Desta vez, até tínhamos de mudar de alojamento, que o original estava ocupado. Custou, mas aceitei o destino. Há males que vêm por bem. O alojamento dessa noite tinha das melhores vistas da ilha e o dono até jantar nos ofereceu. Por outro lado, pelos vistos o avião estava mesmo reparado. Podia ser que amanhã fossemos para casa.

Como não há mal que sempre dure, quinta-feira foi o dia. O avião aterrou à hora de almoço, ao fim de uma semana de ausência e ao som de gritos de alegria. Era a raridade que todos queriam ver. Seguimos para casa e, ainda deu para beber uns copos com uns primos em Ponta Pelgada. Finalmente foi dia de "hoje no Corvo, amanhã em Lisboa" . 

Já em casa, uns dias depois, agradeci a hospitalidade a uma das mais famosas habitantes do Corvo, que nos recebeu no último dia. Disse-lhe também que, mesmo com esta desventura dos últimos dias, nós não desistimos. 

Até para o ano!

"Preso" no Corvo.
Publiquei esta foto no Facebook e queixei-me da vida.
As reações foram pouco solidárias. 

#canaldoxofred

19 fevereiro 2025

O Dia Mais Longo

Ao largo da Ilha Marion, África do Sul ((English Version)
27 de Janeiro de 2025

Há uma ilha no meio do nada, a meio caminho entre o Cabo das Tormentas e a Antártida. Na ilha Marion e na sua vizinha, a ilha Prince Edward, nidificam cerca de dois milhões de aves marinhas, de 29 espécies. 
A importância destas ilhas é vital. Só uma das espécies, o albatroz-gigante (Diomedea exulans) tem lá a nidificar 40% da sua população total. 

Albatroz-preto (Sooty albatross)

A vida nos "Roaring Forties" não é fácil mas, o homem, como sempre, encarregou-se de a complicar ainda mais.  No início do século 19 as frotas baleeiras que frequentavam a zona levaram para lá os ratos domésticos, que se adaptaram excepcionalmente bem e passaram a alimentar-se das crias das aves, sem defesa para fazer face a essa ameaça.

Foi com este panorama que a BirdLife da África do Sul concebeu o ambicioso projeto Mouse-free Marion, para libertar de vez a ilha dos ratos. A ideia é excelente mas é preciso dinheiro. Muito dinheiro.
Uma das iniciativas em que pensaram para aumentar a notoriedade do projeto, além de angariar fundos, foi o Flock to Marion. Um cruzeiro às referidas ilhas, num barco de luxo, com largas centenas de observadores. 

Pardelão-subantártico (Northern Giant Petrel)

Tinha seguido de longe a iniciativa em 2022, aquando do primeiro cruzeiro mas, na altura, estávamos ainda em plena época de pandemia ou finais de pandemia. Nunca coloquei a hipótese de participar. 
Como o mundo dá muitas voltas, três anos depois acabei por me inscrever no Flock to Marion 2025. Não foi um caminho muito direto mas, fosse lá como fosse, inscrevi-me.
A inscrição foi feita com quase um ano de antecedência mas o tempo passou, como sempre o tempo faz, e foi com entusiasmo que  aterrei em Durban no dia anterior ao embarque no MSC Música. 

                O gigante MSC Música, atrás do terminal de cruzeiros Nelson Mandela, em Durban

Finalmente, após quase um ano de espera depois da inscrição, chegou o grande dia, Sexta-feira, 24 de janeiro de 2025. Na pequena multidão de 1900 pessoas que foi embarcando a conta-gotas estava eu e mais sete portugueses. Os procedimentos foram muito mais simples do que imaginei e rapidamente me instalei no convés 7 de estibordo a ver as aves que andavam pelo porto.

O barco saiu ao fim da tarde e sabíamos que só íamos chegar a Marion na segunda, dia 27. Tinham-nos dito que os dias em trânsito seriam para descansar e que o esforço de observação deveria ser concentrado nos dias nas ilhas - 27 e 28. Ouvi esse conselho mas, fiz orelhas moucas, que isto não é todos os dias que se está nos mares do Sul. Olhando para trás, obviamente que quem nos aconselhou tinha razão. 

Albatroz-gigante (Wandering Albatross)

Todos os dias do cruzeiro foram especiais mas, houve um que foi mais especial que os outros e, é nesse que vamos concentrar o relato. Navegamos assim até ao nosso dia D, 27 de Janeiro, o "Dia mais Longo" da viagem. 

