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20 julho 2019

Madeira 2019 - Parte IV - O Moleiro-coiso

30/05/2019 - O Moleiro-coiso

Quinta-feira, dia da terceira e última pelágica.
Acordei outra vez em estado razoável. 
Pequeno-almoço tomado, seguimos para o Faial, à procura do pombo. Numa primeira paragem exploratória, ainda na estrada cá em cima, o Luís apontou quase de imediato um pombo que viu na escarpa. Finalmente, à terceira tentativa, foi de vez. “Pombo!!!” - gritou, como se tivesse descoberto ouro. Seria quase inaudito ir à Madeira tanto tempo e não ver o pombo lá do sítio.
Mais umas voltas e regressámos rapidamente a Machico. A terceira pelágica esperava por nós.

Moleiro-coiso (ver Parte V para ID)
Pontualmente, uma hora antes da hora coca-cola saímos do porto. 
Rumo SE, a cerca de 18mn. Ondas de norte de 1,7 metros e vento Norte de 17 nós. 
Objetivo:  Whatever.
A viagem de ida fez-se num instante. Deve ser por o tempo ser relativo ou, então, era por já estarmos habituados. No ponto de engodagem tínhamos as desertas ao lado. A Natureza é muito bonita…

Pombo!!!
Pombo-da-Madeira (Columba trocaz)
Logo nos primeiros minutos, a surpresa da expedição. Apesar dos relatórios mostrarem claramente que o final de maio não é uma boa altura para moleiros na Madeira, ali estava ele, um moleiro-coiso. Moleiro-grande não era e vi logo, pelo porte, que também não era um pomarino. Restavam duas hipóteses: parasítico ou rabilongo. Não sendo um adulto, era um exercício complicado. Fiquei na dúvida. Não vejo moleiros todos os dias, muito menos destes. Realmente, era de pequena dimensão, com apenas as duas primárias exteriores com shafts brancos. Sem consultar a literatura e apenas pela lei das probabilidades, inclinei-me mais para a opção moleiro-pequeno (parasítico). A realidade é que não sabia.


Moleiro-coiso (ver Parte V para ID)
Foto Luís Rodrigues
As poucas opiniões existentes estavam divididas. O Hugo estava inclinado para rabilongo, apesar de não ser uma plumagem vista habitualmente por ali. O James - team UK - fez uma meio pergunta, meio afirmação - “Hum... Arctic skua?” (parasítico). Por outro lado, os Suíços foram afirmativos “Long-tailed Skua!” (rabilongo). Com rede móvel disponível e dois informáticos na equipa Tuga, rapidamente tirámos uma foto a uma foto do “coiso” no ecrã da máquina do Luís e a enviámos para o backoffice do Continente - leia-se os nossos amigos da passarada - para análise. 
Rabilongo é, de longe, o mais difícil dos moleiros que se vêm regularmente por cá. Seria lifer para os meus companheiros. Para mim era praticamente igual, mas confesso que entre os dois também preferia esse, que só vira duas vezes, a última das quais há mais de cinco anos. O Luís e o Alexandre já estavam a salivar. Para desgosto destes, rapidamente recebemos por via aérea quatro respostas de peso a dizer que era um parasítico. 
Caso encerrado? Em princípio sim mas, como teimoso que sou, gosto de formar a minha própria opinião. À noite iria ver a pouca literatura que tinha disponível. Os Suíços também não compraram a ideia parasítica.


Casquilho (Oceanites oceanicus)
Foto Luís Rodrigues
O bicho é que não se importou com estas divagações. Deu um show e encheu os cartões e os binóculos. Às vezes estava tão perto que enchia o ecrã e saia do enquadramento. Espetacular! E também não teve muita pressa de se ir embora.

No resto do tempo que lá estivemos, as gaivotas monopolizaram o chum e afastaram quase toda a concorrência. Mesmo assim, além das cagarras e almas-negras, ainda foi aparecendo qualquer coisa. Um pintainho - leia-se um mosquito branco a dois quilómetros e também um casquilho, para gáudio dos Suíços. No dia anterior tinham-me dito que ainda não estavam satisfeitos porque lhes faltava o dito. A minha resposta “Vão em Setembro a Sagres, que vêem de certeza” não os desmobilizou. Cada um tem os seus dramas...

Alma-negra (Bulweria bulwerii)

O regresso é que foi pior. Preparei-me como no dia anterior. Veste o polar, fecha o impermeável, mete o boné para não ir água para a cara, mete os óculos escuros para não ir água para os olhos. Afinal, mesmo de noite, os óculos escuros são úteis.
“Get ready for a wet and very bumpy trip!”, disse a Catarina. 

Chegada às Desertas.
O regresso é que foi bem mais complicado...
E assim foi. Vento de frente, e ondas bem de lado. Entravam quase todas no barco e, em quase todas, o barco saltava por momentos e batia. Onda, salto, molha, bate, salto, onda, molha. “Ui, esta vai doer!”, pensei. Ainda usei o joelho esquerdo nos primeiros minutos mas, percebi rapidamente que era melhor resguardá-lo. Fiz a viagem quase toda só com o apoio do direito. Ao fim da primeira meia hora comecei a sentir que estava molhado. A roupa ajudou até onde pôde, mas não fez milagres. “Oxalá o saco impermeável faça o seu trabalho”, pensei. Lembro-me de olhar para o lado uma série de vezes e continuar sempre a ver as Desertas. “Ainda estamos aqui? Não andámos nada”. 
Em duas ou três ocasiões, a água conseguiu passar os óculos e fiquei com os olhos a arder, fechados, por uns minutos. Aí tinha de sentir que o barco ia saltar, para poder ter o corpo preparado. Só ao fim de mais de uma hora é que achei que os saltos estavam, finalmente, a diminuir de amplitude e de frequência. 
Seja como for, ao fim uma viagem infernal, lá conseguimos ver as luzes de Machico. Só entrar no porto fez logo com que começássemos a aquecer. Realmente, "There's no place like home". Não sei por que me veio à cabeça esta frase. Não tínhamos visto nenhum tijolo amarelo, e muito menos um homem de lata.

Gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahelis)
Foto Luís Rodrigues

Que enxerto de porrada! Estava todo partido e arrastei-me até ao hotel. A roupa estava completamente encharcada. Vá lá, que o interior do saco impermeável estava completamente seco. Bendito investimento!

Depois de jantar, já no quarto, tentei não adormecer de imediato e ainda consegui dar uma vista de olhos no pequeno livro do Andy Paterson - “Pelagic Birds of the North Atlantic” - o único guia que levei. Realmente, a nossa ave tinha mais parecenças com os rabilongos imaturos do guia do que com os parasíticos. Havia também a primeira frase referida para a identificação: “Always looks grey-brown rather than warm brown”. Ora, a nossa ave era claramente cinzento-acastanhada. As minhas fotos mostravam o mesmo que as do Luís. Não era uma questão de regulação da máquina. 

Fui dormir a pensar no assunto que, claramente, não estava fechado...

#canaldoxofred

11 julho 2019

Madeira 2019 - Parte III - Calca-mar à Vista!

29/05/2019 - Calca-mar 

Quarta-feira, dia da segunda pelágica. 
Depois de uma razoável noite de sono, acordei na quarta-feira mais ou menos em bom estado. A tareia do dia anterior não me conseguiu deitar ao tapete. 

Depois de um bom pequeno almoço fomos, sem sucesso, à procura do pombo-da-madeira nas serras perto de Machico. De certeza que os pombos já deviam conhecer o nosso carro, e escondiam-se quando aparecíamos. 

Acabámos a manhã no Pico do Facho, a ver as toutinegras-tomilheiras lá do sítio.

Calca-mar (Pelagodroma marina)
Chegados ao hotel, como tinha dado bom resultado no dia anterior, resolvi voltar a falar com as senhoras dos quartos. Em equipa que ganha não se mexe. Disse-lhes que realmente tínhamos tido sorte e visto as freiras e que hoje íamos tentar ver o calca-mar. Mostrei-lhes uma foto do bicho. Disseram logo de imediato, com um dos sotaques mais bonitos de Portugal:

-Vai ver! Vai ver! Vai dar sorte!

Às 15h30 lá estávamos no porto. Desta vez fomos para sul, a cerca de 18mn. Ondas de NE de 1,5 metros e vento de norte de 14 nós. 
Objetivo: calca-mar.

Calca-mar (Pelagodroma marina)
foto Luís Rodrigues
No caminho as cagarras e almas-negras fizeram-nos companhia. Vimos também algumas tartarugas-comuns e golfinhos-comuns. Um bom começo, mas isto interessa é como acaba, e não como começa.

Chegados ao ponto de engodagem, os bichos começaram a aparecer quase de seguida. 

Painho-da-Madeira (Oceanodroma castro)
Os painhos-da-madeira foram dos primeiros. Algumas vezes mais de um de cada vez. Nesse dia vimos pelo menos meia-dúzia. Espetacular foi também uma gaivota-de-Sabine que apareceu junto ao chum e por lá ficou, até nos irmos embora. Mais vezes perto do que longe, aquilo foi fotografar como se não houvesse amanhã. No fim já nem ligávamos. “A Sabine ainda ali está”. “Ok. Deixa estar.” Para ajudar à festa ainda apareceram uma Freira-do-bugio, que passou como uma seta, e dois ou três patagarros.

Gaivota-de-Sabine (Xema sabini)
E lá estávamos nós,entretidos com os Castro e a Sabine quando, subitamente, a Catarina exclama:

-Calca-mar a subir o slick!

Não me lembro se foi em português ou inglês, nem me interessa. Foram uns segundos de angústia até o conseguir descortinar no meio das ondas. Lá vinha ele! Ora aparece, ora desaparece. Parece um mini-surfista com patins. Se há nome comum bem escolhido, é este. Lentamente, a apenas meia dúzia de centímetros das ondas, vai-se alimentando e dando espetáculo, para quem quiser, e quem puder, ver. Não pára muito no mesmo sítio, e nunca se aproximou a menos de uns 10 metros. Não deu para fotos a encher mas, não se pode ter tudo. De zero a cinco, para mim foi um cinco. 

Calca-mar (Pelagodroma marina)
O surfista-patinador
Só me custou foi, quando já estávamos de partida, com a trouxa arrumada, ele resolver dar um show perto do barco, com a luz dourada do pôr-do-sol a bater-lhe no ângulo certo. Agora? Fiquei a olhar para o saco no chão, já com a câmara lá dentro. Típico…

A viagem de regresso, com vento de frente e ondas de lado não foi o passeio do dia anterior. Mesmo com a perícia da Catarina no leme, o barco saltava de vez em quando e o mar entrou uma ou duas vezes. Nada de grave, mas deu para para perceber a utilidade dos bancos amortecidos do “Oceanodroma”. Assim, o impacto divide-se entre o banco, as costas, os braços e os joelhos (para quem ainda tem joelhos, claro). A roupa impermeável que usei na Islândia também ajudou a tornar o regresso menos desconfortável. De qualquer maneira, nas quase duas horas do regresso, não nos livrámos de uma pequena sova. Pela positiva, frio não tive. Ainda melhor, foi ninguém se ter sentido mal desta vez, apesar dos justificados receios.

Gaivota-de-Sabine (Xema sabini)
Foto Luís Rodrigues
Por volta das 11h estávamos no hotel, para mais um jantar e umas cervejas. Tudo mais que merecido. Ao segundo dia, com os três objetivos da viagem atingidos, já conseguia respirar fundo. Caso o físico sobrevivesse, a terceira pelágica, no dia seguinte, seria só para desfrutar, sem stress.

