Pico, Março de 2026
No último dia de fevereiro de 2026, o Pedro Silva, residente na Ilha do Pico, e já falado aqui nas crónicas (ver O Primeiro Açor dos Açores) descobriu por lá, a seguir ao almoço, um Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus), mesmo por cima da casa dos pais. Podíamos pensar que eram efeitos de uma refeição bem regada mas, ele fez logo questão de colocar umas fotos a acompanhar a notícia. A ocorrência era raríssima. Era só a quinta observação de sempre no Paleártico Ocidental e quarta nos Açores. Ainda por cima era bem giro, o bicho.
É preciso ter um grande olho e mérito para, no meio de um almoço de família, ainda ter tempo para descortinar uma ave rara.
Ele diz que foi sorte. É verdade que é preciso ter sorte de vez em quando mas, esta dá muito trabalho e, quando aparece, convém estarmos lá para a agarrar. Grande abraço, Pedro!
O último destes a aparecer tinha sido em Março de 2021, em São Jorge. Ainda em plena pandemia, as viagens eram complicadas. Estive no Pico em Abril desse ano a passear e ainda cheguei a passar um dia em São Jorge à procura mas, tal como esperado, não tive sucesso. Já tinha passado mais de um mês desde o último avistamento. Valeu pela ida a essa ilha, que é de uma beleza extraordinária.
Voltando ao Gavião-tesoura do Pedro, ou Tesoura para os amigos, contrariamente ao que esperava ele foi sendo avistado todos os dias, com mais ou menos dificuldade. Domingo, segunda, terça, as mensagens iam aparecendo no ciberespaço.
Para mim, o dia fatal foi na quarta-feira, quando o Carlos Pereira, que tinha ido para o Pico de propósito para observar o Tesoura me manda um vídeo de telemóvel, do bicho a meia dúzia de metros a fazer mergulhos. Como se não bastasse, ainda me telefona a explicar o que estava a ver. "É só para teres uma ideia do comportamento". Lá está, a crueldade humana não tem limites.
A verdade é que eu já tinha visto o Elanoides no Brasil em 2015 mas, a observação não foi como eu gosto. A perspetiva de o conseguir ver mais perto e em Portugal não me tinha largado desde Domingo. Ainda o telefonema não tinha acabado e já tinha marcado o voo para o fim de semana de 7 de Março. "Pronto! Já me conseguiste enganar!", disse-lhe. Os dados estavam lançados e já não havia volta a dar.
Nestas viagens relâmpago, e nas viagens em geral, as variáveis são muitas e a margem de erro é quase inexistente. Eu costumo pensar em degraus de uma grande escada que vamos subindo um a um. Primeiro haver avião, depois ele sair, depois aterrar, e assim por diante. Ir ao Pico não é fácil. A pista é pequena, mal direcionada e o tempo é instável. O Pedro Silva, otimista por natureza, tinha-me dito para não me preocupar, que em todo o Inverno só tinham cancelado quatro voos. Oxalá essa estatística valesse para mim também.
A verdade é que, apesar do dilúvio que se abatia sobre a ilha, o voo aterrou à primeira e à hora prevista, o que era um bom prenúncio. Não se tinham concretizado as conversas dos meus vizinhos de trás "Ah e tal, aterramos no Pico ou vamos para o Faial? Pois é. Isto está mau...". É a conversa ideal para controlar a ansiedade nas viagens de avião.
Até estar dentro do carro nem meia hora se passou e, ainda deu para beber um café. Meti as coordenadas no GPS e segui caminho. Já só faltavam 45 minutos para chegar ao destino que, neste caso era um canto longínquo da ilha chamado Calheta de Nesquim, perto da ponta leste. Pode parecer muito tempo mas, o Pico, é a segunda maior ilha dos Açores e as distâncias são agravadas pelo facto de não haver vias rápidas. Pelo menos, dá para ver a Natureza que, naquela ilha, é ainda mais bonita do que o costume. O problema naquele sábado é que nem a natureza se conseguia ver, tal era a chuva e o nevoeiro.
No caminho contactei o Olof, um Sueco que também por lá andava à procura do Tesoura. Quando cheguei, fui encontrá-lo no porto da já referida Calheta. Já o conhecia do Corvo e o encontro foi efusivo, dentro do estilo nórdico. É sempre bom ver uma cara conhecida num momento de stress. Apesar das condições, ele não desistia, como observador de excelência que é. Disse-me que tinha até às duas da tarde para procurar e que era isso que ia fazer. Ainda lhe perguntei se não tinha visto que Sábado não era bom dia para aquilo, ao que respondeu que não tinha visto nada no que à meteorologia dissesse respeito. Cada um com a a sua estratégia, pensei. Concordámos que o melhor era dividir os esforços e foi cada um para seu lado.
