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21 maio 2026

Um Sonho Siberiano

Japão, Fevereiro de 2026 (English version)
Hokkaido

Desde há muitos anos que via com atenção os documentários onde apareciam dezenas de Pigargos-gigantes a caçar em cima do gelo no norte de Hokkaido. Em Inglês chamam-lhes Steller's Sea Eagle e o nome científico é Haliaeetus pelagicus mas, este é daqueles casos em que o nome pouco importa. Há que ver em carne e osso e ver para crer.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Diziam eles na TV que estes bichos vão invernar ali e que passam o resto do ano na Sibéria. O sonho de ver um bicho daqueles foi crescendo e tomando forma. Mais ainda quando apareceu um na costa Leste da América do Norte em 2021. Nessa altura segui com atenção o carrossel de gente que veio de todo o continente para o ver. Foi interessante mas, o melhor é mesmo ir à fonte e, como à Sibéria é quase impossível, comecei a pensar que tinha de ir ao Japão um dia. Era difícil e caro mas, essa viagem já seria, talvez, possível.
Após uma pesquisa prolongada, acabei por encontrar uma empresa que fazia tours mais curtos que o habitual, concentrados nas espécies mais emblemáticas. Na expedição Flock to Marion  - ver  O Dia mais Longo - tive oportunidade de falar com o dono - Gunnar - e acabei por me decidir umas semanas mais tarde, pouco menos de um ano antes da viagem acontecer.

O tour começava na ilha do sul - Kiushu - seguindo depois para Hokkaido e, finalmente, para Tóquio e arredores. Fixei um dia no calendário, 17 de fevereiro, dia D para os pigargos-gigantes. Era nesse dia que estava marcada a pelágica para ir ter com eles. Como todas as viagens de barco, as variáveis são muitas e há até o risco de um cancelamento puro e simples. Mas a vida é um risco e, no dia previsto, lá seguimos numa longa viagem, de quase um dia, para Tóquio. 
O tour foi memorável,  com muitas peripécias à mistura mas, nesta crónica vamos concentrar-nos num dos dias mais longos, o tal dia D, terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Na véspera da pelágica, o dia 16 tinha acabado de forma cómica, para dizer o mínimo. 
Chegados ao hotel, verifiquei que, nos quartos, além da cama ser daquelas tradicionais lá do sítio, em que, basicamente, se mete um colchão de enrolar, fininho, no chão. Também não havia duche nem banheira na casa de banho. Percebi que era um hotel onde existem aquelas fontes termais com piscinas aquecidas (onsen em Japonês). Nesses hotéis com termas, mesmo nos de alto luxo, a coisa funciona assim. Cansado como estava, comecei a dizer mal da vida. 
Pouco conformado, resolvi ir chatear os dois japoneses e a japonesa da receção. Com a serenidade de quem já teria lidado com o mesmo problema muitas vezes, disseram-me, educadamente, que para tomar banho, o local indicado seriam os duches coletivos do andar de cima, podendo de seguida usar as termas à vontade. Quando me perguntaram "OK?", eu limitei-me a encolher os ombros e a assentir com a cabeça, com ar meio triste, meio resignado. Começaram os três a rir às gargalhadas, a pensar que tinham à sua frente mais um estrangeiro inadaptado. Ainda os ouvia rir quando cheguei ao quarto.
Custou mas, acabei por me render. Em Roma sê Romano. Um princípio bastante útil quando se viaja e sobretudo, quando não existe alternativa. 
Lá fui tomar duche onde ele existia. Era coletivo sim senhor, mas, era um luxo. Desde toalhas, pentes, cremes, escovas, secadores, água para beber, cacifos e sei lá o que mais. Tudo incluído. Ainda por cima tive aquilo só para mim. Uma experiência, em todos os sentidos. Saí de lá completamente convertido ao conceito.