#canaldoxofred 

03 julho 2019

Madeira 2019 - Parte II - As Freiras e o Gregório

28/05/2019 - As Freiras e o Gregório

Terça-feira. primeiro dia a sério.

Achámos que nas manhãs a seguir às pelágicas iríamos estar cansados e resolvemos ir ao Ribeiro Frio, para ver o pombo-da-Madeira, e despachar essa encomenda. Lá chegados,  não se via um palmo à frente do nariz. Maldito nevoeiro. Estrelinhas e tentilhões vimos muitos agora, pombo, é que nada.

Voltámos para o hotel com o rabo entre as pernas. Às 15h30 tínhamos a pelágica e isso é que era importante.

Freira-da-Madeira (Pterodroma Madeira)
Foto Luís Rodrigues

Antes de almoço, acabei por me cruzar com as senhoras que arrumam os quartos e trocámos uns dedos de conversa. Referi que voltava tarde e que ia tentar ver umas aves, as freiras. Disseram que já tinham ouvido falar e quiseram saber onde se viam. 
   -No mar, longe da costa. - respondi - Mas é difícil!
   -Ah, o senhor vai ter sorte! Vai ver de certeza! 

Caminho para o miradouro dos Balcões, com o nevoeiro ao fundo
Chegámos ao porto de Machico mais que a tempo. Fomos conhecendo os companheiros do barco, que iam chegando a pouco e pouco. Era fácil identificá-los, com binóculos e impermeável. Três Ingleses, dois Suíços e um Australiano. Diversidade não nos faltava.

Mais minuto, menos minuto, o “Oceanodroma” lá fez a sua aparição, com a Catarina e o Hugo a bordo. Cumprimentos, briefing de segurança e ala, que se faz tarde. Não havia tempo a perder.

Freira-do-Bugio (Pterodroma deserta)
Nesse dia fomos para a parte norte da ilha, a cerca de 12 milhas náuticas (mn). Objetivo: freiras. 

Passámos a Ponta de S. Lourenço e deu logo para perceber que o mar não estava fácil. Ondas de NE de 2 metros e ventos de 13 nós. Quando parámos para engodar, o barco parecia uma rolha numa tina de água agitada.  Um de nós - não vou mencionar nomes - estava já meio KO e começou rapidamente a deitar engodo extra borda fora. 

As freiras é que não se fizeram rogadas. Apareceu quase de imediato a primeira freira-do-Bugio e uns minutos depois a primeira freira-da-Madeira. Identificadas no campo e mais tarde com ajuda fotográfica. Distinguir estes dois bichos nunca é fácil e a Catarina e o Hugo são uma ajuda preciosa.

Freira-da-Madeira (Pterodroma Madeira)
Foto Luís Rodrigues

Uma hora depois de pararmos para engodar, comecei a achar que já me tinha sentido melhor. Mais meia hora e foi impossível não chamar o Gregório. Em 22 pelágicas anteriores nunca me tinha acontecido mas, à 23ª foi de vez. Naquelas três horas de engodagem aconteceu três vezes. Nem o doping - vomidrine - me valeu. Há dias assim. Pelo menos depois de deitar a carga fora ficava bem durante quase uma hora. Nesses momentos mais difíceis, debruçado no barco, ainda lancei um “No pictures please!” ao pessoal. Se ainda tinha sentido de humor, era sinal de que não estava assim tão mal.

Freira-da-Madeira (Pterodroma Madeira)
No final da pelágica, era mais ou menos consensual que tínhamos visto três da freiras-da-Madeira e três do freiras-do-Bugio. Para compor o dia apareceram as omnipresentes cagarras e almas-negras e vimos também alma-de-mestre e fura-bucho-do-Atlântico, entre outras espécies. 
  Dois dos três objetivos da viagem atingidos na primeira pelágica. Nada mau, para começo de festa. 

Alma-de-mestre (Hydrobates pelagicus)
Foto Luís Rodrigues
O regresso, ao pôr-do-sol, foi longo mas não foi muito agitado. Sobretudo tive frio, agravado pelo vento e andamento do barco. Chegámos ao porto já depois das 22h30, o que se repetiria nas duas saídas seguintes. 
No hotel, o jantar que encomendámos, com uma ou duas cervejas a acompanhar, consolaram-nos. Ficámos quase como novos. 

Tentilhão (Fringila coelebs madeirensis)
Foto Luís Rodrigues

Quando dissemos aos colegas Suíços que tínhamos pedido o favor de nos darem jantar quase às 23h, a pergunta deles saiu de imediato: 
   -Mas isso é possível?
De certeza que, na Suíça, não se consegue jantar em lado nenhum depois das 19h.

#canaldoxofred

27 junho 2019

Madeira 2019 - Parte I - As Freiras e o Calca-mar


Preparação e chegada

Na Madeira é possível observar aves marinhas  quase míticas e no topo da lista de desejos dos observadores mais arreigados. Os nomes comuns, neste caso muito adequados, deixam os aficionados a salivar. Freira-da-Madeira, Freira-do-bugio, Calca-mar. Hum...I'd buy that for a dollar... 

Calca-mar (Pelagodroma marina)
Já há alguns anos que tinha ouvido falar na Madeira Wind Birds,  uma empresa da Madeira especializada em observação de aves marinhas. Um amigo meu teve a honra de ser o primeiro português a fazer o conjunto de três pelágicas denominadas "Zino's Petrel Pelagic Expedition", em 2015. São três tardes compridas no mar, em busca das especialidades da zona. 
Com um grande conjunto de sucessos, uma organização profissional e uma tripulação experiente, essa viagem foi ganhando fama junto dos aficionados, sobretudo a nível internacional. Limitadas a nove participantes, as saídas esgotam a largos meses de distância.