A emoção tinha sido em crescendo desde o primeiro dia. Domingo, 26, já tinha sido excelente e os albatrozes-gigantes tinham aparecido aqui e ali. Os albatrozes mais pequenos e os faigões (prions) também. No fim do dia, vi o meu primeiro pardelão (macronectes) e fiquei emocionado. Tinha sido um dia em cheio e tinha atingido quase todos os objetivos que delineei para a viagem.
Seria possível ter um dia ainda melhor? Muita gente que tinha vindo no cruzeiro de 2022 havia avisado "espera até chegares à ilha e vais ver".
Sempre achei que estavam a exagerar.

Freira-de-penas-lisas (Soft-plumaged petrel) 
Na sua mais rara forma escura

Como mais vale prevenir, não fosse o pessoal ter razão, no dia 27, eu e o meu companheiro de quarto, Rui Pereira, combinámos a alvorada para as 3h20 (!!!). Às 3h45 já estava no convés. Estava lusco-fusco, mas mais para o fusco. Obviamente que não fui o primeiro mas, ainda havia pouca gente à vista. Como só se viam silhuetas, e mal, o silêncio imperava entre os guias e restantes madrugadores, leia-se malucos, que por lá andavam. Nisto, começo a aperceber-me que um guia americano de um grupo que conhecia já estava a dar indicações. "Possível isto, possível aquilo, possível aqueloutro". Fartei-me de rir. Realmente, com aquela luz tudo era possível. 
Cheguei à conclusão de que me tinha levantado cedo de mais e de que só valia a pena levantar os binóculos ou a câmara dali a pelo menos mais meia hora.

Albatroz-tisnado (Light-mantled Albatross)

Quando a luz já permitia ver qualquer coisa, o espetáculo começou a revelar-se. Os bichos eram aos milhares. O campo de visão estava sempre preenchido. Em vez de ficar a processar as emoções e a pensar na vida, resolvi começar a trabalhar e a registar o que via. Foi disparar e não pensar mais nisso. Afinal, tinha trazido 20 cartões para quê? 

Albatroz ao pequeno-almoço

Antes do pequeno-almoço, a estrela foi o primeiro Albatroz-tisnado da viagem (Light-mantled albatross). Talvez o mais bonito das sete espécies de albatroz observadas na expedição. A subtileza na variação de tons castanho e prata é do outro mundo. A surpresa foram os vários petrel-mergulhador-comum (Comon diving petrel). Nunca pensei vê-los tão bem e, ainda por cima, ser capaz de fazer registos a partir de um porta-aviões. Uma espécie de mini torda, com asas minúsculas e que voa de uma forma desajeitada, ao ponto de ter de atravessar as ondas a mergulhar. O nome "mergulhador" fica-lhes bem, sem dúvida. 
O show teve skuas, pardelões, painhos, albatrozes de várias espécies, tudo com fartura. Foi preciso uma grande força mental para virar as costas àquilo e ir tomar o pequeno-almoco, pouco depois das seis da manhã. 
O que vale é que até da mesa no 12º andar se via a bicharada. Não comi sozinho, porque me encontrei lá com um dos companheiros da viagem, o Hugo Blanco, que também tinha ganho o hábito de tomar o pequeno-almoço à mesma hora. Isto há gostos para tudo. 

Petrel-mergulhador-comum
(Common diving petrel)

Depois dessa primeira paragem para reabastecimento, resolvemos ir os dois para a popaO espetáculo continuava. eram pardelões com fartura, além de albatrozes-gigantes (Wandering albatross) e albatrozes mais pequenos. "Olha o pardelão fresquinho!", foi a frase que o Hugo popularizou por esses dias. Por vezes havia reuniões de condomínio com cinco, seis, dez bichos pousados na água. Muitos subiam até à altura do nosso convés, no décimo segundo andar e até acima das nossas cabeças. Para compor o panorama ainda passavam faigões (prions), freiras de vários tipos. Foi sempre a disparar e quando não disparava para descansar o braço, ficava a admirar o show. Foi dos melhores momentos da expedição, poder ver tanto pardelão tão perto. É daquelas aves que parece vinda de outra época. Um dinossauro voador com ar de ser mau como as cobras. Era o meu principal objetivo da viagem, que já tinha visto no dia anterior por uns segundos. A emoção era muita mas, não a deixei tomar conta do acontecimento. Aproveitei a oportunidade e desfrutei, para além de encher os cartões com mais uns milhares de registos. 