Blakiston's Fish Owl (Ketupa blakistoni)

Foi assim que, depois de um sono reparador, chegámos ao Dia 17, o dia mais sonhado dos últimos tempos e a razão principal desta expedição ao Japão.
A luta começou excepcionalmente cedo, quando fomos tentar, pela segunda vez, ver a coruja mais famosa das redondezas. Em Inglês chamam-lhe Blakiston's Fish Owl e é a maior coruja do mundo. Não tinha sido muito simpática na tentativa anterior, antes de jantar. A espera foi infrutífera e o frio de rachar. Muito, muito difícil de suportar, mesmo com os múltiplos aquecedores do abrigo. A temperatura era bastante negativa. Aquilo que por cá chamamos de "calor esquisito". Saímos derrotados para ir jantar mas, não chegou a haver tempo para carpir mágoas e discutir o falhanço. O Gunnar prontamente abriu a porta a uma segunda tentativa, às quatro da manhã (!). 
Trabalho é trabalho. Disse logo que estaria interessado. Como disse alguém, quando morrer logo descanso. A Sandra e outros do grupo resolveram ficar a dormir mas, quatro de nós, mais persistentes, lá estávamos à hora marcada. 
Não tivemos de esperar muito. Ainda nem estava sentado quando ouço alguém a dizer que a coruja estava na árvore, junto ao comedouro. Mal olhei, já ela estava no palco, a olhar para o pequeno lago cheio de peixes. Não pesquisei o nome em português mas bem que poderia ser Coruja-pesqueira-gigante, tal era o tamanho do bicho. Com as asas abertas mal cabia no enquadramento da câmara. 
Nem um minuto lá esteve. Pegou num peixe e saiu como se tivesse um comboio para apanhar. Consegui algumas fotos que não chegaram para a cova de um dente. 
Soube a pouco mas, logo ao lado tinha um companheiro que nem uma foto tinha tirado. São os riscos de quem anda sempre com a câmara enfiada bem no fundo da mochila. A tristeza era aparente, estampada no rosto. Por solidariedade mas, também por interesse, todos concordámos em esperar mais um pouco para ver se a estrela voltava a aparecer. Nem uma hora passou e lá estava ela. Na segunda vez esteve mais tempo, a escolher o peixe com cuidado e a comê-lo com calma. Quando saiu, toda a gente estava contente. 

Alvorada em tons de rosa em Rausu

Chegámos ao hotel por volta das 5h30 mas, quem corre por gosto não cansa. Ainda consegui dormir mais de uma hora antes de seguir para o excelente pequeno-almoco. Pelo meio, fui ao último piso, ao terraço panorâmico do hotel, ver as vistas. Nada como uma alvorada em tons de rosa, com montanhas geladas de um lado e o mar do outro, para despertar a alma. E o melhor é que ainda tive de lá voltar uma segunda vez, quando alguém avisou no grupo whatsapp da viagem que estava a ver patos-arlequim. Um pato com uma plumagem quase irreal, a fazer jus ao nome. Com o pequeno-almoço, a vista e os patos, foi das melhores alvoradas da minha vida. Já nem me lembrava que a noite tinha sido mal dormida. 

O momento alto da viagem aproximava-se a toda a velocidade. Sonhava com os Steller's Sea Eagles há anos. Eram estas águias enormes a razão principal para me ter metido num tubo de metal um total de dezoito horas.
O Gunnar tinha, entretanto, dado indicação de que poderíamos deixar as malas no quarto, uma vez que o cruzeiro era de duas horas e começava às 9h00. O hotel era a cerca de dez minutos do porto. As contas faziam sentido, mas... Olhei, pensativo, para as malas prontas e fechadas no meio do quarto. Levo? Não levo? Ficaram no quarto, mas eu não fiquei descansado. O diabo esconde-se nos detalhes, como se sabe.