Essa expedição ficou no meu radar, mas o facto de não me sentir em casa num barco, aliado ao baixo número de lifers possível, foi deixando a hipótese para trás, ano após ano. 
Contudo, às vezes os astros alinham-se. O Luís Rodrigues, participante na viagem de ferry de 2018 (ver Alma-negra com Champanhe) começou a espicaçar o pessoal no início de Novembro, para uma eventual ida em Maio. Ele e o Alexandre Rica Cardoso inscreveram-se quase de imediato na expedição de 28 a 30 de Maio. Pelo meu lado, hesitei por largos meses, devido a questões profissionais. Contudo, parecia que o universo conjurava a meu favor. O único lugar vago nessa data, manteve-se vago por largos meses. O Luís voltava à carga de quando em vez, e eu continuava a hesitar. Os meses iam passando, sempre com uma vaga ainda disponível. No fundo, isso só podia significar que  o lugar me estava destinado. 

Freira-da-Madeira (Pterodroma madeira)
Foto de Luís Rodrigues

Acabei por me decidir, tarde e a más horas, no final de Janeiro. O lugar lá continuava, vago, à minha espera. Realmente todos os malandros têm sorte.
Em menos de 24 horas já estava tudo acertado. Voos, hotel, pelágicas. Agora só faltava mesmo ir.

Os meses passaram lentamente, o que neste caso até foi benéfico. Deu para preparar o físico e o material.
Os relatórios de viagem que fui lendo referiam repetidamente que as pelágicas eram exigentes do ponto de vista físico, mesmo com os bancos especiais amortecidos do “Oceanodroma”. O medo é uma razão tão boa como outra qualquer e voltei a frequentar o ginásio ao fim de quase dois anos de ausência. O equipamento também tinha uma ou outra falha, que se foi resolvendo. Um item que valeu o seu peso em ouro foi o saco impermeável que comprei de propósito. Todos os relatórios diziam que era a melhor solução para proteger o material dos salpicos (leia-se molhas). E realmente foi.

Alma-negra (Bulweria bulwerii)
Chegamos assim ao belo dia 27 de Maio, dia do embarque. Os dias anteriores não foram feitos sem alguma angústia, uma vez que houve vários voos cancelados e aterragens abortadas. O  problema recorrente do vento no Aeroporto da Madeira, perdão, Aeroporto da Madeira – Cristiano Ronaldo, estava a fazer das suas. Face aos planos já elaborados dos meus companheiros de viagem para o dia de chegada e seguintes disse-lhes, com o optimismo habitual, que ainda estava no passo um – conseguir aterrar.  O Luís respondeu-me, convicto, que aterrávamos de certeza. 
Aí veio-me à cabeça a frase mais usada pelo guia Brasileiro da viagem ao Nordeste em Outubro de 2018: “Vai dar tudo certo!”

A verdade é que, ao chegar à porta, é logo dado o aviso de que o voo estava adiado por tempo indeterminado.
   -Começamos mal! - pensei.
Foi só um pequeno susto. Menos de uma hora depois, foi dada ordem de embarque.
O voo foi calmo até à altura da aproximação à pista. Ainda muito lá em cima, começamos a andar às voltas. Das duas uma, ou tínhamos perdido o slot, ou o vento não permitia a aproximação. A partir da segunda volta, comecei a seguir a trajectória do avião com a bússola do telemóvel. Terceira volta, quarta volta. A meio da quinta, o avião aponta a Lisboa por uns longos dois minutos.
   -Pronto. Acabou-se!

Cagarra (calonectris diomedea)
Mas não. A volta mais longa devia fazer parte da aproximação final. O piloto apontou à pista e, com mais ou menos turbulência e solavanco, conseguimos aterrar à primeira. Nem teve direito a palmas. Quando desembarcámos, já lá estava o avião dos meus companheiros, que tinha saído uma hora depois do meu, juntamente com mais uns seis ou sete. Ao sair, nas chegadas, lá estavam os meus amigos à espera, já com a chave do carro na mão. O passo um estava completo, com mala e tudo.

O dia continuou com uma ida à Ponta de São Lourenço, à procura do corre-caminho e do pardal-francês. Aqueles que “estão em todo o lado por lá”.  Nada feito. Nem pardal nem petinha.
As desculpas foram as do costume: “Deve ser da altura do dia, que é má”, “Deve ser do vento”. Realmente, eram três da tarde, mas eles não estão em todo o lado?
Para não ficarmos muito frustrados, resolvemos ir ao caniçal comer umas lapas. Assim não se perdia tudo.
Voltámos ao local do crime mais para o fim da tarde e, a muito custo, lá conseguimos ver um ou dois corre-caminho e um pardal. Valeu o Alexandre, que sugeriu um sítio ligeiramente diferente do que tínhamos ido antes. 

Corre-caminho (Anthus berthelotii)
O dia acabou com uma ida ao Funchal, para ver os garajaus-rosados “que estão sempre no porto” – não estavam – e para jantar um bife de atum na pedra. Das melhores coisas que comi ultimamente.

#canaldoxofred

12 fevereiro 2019

Vila Real...Felosa-Real

02/02/2019
Melanopogon: 5 horas em 3 segundos

2 de Fevereiro de 2019. Mais um dia em que estava descansado no sofá quando o céu me caiu em cima da cabeça e tive de sair de casa a correr.
Para se perceber melhor a história, faz sentido voltar uns dias atrás.



Felosa-real (foto Pedro Moreira)
Dia 30 de Janeiro de 2019, uma quarta-feira, surge no Facebook e, posteriormente na mailing list das raridades, a notícia do avistamento de uma, possivelmente duas Felosas-reais (Acrocephalus melanopogon) em Vila Real de Sto António. Os autores eram conhecidos da malta. O Ricardo Silva - que conheço pessoalmente - e o Rui Rufino, ambos observadores experientes. Toda a gente se engana - como disse alguém do meu círculo de amigos na altura - mas, a verdade é que foi logo assumido que a probabilidade de a notícia ser verdadeira era muito elevada. A única coisa estranha nisto era a pergunta do Ricardo no Facebook: 
"Acrocephalus melanopogon, Vila Real de st. António, numa zona húmida perto da linha do comboio. É comum?"


