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28 maio 2021

Limpeza na Terra dos Impérios

Março de 2021 - Ilha Terceira

Há já alguns anos que tinha na cabeça um regresso à Ilha Terceira. No meu caso, tenho sempre a ilha na cabeça e no coração, por razões óbvias mas, a verdade é que já há vinte anos que não tinha o prazer de aterrar nas Lajes.

Um dos residentes mais célebres da ilha, ornitologicamente falando - Carlos Pereira - já tinha falado comigo várias vezes ao longo dos últimos anos sobre as virtudes da mesma e, em particular, do Paul do Cabo da Praia. Desde aí, meti a viagem na lista.  

Império do Divino Espírito Santo da Vila de S. Sebastião

Os longos meses de pandemia foram, cada vez mais, restringindo as viagens, física e psicologicamente. Contudo, as três deslocações profissionais a S. Miguel em 2020 acabaram por tornar cada vez mais claro que os Açores eram um oásis no meio do Atlântico. O risco de se ficar preso nas ilhas é real, e já nem estou a considerar a meteorologia. Pode acontecer ter um teste covid positivo antes de ir ou, pior, ter um teste positivo ou contacto de risco, estando lá. Todas estas hipóteses são possíveis e implicam perda de dinheiro mas, haja saúde, que é o mais importante.

A verdade é que decidi, já muito em cima da hora, ir à Terceira no final de Março. Além dos já "residentes" batuíras-de-bando (borrelho-semipalmado - charadrius semipalmatus), andavam por lá um maçariquinho (pilrito-anão - calidris minutilla) e uma garça-real-americana. Americanada não faltava. Apressa-te, disse o Carlos, esta bicharada costuma sair toda de cá em meados de Abril. E eu fui com pressa. Só tinha 3 dias. Era apertado mas não queria fazer o teste covid do sexto dia. Quanto menos complicado melhor. 

Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)

Dia 27 de Março aterrámos no destino. Ainda estávamos a acabar de alugar o carro quando o Carlos Pereira fez a sua aparição. No seu estilo simpático e expansivo estendeu-me a mão imediatamente. Já tinha vivido esta cena na minha cabeça e pensado como havia de reagir. Há mais de um ano que não apertava a mão a ninguém. Obviamente, estendi a mão e apertei a de quem a estendia para mim com toda a confiança. Em Roma, sê Romano. Nessa altura a Terceira tinha exatamente zero casos ativos. Andava tudo à vontade. As máscaras também desapareceram rapidamente, e lá seguimos juntos para o primeiro destino, o Paul da Praia da Vitória. 

"Os borrelhos e o minutilla são garantidos.", disse ele no caminho.  "Está bem, está bem, pá. Mas eu quero é ver os bichos e depois digo-te.", pensei.

Era nesse Paul, inserido em plena cidade que a garça-real-americana costumava fazer as suas aparições. A questão era que ela já não era vista, ou pelo menos, reportada, há mais de 10 dias. Podia ser apenas uma questão de ser um local pouco visitado, para um otimista, ou o bicho já ter ido à sua vida, para um pessimista. A verdade é que, dos três objetivos da viagem, era neste que tinha menos fé.
Saímos do carro, dei uma volta rápida com os binóculos e a primeira impressão foi que não estava grande coisa à vista. Uma ou duas garças, um bocado longe, uns quantos galeirões e pouco mais. "Bom, vamos lá montar o telescópio." 
Olhei para a primeira garça e a achei que era muito arruivada. "Carlos vê lá esta. Parece-me arruivada". "É ela é!". 
Exultei. Uma onda de adrenalina encheu-me as veias. O mais difícil estava feito e o resto do fim-de-semana ia com certeza correr bem. O Carlos olhou para mim, com cara de gozo quando me viu fazer um gesto parecido com o que fazem os futebolistas ao marcar golo. Cada um é como é...
Ainda deu para a vermos alguns segundos mais mas, ela deve ter-se sentido observada e levantou voo pouco depois. Ainda demos a volta ao paul, mas ela tinha mesmo ido para ouras paragens. Como fez ela, assim fizemos nós.

Garça-real-americana (Ardea herodias) - descolagem

Ainda não eram onze horas e, esperava eu ir dali direto para Meca - como alguém já lhe chamou. A verdade é que não foi assim que o guia entendeu. "Ah e tal, vamos ali passar no porto de pesca. Ah e tal, vamos ali ao Paul do Belo Jardim." Tudo com uma calma incrível. Do meu lado o stress ia aumentando. Só pensava no maçariquinho e nos batuíras-de-bando. "Oxalá ainda lá estejam os bichos. Oxalá não estejamos a perder tempo". Ia a conduzir, mas já não via nada à frente.

Só às 11h30 é que chegámos, finalmente, ao Paul do Cabo da Praia. A ansiedade foi aumentando à medida que nos aproximávamos. Quando pousei a tralha e comecei a observar o que nos rodeava logo me apercebi que o local não tinha nada a ver com tudo o que tinha visto até ali nos Açores. O Paul estava cheio de limícolas. Não era uma aqui e outra ali. Eram mesmo muitas. Com o telescópio fomos dando nome ao que víamos. Perna-vermelha, combatente, seixoeira, e mais umas quantas espécies. Tudo boas aves para a região, mas para mim é que era demasiado pouco ou nada. Lá se viu um ou outro borrelho, mas não eram os almejados batuíras, e muito menos a jóia da coroa, o maçariquinho. "Sempre a mesma coisa", pensei, "isto comigo nunca é fácil". 
Entretanto, o Carlos viu o que achou ser um batuíra. As diferenças para um borrelho dos nossos são muito subtis e, por isso, ninguém  estava muito convencido. Vimo-lo no telescópio uns segundos, até que levantou, fazendo o chamamento característico. "É mesmo!", diz o Carlos, acostumado a ouvi-los todo o ano. 
 
Batuíra-de-bando ou borrelho-semipalmado (charadrius semipalmatus)
A foto não está grande coisa, mas permite ver a membrana

 
Um já estava. Mal e porcamente, mas estava. Maçariquinho é que nada. Continuei a espreitar para todo o lado, sem sucesso. Estava cada estava vez mais ansioso, e cada vez mais espantado com a tranquilidade do Carlos. Pelos vistos, os nervos estavam todos do meu lado.
Às tantas, ao fim de uns bons vinte minutos, uma luz ao fundo do túnel:
 -Ele costuma estar ali para trás. Vamos lá.
"Bolas, este tempo todo a ver a Natureza, e o bicho à nossa espera lá para trás?", pensei. "Vamos mas é para lá e em força".