Águia-rabalva (Haliaeetus albicilla)

Fomos para o porto num dos carros, enquanto o Gunnar foi levantar os bilhetes ao escritório, no outro. Quando chegou, por volta das 8h30 deu-nos uma brilhante novidade, com a sua calma habitual:
-Ah e tal, afinal o cruzeiro é de 2h30, temos de ir buscar as malas ao hotel.
Tive vontade de o matar mas, em vez de começar aos gritos, resolvi ser pragmático e fazer contas. Dez minutos para lá, dez para cá, cinco para ir buscar as malas. Ainda sobravam cinco minutos para os gastos. 
-Vamos embora!
O trânsito não era muito e chegados ao hotel, prontamente fomos buscar as malas e carregámos o carro. Passaram uns minutos e nada de Gunnar. Onde estava o nosso condutor? Fiquei eu no carro à espera, enquanto a Sandra prontamente foi ver onde é que ele andava. Aparece-me em pânico:
-Não vamos conseguir! Não vamos conseguir! 
Explicou que tinha espreitado o quarto dele e que ainda estava tudo espalhado no chão. 
Aquilo não estava famoso mas, a verdade é que nem um minuto depois ele lá apareceu, calmamente. Seguimos para o porto. Faltavam menos de quinze minutos. O trânsito estava complicado mas, em terra de cumpridores, o incumpridor é rei. Com meia dúzia de ultrapassagens e outras tantas transgressões, chegámos ao destino três minutos antes das nove. Saímos do carro e corremos para o barco. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Disse-me mais tarde um dos companheiros, que falava um pouco de japonês que, desde que estacionámos até entrarmos no barco, se ouviu múltiplas vezes em Japonês nos altifalantes do mesmo:
-Despachem-se! Despachem-se!
Pelos vistos o stress era completo, para nós, para o resto dos companheiros de viagem e até para a tripulação. 
Embarcámos e, nem um minuto depois, o barco saiu. 
Afinal estava tudo controlado. Respirei fundo e pensei, Prooooóximo!...

E o próximo desafio era logo de seguida. Será que íamos ter gelo flutuante? As águias veêm-se sempre, de uma forma ou de outra mas, se houver gelo flutuante ficam quase em cima do barco e as fotos são indescritíveis, com o cenário espetacular, a luz matinal e a atmosfera sem distorções. 
Nos últimos dias tínhamos seguido o blogue da empresa e o gelo andava a aparecer num dia e a desaparecer logo no dia seguinte. Será que a sorte estava connosco?
Enquanto pensava na vida e o barco ia andando,  fui colocando o equipamento em ordem, casaco de penas, casaco grosso por cima, barrete, capuz, dois pares de luvas. Estava preparado. Só faltava o mais importante, os bichos. 

Nem uns dez minutos de caminho percorremos quando se percebeu que tínhamos jackpot. Íamos ter tudo. O gelo flutuante estava logo ali e era até perder de vista. O sol estava radioso e o ar límpido. O mar era um autêntico lago. E as águias estavam por todo o lado. Eram dezenas de Águias-rabalvas e Pigargos-gigantes, o meu sonho Siberiano. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Há momentos assim, para além da imaginação. O espetáculo era tal que difícil era escolher para onde olhar. Algumas águias estavam tão perto que não cabiam na foto. Havia pousadas no gelo, isoladas. Havia grupos da mesma espécie e havia grupos onde as duas espécies se misturavam, sem nos explicarem se era por acordo ou para se roubarem umas às outras. Havia águias em voo com céu azul ao fundo, em voo por cima do gelo e em voo com montanhas ao fundo. Com a paisagem de tirar o fôlego, o gelo flutuante e as águias que nos cercavam, os sentidos estavam sobrecarregados, e com toda a razão para isso. Foram duas horas a disparar sem parar, intensas, que valeram por, pelo menos, dois anos. Tirei mais de oito mil fotos mas, mesmo as mais perfeitas são como um reflexo imperfeito do que se passou naquela manhã. Uma sombra de uma sombra. Mas de que raio de Alegoria me fui lembrar.

