Fragmentos do Corvo (English Version)
Outubro de 2025
Este ano chegámos ao Corvo dia 9 de outubro. Foi o quarto ano e, aquele em que acabei por ficar mais tempo, voluntária e involuntariamente. Como sempre, houve aventuras e desventuras. Escolhi três histórias, das muitas que por lá se passaram. Mais três fragmentos para memória futura.
11 de Outubro - Frulhos no mar
O Hadoram Shirihai, que tenho o privilégio de conhecer, dedicou toda uma vida às aves, e é um apaixonado pela família das pterodromas (freiras em Português). Confidenciou-me que acredita que há muito por descobrir nos mares dos Açores, especialmente naquela zona Flores Corvo. Não foi preciso muito para que ele me tornasse também um crente e, embarquei na aventura, dentro das minhas possibilidades.
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| Frulho à mão de semear (puffinus baroli) |
Este ano, em parceria com o Carlos Mendes, skipper bem conhecido no arquipélago, programou quatro saídas pelágicas com engodagem naquela área. O objetivo final seria o de ver aves muito especiais como a freira-das-bermudas ou a freira-das-antilhas, entre outras. Parece ficção científica mas, os dados GPS recolhidos todos os anos não mentem. Essas e outras espécies da família andam por lá e são regulares.
Já sabemos que a logística é complicada naquele canto do mundo e, há ainda a condicionante meteorológica. Foi por isso que, entre avarias e meteorologia, só à terceira tentativa conseguimos sair para o mar. O Carlos veio cedo das Flores para o Corvo com o Hadoram e o seu barco, claramente o melhor da redondezas. Embarcámos e, lá fomos nós. O barco não ia cheio, propositadamente, para que o pessoal tivesse espaço para se mexer com as câmeras. Éramos pouco mais de uma dezena, todos cheios de esperança de ver unicórnios.
A ondulação não era grande, mas também não era pequena. Rapidamente percebi que o Carlos é muito hábil ao leme, limitando ao máximo o desconforto para os passageiros. Quando lho disse mais tarde e lhe dei os parabéns ele limitou-se a responder, meio envergonhado, "bom, sempre são trinta anos de experiência".
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| Painho-de-cauda-forcada (Hydrobates leucorhous) |
Fomos percorrendo os pontos indicados pelo Hadoram e as coisas foram aparecendo. Além das omnipresentes cagarras, tivemos mais de uma dezena de painhos-de-cauda-forcada muito perto. Foi um espetáculo vê-los assim, na sua vida, sem ser após uma tempestade. A surpresa da manhã foram dois ou três frulhos (Puffinus baroli). Um deles proporcionou-nos as observações de uma vida. Estava pousado relativamente perto do barco quando o detetámos e, manteve-se por perto a alimentar-se. Dava pequenas corridas na crista das ondas e mergulhava o pescoço para capturar o que encontrasse. Fez isso uns bons vinte minutos. Nunca mais me hei-de esquecer de estar a ver aquele espetáculo, a fotografar o que consegui e a ouvir ao meu lado, em francês, "Incroyable! Incroyable!". Era mesmo verdade. Nunca na vida pensei ver aquela espécie críptica e esquiva tão perto e a alimentar-se quase como se não estivéssemos ali. Ajudou ao espetáculo ter alguém como o Carlos a manobrar, em conjunto com as instruções do Hadoram, que foram colocando o barco de forma que a posição fosse sempre a melhor possível em relação ao alvo, ao sol e às ondas.
Mais para a tarde, quando o vento começou a aumentar, com condições melhores para que as freiras cheirassem o engodo, fomos para o ponto P, de pterodroma. No caminho vimos cachalotes, golfinhos de várias espécies e mais cagarras e painhos. A animação foi contínua.
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| Cachalote (Physeter macrocephalus) |
Chegámos e estivemos lá umas duas horas. O vento estava na direção certa e as condições eram boas mas, a verdade, é que freiras, nem vê-las. De nada adiantaram os pensamentos positivos, as rezas de quem era religioso ou as receitas de engodo especial. Imaginei várias vezes uma freira a vir, rente às ondas, naquele mar mas, nada feito. Quando o tempo se esgotou, tivemos de vir embora sem freiras. Seria por não termos ficado tempo suficiente? Por falta de vento? Nunca saberemos.
| Golfinho-pintado (Stenella frontalis) |
Quando desembarcámos no Corvo e nos despedimos do Hadoram, do Carlos e da sua tripulação, não vi ninguém com má cara. Não tinha saído o jackpot mas também não nos podíamos queixar. Aqueles mares ainda têm muito para explorar e não cedem os seus segredos com facilidade.