Nem cinco minutos se demora a chegar a esse segundo ponto de observação. É mais tranquilo e resguardado, e até tem um banco muito confortável, em basalto. Tipo um calhau da calçada, mas com trinta centímetros de lado.
Ainda estava a montar o telescópio quando ouço a palavra da salvação. "Está ali!". Cinco ou seis passos e já estava com os binóculos apontados. A pergunta do costume, "Onde?" ainda me saiu, mas mais uma indicação ou duas e lá estava ele. "Vês, aquele mais escuro?". E era. Era escuro e minúsculo. As pernas amarelas ainda demoraram a aparecer, porque ele estava atrás de um montinho de terra, mas estava feito. Bem bonito, o bicho.

Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)

Ainda não era hora de almoço do primeiro dia, e o fim de semana estava mais que ganho.  Under the belt before lunch...
Melhor era impossível e ficou provado que, às vezes, é possível ser otimista. Nunca será o meu caso, mas fica a nota. 
Veio-me à cabeça a música, "Os milagres  acontecem horas incertas", apesar de claramente, não se tratar de um milagre e até ter tido, praticamente, hora marcada. 
Estava explicada a calma do Carlos. 

Como o local é espetacular, com os bichos muito perto, ainda ficámos por lá pelo menos mais uma hora. Foi fotografar e filmar e filmar e fotografar. 

Saímos sem pressa, para ir almoçar. Já era quase hora de almoço em Espanha - 14h - quando começámos a pensar onde é que se havia de ir comer qualquer coisa. O dia, para nós, tinha começado às duas da madrugada, hora dos Açores e a fome apertava.  
Aceitámos a sugestão do guia e fomos comer uma sandes de alcatra a uma espécie de padaria. Não sei se era da fome, mas pareceu claramente a melhor sandes de alcatra que tinha comido na vida, quanto mais não fosse, por ser a primeira. 

O intervalo na passarada foi curto. Passado menos de uma hora seguimos caminho.

Galinhola (Scolopax rusticola)

Durante o resto da tarde, fomos a campos agrícolas, a miradouros, eu sei lá. Demos quase a volta à ilha, para ver o que lá andava. As espécies residentes iam aparecendo. Foi especial ouvir a vocalização nupcial das narcejas, que apenas tinha experienciado numa outra ocasião, no leste da Europa. Assim é muito fácil perceber que o nome popular, cabra-do-ar está muito bem escolhido.
Por volta das 17 horas, as pernas pesavam. Já sonhava com um banho e com o hotel. Mas o Carlos estava incansável. Queria incluir uma ida às galinholas antes do jantar que, estava mais que acertado desde há dias que seria em casa dele. 

Cabra-do-ar (gallinago gallinago)

O cansaço era muito, mas quem se pode atrever a recusar um possível avistamento de galinhola? 
Lá teve de ser. Fomos pousar as coisas ao hotel e combinámos um encontro ao anoitecer, algures no meio de nada, tipo agentes secretos. 
Ainda deu para um duche rápido e chegámos pontualmente, quase como novos, ao nada que era o ponto de encontro. Já lá estava o Carlos à espera. 
A luz ia escasseando. O silêncio imperava, apenas entrecortado pelo som dos melros, piscos e estrelinhas da zona. 
Mais uma vez, contra a minha espetativa, as galinholas começaram a passar quase de seguida. Uma e outra e outra e outra. Algumas bem perto. Até deu para fazer uns borrões com a máquina fotográfica. Só sei que, na hora que lá estivemos, entre avistamentos e audições, registámos 22 contactos. Foi mais uma experiência incrível! 

Galinhola (Scolopax rusticola)

Restava ir jantar, o que não era pouco. Migas de espargos crescidos na própria quinta. 
A receção foi calorosa. A anfitriã Cecília, o filho Alexandre, os cães e os gatos. Toda a família nos veio receber. Nem senti o cansaço. O repasto estava muito bom e a conversa também. Nem se deu pelo tempo a passar. 
Só chegámos ao hotel por volta da uma da madrugada. Quase vinte e quatro horas sem dormir, mas tinha valido a pena. Não há muitos dias assim.

No dia seguinte começámos mais devagar. Depois de um excelente pequeno almoço, fomos buscar o Carlos a casa e demos mais umas voltas. Não faltou uma ida ao Queijo Vaquinha, um dos ex-libris da ilha. O pessoal do Continente não sabe o que perde...
Foi mais uma manhã bem passada. À hora de almoço, o Carlos foi às sua vida, e nós à nossa.
 
Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)
 
Depois de almoço, era obrigatório ir a Meca outra vez. Lá estava o meu amigo maçariquinho e os batuíras. Uma espécie mais rara que lá conseguiu aparecer foi o Ruben Coelho. Depois de tanta conversa virtual, conseguimos finalmente estar face a face. Pensado bem, era difícil conceber um local melhor para esse evento que o Paul do Cabo da Praia. Tinha mesmo de ser aí. 
Entre as minhas atividades de realização e fotografia, conseguimos encaixar uns dedos de conversa. Já calculava, mas constatei rapidamente que é um defensor do Paul e da Terceira. Há destinos piores, isso mais que certo.

O fim de semana passou depressa. No dia seguinte já era dia da partida. Ligámos o modo turista e fomos a Angra, ao Monte Brasil, onde quase fomos atropelados por um gamo e, finalmente, a S. Sebastião, ver o império da freguesia. O Carlos já tinha avisado que era bonito. E é mesmo. Este e a igreja valem bem um desvio. 
O ponto alto do dia foi o almoço com a família Pereira num dos restaurantes mais conhecidos da ilha. Lapas e peixe do mar Açoreano, com sabor a triunfo. Desta vez, até me lembrei de registar o momento para a posteridade.


Almoço em família

O almoço acabou tarde mas, antes de seguir para o aeroporto ainda voltámos ao Paul da Praia, para rever a garça-real-americana. Mais uma vez, mostrou-se tímida. Não se deixou filmar e levantou vôo assim que se sentiu observada. Apesar de tudo, achei que não me podia queixar muito. "Tomaram muitos!", pensei. Não se pode abusar da sorte.

Ao final da tarde, seguimos para casa. A Terceira, e os Açores tinham sido generosos. Foi uma limpeza, na Terra dos Impérios.