Quando começámos a viagem de regresso ao porto, com os rangidos do barco a lutar com o gelo para se libertar, percebi logo que ia demorar muitos meses a digerir as duas horas anteriores. Como se a cabeça tivesse de ser convencida de que o corpo lá esteve. Tinha mesmo vivido aquilo? Ainda hoje preciso das fotos para o confirmar.

O gelo a perder de vista


25 março 2026

Tesoura no Pico

Pico, Março de 2026 

No último dia de fevereiro de 2026, o Pedro Silva, residente na Ilha do Pico, e já falado aqui nas crónicas (ver O Primeiro Açor dos Açores) descobriu por lá, a seguir ao almoço, um Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus), mesmo por cima da casa dos pais. Podíamos pensar que eram efeitos de uma refeição bem regada mas, ele fez logo questão de colocar umas fotos a acompanhar a notícia. A ocorrência era raríssima. Era só a quinta observação de sempre no Paleártico Ocidental e quarta nos Açores. Ainda por cima era bem giro, o bicho. 
É preciso ter um grande olho e mérito para, no meio de um almoço de família, ainda ter tempo para descortinar uma ave rara. 
Ele diz que foi sorte. É verdade que é preciso ter sorte de vez em quando mas, esta dá muito trabalho e, quando aparece, convém estarmos lá para a agarrar. Grande abraço, Pedro!

O último destes a aparecer tinha sido em Março de 2021, em São Jorge. Ainda em plena pandemia, as viagens eram complicadas. Estive no Pico em Abril desse ano a passear e ainda cheguei a passar um dia em São Jorge à procura mas, tal como esperado, não tive sucesso. Já tinha passado mais de um mês desde o último avistamento. Valeu pela ida a essa ilha, que é de uma beleza extraordinária. 

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

Voltando ao Gavião-tesoura do Pedro, ou Tesoura para os amigos, contrariamente ao que esperava ele foi sendo avistado todos os dias, com mais ou menos dificuldade. Domingo, segunda, terça, as mensagens iam aparecendo no ciberespaço. 
Para mim, o dia fatal foi na quarta-feira, quando o Carlos Pereira, que tinha ido para o Pico de propósito para observar o Tesoura me manda um vídeo de telemóvel, do bicho a meia dúzia de metros a fazer mergulhos. Como se não bastasse, ainda me telefona a explicar o que estava a ver. "É só para teres uma ideia do comportamento". Lá está, a crueldade humana não tem limites.
A verdade é que eu já tinha visto o Elanoides no Brasil em 2015 mas, a observação não foi como eu gosto. A perspetiva de o conseguir ver mais perto e em Portugal não me tinha largado desde Domingo. Ainda o telefonema não tinha acabado e já tinha marcado o voo para o fim de semana de 7 de Março. "Pronto! Já me conseguiste enganar!", disse-lhe. Os dados estavam lançados e já não havia volta a dar.

Nestas viagens relâmpago, e nas viagens em geral, as variáveis são muitas e a margem de erro é quase inexistente. Eu costumo pensar em degraus de uma grande escada que vamos subindo um a um. Primeiro haver avião, depois ele sair, depois aterrar, e assim por diante. Ir ao Pico não é fácil. A pista é pequena, mal direcionada e o tempo é instável. O Pedro Silva, otimista por natureza, tinha-me dito para não me preocupar, que em todo o Inverno só tinham cancelado quatro voos. Oxalá essa estatística valesse para mim também.

A verdade é que, apesar do dilúvio que se abatia sobre a ilha, o voo aterrou à primeira e à hora prevista, o que era um bom prenúncio. Não se tinham concretizado as conversas dos meus vizinhos de trás "Ah e tal, aterramos no Pico ou vamos para o Faial? Pois é. Isto está mau...". É a conversa ideal para controlar a ansiedade nas viagens de avião. 