14 de outubro - Estrelinha-de-Fogo
O dia estava manhoso. Daqueles dias em que, se tivesse de apostar, diria que não se iria ver nada. Humidade pegajosa, nevoeiro, enfim, se estivesse em Lisboa nem saía do sofá.
Mas aquilo no Corvo é uma Twilight Zone permanente. As regras do costume não se aplicam. É proibido ficar em casa.
Nesse dia, escolhemos ir para a Ribeira da Ponte, mais conhecida por "Da Ponte", pelos não Portugueses. A ideia era ir à procura da mariquita-de-colar (Northern Parula) que por lá tinha sido vista no dia anterior. Podia ser que voltasse a aparecer, quem sabe. Por outro lado, quando chovesse, as árvores sempre podiam dar alguma proteção.
Pelos vistos mais gente tinha tido o mesmo raciocínio e acabámos por ser cinco a escolher aquele local nesse dia. Eu e a Sandra, o sueco Jesper e, ainda dois finlandeses, o Pekka e o Petri. Pelas caras, ninguém estava com especial entusiasmo.
Faltava pouco para as nove horas quando começámos a labuta.
Deixei o altifalante no muro e comecei a tocar os sons do costume. Toca um, toca outro, toca mais outro. Nada. Deixei passar uns minutos e voltei à carga. Toca um, toca outro.
Viu-se um movimento em cima, nas copas, que rapidamente desapareceu. Não era nem tentilhão nem toutinegra. Seria a Parula que procurávamos? Provavelmente sim mas, a observação tinha sido só de relance e não foi possível tirar conclusões definitivas.
Toquei mais um som. Vimos outra vez movimento, desta vez à esquerda da ponte. Rapidamente guardei o telemóvel e levantei os binóculos. Ainda mal tinha tido tempo de encontrar a ave e ouço o Petri ao meu lado aos gritos "Ruby-Crowned Kinglet!!!!". O bicho materializou-se. Não havia dúvidas. Era mesmo um unicórnio. Uma espécie de estrelinha desmaiada, mas esta era especial.
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Estrelinha-de-fogo (Corthylio calendula) a estrela da temporada |
No Corvo só se tinha visto uma anteriormente, em 2015 e, nos Açores, havia um total de duas observações (2013 e 2015). E foi logo aparecer à nossa frente, num dia que nada prometia.
Levantei a máquina. O bicho não parava quieto e a luz era a que sabíamos mas, fiz o que pude. A estrelinha foi da esquerda para a direita e depois para o outro lado da estrada, até que voou para as árvores de trás e desapareceu. No total, o transe durou nem três minutos. Às nove horas já tinha terminado. Olhei para a máquina. Os registos eram pobres e cheios de grão mas, lá que o bicho estava lá, isso estava. Este já não fugia. Olhei em volta e reparei que o Petri estava completamente fora de si "Ruby-crowned kinglet! Oh my God! Oh my God!". As mãos tremiam que nem varas verdes. Nunca tinha visto um finlandês naquele estado. Há uma primeira vez para tudo.
Lá comecei a raciocinar e perguntei se alguém já tinha divulgado a observação, ao que o Jesper respondeu que sim. Fiquei tranquilamente a aguardar o que aí vinha, ou seja, toda a gente que estava na ilha, incluindo os veteranos que já lá vão há vinte anos. Tranquilamente, é como quem diz porque, na realidade fui-me apercebendo que tinha um sentimento profundo de angústia. Esta era daquelas aves tão importantes que, se por acaso não fosse vista por toda a gente, iríamos ganhar uma legião de haters para toda a vida.
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| Stampede na Ribeira da Ponte |
O pessoal foi chegando a conta-gotas, com aquele ar desesperado, de incerteza sobre o que vai acontecer. Fui contando a história a quem perguntou mas, percebi que isso não era catarse nem para mim, nem para ninguém. Isto só se resolvia se a estrelinha fizesse a sua parte e voltasse a aparecer.
