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20 dezembro 2024

O Primeiro Açor dos Açores


Fragmentos do Corvo 
Corvo, Outubro de 2024

Um princípio é sempre difícil. Como começar a escrever sobre um microcosmos que tem tanto para contar há tantos anos e onde cada um de nós acaba por ser uma gota de água que corre para um oceano omnipresente e que tudo rodeia? 
Os "Fragmentos do Corvo", são episódios que vivi na ilha. Flashes de uma realidade muito maior, que todos os anos acontece por lá entre Setembro e Outubro.

O Corvo é a ilha mais pequena dos Açores mas, para ver aves é, claramente, a mais procurada. Todos os anos, algumas dezenas de arroladores de toda a Europa vão para lá no Outono, com a perspectiva de aumentar as suas já extensas listas, com aves Americanas. Os portugueses foram aparecendo a pouco e pouco e, hoje em dia já temos cerca de uma dezena que lá vai anualmente, com o mesmo objetivo.

Açor-americano (Astur atricapillus)

Em 2024 ia na minha terceira estadia. Já me começava a habituar à forma como tudo se passa naquele pequeno mundo e a sobreviver ao esforço físico que, para mim, é como se fosse uma recruta. Cada ave é difícil de ver, puxa pelo físico e, uma pessoa já não vai para nova. Nesse Outubro fiquei por lá dez dias.

No dia 17, sétimo dia e quinta-feira, resolvemos descer à caldeira para tentar ver as fugidias escrevedeiras-da-lapónia. Esse epíteto, pelos vistos, só é válido para mim porque toda a gente menos eu as consegue ver lá em baixo. Neste caso, a tradição manteve-se e, escrevedeiras, nem vê-las. Um bútio-calçado americano, que nos passou por cima, ainda tentou compor o panorama, sem sucesso. 
A caldeira é realmente de tirar o fôlego, sobretudo na subida mas, eu não tinha lá ido para ver a natureza. Assumimos a derrota e voltámos para cima. Sem escrevedeiras, obviamente que a subida custa muito mais. 
Chegados ao parque de estacionamento e recuperado o fôlego, havia que subir mais uns cem metros, para chamar o táxi. O vento estava que não se podia e quase que me tombou no alcatrão. Com algum esforço, consegui chegar lá acima e mandar a mensagem. Por milagre, o telemóvel não foi levado pelo vento. Passada meia hora, nada de táxi. Foi a vez de a Sandra ir lá acima, ver se havia resposta. Nada. 
Abrigados junto ao placard à beira da estrada, começámos a pensar na vida. Ainda são uns quilómetros até à estrada principal e mais uns quantos até à vila. Vamos andando ou esperamos? Parecia que estávamos no "Quem quer ser milionário".

A dado momento, por cima do vento, pareceu-me ouvir um som de motor, muito ao longe. Não disse nada porque é nestas alturas que a cabeça nos prega partidas. Mas não, não era só imaginação. O som aproximava-se e era claramente um carro. Seria o táxi?

Bútio-calçado (forma escura)
O ponto alto da descida à Caldeira

Quando o carro finalmente aparece, vemos um grande jipe preto a passar. Para meu espanto, o condutor começou de imediato a dizer-me adeus.
Era o Pedro Silva, que tinha conhecido brevemente no Pico em 2021. Parecia uma miragem. Carros na ilha há poucos e ali, num momento delicado, aparece um e logo com alguém que eu conhecia ao volante. Como era possível? 
-Olá Fred. Sou o Pedro. Lembras-te de mim?
Conversa puxa conversa, tinha chegado nesse dia com uma jornalista, para fazer uma reportagem sobre o Corvo e o pessoal da passarada que para lá vai em Outubro.
-Fazes já uma entrevista, ok?
Como dizer que não a uma proposta destas, com boleia incluída?
Fomos para baixo juntos. A jornalista apresentou-se:
-Sou a Patrícia, do Fugas, do jornal Público.
Respondi a tudo o que me perguntou. Como comecei, porque estava ali no Corvo e a mais umas quantas.
Foi assim começou uma parceria que acabaria por se revelar extremamente frutuosa para todos, nos três dias seguintes.