Felosa-real - finalmente a foto que desfez as dúvidas, mesmo desfocada
 (foto Nuno dos Santos)
Comum? Claro que não! Era raro. Era super mega raro! 
A Felosa-real já andava no topo da minha lista de desejos há bastante tempo. Por algumas vezes tinha pesquisado onde era possível observar esta espécie em Espanha. 
Mais uma vez, lá se instalou a habitual angústia misturada com entusiasmo. Será que estão mesmo por lá? E nesse caso será que vão ficar? Estariam de passagem? Será que vão aparecer mais notícias até ao fim de semana?  A tal espiral de pensamentos da qual é difícil sair, e em que acabo sempre por entrar. 
A verdade é que quinta e sexta não existiram grandes novidades. Quem lá foi não viu nada e quem ouviu qualquer coisa não achou que pudesse ser alguma coisa. Fui ficando cada vez mais convencido que, desta vez, iria poupar uma ida ao Algarve.
Sábado chegou tranquilo. O almoço de véspera tinha-me caído mal e achei por bem não concretizar os planos, que cheguei a ter, de ir ver marítimas a Peniche. Não estava, claramente, nos meus dias. 
Estava literalmente em pijama quando, às 9h13 o Sérgio Correia dá a notícia de que o bicho estava lá. Tinha ouvido o call e visto a cabeça a espreitar nos caniços por um instante. Aguenta coração!
Ainda antes de lhe perguntar de ele estava disposto a meter a cabeça no cepo por um "call e uma cabecita a espreitar", já estava o Pedro Marques a perguntar se ia alguém de Lisboa. 
Esperei uns minutos pela resposta do Sérgio, que foi suficientemente positiva para achar que tínhamos caso.
Apesar da meteorologia altamente desfavorável - leia-se vendaval - que colocava as maiores dúvidas ao empreendimento, rapidamente decidi que se alguém de Lisboa ia arriscar, eu também arriscaria. Se Sábado não se conseguisse, podia ser que alguém fosse Domingo e aí teríamos um segundo round. No fundo, estava disposto a ter um fim de semana alucinante. Diga-se de passagem que domingo também não tinha uma previsão muito melhor que sábado.
Ora, o Pedro, como já foi mencionado numa crónica anterior, reside na Ponta da Erva e raramente se mete nestas coisas. Por isso, percebi de imediato que se estava a preparar para seguir para baixo a toda a velocidade, se é que não estava já quase a chegar. Afinal, já tinham passado quinze minutos do aviso inicial. 
Quando o abordei, disse-me que já estava a caminho e ia só apanhar o António Gonçalves. A minha pergunta foi imediata:
   -Não me querem levar?

Acrocephalus melanopogon (foto Pedro Moreira)
Aquele supracilio não engana.
Combinámos um local de recolha e, pouco depois das 10h já estávamos a atravessar a ponte. A viagem teve pouca história. Tentámos ter as conversas do costume, para manter a tradição, mas falhámos redondamente na paragem do costume. Quando reparámos nisso já a tínhamos passado há uns quilómetros. Não é que acredite em bruxas mas, a verdade é que convém respeitar certas tradições. Mais tarde percebeu-se porquê.
A meio da viagem saiu mais uma nota do Sérgio, a jogar à defesa. Sim tinha visto o bicho, mas podia ser que não tivesse visto o bicho. Um pouco como estar no meio da estrada com um carro prestes a atropelar-nos a tentar decidir se avançamos ou recuamos. 
Bom, nós já íamos a caminho. Para nós o tempo das dúvidas tinha passado. Já não estávamos na fase do "Should I stay or should I go" que um dos meus amigos desta luta gosta tanto de usar nestas situações. Agora era uma questão de ver o que saía na roleta. Estávamos irredutíveis, apesar de termos muito mais medos do que apenas o de que o céu nos caísse em cima da cabeça.
Numa coisa estávamos todos de acordo. Este arrolamento ia ser muito complicado. Mesmo sabendo disso, lembro-me de ter dito algures no processo que achava que íamos ter sucesso e que, quando acho isso, normalmente o bicho aparece. 

Três horas de conversa e, lá para as 13h, estávamos em Vila Real de Sto. António. Decidimos seguir de imediato para o local do avistamento. Como quase sempre, as minhas já célebres e, por vezes desprezadas, coordenadas ajudaram a encontrar a estrada de terra certa. Estacionámos, voltámos a olhar para o Google Maps e, passado um quarto de hora, estávamos ao lado da charca mais importante dos últimos meses. 
É um local curioso, mesmo ao lado da linha do comboio. Por um lado é chato, pelo movimento e exposição, mas por outro acaba por nos proporcionar um acesso mais fácil ao local, e até um assento no "conforto" do cascalho onde assentam os carris. Confesso que pensava que a linha tinha menos movimento. Em vez de um ou dois, em cinco horas passaram por nós uns cinco ou seis comboios. Um deles até me apareceu pelas costas, enquanto ia a caminhar descansado pela linha. O que vale é que eles apitam de vez em quando. 


Eles passam perto... (vídeo Nuno dos Santos)

Em termos de aves é que a coisa não estava famosa. O vento não ajudava nada. Na charca só umas quantas felosinhas. Cantos ou chamamentos, nada. Os minutos foram passando e nenhum de nós conseguiu transformar as felosinhas na felosa-real. 
Após algum debate sobre os próximos passos, lá para as 14h30 resolvemos ir comer qualquer coisa, para estar com os sentidos mais despertos ao final da tarde, altura tradicionalmente melhor para observações. Por outro lado, o vento às 17h estaria no mínimo do dia. Após um repasto digno de um rei - uma sandes de queijo e um caracol seco - voltámos rapidamente para o posto. Teria decorrido pouco mais de meia hora.