Império da Caridade - Praia da Vitória

Resta-me agradecer ao Carlos pela ajuda incansável, estendendo o agradecimento à família pela hospitalidade. 
Deixo também um abraço ao Ruben. Obrigado pela ajuda.
As viagens são ainda melhores quando nos sentimos em casa. 


02 dezembro 2020

Especial nos Mosteiros

08/11/2020 - S. Miguel - Corvo-marinho-d'Orelhas

Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Em 2020 - ano espetacular a não recordar - fui a S. Miguel em Janeiro, em trabalho e fui a S. Miguel em Julho, em trabalho, com Covid. Como não há duas sem três, fui a S. Miguel em Novembro, em trabalho, com Covid. Nos dez dias previstos desta última viagem, consegui  meter um dia para o conhaque. Tomaram muitos!

Com partida a 4 de Novembro, comecei logo no início de Outubro a seguir o que se passava na Ilha. Isto, claro, no que respeita ao conhaque, ou seja, a passarada. Os Açores são sempre uma caixinha de surpresas. Apesar do Outono estar no fim, há sempre uma ou outra estrela que vai aparecendo. A maioria aparece e desaparece passado uns dias.
Lá fui vendo o que se passava e comecei a seguir o influxo de corvos-marinhos-d'orelhas (phalacrocorax auritus) nas ilhas. Neste caso, até era um bom ano para um influxo destes, sobretudo porque podia ser que sobrasse algum para mim. 

Corvo-marinho-d'orelhas

Então mas não é só um corvo-marinho? Por um lado sim, mas este é Americano e tem o bico coberto de ouro.

Foram pingando um pouco por todo o lado. Faial no dia um, Terceira no dia cinco, Corvo dia oito. Obviamente que, quanto mais longe da América, menor a probabilidade. Será que S. Miguel tinha hipótese? "Bingo!" Foi o que li no Facebook no dia quinze. Um dos poucos observadores residentes descobriu um nos Mosteiros, noroeste da ilha. A adrenalina começou a fluir. Só no dia oito de Novembro, três semanas depois, é que ia ter a minha oportunidade mas, os ilhéus dos Mosteiros nunca mais me saíram da cabeça. O influxo continuou, com mais aves a aparecer, um pouco por todo o lado. Até houve mais outra ave nos Mosteiros no dia 25. 

Será que alguma se aguentaria até dia oito? Havia histórico de invernada da espécie no arquipélago, inclusivamente nos Mosteiros mas, é como dizem no futebol, o histórico vale pouco. O que interessa é o jogo em questão. 

Dia oito nunca mais chegava. Antes da partida contactei o Ruben Coelho. É sempre bom avisar a malta da zona, quando vamos aos seus domínios. Sempre disponível, foi com ele que fui partilhando e discutindo as minhas ideias para o pouco tempo livre que teria no dia D. 

Tardou, mas chegou. O plano era apostar tudo nos Mosteiros. Não havia mais nenhuma estrela para mim naquela ilha. Era all-in nos Mosteiros. O risco era claramente elevado. Não havia notícia dos corvos há uns quinze dias. S. Miguel tem poucos observadores. Seria apenas um caso de ninguém mais lá ter ido? Em breve saberia.

Corvo-marinho-d'orelhas
O vídeo possível a 320m de distância

Achei que não seria necessário madrugar muito, e tomei mais um pequeno-almoço de luxo no hotel, antes de ir. O dia ia ser longo e o que é bom é para se aproveitar.

De Ponta Delgada aos Mosteiros ainda é quase uma hora de carro. Fiz a viagem cheio de esperança. Dei por mim a pensar que era um privilegiado. O percurso é panorâmico, e a descida para os Mosteiros de cortar a respiração. Foi muito bem disposto que liguei para Lisboa a dar os bons dias. A hora H aproximava-se. As ruas eram estreitas. Manobrei o carro com cuidado até à ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Por volta das nove horas estava a estacionar. 

Foi com o coração aos saltos que me sentei num banco de pedra a olhar para o rochedo. Mais de um mês a pensar neste momento. 

A verdade, verdadinha, é que só vi gaivotas e pombos. Voltei a olhar para todo o lado. Gaivotas e pombos, pombos e gaivotas. Não é possível... Não havia corvo para ninguém. De nada adiantaram as vinte vezes que voltei a olhar para lá. Nada! Esperei mais uma meia hora. Já que estava ali...
Nada de nada! Havia que aceitar. Esta estava perdida. 

Era uma possibilidade. Infelizmente, a pior de todas mas, havia que aceitá-la e seguir em frente. Ainda pensei que os corvos podiam simplesmente andar à pesca e, que poderia valer a pena voltar passado algum tempo. Na verdade, já não acreditava nisso mas, a probabilidade existia e não era negligenciável. 

Corvo-marinho-d'orelhas

Passava pouco das dez horas quando assumi a derrota. Levantei-me, peguei no carro e segui para as piscinas naturais, um ou dois quilómetros mais a norte. A Natureza é muito bonita... Explorei-as a todas com passo de condenado, cabisbaixo e de ombros caídos. As aves observadas foram poucas. Uma rola-do-mar, uma garça, alguns estorninhos. A depressão instalava-se a toda a velocidade. 

Um pouco depois das 11h o telemóvel começou a tilintar. Era o Ruben a saber se tinha tido sorte:

-Nem por isso...
-Tens de ter paciência. Os das outras ilhas ainda estão.
-Ainda lá vou voltar, pode ser que ele estivesse a pescar (nem eu próprio acreditava nisso).

E o bom filho a casa torna. Eram cerca de 11h30 quando me voltei a sentar, sem esperança, no banco de pedra na ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Com os binóculos em riste, lá comecei a ver o pequeno quadrado inclinado lá no cimo.
Gaivota, gaivota, pombo, gaivota, pombo, gaivota, coiso, gaivota. Coiso? 'Pera, volta para trás. Ataque cardíaco. Coiso preto? Dois coisos pretos granditos? Hum?! Dois corvos marinhos, bico dourado. Bum!!! Não era um, eram dois auritus.

Só comecei a acalmar-me quando tirei as primeiras fotos e gravei o primeiro vídeo. Afinal era possível, um twitch a cinco semanas e 1500km de distância, atravessando meio oceano. 
Senti a adrenalina nas veias. Tinha conseguido. 