Tartaranhão-cinzento Americano (Circus hudsonius) no reservatório

O resto do dia passou-se a mostrar ao Pedro as aves que por lá andavam, e que ele ainda não tinha. A grande surpresa foi quando descobrimos um tartaranhão-cinzento-americano perto do reservatório. Fosse como fosse, nesse dia não vi nenhuma ave nova para a coleção.
É a tal coisa, isto aparece quando aparece e, na maioria das vezes, não depende do esforço.

No dia seguinte, sexta feira, acordei com a moral em baixo. Realmente, já tinha visto umas coisas nesse ano mas, provavelmente o facto de não ver as escrevedeiras no dia anterior tinha feito mossa. Havia notícias do Lighthouse Valley (Vale do Farol), de que tinham, no dia anterior, visto uma mariquita-de-perna-clara, bem gira. O Ruben já me tinha perguntado se eu não ia à mariquita mas, para quem não tem joelhos, ir ao Lighthouse Valley é quase como ir à Lua.

Estava resolvido. Deixei-me ficar lá por baixo, perto da vila, a bater os campos. A meio da manhã, surge a notícia de que estava uma Riscadinha quase ao lado do parque de campismo. Ui, essa é da Porto Editora. Fui para lá o mais depressa que consegui mas, quando cheguei o bicho já não estava à vista. Típico.
Deparei-me com a cena habitual de uma meia dúzia de pessoas a olhar para uma meia dúzia de salgueiros. A conversa com o descobridor, o austríaco Lucas, foi também a do costume, mas em  Inglês, "Ah e tal, estava aqui e depois foi para ali e agora não a vemos". Esperou-se uma boa meia hora e, da Riscadinha, nem sinal. O pessoal começou, lentamente, a dispersar e eu decidi também dar uma volta pelas redondezas.
Passados poucos minutos, quando estava quase de volta à casa partida, na estrada ao lado do local inicial, pareceu-me ouvir algumas vozes e agitação por detrás dos salgueiros. Numa fração de segundo vejo o Lucas ao meu lado, a dizer "black and white warbler" e a Riscadinha a passar a um metro de nós, para o outro lado da estrada. Foram só um ou dois segundos mas, valeram por muitas horas. Confesso que fiquei comovido. Dei-lhe um abraço e agradeci-lhe. A sorte estava a mudar...

Riscadinha ou Black-and-white Warbler (Mniotilta varia)

O carrossel do Corvo começou a andar à roda.
Durante a hora de almoço apareceu a notícia de que tinha sido avistada uma outra mariquita - northern parula - perto do local da Riscadinha.
Depois do café, havia que tomar decisões.
As hipóteses eram duas. Ou ir à procura da parula cá de baixo, ou ir lá para cima, para o Lighthouse Valley, tentar a perna-clara. Percebi que os meus companheiros, ou seja, a minha Sandra, o Pedro e a Patrícia, já referidos, e o Nuno Gonçalves, estavam todos inclinados para ir ao Farol. Todos tinham coisas a ver por lá. Além da perna-clara, havia também mais uma outra mariquita - mariquita-de-rabo-vermelho - que eles ainda não tinham na lista. A decisão acabou por ser simples:
Até tenho boleia e o Nuno diz que me ensina um caminho mais fácil. 
Assim sendo, vamos à mais difícil, pensei.

E foi assim que me apanhei no Lighthouse Valley, o terror dos joelhos débeis. O caminho foi, realmente, mais fácil do que o que conhecia e, num quarto de hora, já estava a olhar para os zimbros onde, teoricamente, andavam os bichos. A primeira mariquita apareceu quase de seguida mas, infelizmente, não era a que precisava. O Nuno já tinha avisado que a outra, a de perna clara, era mais elusiva e só aparecia de quando em quando. Passados uns vinte minutos ainda não havia fumo branco. Fomos mudando de posição e nada. Em contrapartida, a outra fartou-se de nos passar à frente. É sempre assim, quando não precisas, é sempre mais fácil. Dois anos antes, uma destas tinha-me dado água pela barba, precisamente naquele local.
Adiante, que isso são águas passadas. De repente, numa fração de segundo, consegui ver uma outra ave, mais amarela e com duas barras na asa. Logo de seguida, escondeu-se e nem para uma foto desfocada posou. Mais uns minutos e ela acabou por fazer a sua aparição triunfal, com direito a fotos de caderneta. Os zimbros e o céu azul também ajudaram a compor o quadro. Quando a vi na máquina, quase que nem acreditei.