Quando toda, mas mesmo toda a gente já lá estava, começou a labuta, ou seja, os chamamentos para ver se o bicho aparecia. Confesso que vi aquilo complicado. Ainda se passaram algumas dezenas de minutos angustiantes até que a estrela estrelinha voltasse a dar um ar da sua graça. Pelas minhas contas, só apareceu cerca das onze e quinze, mais de meia hora depois das primeiras tentativas. Foi nessa altura que consegui, em modo David Attenborough, testemunhar um fenómeno de que já tinha ouvido falar mas que nunca tinha observado por ali, a debandada (stampede, em inglês). Quando o bicho apareceu, alguém não identificado gritou, numa qualquer língua, o conhecido "Está ali!!!" e a multidão, como se fosse um só organismo vivo, correu o mais que pôde uma ou duas dezenas de metros, aos atropelos. Ainda bem que estávamos no alcatrão. Se fosse num qualquer vale, cheio de lama, a história poderia ser diferente. Vieram-me à memória alguns acidentes de que ouvi falar.
A estrela apareceu e foi simpática. Fez a felicidade de toda a gente. Até se deu ao luxo de, no final, ir para uns ramos nus e permitir a quem quis fazer uns registos fotográficos razoáveis. Foram dez minutos de adrenalina.
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Corrupião-laranja (Icterus galbula) Uma das aves mais bonitas do ano |
Aí está como um dia que nada prometia se transformou num dia do outro mundo. A moral da história, a que já aludi várias vezes nesta vida de arrolador é que a melhor forma de encontrar uma coisa, é ir à procura de outra coisa. Estrelinha-de-fogo. O nome diz tudo.
19 a 23 de Outubro - Hoje no Corvo, amanhã no Corvo.Dia 19, Domingo, chegou. Era o fim minha quarta estadia no Corvo ou, pelo menos, isso era que tinha na cabeça quando acordei nesse dia. Mal sabia eu que era o começo de mais uma odisseia.
O vôo era às onze e, de mala feita, fomos para o aeroporto uma boa meia hora antes. Vê-se logo por aqui que não somos veteranos do Corvo. Quem sabe, só vai para o aeroporto quando o avião aterra ou, quando muito, quando ele sai do Faial. Estava precisamente a sair do hotel quando ouço alguém a comentar "Ah e tal, está atrasado porque ainda nem saiu de Ponta Delgada." Não liguei e segui.
No aeroporto fizemos o check-in e aguardámos. No Corvo, a sala de embarque é ao lado do check-in e o terminal todo é do tamanho de uma sala de jantar. Pode sempre aparecer qualquer coisa no que à passarada diz respeito e, por isso, é normal só passar a segurança no último segundo. Convém ter sempre um olho no burro e outro no cigano.
Esperámos e esperámos. Nunca chegámos a ir para a sala de embarque. Chegou a hora e o avião ainda estava em Ponta Delgada. Começou a circular o boato que este tinha uma avaria. Finalmente começámos a ver o pessoal de terra a desmobilizar, o polícia a sair, enfim, um clima de fim de festa. Tudo terminou com um aviso envergonhado por parte do funcionário do check-in, de que não iria haver vôo, seguido da impressão dos vouchers para comer e para dormir.
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| Mariquita-do-cabo-may (Setophaga tigrina) |
Naquele pequeno mundo as notícias circulam à velocidade da luz e, por isso, com o tempo ficámos a saber que o avião precisava de uma peça que vinha do Canadá e que a reparação ia demorar. Houve pormenores que foram sendo acrescentados mas aí já não sei se estaríamos no domínio da ficção e do mito urbano.
Segunda e Terça-feira entrámos na triste rotina de acordar no limbo que é não saber onde se vai comer e onde se vai dormir nesse dia. Acorda, pega na mala, vai para o aeroporto, não há voo, pega nos vouchers, regressa ao hotel. À medida que os dias avançavam, cada vez tínhamos mais companheiros de infortúnio. Não sei se seria verdade mas, em dada altura disseram-me que havia cinquenta pessoas para sair do Corvo. Cada um tinha de lidar com o seu drama pessoal. Faltas ao trabalho, a consultas, a cirurgias e mais sei lá o quê. Os portugueses já tinham ouvido falar que uma coisa destas poderia acontecer mas, para os estrangeiros, a situação era incompreensível. Para agravar o já complicado dilema, o mar não permitia a fuga para a vizinha ilha das Flores. Era como se estivéssemos numa prisão. "Como é possível? Onde é que está a Força Aérea?!", cheguei a ouvir por parte de alguns turistas. Não é que não tivessem razão mas, estamos em Portugal e, está tudo dito. Nesses dias achei por bem partilhar a história com as minhas primas de S. Miguel, que me responderam a propósito, “Agora vês o que é a insularidade!"