Comecei o rescaldo. Primeiro telefonei para casa. Depois voltei a falar com o Ruben:

-Uhu!!! Dois corvos! 

Tinham passado vinte minutos desde a última troca de mensagens. Do inferno ao céu, como as coisas mudam em vinte minutos...
Restava o restante, ou seja, comemorar. Voltei a olhar para a barraquinha de couratos que tinha visto chegar no início da manhã.
-
Tem cerveja?
-Sim, tenho Super Bock e imperial Especial.
-Então venha lá uma Especial... - nos Açores sê Açoreano.

Uhu! Dois Corvos!

Era a barraquinha certa no lugar certo. Estava a pagar quando, para meu espanto, o dono começa a discorrer sobre a temática do momento, pelo menos para mim:

-Sabe, estão dois pássaros pretos no ilhéu, que vieram da Índia.
-Da Índia?
-Sim, estão lá sempre a apanhar sol. São giros.

E esta, hein?!

Realmente havia uma pequena incorreção, uma vez que até podem vir da Índia, mas é da Índia Ocidental e não da "nossa" Índia que é a Oriental mas, pelos vistos, em vez de ter andado cabisbaixo durante duas horas, bastava ter perguntado ao dono da zona. Sabia lá eu disso, quando vi o homem a armar a barraca duas horas antes. 

Dizem que a definição de um alcoólico é quem bebe sozinho. Foi com isso em mente que troquei algumas palavras com o senhor da barraquinha, para disfarçar e não parecer um bêbado. "Deixe-se estar à vontade!". A hospitalidade dos Açores sempre presente. E eu assim fiquei. À vontade... 

Acabei a manhã a ouvir o mar, a olhar para os bicos de ouro e a beber uma Especial. Esta era mais que merecida. 

Resta-me agradecer ao Ruben Coelho, sempre atento, pela ajuda e paciência.

 

#canaldoxofred 

18 maio 2020

A Trombeta do Desconfinamento

10/05/2020 - Cabo Espichel - Pintarroxo-trombeteiro

O vírus maldito e a obrigação de confinamento em plena época de migração primaveril, atingiu o pequeno mundo dos arroladores Portugueses de forma profunda. A depressão instalou-se em força. As notícias eram poucas ou nenhumas e, desta vez, nem os ventos de Espanha serviram para nos ir animando. Os nuestros hermanos ainda estavam pior que nós. Nem de casa os deixavam sair.  
Pelo meu lado, andei a explorar o meu "quintal", como lhe chamo, sem grandes novidades além dos residentes habituais. 

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Vasco Valadares)
Entrámos em Maio. A primeira semana já lá ia. Por esta altura, já alguém tinha apelidado esta de "a pior Primavera da História". O cenário era negro e as perspectivas também não eram animadoras. 
A esperança é sempre a última a morrer e, não há mal que sempre dure mas, neste caso, se alguém me tivesse vindo com provérbios destes, eu tê-lo-ia mandado a um certo sítio. Andava muito animado, por estes dias. O desconfinamento do início do mês não ajudou muito, apesar de ser, teoricamente, um pequeno passo do início do fim do princípio deste  drama. Uma "once in a lifetime experience", e que experiência.

A verdade é que os provérbios servem para alguma coisa. Bem do fundo do buraco negro onde estamos enfiados surgiu, sem aviso, um raio de esperança em forma de fénix. Neste caso uma fénix com o bico rosa e sem chamas a acompanhar. 
Contrariamente ao que tem sido costume, desta vez a notícia apareceu no melhor dia possível. Foi no Sábado, dia 9 de Maio de 2020, já noite muito adiantada, que o Hélio Batista colocou um pedido de identificação no fórum aves. Perguntava ele se estaria a sonhar com um Bucanetes githagineus. Rapidamente recebeu a resposta. Nessa tarde, no Cabo Espichel, ele e os amigos tinham mesmo visto e fotografado um Pintarroxo-trombeteiro. A foto que acompanhava a pergunta não era má de todo e deixou toda a tribo a salivar. Aquele bico não enganava ninguém. Vim a saber mais tarde que a foto era do Paulo Diva.

Pintarroxo-trombeteiro - A foto que lançou o caos 
(foto Paulo Diva)
Desta vez fui, literalmente, apanhado a dormir. Não estava de pijama, mas estava no sofá, em frente à televisão, a fingir que via um filme. Escusado será dizer que não vi as múltiplas mensagens que me enviaram a partir das 23h. Só acordei quando me ligaram, já perto da meia-noite. Era o Vasco Valadares, que achou estranho a ausência de resposta no whatsapp durante minutos a fio. Vou já ver, disse. Então vê lá e diz qualquer coisa. O qualquer coisa foi que saíamos às 6h em direcção ao santuário. Lá ia ter de me levantar pouco depois das 5h. Não posso dizer que estivesse com saudades. Quem corre por gosto não cansa (lá vem mais um provérbio para eu mandar a certo sítio).

Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao trombeteiro, tratava-se do quinto registo para Portugal e, curiosamente, do terceiro para o Espichel. 
Agora, impunha-se a pergunta, fica ou não fica? O histórico mais recente - 2013 e 2017 - mostrava que essas aves não costumam ficar. Fosse por isso ou pelo local onde apareceu, não tinha esperança nenhuma de ver a ave no dia seguinte. 
Talvez por isso mesmo, dormi descansadíssimo as quase quatro horas disponíveis até à hora H. Nas vezes em que isso acontece normalmente o resultado é bom como, por exemplo, no caso do sula de Sesimbra - ver A Odisseia do Sula - mas nem essa lembrança me fez mudar de opinião. Às 5h45, saí de casa sem grande ansiedade. Não me passava pela cabeça ter o bicho na lista no final do dia. Não ia ver, mas lá que ia picar o ponto, ia. Não ia ser por meia dúzia de quilómetros e cinquenta minutos para cada lado que deixava de lá ir. Apanhei o Vasco no caminho e às 7h, mais coisa menos coisa, estávamos a estacionar junto à barreira da estrada, a um quilómetro do santuário. A barreira foi só mais uma má novidade trazida pelo vírus. Já lá estava também o Audi do Pedro Marques. A silhueta homem tripé, inconfundível, ia uns bons 100 metros lá à frente. Pegámos no material e seguimos caminho. O sol brilhava. Pelos vistos as previsões de chuva estavam enganadas, pensei.