Até estar dentro do carro nem meia hora se passou e, ainda deu para beber um café. Meti as coordenadas no GPS e segui caminho. Já só faltavam 45 minutos para chegar ao destino que, neste caso era um canto longínquo da ilha chamado Calheta de Nesquim, perto da ponta leste. Pode parecer muito tempo mas, o Pico, é a segunda maior ilha dos Açores e as distâncias são agravadas pelo facto de não haver vias rápidas. Pelo menos, dá para ver a Natureza que, naquela ilha, é ainda mais bonita do que o costume. O problema naquele sábado é que nem a natureza se conseguia ver, tal era a chuva e o nevoeiro. 

No caminho contactei o Olof, um Sueco que também por lá andava à procura do Tesoura. Quando cheguei, fui encontrá-lo no porto da já referida Calheta. Já o conhecia do Corvo e o encontro foi efusivo, dentro do estilo nórdico. É sempre bom ver uma cara conhecida num momento de stress. Apesar das condições, ele não desistia, como observador de excelência que é. Disse-me que tinha até às duas da tarde para procurar e que era isso que ia fazer. Ainda lhe perguntei se não tinha visto que Sábado não era bom dia para aquilo, ao que respondeu que não tinha visto nada no que à meteorologia dissesse respeito. Cada um com a a sua estratégia, pensei. Concordámos que o melhor era dividir os esforços e foi cada um para seu lado. 
Aproveitei as horas seguintes para explorar os locais onde o bicho tinha aparecido, para compreender a zona e pensar num plano de ataque para o dia seguinte. A conclusão a que cheguei rapidamente foi a de que aquilo não iria ser nada fácil. Era uma faixa de cerca de quatro quilómetros, de uma estrada estreita parte alcatrão, parte gravilha. Um primeiro troço dentro da vila, urbano, com pouca visibilidade, seguido de outro, rural e com pouca visibilidade. Existia uma ou outra clareira que permitia ver qualquer coisa e os únicos locais com vista mais ou menos panorâmica eram o porto da Calheta e o ponto do último avistamento, já no fim do percurso, na estrada de gravilha. Aquilo era trabalho para uns sete ou oito e não para um ou dois mas, um ou dois era o que havia. Por volta da hora de almoço apareceu o Pedro Silva, com o sorriso habitual. Durante uma hora fomos três a andar para trás e para a a frente lá na zona. Parecia hora de ponta, ao estilo Calheta de Nesquim.

A chuva não parava e o bicho não aparecia, tal como já era previsível. As rapinas têm mais que fazer do que voar à chuva. 
O Pedro lá foi à sua vida, que isto quem tem filhos de três meses não tem muito tempo para este tipo de atividade. Pouco antes das duas da tarde, também o Olof teve de se resignar à sua sorte e abandonar a ilha sem Tesoura. 
Eu dei mais umas voltas mas, sem bicho e com chuva sem parar, achei que o esforço era inglório. Passava pouco das quinze horas quando optei por recolher ao alojamento, de seu nome Abrigos Baleeiros.
Foi o momento alto do dia. Aquilo era um verdadeiro luxo. Tudo novinho em folha e, ainda por cima, deram-me um dos quartos no cimo do monte. A vista era de sonho, com o mar em baixo, até ao infinito. Sentia-me literalmente um "King of the Hill". 
Instalei-me e tentei relaxar um bocado. Mesmo com o tempo manhoso, era impossível não estar sempre a desviar o olhar para aquela vista panorâmica. Virei o cadeirão para a janela e deixei-me ficar, a pensar na vida.

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

Lembro-me de repetir para mim próprio que domingo seria "o dia". Com tempo razoável, sem chuva e com algum vento, as condições eram aparentemente boas. Além disso, o Tesoura estaria com fome, devido ao dilúvio e teria de ir comer, mais tarde ou mais cedo. Mas isto, teorias cada um tem a sua, como já se sabe, e os bichos fazem sempre o que querem. Raramente seguem o guião que temos pensado para eles.

