Castro Verde, Agosto de 2026
Um dos falcões raros que se pode ver por cá é o Alfaneque (Falco biarmicus). Todos os anos costuma aparecer um em Agosto, normalmente mais para a parte Sul do nosso retângulo.
Este ano não foi exceção e dia 11 de Agosto, terça-feira, apareceu um em Castro Verde.
Apesar de ser uma espécie que, regra geral, não fica muito tempo no mesmo sítio, este foi-se aguentando e foram existindo notícias dele até sexta-feira. Nas aves está claro que cada caso é um caso.
Aqui chegados e continuando o falcão a ser avistado, já estava a planear fazer o que tinha de ser feito, que seria levantar-me de noite e, com ou sem companhia, ir lá no sábado, o mais cedo possível. Ou seja, o costume.
Estava eu entretido a pensar no plano quando me liga o meu amigo José Freitas a propor irmos lá passar o fim de semana. A proposta era bem mais aliciante do que fazer uma visita relâmpago, além de que permitia estudar o terreno e documentar a ave com tempo. Isto, claro, se ela colaborasse.
Argumentei que seria difícil arranjar alojamento em Agosto mas, não sei como, o José arranjou uma vaga na Herdade do Zambujal, local de eleição da zona e que eu já conhecia, bem como os respectivos donos. A herdade é um oásis dentro do oásis que é Castro Verde. Porque não alternar o delírio de um twitch com a calma de uma ida à piscina e de excelentes refeições? Não podia recusar e sexta à tarde lá seguimos, à procura da sorte.
No caminho tínhamos percebido que ainda íamos chegar de dia. Por pouco, mas ainda de dia. Por outro lado, o local do avistamento era só a 15 minutos do alojamento. Quem não arrisca, não petisca e, neste caso, nem era risco nenhum. Tínhamos de lá ir picar o ponto.
Chegados ao local, por volta das 20h, metemos pela estrada de terra dos postes elétricos onde o Alfaneque tinha sido avistado quase sempre. Tínhamos andado só uns cinquenta metros quando vimos o Pedro Bravo, um observador e guia lá da zona. Ah e tal estou aqui já umas duas horas e nada, mas isto é grande. Estávamos há uns cinco minutos em amena cavaqueira quando um carro se aproxima do fundo da estrada. Pensei que seria um dos trabalhadores da quinta que existia mais à frente mas estava redondamente enganado. Afinal eram dois espanhóis que, de repente e para nosso espanto, param dizem-nos que tinham acabado de ver e fotografar o biarmicus. Estava o caldo entornado. Entrámos no carro o mais rápido que conseguimos e fomos na direção indicada, ainda a tempo de ouvir que tinha sido num poste e que tinha voado. Típico!
Fomos andando, escrutinando cada poste com atenção, não fosse o bicho estar escondido atrás das armações de metal. Ao fim de um quarto de hora nada de falcão, mas pelo menos ficou claro que a ideia de passar pelo local tinha sido boa, por um lado, e que o bicho estava na zona, por outro.
A noite caía e entrávamos rapidamente no lusco-fusco. Era a hora ideal para recolher ao alojamento.
No dia seguinte, sábado, planeámos ir, logo à primeira hora, à procura do objetivo. Ainda antes do pequeno-almoço pouco passava das sete da manhã e já estávamos na estrada de terra. A luz ia aparecendo, timidamente. Fomos até à quinta, a umas boas centenas de metros e voltámos para trás, nada. Resolvemos fazer uma pausa e esperar uns minutos num local com alguma visibilidade, uma estratégia que já tinha dado frutos noutras ocasiões. O sol ainda não se via mas a luz já era razoável.
Estava junto ao carro quando, de repente, vejo surgir a uns trinta metros, por trás de um cabeço, uma silhueta que identifiquei como um falcão num primeiro momento e que logo percebi que era claramente maior que os ubíquos peneireiros da zona. Chamei imediatamente a atenção do José, não fosse ele andar distraído "Olha, é o gajo!". Não tive dúvidas logo desde o segundo segundo.
Parecia querer pôr-se a milha, mas acabou por pousar num poste a uns cinquenta metros. Consegui aproveitar a oportunidade e tirar algumas fotos de registo, das tais com ISOs gigantescos. Era mais grão que ave mas, evidência já havia.
Resolvemos avançar para um pouco mais perto, mas nem mais cinco metros o bicho nos deixou andar. Levantou e ala que se faz tarde. Vimo-lo seguir a toda a velocidade para o outro lado da estrada de alcatrão e perdêmo-lo.
Eram 7h26 quando divulguei a notícia no éter. "Continua no mesmo local!". Haveriam com certeza algumas almas a caminho e era importante saberem que, aparentemente, não seria um passeio à Nossa Senhora da Asneira.