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Pedro Marques)
Dez minutos de caminhada e já estávamos no ponto do encontro imediato do dia anterior. Olha para aqui, olha para ali. Nada de especial à vista. Os pardais e pintarroxos das redondezas não davam, sequer, para assustar. Por volta das 7h15 toca o telemóvel. Era o inevitável Pedro Ramalho. As questões foram as do costume. Onde é que vocês estão, quem está aí, já viram o bicho. À minha pergunta se estava na barreira da estrada, pareceu-me ouvir qualquer coisa do tipo "Vi os carros, ainda não vi foi o bicho". "Nem vais ver!" foi a minha resposta pronta. Segundo o próprio, não foi exatamente isso que ele disse mas, a verdade é que foi o que o meu cérebro processou. O Alzheimer não perdoa.

Mais uma meia-hora e chegam mais três desconfinados. O Rogério Rodrigues e o José Frade e a Ana Isabel. Pela falta de entusiasmo com que foram recebidos, rapidamente perceberam que o Trombetas não estava à vista. Lá continuámos todos a olhar em volta, sem sucesso, a meias com a amena cavaqueira do costume.
Por volta da oito e um quarto, pareceu-me sentir uns pingos ligeiros a cair na roupa. Ouço a voz da Ana Isabel, "Vem aí chuva da grossa!". Nem cinco segundos tinham passado e parecia que estávamos debaixo de uma cascata. E assim ficámos sete desgraçados no meio do (quase) nada, sem sequer uma árvore para nos abrigar. E agora!? Alguns, ainda tinham impermeável, outros nem isso. As arcadas do Santuário ainda estavam a umas boas duas centenas de metros. Podia ser na Lua, que era igual. Estávamos condenados. 
Fui o mais rápido que pude e encostei-me a um arbusto junto ao muro da mãe d'água, a umas dezenas de metros. Escusado será dizer que, quando lá cheguei já havia pouco a fazer. O impermeável ainda protegeu a parte de cima mas, da cintura para baixo era como se tivesse entrado numa piscina. Parece que outros terão tido uma outra opção, bem mais arriscada nos tempos que correm, de aproveitar a oferta generosa do Pedro Marques, e ficar a partilhar uns centímetros quadrados de um guarda-chuva minúsculo. Lá se foi o distanciamento social...

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Pedro Marques)

Nem cinco minutos durou o dilúvio. Chegou sem avisar e partiu sem dar cavaco. 
Voltei para junto da malta só para ver que já estavam a começar a arrumar a trouxa. Com a chuva e a molha a moral tinha descido em flecha. Às nove já estávamos junto aos carros, não sem nos livrarmos de levar com mais um aguaceiro no caminho. 
Tinha acabado de chegar o Márcio Cachapela. É um actor recente destas andanças, com uma figura fácil de recordar. Uma espécie de bom gigante. Nesta história acabou por se tornar no grande protagonista, como se verá.

Pois, já estamos de saída. Não, não vimos nada. O pessoal foi desistindo a conta-gotas. Vou andando, diz um. Vou para Pancas, diz o Frade. Até à próxima, diz outro. Eu e o Vasco já tínhamos decidido que íamos a uma segunda volta, assim que ganhássemos coragem e o tempo permitisse. Fomos para o carro  pensar na vida. O Márcio, mesmo com o pessoal a desmobilizar, terá seguido a máxima do "já que estou aqui..." e disse que ia lá ver se via alguma coisa. 

Estava cada vez mais convencido que tinha razão. Não ia haver Bucanetes para ninguém mas, o vício é assim, não nos larga. Pouco antes das dez respirámos fundo e seguimos, sem pressa. 
Estávamos a chegar. Vimos o Márcio, a uns cinquenta metros. Nem liguei quando vi o Vasco a atender o telemóvel, nem reparei que o Márcio, ao longe, também estava com o telemóvel na mão, nem perguntei ao Vasco quem tinha ligado. Ainda passou um ou dois segundos até o Vasco dizer com um sorriso ligeiro e com uma calma despropositada:
-Bora! O Márcio tá a ver o bicho! 
-Hã?!
Teve de repetir, a frase, para eu finalmente acreditar que tinha mesmo ouvido o que tinha ouvido. Acelerámos o passo e dois minutos depois já lá estávamos. Ah e tal, apareceu no fio, vocalizou e depois foi para ali para o terreno de cima, com uns pintarroxos. Dito isto, abre a P1000 e mostra a jóia da coroa. Não deixava dúvidas a ninguém. Escusado será dizer que agora não estava à vista. Bolas, pensei, agora vou ter de estar aqui o dia todo! Só me saem duques! 
-Bom pelo menos está cá! - disse.

Ah e tal, vocalizou e foi para o fio...
A foto que o Márcio nos mostrou quando chegámos
(foto Márcio Cachapela)

Fraco consolo. Passavam uns dez minutos das dez. Rapidamente ligámos aos sofredores que tinham desistido. O Pedro Ramalho que, vim a saber, já estava no Meco, o Pedro Marques que se não estava, devia estar lá perto, o Frade, estou em Alcochete agora já não volto e o Rogério já estou em cima da ponte hoje já não vou. Os dois primeiros voltaram a correr e, dez minutos depois já estávamos cinco juntos outra vez.
Nesta segunda iteração a tensão era de cortar à faca. As palavras eram poucas ou nenhumas. Junto aos pardais e pintarroxos das redondezas não andava. Raio do bicho!
-A cor é muito clara. Nota-se logo. - diz o Márcio.
Está bem, está bem, mas eu quero é ver com os meus olhos, pá - pensei - eu depois logo te digo.
-E descobri-o porque ele vocalizou.
Está bem, está bem, mas eu quero é ouvir com os meus ouvidos, pá - pensei - eu depois logo te digo.

Foi às 10h25. Passam uns dois ou três bichos em por cima das nossas cabeças, ao mesmo tempo que se ouve a voz do Pedro Marques:
-Vejam lá esse!
Quase de seguida diz o Márcio:
-É esse!
Vi um bicho mais corpulento que um pardal, cor de areia clara, com uma barra escura na cauda. Pousou no fio e consegui logo pôr-lhe os binóculos em cima. Já está! 

Ainda ficou lá uns segundos até me lembrar de pegar na bridge. Quando apontei ao fio já ele estava no chão junto a uma poça. Ainda disparei mas já ele ia a levantar na direção do terreiro em frente ao santuário. Típico. Podia ter esperado mais uns segundos, mas não quis. O que é certo é que o tick já não me tiravam e que as minhas previsões de sofrimento tinham sido manifestamente exageradas.