Faigão-do-índico (Salvin's prion)

Quando achámos que já tínhamos pardelões suficientes, resolvemos mudar de pouso. Continuámos pela ré, mas descemos dois ou três andares. 
Não tinha passado muito tempo quando começámos a ouvir um grande sururu vindo um pouco de todo o lado. Andava um Pintado à volta do barco (Daption capense). A loucura estava instalada. Não é que fosse um bicho raro mas era completamente inesperado para a o local e altura do ano. Aparentemente, estaria do lado oposto do barco. Nós estávamos à esquerda e, ao que parecia, estava a ser visto à direita. Estas manobras de mudança de bordo raramente correm bem e, por isso, resolvemos procurar mesmo dali. Não tinham passado nem dois minutos quando deteto o bicho na esteira do barco. "Está ali!". Lá vinha ele a fazer manobras acrobáticas por cima da água azul-turquesa. O Hugo ainda teve de perguntar várias vezes o habitual nestas situações, "Onde? Onde é que está?", e eu de  dar a resposta que já estava célebre na viagem "Eh pá, põe-te atrás de mim!". Finalmente, lá o detectou também. O Pintado, além de bonito, foi simpático e deixou-se ficar algum tempo. As fotos não foram fáceis mas ficaram boas. Isto de passar de pardelões e albatrozes para pintados é complicado. É como passar de uma corrida de camiões para uma de fórmula 1. 

Pintado na popa (Pintado Petrel)

A euforia estava instalada um pouco por todo o barco. Era a alegria do povo. O Hugo estava quase fora de si. Ainda  sinto as palmadas de contentamento que me deu nas costas. 
Achei que o dia estava ganho mas, o problema é que ainda nem sequer eram oito horas. 

Fomos outra vez para o deck 7 e continuou o fartar vilanagem. A bicharada às centenas, não parava de aparecer. Nunca os olhos tiveram um minuto de descanso. 

Ilha Marion

Já tínhamos passado a ilha Prince Edward e, por volta das nove horas, avistava-se ao longe a ilha Marion. Fiquei impressionado com a dimensão, mas sobretudo com a altura, que me disseram ser superior a 1200 metros. Lá no alto, ainda se conseguia avistar neve. Na minha cabeça tinha um ilhéu pequeno de rocha mas o que vi foi uma ilha a sério. Pena não termos sido autorizados a aproximar-nos a menos de doze milhas. 

Albatroz-de-bico-pintado-do-índico
(Indian Yellow-nosed Albatross)

Foi por volta das 10h30 que comecámos a ouvir pessoal a gritar "pinguim!". Tinha esperança de ver um mas, agora, a esperança transformava-se rapidamente em possibilidade. "Pinguim às 2h", gritava alguém e, logo os olhos se viravam para a área em questão à procura dos bichos. 
Ainda foram precisas algumas iterações para afinar a vista e perceber como se via um pinguim e mais umas quantas para os conseguir fotografar. Claramente, o bicho mais difícil de ver e, consequentemente, de fotografar durante toda a expedição. O raio dos bichos estavam sempre em movimento e a mergulhar sem parar. Era preciso descobrir o sítio aproximado onde estavam e, depois, ter a sorte de os apanhar a sair da água. A maioria das vezes só se viam salpicos ou a água a borbulhar mas, com paciência, lá consegui ver quatro espécies ao longo do dia. A saga dos pinguins continuou o dia todo. Tudo foi possível, até fotografar pinguins em vôo. 

Pinguim-macaroni (Macaroni penguin)
Sim, eles voam.

A manhã foi animada, mas havia que ir almoçar e, de preferência, cedo. Isto para termos acesso a uma das mesas à janela. Já toda a gente tinha percebido que nesta viagem se tinha de estar permanentemente com um olho no burro e outro no cigano. Estávamos à mesa a comer alegremente quando o Hugo diz "Ora vê lá se não é o Albatroz de que precisamos". Olhamos para a zona e vemos dois ou três albatrozes a passar, um deles com o bico laranja. Era sem dúvida um  Albatroz-de-sobrancelha (Black-browed albatross). O próximo minuto foi dramático. Como fotografar um albatroz através do vidro cheio de sal? Com algum esforço lá consegui ficar com a evidência. Não era um grande registo mas era um registo. E assim se fizeram três estreias numa. O albatroz-de-sobrancelha, fotografar através do vidro do barco e ainda  fotografar ao mesmo tempo que se almoça.  Não é para qualquer um.

Albatroz-de-sobrancelha
ao almoço, através do vidro.