Mariquita-de-perna-clara (Setophaga striata)

Estava-me a preparar para respirar fundo e gozar o feito mas, isto no Corvo há dias em que nem para isso dá. Ouço a voz do Pedro atrás de mim "Rapina! Rapina! Rapina!".  Por ali não há rapinas residentes. Qualquer uma que apareça é sempre importante e merece toda a atenção. Pusemos os olhos no céu e vimos, claramente vista, uma ave de médio porte, no meio do pânico dos estorninhos que voavam em enxame por todo o lado. O bicho fez-me lembrar um açor dos nossos, mas não batia completamente certo para o que costumo ver por cá. Por um lado parecia familiar, por outro nem por isso. Seria, talvez, a cor? É  daquelas coisas difíceis de explicar. O bicho não se fez rogado e, antes de seguir para norte, ainda deu umas duas ou três voltas por cima do vale. Quem tinha câmaras na mão disparou com tudo o que tinha. As máquinas ferveram.
Numa atmosfera carregada de adrenalina, começámos a fazer contas à vida e a tentar perceber o que tínhamos visto. Consultei as aplicações que tinha no telemóvel mas, não encontrei nada que correspondesse na totalidade. Estávamos a discutir o que fazer a seguir quando ouvimos o rádio crepitar. Não se percebia nada. Pedimos para repetir e o resultado foi o mesmo. Pelos vistos, quem quer que fosse, conseguia ouvir-nos. Já o contrário era complicado. Viemos mais tarde a saber que era o sueco Olof a avisar que estava a ver o "nosso" bicho. 

Era preciso agir rápido. Estávamos sem acesso à rede móvel e o rádio também não estava grande coisa. A notícia tinha de ser divulgada. O Nuno, guia de montanha no Pico e, claramente, o melhor trepador do grupo resolveu oferecer-se para ir a correr até apanhar rede lá em cima. Nas suas palavras, o que interessava era divulgar, a identificação logo se veria. Demos um abraço coletivo para comemorar e ele lá seguiu, a toda a velocidade, juntamente com umas fotos back of the camera. Mesmo sem qualidade, já iam ajudar a desvendar o mistério.

Quando, passado mais de meia hora, o encontrámos cá em cima, começámos a perceber que o caldo estava entornado. Suspeitava-se que a ave seria algo inaudito, um açor-americano (Astur atricapillus). Seria uma primeira ocorrência para os Açores e também para o Paleártico Ocidental. Por outro lado, soubemos que a mensagem do Olof tinha chegado a bom porto e que o pessoal estava desesperadamente a tentar arranjar um meio de transporte lá para cima. O táxi do costume não estava disponível e o pânico estava instalado. 

Aqui cabe fazer um parêntesis. Dois dias antes, O Vincent, que é um dos frequentadores mais assíduos do Corvo, já na sua décima nona estadia, tinha tirado uma foto a dois mosquitos, muito longe num fundo de céu branco. Ninguém arriscou grandes palpites, que com mosquitos isso é complicado. Lembro-me de ele me ter mostrado a foto e de lhe ter dito que uma das aves tinha perfil de accipiter (açor/gavião). Accipiter, Vincent, accipiter, disse-lhe. Nem eu sabia bem a implicação do que estava a dizer. O problema é que um Açor, qualquer que fosse a espécie, nunca tinha sido visto nos Açores.
Lembro-me de, depois disso, termos falado sobre o que andava pela ilha e ele me ter referido "falta saber o que é aquela rapina da foto, que ainda não apareceu". Dito isto, foi logo aparecer por cima de nós, num dos vales mais remotos da ilha. Às vezes não é preciso  argumentista. A história escreve-se sozinha. 

Açor-americano (Astur atricapillus) e o pânico dos estorninhos

Acabado o parêntesis, voltemos à vaca fria. 
O caos esteve instalado por largas dezenas de minutos mas, com mais ou menos dificuldade, o pessoal conseguiu aparecer cá em cima. Por outro lado, o bicho colaborou qualquer coisinha e, quem estava na estrada de alcatrão conseguiu avistá-lo. Apareceu nas falésias lá em baixo uma ou duas vezes, rodeado de estorninhos a lutar pela vida. Um pouco longe mas, foi o que se conseguiu arranjar. O nível de stress coletivo desceu a pouco e pouco. 

Nesse fim de tarde descemos em triunfo para a Vila, com a certeza de que tínhamos visto algo muito especial. O carro estava transformado num daqueles coches dourados do museu. Até tivemos pessoal a acenar à nossa passagem, ou não estivéssemos nós a usar o carro do Presidente da Câmara. 