Pintarroxo-trombeteiro - mais corpulento que os pardais 
(foto Vasco Valadares)
Depois deste primeiro contacto, tendo o bicho desaparecido de vista, começámos rapidamente a espalhar-nos pelas redondezas, um aqui, outro ali. 
Pensei um bocado e coloquei-me onde achei que dominava mais terreno, no extremo do terreiro, de costas para o santuário, a olhar para o jardim murado da mãe d'água. Nem cinco minutos tinham passado quando ouço algo parecido como uma daquelas cornetas de plástico dos miúdos. Pensei logo no Trombetas. O som vinha precisamente do lado oposto ao que me encontrava, do outro lado da mãe d'água. 
-Alguém está a chamar o bicho? - perguntei.
Não houve resposta. Mais um minuto e ouve-se a voz do Pedro Ramalho:
-Não é ele em cima do muro?
Era mesmo. Tinha voltado e estava em cima do muro. 

A partir daqui foi meia-hora de fartar vilanagem. No telescópio foi encher o olho. Quem quis fotografar fotografou, quem quis filmar filmou. Não estava muito perto mas, a vida é assim. A minha P610 fez o que pôde mas, os filmes ficaram fracos e as fotos fracas ficaram. A observação foi cinco estrelas. As fotos e os filmes nem três. Isto de escolher o material que se leva tem destas coisas. Como não contratei um caddy, optei pelo mínimo de peso possível e por dar prioridade à observação, em detrimento do registo. Neste caso resultou...

Quando se deu a debandada ainda houve um momento caricato. Íamos a sair quando o bicho pousa no muro, dois metros ao lado do Márcio sem ele se aperceber. Provavelmente reconheceu-o e veio despedir-se.
-Márcio! Olha aí!
Vi-o aflito a pegar na P1000 e a tentar apanhar o Trombetas. As bridge levam uma eternidade a ligar, fazer zoom e focar. A verdade é que ainda se aproveitou qualquer coisa.

Quando pousou a 2 metros(foto Márcio Cachapela)
O regresso aos carros foi mais um desfile triunfal, com o pessoal a ocupar toda a largura da estrada, em linha. Quinze minutos de êxtase. 
O confinamento tinha definitivamente terminado com estrondo. Não foi um estrondo monumental e nem sequer foi um estrondo mas, nenhum dos envolvidos se irá certamente queixar de só ter ouvido o som de uma trombeta de plástico. 

Resta-me agradecer ao Hélio Batista pelo aviso pronto, e ao Márcio Cachapela, Paulo Diva, Pedro Marques e Vasco Valadares pelas fotos que ajudam a ilustrar a crónica. 

#canaldoxofred












31 janeiro 2020

Fim de Semana com o Morto


22/12/2019 - Belém - Garajau-de-dorso-castanho

Domingo, dia 22 de Dezembro estive o dia todo no "trabalho". Traduzindo, estive o dia todo na passarada. Foi um dia bem passado com o Pedro Nicolau, em Lisboa e arredores. Sempre achei fascinante a forma como este hobby aproxima gerações.

Garajau-de-dorso-castanho
Foto Jorge Fernandes

Numa das muitas conversas do dia lembro-me de o Pedro se sair com um "temos de pensar que algures por aí está uma bomba, resta saber onde". No fundo, verbalizou aquilo que toda a tribo estava a pensar. Nos dias anteriores tínhamos sofrido as consequências da depressão Elsa, e estávamos em pleno rescaldo. Mau tempo no mar e em terra podem trazer surpresas ornitológicas e foi isso que procurámos o dia todo. Surpresas não houve, mas vimos algumas aves raras, como os gansos que ainda hoje andam pela Ponta da Erva, e uma gaivota-prateada em Algés.
Satisfeitos, demos o dia por terminado ainda antes das 17h. Mal sabíamos que ainda faltava o melhor. Mais ou menos como quem vai à feira popular e sai sem ter andado na montanha russa. 
A verdade é que às cinco e pouco da tarde eu já estava no sofá, meio sonolento.

Eram 17h37 quando o smartphone do diabo emite o aviso sonoro do WhatsApp. Como um cão obediente condicionado por Pavlov, agarro nele quase no segundo seguinte. Era o Carlos Pacheco a mandar uma foto para um dos grupos sobre raridades que hoje pululam por todo o lado. Na foto estava uma gaivina que parecia um garajau-de-dorso-preto (Onychoprion fuscatus). Aí os olhos saltaram-me das órbitas e a começou a volta na Space Mountain. 
Para quem não conhece, esta é uma montanha russa espetacular da Disneylândia em Paris, que tem a particularidade de ser fechada e ser feita às escuras (*). O sol já tinha desaparecido, e o paralelo faz todo o sentido neste caso. 

Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao WhatsApp, além da já referida foto, estava apenas uma curta mensagem a informar o local: “Agora mesmo no Parque das Nações”. Aguenta coração. Uma bomba daquelas no meu quintal. A informação foi rapidamente complementada com a referência de que a ave estava muito debilitada e com um apelo para que se procedesse à recolha, para entrega em Monsanto.
Logo de seguida vieram as coordenadas.

Garajau-de-dorso-castanho
Ainda consegui ler as mensagens até às 17h40 – altura em que o Pedro Nicolau perguntou quem tinha lanterna - mas confesso que já não conseguia raciocinar e quase perdi o dom da fala.
Limitei-me a articular um “Tenho de sair! Preciso duma lanterna!”. Vendo os meus nervos, a Sandra só disse “Respira!!!”. Bem que tentei, mas estava difícil.

Saí a correr, com uma caixa de papelão, uma toalha e a lanterna. 
Entrei no carro, coloquei as coordenadas no telemóvel, e segui sem olhar para trás. O WhatsApp não parava de tilintar. 
Dois ou três minutos depois, cheguei ao destino. Era perto do Pingo Doce, ao lado da estrada. “Que raio! Isto não faz sentido. Não há aqui nada que se pareça com as pedras da foto.”
Toca o telemóvel. Era o Pedro Marques a perguntar se eu já estava no local. “Ainda não. Estou a tentar perceber onde é!”. 
Lá começo a olhar outra vez para as mensagens. Afinal as coordenadas eram perto da antiga FIL, e não na Expo.
-Ora bolas!
Voltei a colocar as coordenadas no Maps e realmente aquilo era entre Alcântara e Belém. Isto de faltar oxigénio no cérebro tem destas coisas. Não sei bem como, tinha posto o destino errado na App. Devia ter respirado fundo, em vez de sair desalvorado. Das duas uma, ou as coordenadas estavam erradas, ou o bicho não estava no Parque das Nações. 
Mais um ou dois telefonemas ao Carlos Pacheco e, finalmente, lá chegou a confirmação de que as coordenadas estavam certas. Eram mesmo na antiga Feira das Indústrias, a cerca de vinte minutos. 