Depois do almoço animado, voltámos ao trabalho, que um cruzeiro destes não é para calões. Durante a tarde, além dos pinguins, dos faigões e dos múltiplos-painhos-de-barriga-preta, entre muitos outros, apareceram algumas novas estrelas no firmamento. Uma foi o Painho-de-dorso-cinzento (Grey-backed storm petrel). Para o ver tive de aprender a reconhecer Kelp. Uma alga em formato de polvo a que eles se costumam associar para se alimentarem. Sempre a aprender. O outro foi Petrel-azul (Blue Petrel). É parecido com um faigão mas tem a ponta da cauda branca e não preta. A verdade é que esse tinha o estatuto de estrela maior, ao ponto de causar debandadas sucessivas de umas dezenas de observadores. "Petrel-azul a bombordo", e lá ia a manada de estibordo para bombordo pelo meio do casino. "Afinal voltou para estibordo!", e lá ia o pessoal de volta à casa partida. Fiz isso algumas vezes ao longo da viagem, mais com maus resultados do que bons. Numa das vezes lembro-me de ouvir perfeitamente as vozes dos funcionários do casino. "Bird! Bird!". O importante é que toda a gente estava divertida. O que nós fazemos em nome da ciência...

Petrel-azul (Blue Petrel) 
O maior causador de debandadas da viagem

Foi também depois de almoço que os Portugueses, coletivamente, deram sinal de vida e se mostraram à turba. Chegámos ao Deck 7 e de imediato o Rui Pereira vê e fotografa um faigão-de-bico-curto (fairy prion), pondo a malta das redondezas a mexer, à procura do bicho, que não é nada fácil de encontrar e identificar no meio das outras centenas de faigões. Passado uns minutos, estava o Luís Custódia a queixar-se da vida, de que ainda não tinha conseguido ver um Petrel-azul e logo o Bruno Silva avista um, provocando mais uma debandada a bordo. Mais uns minutos e o mesmo Bruno avista uma freira-de-cabeça-branca (White-headed petrel) que muita gente, incluindo ele próprio ainda não tinha visto. Mais uma pequena multidão a mexer. Tudo isto no espaço de menos de meia-hora. Foi aí que reparei que estávamos rodeados de gente e disse que era a nossa vez, dos Portugueses andarem a "espalhar magia" e a risota instalou-se. Dito isto, resolvemos ir "espalhar magia" para outro lado. 

A Freira-de-cabeça-branca do Bruno
(White-headed petrel)

Uma nota mais delicada foi a ida ao hospital por volta das quatro da tarde. O Luís  tinha passado mal a noite e não se sentia bem. Seria da emoção? Conhecendo-o desde 2010 achei que não estava a brincar. Ao longo do dia fui-lhe dizendo que, se ele quisesse ia com ele ao médico, uma vez que o Inglês não é o seu forte. 
Assim, às 16h lá fomos ao hospital do navio - mais uma estreia. A médica era bem gira, por sinal. Além de outra medicação, recomendou também fazer um aerossol. Fomos para a sala de tratamento e lá estivemos um bom bocado. Felizmente, a sala tinha uma vigia e conseguimos estar sempre de olho nos albatrozes. Até cheguei a pegar nos binóculos. Teria sido uma estreia mundial? Observar aves na sala de tratamentos do hospital do navio. Julgo ter visto um sorriso - seria de gozo? -  na cara dos enfermeiros e da própria médica... O importante é que, no final da desventura, o Luís se sentia melhor. A carteira também ficou mais leve, que as consultas nos cruzeiros não são baratas.

Visita ao hospital, sempre com os albatrozes na mira.

Voltámos ao deck 7, e por lá estivemos a aproveitar até ao último segundo, até ao lusco-fusco se tornar fusco. A última imagem que recordo é a do enxame de aves atrás do navio. Milhares de bichos de todas as espécies faziam pela vida, com a luz do fim de tarde. Uma visão do outro mundo mas, no fundo, fazia sentido porque era no fim do mundo que nós estávamos. 

Panorama do deck 7 de estibordo

Durante o dia, vários guias perguntaram-me o que pensava da experiência. A minha resposta veio diretamente do fundo do coração:
-Podias contar-me mil vezes como era. Só vivendo é que se compreende.
Regressei ao quarto de coração cheio. Perguntei ao Rui, enquanto dono de um daqueles relógios de pulso que tudo controlam, quanto tínhamos andado nesse dia e fiquei atónito com a resposta. Dez (!) quilómetros. Num barco de trezentos metros parece difícil de acreditar, mas lá que o relógio dizia isso, dizia.

Albatroz-gigante (Wandering albatross)

Apesar do cansaço, o dia acabou como todos os outros. Fomos jantar a um dos restaurantes do navio, o Belle Époque. Fui vestido mais ou menos a rigor, que isto há que respeitar as tradições. Devia ser dos poucos naquela expedição a fazê-lo, e já me tinham dito, logo no primeiro dia, que era dos mais bem vestidos ao jantar. Não percebi se era um elogio ou uma crítica mas também não me importei. O meu contentamento, e o do grupo, via-se e sentia-se.
E o melhor de tudo é que aquilo ainda ia a meio. Amanhã havia mais.

Jantar de Gala no Belle Époque