Depois de jantar, e apesar da certeza de que tínhamos visto uma ave da família dos açores era preciso chegar a uma conclusão definitiva sobre a espécie. Foi outro dos frequentadores mas assíduos do Corvo, o Pierre, que se encarregou da investigação, e de pedir ajuda aos especialistas. Já passava das dez da noite quando lhe consegui enviar as fotos com a parte inferior da cauda bem visível, que permitiram encerrar o assunto. Algumas dezenas de minutos depois veio a resposta, que lhe chegou diretamente do Olimpo. "Congrats, it's a Yankee!". 
Ou seja, tal como se suspeitava, tratava-se de um Açor-americano. O primeiro Açor dos Açores e do Paleártico Ocidental.

É assim no Corvo. Numa sexta-feira que começou sem grandes promessas, cinco portugueses acabaram por partilhar um momento para a vida. Foi um dia como nenhum outro, num rochedo perdido no meio do Atlântico. 





11 dezembro 2024

A garça que nunca vi

Terceira Novembro/Dezembro 2024

O Outono estava no fim e o fim do ano aproximava-se a toda a velocidade. Apesar de já não ter dias de férias disponíveis, tinha vontade de ir dar uma volta. A sensação, por vezes inexplicável, chamada bicho carpinteiro. O raciocínio que tive em setembro - ver Sexta-feira 13 - pelos vistos repetiu-se e foi, mais uma vez, dar à Terceira. 

Borrelho-de-dupla-coleira (Charadrius vociferus)
Killdeer!

Sabendo que andava lá um pato que me faltava e que a maldita garça-morena tinha sido vista outra vez marquei, com pouco mais de uma semana de antecedência, mais uma ida à Ilha dos Impérios. Seria a oitava em quatro anos. Não há fome que não dê em fartura.

Não ia ter muito tempo. Apenas um dia completo no sábado e duas horas no domingo mas, era o que se podia arranjar. Quem trabalha e tem poucas férias tem de se sujeitar a esta ditadura.

E foi assim que, na sexta dia 29 de Novembro, fiz uma viagem sem incidentes e me instalei no hotel na Praia da Vitória quando já passava da meia noite. 
Uma boa notícia que tive, entretanto, foi que iriam lá estar mais dois birders alemães que eu conhecia. Isto quanto mais olhos, maior se torna a probabilidade de ver qualquer coisa.
Em contrapartida, a maior ajuda, ou seja, os meus companheiros lá do sítio, não ia estar disponível desta vez. O Carlos estava fora e o Ruben só remotamente, no ciberespaço. A vida é assim. Podia ser mais grave se não conhecesse nada do local. 

Borrelho-de-dupla-coleira (Charadrius vociferus)

Comecei o sábado com um bom pequeno almoço e uma visita ao Paul da Praia, onde o pato que queria ver não se fez rogado e apareceu logo à minha frente. O sol ainda estava a nascer e a luz era fraca. Tirei umas fotos de registo e segui viagem lá para cima, para procurar a famosa garça, mais uma vez. O objetivo com maior probabilidade da viagem estava alcançado nos primeiros dez minutos. Agora era continuar na depressão da procura de uma garça-branca fantasma, que não se queria materializar. E assim começou mais uma volta no carrossel.

Andei pelo Reservatório do Cabrito e charcas adjacentes. Nada. Fui a mais umas charcas, incluindo a poça onde ela tinha sido vista pela última vez. Nada de nada. 
Pior ainda, num desses locais ainda temi pela vida. Para ver a charca entrei num terreno e, só uns bons cinco minutos depois é que reparei nos vinte touros que tinham parado de pastar e que estavam a olhar para mim. Saí em bicos de pés e bati em retirada o mais rápido que consegui.
Fui para a Lagoa do Junco e arredores, onde já tinha passado vezes sem conta na última visita. Nada. 
Soube também que os meus colegas alemães tinham ido ver a Caldeira Guilherme Moniz com telescópio e que também não tinham tido sorte. Isto não estava fácil.