Fui o mais rápido que consegui, sem desrespeitar (muito) os limites de velocidade. O Nicolau tentou ligar-me várias vezes sem sucesso. O raio do Bluetooth estava a fazer das suas outra vez. Lá conseguimos falar, para aí à décima tentativa, apenas para chegar à conclusão de que não sabíamos bem onde é que aquilo era. O telefonema foi rápido. 
Dei-lhe as referências que me tinham dado a mim. 
“Eh pá, tenho de desligar, que estou quase sem bateria.” Que surpresa. O Pedro, como de costume, andava no fio da navalha. No final do dia quase tinha ficado sem bateria na câmara. Agora era no telemóvel. Ainda pensei como é que ele faria, se ficasse incontactável e não encontrasse o sítio. Enfim, “Not my problem!”.  
Quando desliguei é que tentei, finalmente, respirar fundo. “Ainda falta mais de um quarto de hora de condução. Tenho de ter calma.” Até ali tinha-me limitado a agir por instinto. 
Lá comecei a perceber qual era o caminho que ia seguir e, ao fim de um percurso que me pareceu da Terra à Lua, cheguei. Ou, melhor dizendo, quase. Faltavam trezentos metros e não era possível avançar mais de carro. “Só acesso ao parque” dizia o sinal de sentido proibido. Estacionei o melhor que pude e segui a pé. Trezentos metros são três minutos. Há males piores.

Garajau-de-dorso-castanho
Ia a toda a velocidade, com a caixa e a toalha na mão, já a meio caminho quando, de repente, um Smart sobe o passeio e se atravessa à minha frente. Era o Nicolau a chegar em grande. Pelos vistos neste caso, além da montanha russa, também havia carrinhos de choque. Teve de dar meia volta para estacionar lá atrás onde eu tinha deixado o Duster. Veio a correr e mais um ou dois minutos já estava ao meu lado. Terá batido algum recorde? 

Chegámos juntos ao destino. Era “numa árvore ao pé do viaduto em frente à antiga FIL”. Liguei a lanterna e começámos a busca. Ao fim de trinta segundos já tínhamos passado a pente fino as oito árvores que correspondiam à descrição. Nada! Comecámos a ver a relva, os buracos na relva, o passeio, o alcatrão junto ao rio. Nada! O pânico começava a instalar-se. “Acho que estamos f****!”, disse o Nicolau.
Entretanto começo a ver lá ao fundo alguém com uma lanterna a fazer sinais de luzes. Eram o Pedro Marques e o António Gonçalves. Tinham chegado uns minutos antes e também andavam a bater a zona sem sucesso. Como eu disse já há alguns anos, “Isto são sempre os mesmos!”. 
A busca continuou. Estávamos cada vez mais longe do ponto original, e a expressão “baratas tontas” servia que nem uma luva. Às 18h28 o Pedro Marques liga-me. “Está aqui. Já morreu!”. O registo de chamadas não mente e a chamada só durou dez segundos. É assim na montanha russa. A diversão acaba de repente. 

Mais um minuto e já estávamos todos juntos outra vez. O bicho tinha sido encontrado a uns bons cinquenta metros da árvore onde o tinham deixado. Fraco como estava não teria certamente ido lá parar pelos próprios meios. Alguém teria pegado nele? Um cão ou um gato? Nunca saberemos. 
Ainda ficámos um bom minuto especados a olhar para o bicho, a processar a notícia. Até houve alguém que reparou que o olho ainda brilhava. Tinha morrido há pouco tempo, mas que estava morta, lá isso estava. Não havia como fugir a essa triste realidade. Bem que podia ter esperado mais meia-hora.
"O olho ainda brilha!"
Garajau-de-dorso-castanho
Só restava documentar o acontecimento, e assim fizemos. Foto para aqui, foto para ali. Vira deste lado, vira daquele. De asa aberta, de cima, de baixo, de lado. 
Havia também a questão da identificação. Seria mesmo um garajau-de-dorso-preto? Nesse caso seria um terceiro avistamento em Portugal Continental, o que não era coisa pouca.
Apesar da luz amarelada dos candeeiros, o bicho parecia mais acastanhado do que preto. Rapidamente fui ao carro buscar o Collins. Como se tratava de um juvenil, a identificação era mais complicada. Poderia ser um garajau-de-dorso-castanho (Onychoprion anaethetus) ? Nesse caso seria o primeiro a aparecer em Portugal Continental. Uma bomba das grandes. Essa possibilidade já justificava mais uma ida ao carro, desta vez para consulta ao Duivendijk, o tal guia de aves só com texto. A pouco e pouco, a ideia começou a ganhar forma. O tamanho, padrão da cabeça e a já referida cor apontavam todos na mesma direção. Tínhamos mesmo uma bomba atómica nas mãos. 

Aí surge o pedido do Carlos Pacheco para alguém guardar a morta no congelador, para posterior análise de proveniência. Morta sim, mas ainda podia servir a ciência. Como portador da caixa de cartão eu era, obviamente, o melhor candidato. Comecei rapidamente a fazer contas de cabeça. A Sandra não iria de certeza achar piada ao convívio com um cadáver no congelador. "Se quiseres eu levo!". Era o Pedro Marques a oferecer-se para levar a cabo a árdua tarefa. Lá me fiz homem e liguei para casa. O que ouvi do outro lado foi um "Hã?!" incrédulo. Realmente, como é que se justifica o pedido quase irreal? Tive que me esforçar bastante - "É só por uns dias..." - mas acabei por conseguir. "Traz lá isso!"

E pronto. Foi assim que acabei por passar umas semanas com um morto no congelador. Não é para todos. 
A história acabou - por agora - no dia 4 de janeiro com a mensagem mais estranha que recebi na vida:
"Olá! Bom Ano! Queria combinar contigo para recolher o cadáver."
Era  o Carlos Pacheco, que queria pôr a investigação em marcha. Muito me ri a ler o texto. Segundo sei, as análises já estão em curso.
Um dia destes saberemos novidades. 

