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21 maio 2026

Um Sonho Siberiano

Japão, Fevereiro de 2026 (English version)
Hokkaido

Desde há muitos anos que via com atenção os documentários onde apareciam dezenas de Pigargos-gigantes a caçar em cima do gelo no norte de Hokkaido. Em Inglês chamam-lhes Steller's Sea Eagle e o nome científico é Haliaeetus pelagicus mas, este é daqueles casos em que o nome pouco importa. Há que ver em carne e osso e ver para crer.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Diziam eles na TV que estes bichos vão invernar ali e que passam o resto do ano na Sibéria. O sonho de ver um bicho daqueles foi crescendo e tomando forma. Mais ainda quando apareceu um na costa Leste da América do Norte em 2021. Nessa altura segui com atenção o carrossel de gente que veio de todo o continente para o ver. Foi interessante mas, o melhor é mesmo ir à fonte e, como à Sibéria é quase impossível, comecei a pensar que tinha de ir ao Japão um dia. Era difícil e caro mas, essa viagem já seria, talvez, possível.
Após uma pesquisa prolongada, acabei por encontrar uma empresa que fazia tours mais curtos que o habitual, concentrados nas espécies mais emblemáticas. Na expedição Flock to Marion  - ver  O Dia mais Longo - tive oportunidade de falar com o dono - Gunnar - e acabei por me decidir umas semanas mais tarde, pouco menos de um ano antes da viagem acontecer.

O tour começava na ilha do sul - Kiushu - seguindo depois para Hokkaido e, finalmente, para Tóquio e arredores. Fixei um dia no calendário, 17 de fevereiro, dia D para os pigargos-gigantes. Era nesse dia que estava marcada a pelágica para ir ter com eles. Como todas as viagens de barco, as variáveis são muitas e há até o risco de um cancelamento puro e simples. Mas a vida é um risco e, no dia previsto, lá seguimos numa longa viagem, de quase um dia, para Tóquio. 
O tour foi memorável,  com muitas peripécias à mistura mas, nesta crónica vamos concentrar-nos num dos dias mais longos, o tal dia D, terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026.

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Na véspera da pelágica, o dia 16 tinha acabado de forma cómica, para dizer o mínimo. 
Chegados ao hotel, verifiquei que, nos quartos, além da cama ser daquelas tradicionais lá do sítio, em que, basicamente, se mete um colchão de enrolar, fininho, no chão. Também não havia duche nem banheira na casa de banho. Percebi que era um hotel onde existem aquelas fontes termais com piscinas aquecidas (onsen em Japonês). Nesses hotéis com termas, mesmo nos de alto luxo, a coisa funciona assim. Cansado como estava, comecei a dizer mal da vida. 
Pouco conformado, resolvi ir chatear os dois japoneses e a japonesa da receção. Com a serenidade de quem já teria lidado com o mesmo problema muitas vezes, disseram-me, educadamente, que para tomar banho, o local indicado seriam os duches coletivos do andar de cima, podendo de seguida usar as termas à vontade. Quando me perguntaram "OK?", eu limitei-me a encolher os ombros e a assentir com a cabeça, com ar meio triste, meio resignado. Começaram os três a rir às gargalhadas, a pensar que tinham à sua frente mais um estrangeiro inadaptado. Ainda os ouvia rir quando cheguei ao quarto.
Custou mas, acabei por me render. Em Roma sê Romano. Um princípio bastante útil quando se viaja e sobretudo, quando não existe alternativa. 
Lá fui tomar duche onde ele existia. Era coletivo sim senhor, mas, era um luxo. Desde toalhas, pentes, cremes, escovas, secadores, água para beber, cacifos e sei lá o que mais. Tudo incluído. Ainda por cima tive aquilo só para mim. Uma experiência, em todos os sentidos. Saí de lá completamente convertido ao conceito.