Eram umas quatro e meia quando a chuva pareceu querer parar. Será? Esperei mais uns dez minutos e, aparentemente, parecia haver uma pausa no mau tempo. Pensei que podia ser que o bicho aproveitasse para ir dar uma volta e, saí também eu de casa para dar uma volta à procura dele. Foi mais uma hora para trás e para a frente sem sucesso até que a chuva recomeçou a cair. Ora bolas! Sábado não era, definitivamente, o dia. Dei a busca por terminada e recolhi ao quartel general.

E foi assim que se chegou a Domingo, o dia D, ou o dia do tudo ou nada. 
O pequeno-almoço foi dos melhores dos últimos tempos e eu aproveitei, porque o dia tinha grandes possibilidades de ser longo. E ainda levei umas bananas do Pico para o caminho. Isto é sempre a aprender. Meia hora antes nem sabia que o Pico tinha bananas. Já se verá mais à frente que estas foram relevantes nesta história.

Por volta das nove horas comecei a trabalhar. À procura da agulha ou, neste caso, da tesoura naquele grande palheiro. O Pedro Silva esteve por lá até meio da manhã. O Olivier Coucelos, que conheci em 2021, aquando da minha estadia anterior na ilha, também por lá andou até por volta do meio dia. O Tesoura é que não parecia andar por lado nenhum. Estava a fazer-se difícil. 

A partir dessa hora, fiquei só. Eu, a ilha e o bicho mais querido últimos tempos. A situação não estava famosa mas, resolvi seguir o plano, que era não desistir enquanto houvesse luz. Tinha dois olhos, uns  binóculos, uma câmara e um Clio. Podia ser bem pior. 
Além disso, havia sempre a hipótese de, entretanto, alguém da zona dar o alerta. Na Calheta de Nesquim já toda a gente sabia que havia por lá um gavião-tesoura e, muitos até já o tinham visto. Inclusivamente, alguns dos avistamentos anteriores resultaram de alertas dados pelos residentes. 

A tática era simples. Andar para trás e para a frente, com paragens nos pontos com maior visibilidade. Foi isso que fui fazendo até à exaustão. 
Por volta das 13h20, estava eu parado algures no caminho, quando recebo um telefonema da Sofia, a dona dos Abrigos Baleeiros. Andava pela vila à procura do bicho. Era uma ajuda inesperada mas muito bem vinda. 
-Já o viu?
-Infelizmente não. 
-Estou aqui a ver uma ave no fio no cruzamento do restaurante "Faia". Não sei se é ele mas, é uma rapina.
-Vou já para aí!
Era melhor jogar pelo seguro e ir investigar. Entrei no carro e segui, qual Colin McRae, o mais rápido que pude, para o tal cruzamento. Foi por pouco mas, lá consegui que o carro não saísse da estrada. Foram dois ou três minutos que mais pareceram duas ou três horas. Em menos de nada tinha chegado. Saio do carro e, para variar, o bicho não estava à vista. "Desceu para trás daquele muro", disse-me ela. 
A espera durou nem uns cinco minutos até que saiu de lá um Milhafre. Ora bolas! Não era o Tesoura. Paciência! Valeu pela intenção, pelo esforço e pela adrenalina. Afinal não estava sozinho. A Sofia e a filha também estavam a contribuir para a causa.

Fundo escuro, que alternava com o céu claro.