Aproveitei as horas seguintes para explorar os locais onde o bicho tinha aparecido, para compreender a zona e pensar num plano de ataque para o dia seguinte. A conclusão a que cheguei rapidamente foi a de que aquilo não iria ser nada fácil. Era uma faixa de cerca de quatro quilómetros, de uma estrada estreita parte alcatrão, parte gravilha. Um primeiro troço dentro da vila, urbano, com pouca visibilidade, seguido de outro, rural e com pouca visibilidade. Existia uma ou outra clareira que permitia ver qualquer coisa e os únicos locais com vista mais ou menos panorâmica eram o porto da Calheta e o ponto do último avistamento, já no fim do percurso, na estrada de gravilha. Aquilo era trabalho para uns sete ou oito e não para um ou dois mas, um ou dois era o que havia. Por volta da hora de almoço apareceu o Pedro Silva, com o sorriso habitual. Durante uma hora fomos três a andar para trás e para a a frente lá na zona. Parecia hora de ponta, ao estilo Calheta de Nesquim.
A chuva não parava e o bicho não aparecia, tal como já era previsível. As rapinas têm mais que fazer do que voar à chuva.
O Pedro lá foi à sua vida, que isto quem tem filhos de três meses não tem muito tempo para este tipo de atividade. Pouco antes das duas da tarde, também o Olof teve de se resignar à sua sorte e abandonar a ilha sem Tesoura.
Eu dei mais umas voltas mas, sem bicho e com chuva sem parar, achei que o esforço era inglório. Passava pouco das quinze horas quando optei por recolher ao alojamento, de seu nome Abrigos Baleeiros.
Foi o momento alto do dia. Aquilo era um verdadeiro luxo. Tudo novinho em folha e, ainda por cima, deram-me um dos quartos no cimo do monte. A vista era de sonho, com o mar em baixo, até ao infinito. Sentia-me literalmente um "King of the Hill".
Instalei-me e tentei relaxar um bocado. Mesmo com o tempo manhoso, era impossível não estar sempre a desviar o olhar para aquela vista panorâmica. Virei o cadeirão para a janela e deixei-me ficar, a pensar na vida.
Lembro-me de repetir para mim próprio que domingo seria "o dia". Com tempo razoável, sem chuva e com algum vento, as condições eram aparentemente boas. Além disso, o Tesoura estaria com fome, devido ao dilúvio e teria de ir comer, mais tarde ou mais cedo. Mas isto, teorias cada um tem a sua, como já se sabe, e os bichos fazem sempre o que querem. Raramente seguem o guião que temos pensado para eles.
Eram umas quatro e meia quando a chuva pareceu querer parar. Será? Esperei mais uns dez minutos e, aparentemente, parecia haver uma pausa no mau tempo. Pensei que podia ser que o bicho aproveitasse para ir dar uma volta e, saí também eu de casa para dar uma volta à procura dele. Foi mais uma hora para trás e para a frente sem sucesso até que a chuva recomeçou a cair. Ora bolas! Sábado não era, definitivamente, o dia. Dei a busca por terminada e recolhi ao quartel general.
E foi assim que se chegou a Domingo, o dia D, ou o dia do tudo ou nada.
O pequeno-almoço foi dos melhores dos últimos tempos e eu aproveitei, porque o dia tinha grandes possibilidades de ser longo. E ainda levei umas bananas do Pico para o caminho. Isto é sempre a aprender. Meia hora antes nem sabia que o Pico tinha bananas. Já se verá mais à frente que estas foram relevantes nesta história.
Por volta das nove horas comecei a trabalhar. À procura da agulha ou, neste caso, da tesoura naquele grande palheiro. O Pedro Silva esteve por lá até meio da manhã. O Olivier Coucelos, que conheci em 2021, aquando da minha estadia anterior na ilha, também por lá andou até por volta do meio dia. O Tesoura é que não parecia andar por lado nenhum. Estava a fazer-se difícil.
A partir dessa hora, fiquei só. Eu, a ilha e o bicho mais querido últimos tempos. A situação não estava famosa mas, resolvi seguir o plano, que era não desistir enquanto houvesse luz. Tinha dois olhos, uns binóculos, uma câmara e um Clio. Podia ser bem pior.
Além disso, havia sempre a hipótese de, entretanto, alguém da zona dar o alerta. Na Calheta de Nesquim já toda a gente sabia que havia por lá um gavião-tesoura e, muitos até já o tinham visto. Inclusivamente, alguns dos avistamentos anteriores resultaram de alertas dados pelos residentes.
A tática era simples. Andar para trás e para a frente, com paragens nos pontos com maior visibilidade. Foi isso que fui fazendo até à exaustão.
Por volta das 13h20, estava eu parado algures no caminho, quando recebo um telefonema da Sofia, a dona dos Abrigos Baleeiros. Andava pela vila à procura do bicho. Era uma ajuda inesperada mas muito bem vinda.
-Já o viu?
-Infelizmente não.
-Estou aqui a ver uma ave no fio no cruzamento do restaurante "Faia". Não sei se é ele mas, é uma rapina.
-Vou já para aí!