Mais uns minutos, chega um dos proprietários da zona, o Gonçalo Elias, que eu e o Pedro Marques tínhamos tido o cuidado de avisar. A tarde foi decorrendo, connosco a olhar para aquela meia dúzia de metros. O Pedro e o António ainda fizeram umas incursões a outra área promissora uns cem metros mais à frente. Pelo meu lado, estive quase sempre mais concentrado na charca. Sobretudo numa área onde conseguia ter mais visibilidade, sentado no cascalho da linha. Costumo ter mais sorte quando estou sentado, pensei. Já conhecia cada caniço de cor. Malditas felosinhas que não se transformavam na felosa!

E assim chegamos às 17h, altura em que estava a olhar para as canas, em amena cavaqueira com o Gonçalo, que estava de costas para a charca. Devo ter-me apercebido de algum movimento com o olhar, porque levei instintivamente os binóculos ao rosto. Foi  atónito que vi que o movimento era, não da felosinha que esperava, mas da felosa-real, que já nem eu, nem ninguém, esperava. Passou da direita para a esquerda, rente à água, bem ao fundo da clareira à minha frente. O padrão da cabeça e a cor dos flancos não me deixou margem para dúvidas. É como se costuma dizer, quando é, não há dúvidas. Como sempre, não me lembro bem das palavras usadas. Julgo ter sido qualquer coisa como "Olha! olha! É a gaja! É mesmo! É mesmo! É a gaja!" tão depressa o disse, tão depressa ela desapareceu. O Gonçalo virou-se rapidamente, o Pedro e o António vieram a correr. A verdade é que ninguém mais viu nada. Quando lhes consegui apontar o local exato, já o bicho ia a chegar ao Porto. 
Fiquei com as mãos na cabeça, incrédulo. "Era a gaja! Era ela! Aíííííí! Não acredito!". Lembro-me de o António afirmar que a minha cara dizia tudo. A observação durou uns três segundos, mas foram daqueles que valem anos, em que o tempo pára.


Felosa-real (foto Nuno dos Santos)
Passei o resto do tempo, até à última réstia de luz, a escrutinar em desespero cada centímetro da charca, para tentar reencontrar o bicho para os meus companheiros de sofrimento. Até cheguei a dizer-lhes, mais de uma vez, para falarem menos e procurarem mais. Não me lembro de quem disse "Olha, olha, nós é que não vimos e ele é que está chateado!". 
Enfim, fosse como fosse, quando decidimos bater em retirada, lá para as 18h, só eu é que tinha sido o contemplado com a sorte grande. Pedi-lhes desculpa várias vezes. "A culpa não foi tua. Foi da melanopogon!" 
  - E agora?! O que é que eu faço? 
Já me aconteceu mais de uma vez ser o último do grupo a ver uma ave, agora ser o único, nunca me tinha acontecido. 
  - Tens de dizer ao pessoal que viste o bicho. 
  - Pois tenho... 
Lá me enchi de coragem e, depois de o António avisar o pessoal com um solene "Habemos SONP na Melanopogon!(*)", assumi o que tinha visto e forneci o pouco que tinha, ou seja, a descrição do que observei. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. 
É sempre uma situação complicada, ter de assumir um risco destes sem evidência mas, como não costumo ter alucinações, o que vi, vi, e havia que partilhar com a malta, que esperava ansiosamente por novidades. 
Cinco horas de seca, três segundos de êxtase.


Felosa-real (foto Nuno dos Santos)
Aqui está a descrição que partilhei na altura:
Vista durante cerca de 3s junto à água (a cerca de 10cm De altura). O local de avistamento estava à sombra. A distância seriam cerca de 8m e foram sempre utilizados binóculos. 
Cabeça e coroa de aspeto geral muito escuro, sendo que a coroa parecia preta. Supracílio de cor branca, largo, passando claramente o olho. Contraste espetacular entre a cabeça e o supracilio, quase parecendo que o mesmo teria sido pintado a corretor ortográfico, mesmo nas condições descritas. 
Flancos limpos - sem riscado - de um tom castanho vivo (quente talvez seja um termo correto e bem usado pelo Sérgio Correia para o descrever). Levantou muito a cauda uma vez tendo-se movimentado um pouco nessa postura. O movimento decorreu sempre em pequenos saltos de poucos centímetros e sempre a cerca de 10cm da água.

Foi um regresso agridoce. Vim para cima de coração apertado, com um peso enorme na consciência. Achava injusto que os meus companheiros não tivessem sido premiados. O café e bolachas que lhes paguei no caminho foram fraco consolo. Fiz-lhes também uma promessa solene, a de voltar ao local com eles, para vermos a felosa em conjunto.
Chegamos, assim, à grave lição a retirar desta mini-odisseia:
Pelo sim pelo não, quando se vai ao Algarve num twitch é melhor fazer a paragem do costume na área de serviço do costume. 
Outra nota, para ver Felosa-real, obviamente que o local indicado é Vila Real (de Sto. António).

Epílogo: no dia seguinte, domingo, começaram a surgir as muito esperadas evidências: Algumas gravações. O Sérgio conseguiu também uma observação mais prolongada da ave completa, que serviu para confirmar o que já tinha visto antes.
Na segunda-feira, o Nuno dos Santos - like a boss - conseguiu finalmente as fotos que faltavam. Fracas, mas preciosas.
Estava mais que confirmado que o bicho era complicadíssimo. De observar e de fotografar. 

Resta-me agradecer ao António Gonçalves e Pedro Marques, pela companhia, e ao Nuno dos Santos e Pedro Moreira pelas fotos e vídeo que ilustram esta crónica. 
Por fim ao Ricardo Silva e Rui Rufino, pela formidável descoberta e rápida divulgação.