Sem mais ideias, resolvi ir pensar na vida o que, neste caso, significou ir comer a sandes de alcatra que me tinha fugido na última visita. Soube que nem ginjas.
Depois de almoço, como as ideias teimavam em não aparecer e não havia notícias dos meus colegas, resolvi regressar à casa partida, ou seja, ao Paul da Praia. Não havia muitas nuvens no céu, podia ser que o pato permitisse umas fotos melhores. 
A ideia foi boa porque, além do pato, ainda apanhei três garças-brancas-americanas a caçar por lá. Às vezes é difícil ver a  natureza em ação e não intervir mas, nós temos a nossa vida e, os bichos têm a vida deles. Mais uma vez senti-me um privilegiado. O Mickey é que não teve tanta sorte.

O dia não correu nada bem ao Mickey
Garça-branca-grande-americana (Ardea alba egretta)

Por volta das duas e meia da tarde, achei que a brincadeira tinha terminado e que tinha de voltar ao trabalho. Maldita garça, pensei. Resolvi ir outra vez para o Junco para continuar a labuta. Pelo menos, sempre se viam mais uns muros vazios.  Eram quase três da tarde quando cheguei ao destino. 

Da estrada não vi nada e resolvi ir a uma charca fora de vista, dentro de um terreno. Era um dos locais onde tinha observado o maçarico-solitário na última visita. Parei o carro o melhor que pude, para não estorvar muito os camiões de leite e tratores que estão sempre a passar e lá fui. Pelo menos narcejas haviam de estar algumas, pensei. Fui-me aproximando da borda e nem uma narceja. Típico. Mais uns passos e, quase debaixo dos meus pés, levantam três codornizes, e depois mais duas e depois mais uma. Bem que tentei tirar uma foto, mas sem sucesso. Ora bolas, que isto não está a correr nada bem. Subitamente, começo a ouvir uma vocalização que não conhecia. Tiiiiiiiii! Tiiiiiiiii! Mas que raio é isto, pensei. Parecia vir de muito perto. Andei uns metros para cima. Tiiiiiiiii! Vinha de uma pequena poça, junto ao canto do terreno. Levo os binóculos à cara e, vejo materializar-se um dos unicórnios em que mais tinha pensado nos últimos anos. Um borrelho-de dupla-coleira olhava para mim a uma dezena de metros. Tiiiiiiiii! 

Borrelho-de-dupla-coleira (Charadrius vociferus)

Não me lembro de pensar em mais nada. Peguei na máquina e premi o gatilho. Ele ainda ficou pousado uns segundos mas, rapidamente levantou voo, sempre a vocalizar. Tiiiiiiiii! Deu várias voltas pela zona, comigo sempre a disparar como se não houvesse amanhã. Finalmente, lá pousou num terreno do outro lado da estrada. Percebi onde estava e, resolvi não me aproximar, para não espantar a caça. 
Avisei os colegas. Seguiu mensagem para o Ruben e para os Alemães, que vieram a correr. "Frederico, we are coming!", mandaram estes últimos no WhatsApp.
Demorou uma boa meia hora até que lá estivesse toda a gente. Quando nos aproximámos ainda estivemos uns minutos até o conseguirmos avistar, a cerca de cinquenta metros, numa dobra do terreno. Para eles não deu para grande coisa, mas uma estreia é uma estreia e, um dos alemães estava eufórico. Isto para alemão, claro. Ou seja, esboçou um leve sorriso. 
Nesse fim de tarde, quando desci para o hotel, acho que o carro não precisou de gastar combustível. O trajeto foi todo feito a adrenalina. 

A descoberta e estreia desse dia foi devidamente comemorada por todos, num dos meus restaurantes preferidos da Praia da Vitória, o Larica. Três observadores, dois Alemães e um Português, numa sala perdida, no meio do oceano. Mais um momento para recordar. 

No domingo, só dispunha de cerca de duas horas antes de ir para o aeroporto. Estava sem grandes ideias e, já não tinha esperança nenhuma na garça maldita. Por isso, resolvi ir a Meca o que, na Terceira, significa ir ao Paul da Pedreira. Pelo menos, sempre se tiravam umas fotos. 
Ao chegar ao pequeno almoço não estavam lá as panquecas com maple sirup que tão bem me tinham sabido no dia anterior. Ainda protestei mas, as funcionárias não me ligaram nenhuma. Hoje não há, disseram com um sorriso. Ora bolas, um dos momentos altos do dia tinha ido por água abaixo. Isto começa mal, pensei.