Era melhor jogar pelo seguro e ir investigar. Entrei no carro e segui, qual Colin McRae, o mais rápido que pude, para o tal cruzamento. Foi por pouco mas, lá consegui que o carro não saísse da estrada. Foram dois ou três minutos que mais pareceram duas ou três horas. Em menos de nada tinha chegado. Saio do carro e, para variar, o bicho não estava à vista. "Desceu para trás daquele muro", disse-me ela.
A espera durou nem uns cinco minutos até que saiu de lá um Milhafre. Ora bolas! Não era o Tesoura. Paciência! Valeu pela intenção, pelo esforço e pela adrenalina. Afinal não estava sozinho. A Sofia e a filha também estavam a contribuir para a causa.
Agradeci a ajuda e voltei ao trabalho. Do bicho nem sinal. Eram quase duas horas quando resolvi fazer uma pausa. Almoço não havia, que era perigoso ir almoçar quando muitos avistamentos tinham sido precisamente a essa hora mas, tinha umas bolachas e, as já faladas bananas. Um luxo para aquelas circunstâncias. Fui para o fim do percurso, no tal local com vista panorâmica e parei o carro.
Comi umas bolachas e uma banana e resolvi ligar para a Sandra. Ela não estava ali em pessoa para trazer boa sorte mas, podia ser que o telefonema ajudasse. Ah e tal, isto não está fácil. Vais ver que ele aparece, disse-me ela.
Desliguei e achei que ainda comia mais qualquer coisita. Olhei para a segunda e última banana e lá teve de ser. As bananas do Pico são bem boas, por sinal.
Tinha acabado de guardar a casca da referida quando, de repente, como se fosse um relâmpago, sem pedir licença, aparece o Tesoura. Veio rente aos arbustos, do lado direito. A minha reação foi instintiva e, felizmente, o instinto não foi o de ficar paralisado de espanto. Por acaso, tinha a máquina comigo e não no carro. Sem pensar, comecei a disparar como se não houvesse amanhã, até encher a memória da câmara. O Tesoura passou-me à frente e, já do lado esquerdo, começou a andar aos círculos, sempre a meia altura, sem passar dos dez metros. Com o fundo a alternar entre o céu branco e a terra escura, fiz o que pude com as configurações da câmara e com o zoom enquanto, ao mesmo tempo, tentava manter o bicho enquadrado. A pouco e pouco ele foi-se afastando, até que desapareceu atrás da vegetação, a uns cinquenta metros. Achei que era a altura certa para pegar no Clio e ir tirar mais uns milhares de fotos. Agora é que ia ser. Ele havia de estar logo atrás daquela sebe a caçar e eu havia de estar a observá-lo mais uma meia hora. Ia ser um fartar, vilanagem.
O excesso de confiança é tramado. A verdade é que, quando lá cheguei, passado nem um minuto, só lá estavam os tentilhões do costume. Onde é que o bicho se meteu? Procurei nos campos em volta, para cima e para baixo, com os binóculos, com o carro para trás e para a frente e ainda para a estrada de cima. Nada. Tinha desaparecido como um fantasma.
Pensei que ele podia estar a regressar ao local do primeiro avistamento, na vila, e fui lá procurá-lo. Nem sinal. À terceira volta tive de me resignar e pensar que aquela aparição estava terminada.
Recomecei a raciocinar. Será que tinha mesmo visto o Tesoura ou tinha sido uma miragem? Espreitei as fotos na máquina. Lá estava ele. Não haviam dúvidas, De cima e de baixo, ao perto e ao longe. Entre focadas e desfocadas, tinha tirado umas cento e cinquenta fotos. Espreitei as horas e vi que todas tinham entre as 14h05 e as 14h06. Na minha cabeça achei que tinha sido mais tempo mas, os números não mentem. Bem que dizem que o tempo é relativo. Confesso que revi as fotos umas dez vezes até interiorizar que tinha realmente visto o Elanoides e cumprido o objetivo do raid. Estava feito e, claro, com evidência é sempre melhor.
Só tive pena de não ter ali ninguém comigo para partilhar a alegria estava a sentir. Não houve gritos nem abraços. Só silêncio.
De seguida, dei o alerta a quem o assunto pudesse interessar no imediato. À Sandra, que me trouxe a sorte, aos meus amigos picarotos e claro, ao Carlos Pereira que é picaroto honorário. Destaco a reação do Nuno Gonçalves, que me perguntou se estava aliviado. Quando lhe respondi que nem sabia o que dizer ele disse-me que não precisava, porque ele conhecia bem a sensação.
Mais ao fim do dia, quando coloquei a notícia no grupo WhatsApp da passarada nos Açores também foi cómica a reação do Olof que, além de me dar os parabéns me perguntou, incrédulo, se tinha realmente visto o bicho só um minuto.
Há daqueles minutos que valem por muitos meses e, este foi um deles.
Obviamente que, nessa noite, houve jantar com sabor a triunfo.
Epílogo: Apesar dos múltiplos esforços, até hoje o Gavião-tesoura não voltou a ser visto na Calheta de Nesquim.