Por um lado insularidade, sim senhor, por outro vê-se também o que é incompetência continuada de dezenas de anos ao mais alto nível. Ter só dois aviões capazes de aterrar no Corvo e pôr um em manutenção programada a seguir ao verão, significa que, se acontece alguma coisa ao que resta temos problemas sérios, como se vê. Opiniões há muitas e leva-as o vento mas, sempre ouvi dizer que, para manter uma operação de qualquer tipo tem de se ter sempre três de cada. Um em manutenção, e os outros dois a assegurar-se um ao outro, para o caso de haver uma avaria. Não sei a história toda, é verdade, mas o facto é que a SATA só tem dois daqueles preciosos aviõezinhos mais pequenos. Lá está, Portugal no seu melhor. Fiquei também a saber que a situação não era, de todo, inédita.
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| Papa-lagarta-de-asa-vermelha (Coccyzus americanus) |
Nada a dizer, no entanto, de todos com quem lidámos no aeroporto. SATA , PSP, foram todos impecáveis, profissionais e, até solidários. Ao longo dos dias íamo-nos encontrando um pouco por todo o lado e sendo saudados por aquele sorriso de reconhecimento, "Então ainda por cá?"
Foi também por essa altura que aprendemos um dos mais célebres provérbios lá do sítio, "Hoje aqui, amanhã no Corvo" . Por vezes, ouvíamos variações, "Acho que ainda não é hoje que vai para casa. Acho que é hoje no Corvo, amanhã no Corvo" . Esboçávamos um sorriso mas, o sentimento era de tristeza e impotência. Outros tentavam animar-nos a dizer que era bem melhor o avião ter avariado no chão e não no ar. Enfim, todos por ali sabiam o que se passava.
O dia mais difícil para mim, pessoalmente, foi na quarta-feira. A notícia era de que o avião já estava bom e havia três voos programados neste dia. O nosso era o terceiro, às 18 horas. Vimos no FlightRadar o primeiro a sair de Ponta Delgada e juro que cheguei a ouvir foguetes na minha cabeça. Claramente foram foguetes antes da festa, porque, passado 15 minutos vimos o avião a voltar à casa de partida. Cancelaram os dois primeiros voos do dia. Mau! Mais um dia de hoje no Corvo, amanhã no Corvo? Ah e tal a avaria é pequena e o voo das 18 ainda se vai fazer. Hum, vamos ver, pensei. Entretanto tomem lá mais um voucher para o almoço... À tardinha vimos o aviãozinho precioso a sair e, finalmente a aterrar no Faial. Era hoje! Já só faltavam 40 minutos.
O tempo passou, e o avião não saía do Faial. Sabe-se lá a razão, se era por já estar a escurecer, ou sei lá mais o quê. Finalmente, apareceu alguém a dizer que não havia voo, tomem lá os vouchers.
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| A vista do quarto no último dia. |
Parecia que o céu me tinha caído em cima da cabeça. Fiquei em silêncio, sem reação, por uns bons dez minutos, a olhar para o infinito. Desta vez, até tínhamos de mudar de alojamento, que o original estava ocupado. Custou, mas aceitei o destino. Há males que vêm por bem. O alojamento dessa noite tinha das melhores vistas da ilha e o dono até jantar nos ofereceu. Por outro lado, pelos vistos o avião estava mesmo reparado. Podia ser que amanhã fossemos para casa.
Como não há mal que sempre dure, quinta-feira foi o dia. O avião aterrou à hora de almoço, ao fim de uma semana de ausência e ao som de gritos de alegria. Era a raridade que todos queriam ver. Seguimos para casa e, ainda deu para beber uns copos com uns primos em Ponta Pelgada. Finalmente foi dia de "hoje no Corvo, amanhã em Lisboa" .
Já em casa, uns dias depois, agradeci a hospitalidade a uma das mais famosas habitantes do Corvo, que nos recebeu no último dia. Disse-lhe também que, mesmo com esta desventura dos últimos dias, nós não desistimos.
Até para o ano!
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"Preso" no Corvo. Publiquei esta foto no Facebook e queixei-me da vida. As reações foram pouco solidárias. |









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