(*) SONP - Single observer, no photo. 
Gíria usada pelos birders, quando apenas um observador viu a ave e não há fotos que confirmem a observação. É uma situação difícil e indesejável. 

#canaldoxofred 

17 novembro 2018

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

10/11/2018
Romaria no Baixo-Vouga

O Perna-amarela-grande (tringa melanoleuca) era, desde há anos, uma ave do topo da minha lista de desejos. Nas minhas quatro viagens ao Brasil nunca tive a sorte de me cruzar com um, e isso só fez com que a sede aumentasse. Em Portugal havia apenas quatro observações até à data, sendo a última em 2011, com uma foto em voo e uma identificação posterior.
Com este panorama, nunca tive muita esperança de ver um por estas bandas.

Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
É uma ave bonita e elegante, de dimensão razoável.
Contudo, por outro lado, em termos de raridades, as coisas andavam muito imprevisíveis ultimamente, com a chegada das aves que apelidei como “filhas do furacão”.
Nas últimas semanas tinham sido descobertas em Portugal uma juruviara-boreal, dois socó-mirim, um falaropo-tricolor. Tudo aves do outro lado do Atlântico. Em Espanha havia também sinais de que as coisas estavam ainda quentes. Era mais ou menos consensual entre a comunidade que haveria e haverá por aí muitas raridades americanas ainda por descobrir. Restava apenas esperar que o que fosse descoberto fosse arrolável, por um lado, e aparecesse o mais próximo do fim de semana possível, por outro.

Mais uma vez, como quase tudo nesta vida, a realidade não replicou o sonho. 
Dia 7/11/2018, uma quarta-feira, aparecem no "Fórum Aves" umas fotos que, desde o primeiro minuto, não deixaram dúvidas a ninguém. Estava um perna-amarela-grande no Baixo-Vouga, descoberto pela Ana Botelho e Tiago Carvalho. E agora?!

Com uma semana cheia de compromissos profissionais, tive mais uma vez de me sujeitar à espera angustiante da chegada do fim de semana. Logo no próprio dia da descoberta, as tentativas de relocalização durante a tarde foram infrutíferas. Na maré cheia o local fica alagado e do bicho nem sinal. A dúvida instalava-se.
Restava esperar pelo dia seguinte, Quinta-feira. 

O suspense não durou muito. Às 8h40 já havia notícias de que o bicho estava à vista. 
Nesse dia, mais um grupo de observadores teve a sorte de ver a estrela. Desta vez mais em cima das 9h. A maré avançava um pouco todos os dias e os avistamentos avançavam com a maré. A mim, o reavistamento só aumentou a angústia. O bicho estava ao alcance, mas sexta-feira estava fora de hipótese. 


Perna-amarela-grande - foto Luís Rodrigues
Sempre à distância
As contas estavam cada vez mais difíceis. A meteorologia do fim de semana estava muito complicada. Domingo era dia de dilúvio. Chuva contínua. 
Restava, assim, o sábado. Apesar de chover muito de madrugada, iria haver uma aberta a partir das 8h. A escolha parecia simples, mas não era. Nesse dia tinha um almoço em Lisboa ao qual era proibido faltar. Se fosse ao bicho no sábado teria de sair às 10h, o mais tardar. 
Com uma janela de tempo tão pequena, a viagem teria de ser a solo. Obviamente, ninguém se queria juntar a um plano com tantas variáveis, onde basta um cabelo para o comboio descarrilar. Sentia-me como o caracol no fio da navalha. Aquele de que fala o Marlon Brando no célebre monólogo do "Apocalipse Now".

Resumindo, as condicionantes eram "poucas". Havia o tempo instável, a maré a avançar meia hora todos os dias e os minutos contados. Além disso a distância era razoável,  viajaria sozinho e a chegada a Lisboa teria de ser no máximo às 12h30. Tudo sem stress, portanto. Como disse aos meus companheiros de loucura "Para quem gosta de adrenalina, sábado é o melhor!".  

Claro que havia também a hipótese de ficar em casa mas, seguindo a máxima de "quem dá o que tem a mais não é obrigado", decidi arriscar. 
Para maximizar o tempo no local e minimizar o cansaço, comecei a pensar em ir para cima sexta à noite e, como quem tem amigos tem quase tudo, o António Martins ofereceu logo a sua casa, a 15 minutos do local, como base. "Dormes cá em casa!". 
A hospitalidade do norte no seu melhor, e melhor era impossível. 

O plano ficou completo já a tarde de sexta ia bem avançada. Lembrei-me de uma frase muito usada na minha última viagem ao Brasil, em Outubro. "Vai dar tudo certo!". Os dados estavam lançados. 


Perna-amarela-grande - foto Pedro Marques
Saí do trabalho, agarrei na trouxa e arranquei para cima. Às sete e pouco já estava na A1. Cheguei a Azurva por volta das 21h30, sem apanhar uma gota de chuva no caminho, tal como previsto. O Windguru parecia estar certo e o plano estava a começar bem. 

Os meus anfitriões incluindo a simpática cadela - Farrusca - receberam-me de braços abertos. Consegui dormir a noite quase toda. Um luxo, apesar de os nervos me obrigarem a acordar mais cedo que o costume. Tudo normal, portanto.

Apesar de saber que não ganhava nada em chegar muito cedo, porque a maré ia estar muito alta, estava no local ainda antes das 8h. Começava a espera enervante mas, pelo menos desta vez, esta não poderia ser longa, infelizmente. 
O pessoal da zona e arredores começou a chegar. Acabámos por nos ir espalhando pelos vários pontos de observação onde o bicho já tinha sido avistado nos dias anteriores. Mais uma meia hora, e já lá estava um carro do Ribatejo e outro de Lisboa. Já dava quase para fazer uma equipa de rugby com suplentes e tudo. 