Blakiston's Fish Owl (Ketupa blakistoni)

Foi assim que, depois de um sono reparador, chegámos ao Dia 17, o dia mais sonhado dos últimos tempos e a razão principal desta expedição ao Japão.
A luta começou excepcionalmente cedo, quando fomos tentar, pela segunda vez, ver a coruja mais famosa das redondezas. Em Inglês chamam-lhe Blakiston's Fish Owl e é a maior coruja do mundo. Não tinha sido muito simpática na tentativa anterior, antes de jantar. A espera foi infrutífera e o frio de rachar. Muito, muito difícil de suportar, mesmo com os múltiplos aquecedores do abrigo. A temperatura era bastante negativa. Aquilo que por cá chamamos de "calor esquisito". Saímos derrotados para ir jantar mas, não chegou a haver tempo para carpir mágoas e discutir o falhanço. O Gunnar prontamente abriu a porta a uma segunda tentativa, às quatro da manhã (!). 
Trabalho é trabalho. Disse logo que estaria interessado. Como disse alguém, quando morrer logo descanso. A Sandra e outros do grupo resolveram ficar a dormir mas, quatro de nós, mais persistentes, lá estávamos à hora marcada. 
Não tivemos de esperar muito. Ainda nem estava sentado quando ouço alguém a dizer que a coruja estava na árvore, junto ao comedouro. Mal olhei, já ela estava no palco, a olhar para o pequeno lago cheio de peixes. Não pesquisei o nome em português mas bem que poderia ser Coruja-pesqueira-gigante, tal era o tamanho do bicho. Com as asas abertas mal cabia no enquadramento da câmara. 
Nem um minuto lá esteve. Pegou num peixe e saiu como se tivesse um comboio para apanhar. Consegui algumas fotos que não chegaram para a cova de um dente. 
Soube a pouco mas, logo ao lado tinha um companheiro que nem uma foto tinha tirado. São os riscos de quem anda sempre com a câmara enfiada bem no fundo da mochila. A tristeza era aparente, estampada no rosto. Por solidariedade mas, também por interesse, todos concordámos em esperar mais um pouco para ver se a estrela voltava a aparecer. Nem uma hora passou e lá estava ela. Na segunda vez esteve mais tempo, a escolher o peixe com cuidado e a comê-lo com calma. Quando saiu, toda a gente estava contente. 

Alvorada em tons de rosa em Rausu

Chegámos ao hotel por volta das 5h30 mas, quem corre por gosto não cansa. Ainda consegui dormir mais de uma hora antes de seguir para o excelente pequeno-almoco. Pelo meio, fui ao último piso, ao terraço panorâmico do hotel, ver as vistas. Nada como uma alvorada em tons de rosa, com montanhas geladas de um lado e o mar do outro, para despertar a alma. E o melhor é que ainda tive de lá voltar uma segunda vez, quando alguém avisou no grupo whatsapp da viagem que estava a ver patos-arlequim. Um pato com uma plumagem quase irreal, a fazer jus ao nome. Com o pequeno-almoço, a vista e os patos, foi das melhores alvoradas da minha vida. Já nem me lembrava que a noite tinha sido mal dormida. 

O momento alto da viagem aproximava-se a toda a velocidade. Sonhava com os Steller's Sea Eagles há anos. Eram estas águias enormes a razão principal para me ter metido num tubo de metal um total de dezoito horas.
O Gunnar tinha, entretanto, dado indicação de que poderíamos deixar as malas no quarto, uma vez que o cruzeiro era de duas horas e começava às 9h00. O hotel era a cerca de dez minutos do porto. As contas faziam sentido, mas... Olhei, pensativo, para as malas prontas e fechadas no meio do quarto. Levo? Não levo? Ficaram no quarto, mas eu não fiquei descansado. O diabo esconde-se nos detalhes, como se sabe.