Segui para a Pedreira. O céu estava cinzento e, ainda tive de esperar uns minutos que a chuva abrandasse, antes de sair do carro. Meti a máquina na mochila, para maior protecção e fui andando diretamente para o confortável banco de pedra que por lá está, no canto direito.
Com um céu destes e chuva miudinha vão ser umas excelentes fotos, pensei. Mas persisti e continuei a caminhar que isto, nos Açores, o tempo muda em segundos. 

Maçarico-de-asa-branca / Willet (Tringa semipalmata)
Uma das fotos iniciais

Não costumo parar no caminho mas, desta vez, como aquilo me pareceu animado, resolvi dar uma vista de olhos nas primeiras poças que se vêem do lado esquerdo.
Ainda meio a dormir, espreitei pelos binóculos e, a primeira ave que vi foi uma limícola esquisita de tamanho médio e de cor creme acinzentado, tipo cor-de-burro-quando-foge. Olhei uma e outra vez, para ver se não seria uma miragem. O bicho lá continuava, calmamente, a alimentar-se na lama. Já conhecia aquela silhueta, que tinha visto no Brasil, em 2018. Era um Maçarico-de-asa-branca (Willet, em Inglês) Parecia impossível, mas ele ali estava, à minha frente. Fiquei atordoado por um segundo ou dois, a pensar no que tinha acabado de acontecer.

Os nervos começaram a instalar-se quando me lembrei que tinha a máquina na mochila que, por sua vez, estava às costas. E se o bicho voa, maldita chuva que me fez guardar a máquina, só me saem duques. Os poucos segundos que demorei a tirar a câmara da mochila e a prepará-la pareceram horas. Contrariamente ao que seria típico, o bicho até foi simpático e deixou-se ficar. Consegui tirar as primeiras fotos e as segundas e as terceiras. Comecei finalmente a relaxar e a pensar que tinha de avisar a malta. Quando peguei no telemóvel é que percebi que tinha as mãos a tremer e que nem me conseguia lembrar-me do que tinha a fazer. Respirei fundo e lá me vieram à memória as palavras Ruben e WhatsApp. Mandei-lhe uma foto "back of the camera" e perguntei: 
-Willet? Ou ainda estou a dormir?
Isto com confirmação é sempre melhor...

Maçarico-de-asa-branca / Willet (Tringa semipalmata)

Vi que as mensagens nem davam sinal de ter sido recebidas. Mau! E agora?! Mandei mensagem para o Carlos Pereira e também para os Alemães. Sem ver as respostas, resolvi ligar ao Ruben. Era cedo mas, quem tem miúdos pequenos não costuma ter o luxo de poder dormir até tarde. 
-Estou? 
-Viste a minha mensagem?
-Não. Ainda não liguei a internet. Espera aí que vou ver.
Desligar a internet nestes dias é pouco visto e tem os seus riscos mas, de certeza que ele terá uma boa explicação. 

Um ou dois minutos depois lá veio a chamada de retorno.
-É um willet, é! Vou para aí.
Desliguei a chamada e vi as respostas às mensagens. Todas diziam o mesmo. 
Lá vieram os Alemães a correr outra vez. "We are coming!". Segundo percebi, andavam pelo Cabrito a dar mais uma volta ao bilhar grande. Continuavam obcecados pela garça fantasma.

Mais uma meia hora e já lá estava toda a gente. Deu-me um gozo especial ver o Ruben pela segunda vez, num fim de semana em que teoricamente não nos íamos ver. 
O bicho ainda tardou uns minutos a colaborar porque andou metido atrás das canas mas, lá apareceu e toda a a gente tirou as suas fotos. Um pouco longe e com chuva mas, não vi ninguém a queixar-se. 

Maçarico-de-asa-branca / Willet (Tringa semipalmata)

Ainda não eram dez horas, quando resolvi ir andando. O voo era ao meio dia e eu já tinha tido stress que chegasse nos últimos dois dias. 

Foi um fim de semana sempre em crescendo,  com um final nos píncaros do Evereste. Cheguei à Terceira, entrei na Twilight Zone e, só saí de lá quando o avião levantou. 
Fui para casa sem garça mas, também sem rancor. Graças a ela, tinha conseguido ver cinco novas espécies em Portugal em poucos meses. Não há dúvida que, tal como já escrevi noutras crónicas, para encontrar uma coisa, o melhor é ir à procura de outra coisa. 

Termino com um agradecimento ao Ruben pela ajuda inestimável. As idas à Terceira são, cada vez mais, um regresso a casa.