Fomos então para outro caminho de terra, do lado onde ele tinha desaparecido. Parámos logo ao início e avistei de seguida o bicho, nos binóculos, em cima de um poste. Estava a uns duzentos metros. Nem um metro avançámos e logo ele levantou e desapareceu rente ao solo. Mas que raio de distância de segurança tem este bicho, pensei. Não era nada simpático, mas era assim. Havia que aceitar e gravar a informação para futuras aparições.
Foi pouco depois que começaram a chegar outros observadores, ou sofredores como se lhe queira chamar. Dois carros do Algarve, dois de Lisboa e arredores. Lá contei outras tantas vezes a história de onde tinha aparecido e onde tinha pousado, de onde tinha vindo e para onde tinha ido. Lá vimos as típicas caras tensas, ansiosas, algumas demonstrando já cansaço, mesmo àquela primeira hora.
A procura começou e a malta começou a espalhar-se, cada um com a sua estratégia.
Entretanto, eu e o José já pensávamos mas era no farto pequeno-almoço, que estava marcado para as 9h30. Nessa altura, o Rui Pereira, que pelos vistos estava com fome, disse que se lhe trouxéssemos um croissant nos pagava o almoço. Eu bem o avisei para não fazer isso, que ia entrar em despesa mas, ele manteve a promessa.
Durante o excelente pequeno-almoço que tivemos, fizemos questão de garantir que o Rui teria o seu croissant. Era uma oportunidade de um almoço grátis a não perder. Quer dizer, não foi completamente grátis porque custou um croissant e, a bem dizer, uma estadia. Afinal o ditado está certo. Não há almoços grátis.
A verdade é que antes de almoço já toda a gente tinha o Alfaneque no papo. Por volta das 11h30 o bicho resolveu fazer um sobrevoo prolongado da zona onde estávamos e foram todos almoçar de barriga cheia. Foi perto q.b. mas nada do outro mundo. Perfeito para observadores, não tão perfeito para fotógrafos. Há sempre um crítico, como sabemos...
Nós aproveitámos a deixa e assim fizemos também. Um almoço que soube que nem ginjas. O fim de semana estava ganho.
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| Há pessoal muito distraído... (foto Tiago Guerreiro) |
Já tínhamos pensado em regressar pela tardinha. Podia ser que o Necas voltasse a aparecer e permitisse registos melhores, agora que já nos conhecia. Por volta das 17h lá estávamos nós de volta ao local do crime.
Procurámos a estrela por todo o lado mas estava difícil. Fizemos a estrada de terra uma meia dúzia de vezes e fomos mais à frente na estrada de alcatrão. Nada feito.
Foi só por volta das 19h, ao regressar de mais uma ida à quinta lá da frente que vi, finalmente, o bicho nos binóculos, pousado dois postes mais à frente, em contraluz.
Agora havia que pensar na melhor estratégia para ele se deixar ficar descansado. Estava fora de questão avançar mais na estrada.
Às tantas, o Freitas sugere que podíamos entrar num portão 100 metros mais atrás e ir por fora de estrada, pelo terreno à esquerda.
-Qual portão? Não vi portão nenhum.
-Está lá atrás um aberto, que eu vi.
-Não vi nada...
Com dois teimosos no carro, a discussão continuou até eu concordar em recuar para ver esse famoso portão. De qualquer maneira, não se perdia nada. Ali a observação era horrível. Avançar com o carro já se sabia, desde manhã, que dava maus resultados. Porque não procurar um portão imaginado pelo José?
Espantosamente, recuámos uns 50 metros e materializou-se do lado esquerdo um portão aberto para um campo.
-Olha, afinal sempre existe...
-Eu não te disse? Teimoso!
-Pronto, pago-te uma imperial.
-Uma imperial? Somítico, ao menos um jantar.
Os Dusters servem para isso, o terreno não era dos piores e dava para andar nas calmas. Demos uma folga de uns 50 metros até à vedação e começámos então a avançar, paralelos à estrada, até vermos o Necas no poste. Aparentemente ele estava tranquilo. Estacionámos debaixo de uma azinheira. A luz de fim de dia era perfeita. Foi disparar até mais não poder ou, neste caso, até ele achar que era finalmente hora de ir jantar. Obrigado Necas.
Esta imperial teve consequências. Passei o fim de semana inteiro a ouvir falar dela, e de que esta devia mas era ser um jantar.
Ainda hoje, o José me fala nisso de vez em quando. A crueldade humana não tem limites...
Finalmente, resta-me agradecer ao Tiago Guerreiro pela foto que ajuda a ilustrar esta crónica e, sobretudo, ao José Freitas, pela logística que acabou por nos proporcionar um fim de semana inesquecível.





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