Águia-rabalva (Haliaeetus albicilla)

Fomos para o porto num dos carros, enquanto o Gunnar foi levantar os bilhetes ao escritório, no outro. Quando chegou, por volta das 8h30 deu-nos uma brilhante novidade, com a sua calma habitual:
-Ah e tal, afinal o cruzeiro é de 2h30, temos de ir buscar as malas ao hotel.
Tive vontade de o matar mas, em vez de começar aos gritos, resolvi ser pragmático e fazer contas. Dez minutos para lá, dez para cá, cinco para ir buscar as malas. Ainda sobravam cinco minutos para os gastos. 
-Vamos embora!
O trânsito não era muito e chegados ao hotel, prontamente fomos buscar as malas e carregámos o carro. Passaram uns minutos e nada de Gunnar. Onde estava o nosso condutor? Fiquei eu no carro à espera, enquanto a Sandra prontamente foi ver onde é que ele andava. Aparece-me em pânico:
-Não vamos conseguir! Não vamos conseguir! 
Explicou que tinha espreitado o quarto dele e que ainda estava tudo espalhado no chão. 
Aquilo não estava famoso mas, a verdade é que nem um minuto depois ele lá apareceu, calmamente. Seguimos para o porto. Faltavam menos de quinze minutos. O trânsito estava complicado mas, em terra de cumpridores, o incumpridor é rei. Com meia dúzia de ultrapassagens e outras tantas transgressões, chegámos ao destino três minutos antes das nove. Saímos do carro e corremos para o barco. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Disse-me mais tarde um dos companheiros, que falava um pouco de japonês que, desde que estacionámos até entrarmos no barco, se ouviu múltiplas vezes em Japonês nos altifalantes do mesmo:
-Despachem-se! Despachem-se!
Pelos vistos o stress era completo, para nós, para o resto dos companheiros de viagem e até para a tripulação. 
Embarcámos e, nem um minuto depois, o barco saiu. 
Afinal estava tudo controlado. Respirei fundo e pensei, Prooooóximo!...

E o próximo desafio era logo de seguida. Será que íamos ter gelo flutuante? As águias veêm-se sempre, de uma forma ou de outra mas, se houver gelo flutuante ficam quase em cima do barco e as fotos são indescritíveis, com o cenário espetacular, a luz matinal e a atmosfera sem distorções. 
Nos últimos dias tínhamos seguido o blogue da empresa e o gelo andava a aparecer num dia e a desaparecer logo no dia seguinte. Será que a sorte estava connosco?
Enquanto pensava na vida e o barco ia andando,  fui colocando o equipamento em ordem, casaco de penas, casaco grosso por cima, barrete, capuz, dois pares de luvas. Estava preparado. Só faltava o mais importante, os bichos. 

Nem uns dez minutos de caminho percorremos quando se percebeu que tínhamos jackpot. Íamos ter tudo. O gelo flutuante estava logo ali e era até perder de vista. O sol estava radioso e o ar límpido. O mar era um autêntico lago. E as águias estavam por todo o lado. Eram dezenas de Águias-rabalvas e Pigargos-gigantes, o meu sonho Siberiano. 

Pigargo-gigante (Haliaeetus pelagicus)

Há momentos assim, para além da imaginação. O espetáculo era tal que difícil era escolher para onde olhar. Algumas águias estavam tão perto que não cabiam na foto. Havia pousadas no gelo, isoladas. Havia grupos da mesma espécie e havia grupos onde as duas espécies se misturavam, sem nos explicarem se era por acordo ou para se roubarem umas às outras. Havia águias em voo com céu azul ao fundo, em voo por cima do gelo e em voo com montanhas ao fundo. Com a paisagem de tirar o fôlego, o gelo flutuante e as águias que nos cercavam, os sentidos estavam sobrecarregados, e com toda a razão para isso. Foram duas horas a disparar sem parar, intensas, que valeram por, pelo menos, dois anos. Tirei mais de oito mil fotos mas, mesmo as mais perfeitas são como um reflexo imperfeito do que se passou naquela manhã. Uma sombra de uma sombra. Mas de que raio de Alegoria me fui lembrar.

Quando começámos a viagem de regresso ao porto, com os rangidos do barco a lutar com o gelo para se libertar, percebi logo que ia demorar muitos meses a digerir as duas horas anteriores. Como se a cabeça tivesse de ser convencida de que o corpo lá esteve. Tinha mesmo vivido aquilo? Ainda hoje preciso das fotos para o confirmar.

O gelo a perder de vista