Agradeci a ajuda e voltei ao trabalho. Do bicho nem sinal. Eram quase duas horas quando resolvi fazer uma pausa. Almoço não havia, que era perigoso ir almoçar quando muitos avistamentos tinham sido precisamente a essa hora mas, tinha umas bolachas e, as já faladas bananas. Um luxo para aquelas circunstâncias. Fui para o fim do percurso, no tal local com vista panorâmica e parei o carro.  
Comi umas bolachas e uma banana e resolvi ligar para a Sandra. Ela não estava ali em pessoa para trazer boa sorte mas, podia ser que o telefonema ajudasse. Ah e tal, isto não está fácil. Vais ver que ele aparece, disse-me ela.
Desliguei e achei que ainda comia mais qualquer coisita. Olhei para a segunda e última banana e lá teve de ser. As bananas do Pico são bem boas, por sinal. 
Tinha acabado de guardar a casca da referida quando, de repente, como se fosse um relâmpago, sem pedir licença, aparece o Tesoura. Veio rente aos arbustos, do lado direito. A minha reação foi instintiva e, felizmente, o instinto não foi o de ficar paralisado de espanto. Por acaso, tinha a máquina comigo e não no carro. Sem pensar, comecei a disparar como se não houvesse amanhã, até encher a memória da câmara. O Tesoura passou-me à frente e, já do lado esquerdo, começou a andar aos círculos, sempre a meia altura, sem passar dos dez metros. Com o fundo a alternar entre o céu branco e a terra escura, fiz o que pude com as configurações da câmara e com o zoom enquanto, ao mesmo tempo, tentava manter o bicho enquadrado. A pouco e pouco ele foi-se afastando, até que desapareceu atrás da vegetação, a uns cinquenta metros. Achei que era a altura certa para pegar no Clio e ir tirar mais uns milhares de fotos. Agora é que ia ser. Ele havia de estar logo atrás daquela sebe a caçar e eu havia de estar a observá-lo mais uma meia hora. Ia ser um fartar, vilanagem. 

Gavião-tesoura (Elanoides fortificatus)

O excesso de confiança é tramado. A verdade é que, quando lá cheguei, passado nem um minuto, só lá estavam os tentilhões do costume. Onde é que o bicho se meteu? Procurei nos campos em volta, para cima e para baixo, com os binóculos, com o carro para trás e para a frente e ainda para a estrada de cima. Nada. Tinha desaparecido como um fantasma. 
Pensei que ele podia estar a regressar ao local  do primeiro avistamento, na vila, e fui lá procurá-lo. Nem sinal. À terceira volta tive de me resignar e pensar que aquela aparição estava terminada. 
Recomecei a raciocinar. Será que tinha mesmo visto o Tesoura ou tinha sido uma miragem? Espreitei as fotos na máquina. Lá estava ele. Não haviam dúvidas, De cima e de baixo, ao perto e ao longe. Entre focadas e desfocadas, tinha tirado umas cento e cinquenta fotos. Espreitei as horas e vi que todas tinham entre as 14h05 e as 14h06. Na minha cabeça achei que o evento tinha durado mais tempo mas, os números não mentem. Bem que dizem que o tempo é relativo. Confesso que revi as fotos umas dez vezes até interiorizar que tinha realmente visto o Elanoides e cumprido o objetivo do raid. Estava feito e, claro, com evidência é sempre melhor. 
Só tive pena de não ter ali ninguém comigo para partilhar a alegria estava a sentir. Não houve gritos nem abraços. Só silêncio.

De seguida, dei o alerta a quem o assunto pudesse interessar no imediato. À Sandra, que me trouxe a sorte, aos meus amigos picarotos e claro, ao Carlos Pereira que é picaroto honorário. Destaco a reação do Nuno Gonçalves, que me perguntou se estava aliviado. Quando lhe respondi que nem sabia o que dizer ele disse-me que não precisava, porque ele conhecia bem a sensação. 
Mais ao fim do dia, quando coloquei a notícia no grupo WhatsApp da passarada nos Açores também foi cómica a reação do Olof que, além de me dar os parabéns me perguntou, incrédulo, se tinha realmente visto o bicho só um minuto. 

Há daqueles minutos que valem por muitos meses e, este foi um deles. 
Obviamente que, nessa noite, houve jantar com sabor a triunfo. 

Epílogo: Apesar dos múltiplos esforços, até hoje o Gavião-tesoura não voltou a ser visto na Calheta de Nesquim.