Numa ocasião reparei no Luís Rodrigues e no Paulo Leite, que tinham passado por mim de carro, irem para uma zona mais à direita, e a andar em cima do dique. 
Por volta das 8h30 ligaram ao Pedro Moreira a dizer que o tringa tinha aparecido em voo perto deles. Havia foto e tudo. Teria vindo do outro lado do dique, juntamente com um perna-verde, investigar o estado da maré e teria regressado à procedência, quando viu que ainda havia muita água. Maldita maré, que nunca mais descia. 
Escusado será dizer que para o outro lado do dique a visibilidade era zero.  

A aparição inicial do dia - Foto Paulo Leite
"Menos mal", pensei. O bicho ainda andava por ali. Também pensei que bem que podia  mas era ter passado junto ao meu posto. Aguenta coração!
A espera continuou. Mais uma volta de carro e resolvi ir para o local do avistamento inicial. A ideia era que ele acabaria por ir para lá mais tarde ou mais cedo. Porque não? Era uma estratégia tão boa como outra qualquer. 
A verdade é que a água continuava alta e o bicho não aparecia. Mais cinco minutos, mais quinze minutos, mais meia hora. Nove horas. Nove e meia. Nada. 
Comecei a fazer contas de cabeça. "No limite, se sair às dez e meia e for para baixo à velocidade da luz ainda consigo chegar a tempo". O stress aumentava, aumentava, aumentava. Raio do bicho que nunca mais aparece!

À bonita hora 9h49, toca o telefone. Era o Paulo Alves. "Pegas no carro, metes a primeira e vens ter ao sítio onde estavas há bocado!". Nem quis ouvir mais nada, nem olhei para trás. Passei a informação ao Luís Rodrigues e ao Paulo Leite, que estavam comigo, e segui a correr para o carro. Correr é como quem diz, qualquer coisa entre o andar rápido e o correr sem tirar os pés no chão. Aquela figura ridícula que se faz quando os joelhos já tiveram melhores dias. Segui a toda a velocidade pela estrada alagada e cheia de buracos - another one drives the Duster. Um minuto depois estava no local referido. Nada! Nem carros nem pessoas. Mau... 
Liguei ao Paulo. 
   -Onde é que vocês estão? Não está aqui ninguém!
   -Continua em frente! Segue! Segue! Estou a ver o teu carro! Vira à esquerda no fim da estrada!
Percebi que estava a caminho do dique, com a estrada cada vez mais alagada. Quando passava nas poças a acelerar a água subia acima do tejadilho.  
   -Paulo, isto está cheio de água! Vou ficar atascado!
   -Bora! Segue! Se o carro do Pedro Moreira passou, o teu também passa! - e passou.
Lá comecei a ver pessoal em cima do dique e os carros parados. Saí do carro e subi para junto da malta.
   -Está à vista? 
   -Não, pá! Voou para o outro lado das canas, mas está ali.
"Que surpresa!" - Pensei.
Mas todos os malandros têm sorte. Passado mais um ou dois minutos o pessoal mais à direita detetou o tringa. Apontei os binóculos e lá estava ele. Umas fotos, uma olhadela num telescópio emprestado. Perna-amarela-grande...Check. 
Olhei para o relógio. Eram 9h57! Adoro quando um plano dá certo! 


Um dos meus fracos registos. Não se pode ter tudo...
Abro um pequeno parêntesis para só para contar o que consegui apurar sobre este segundo avistamento do dia. O pessoal de Lisboa, Rui Machado, Pedro Marques, António Gonçalves e Bruno Herlander Martins resolveu ir para o dique e a dada altura o malandro do bicho passou por eles e pousou na lama bastante perto. Telefonaram ao Pedro Moreira que chamou o pessoal do Ribatejo. O Paulo telefonou para mim, e pronto. Assim se faz a alegria do povo.

Mais umas dezenas de fotos, mais uma olhadela nos binóculos, mais umas espreitadelas nos telescópios e, claro, uns palavrões para aliviar a tensão acumulada. 10h05.
   -Já te vais embora? - perguntaram-me.
   -Já. Estás a imaginar o stress, não estás?
As fotos não ficaram grande coisa. O bicho estava longe e o tempo manhoso. "Querias o quê? Tudo?", pensei.
Tive pena de não ter ficado mais tempo. Podia ser que o bicho se aproximasse. 
Contudo, parece que nesse dia ele manteve sempre a distância, e não foi para os locais onde andou nos dias anteriores, segundo consegui apurar.

A foto de uma família feliz. Mais uma vez fiquei de fora...
foto Pedro Moreira
Já só faltava o mais difícil. O regresso. Depois de levantar água em mais umas poças, lá consegui regressar ao alcatrão e seguir para Lisboa. E se chove? E se o carro avaria?
Nada. Deu mesmo tudo certo. Chuva, sim, mas nada de especial. Às 13h20 estava sentado à mesa do restaurante, com Lisboa aos pés e o castelo em frente, no cimo da colina. Com o tringa e a vista, sentia-me mesmo nas nuvens. A meio do almoço, começou o dilúvio.
Tudo dentro do plano. Há dias assim.

Uma nota final para agradecer a ajuda de todos nesse dia, a começar pelo António Martins e esposa. Também para agradecer ao Luís Rodrigues, Paulo Leite, Pedro Marques e Pedro Moreira as fotos que ajudam a ilustrar esta crónica.

Epílogo: 
Apesar de na altura ter a forte convicção de que o bicho ia ficar uns meses, e inclusivamente ter dito aos meus companheiros que voltava lá no Natal, para o filmar e fotografar com calma, a verdade é que, desde esse dia, o perna-amarela nunca mais foi visto por ali. Pelo menos até à data em que escrevo esta crónica. 
É daquelas coisas que nos deixa a pensar...

#canaldoxofred