Resta-me agradecer ao Jorge Fernandes pela única foto da ave ainda com vida. Vim a saber mais tarde que estava a dar um passeio de bicicleta quando teve o encontro imediato e que tirou a foto com o telemóvel. E esta, hein?!

#canaldoxofred

(*) Hoje em dia o Space Mountain chama-se Hyperspace mountain.

18 outubro 2019

Sagres pode esperar - Bairdii no Sizandro

12/10/2019 - Foz do Sizandro

As férias de Setembro deste ano não permitiram usufruir dos dias que tinha planeado em Sagres. Infelizmente, acabaram mais cedo e os dias na península não se concretizaram. Por isso, planeámos um fim de semana por lá, em jeito de compensação. Era coincidente com o Festival das Aves mas, mesmo com o bulício esperado, resolvemos avançar.


Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii)
Foto Vasco Valadares
Saída dia 11 de Outubro, uma Sexta e regresso no dia 13, Domingo. Com uma pelágica pelo meio, o fim de semana previa-se animado, com muitas aves e reencontros.

A semana foi passando lentamente e, confesso que nunca estive completamente descansado em relação ao fim de semana. Havia qualquer coisa, lá bem no fundo, um aperto no coração que me dizia que Sagres não estava completamente seguro. Por isso, fiquei sempre um pouco mais tranquilo por ter feito os planos de forma a poder cancelar tudo literalmente no segundo anterior à saída.

Planos feitos e malas arrumadas, saí do trabalho a correr, para seguir em direção a sul o mais rápido possível. Sagres estava à espera. Já me imaginava na Cabranosa a ver rapinas, acompanhado da cadeira, por estes dias já convertida em imagem de marca.

É uma pena não conseguirmos prever o futuro. Já dizia o mestre verde: “Difficult to see. Always in motion is the future...” 

A sexta feira tardou, mas chegou. Saída prevista para as 18h30, e estava tudo a correr dentro do plano. 
18h17. O Vasco Valadares, que ia connosco, ligou para confirmar que estava a dez minutos de distância. Tudo nos conformes. "Everything is proceeding as I have foreseen..."

Planos e mais planos para quê? A verdade é que tudo descambou às 18h23. 


Um novo mail no telemóvel faz-se anunciar com um “pop”. Como escravo que sou dessa máquina infernal, fui imediatamente verificar do que se tratava. Era um mail da lista “Raridades”. “Ui!!!” – pensei. O assunto era “[raridades] Calidris bairdi no Sizandro” e no corpo dizia apenas um seco “Na parte sul”. Mais curto era impossível. O coração disparou. Mais ainda quando vi quem era o autor do email, Pedro Ramalho.


Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii)
No meio de todas as questões que me assaltavam a cabeça – quem era o observador foi logo a primeira - pensei imediatamente que, sendo o autor quem era, não existiriam com certeza dúvidas na identificação. Por outro lado, ficou logo claro para mim que já não iria existir fim de semana em Sagres. E agora?

O pilrito-de-bico-fino - calidris bairdii - tinha apenas um registo anterior em Portugal Continental, já no distante ano de 2004. Sendo este o segundo, tratava-se mesmo de uma grande bomba. Uma raridade entre raridades.

Com o bicho a mais de uma hora de distância, não dava para usar a meia hora de luz que restava. Não havia alternativa. Teria mesmo de se fazer um raid à Foz do Sizandro no dia seguinte.


18h27. Decidi ligar ao Vasco, mesmo correndo o risco de provocar um acidente. "Eh pá, não vai dar para ir para Sagres. Apareceu um Calidris bairdii no Sizandro". "O quê?! Ora bolas. Com a conversa já me enganei na saída!". Rapidamente chegámos à mesma conclusão. Sagres teria de ficar para a próxima.
"Então já falamos". Acabou por demorar quase meia hora a corrigir o erro, e a chegar finalmente. Pelo meio cancelei a pelágica, que era o único compromisso fixo que tinha marcado.

Para não se perder tudo, fomos jantar. As notícias foram chegando a conta gotas. O observador tinha sido o próprio Pedro Ramalho, e a notícia divulgada logo no local. Fartei-me de rir a ouvir algumas mensagens gravadas em pleno transe, a meio da observação.

Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii)
Lá combinámos os planos da pólvora. Saída às 6h, para estar lá às 7h.
Quando a Sandra disse que ia connosco fiquei logo com mais confiança no sucesso da expedição, ou não fosse ela o meu  amuleto da sorte.

Dormi mais ou menos descansado, o que costuma ser bom sinal. Às 6h já estávamos a caminho. Eu a Sandra e o Vasco. Os dados estavam lançados. Chegados à margem sul do Sizandro à hora prevista, estava escuro como breu. Vimos imediatamente duas silhuetas, que rapidamente identificámos, o Pedro Marques e o António Gonçalves. Que surpresa...

Connosco já éramos cinco. Era apenas a testa de ponte da invasão que certamente iria acontecer nas horas seguintes. O termo invasão, claro, utilizado tendo em conta a monumental dimensão do birdwatching no nosso país.

O amigo Bairdi - o filme

A claridade foi-se infiltrando lentamente. Ouvem-se alguns sons de limícolas. "Menos mal!", pensei. Assim que a luz permitiu começámos a perscrutar os campos, que estavam muito mais alagados do que o costume. Lembrei-me logo da frase do Pedro Ramalho, no dia anterior. "Tragam galochas!". Olho para o lado, já estava o pessoal a equipar-se com as ditas. "Bolas, vão mesmo usar isso?". Lá peguei também nas minhas. Nos twitches não podemos ter tiques de moda. Mas lá que esse calçado é feio e desconfortável, é.

Nos telescópios começou a surgir um outro borrelho, nada que fizesse soar alarmes. Avançámos mais um bocado, já bem para o meio da lama. Nada de especial à vista. O António vê dois ou três pilritos na borda de uma poça. Um deles parecia prometedor, com o escamado de lado e a cabeça arruivada. Ao fim de uns minutos de suspense, lá se levantaram e conseguimos perceber que era apenas mais um pilrito-comum.

Como a estrela não estava à vista, os presentes já estavam dispersos por todo o lado. Alguns a bem mais de uma centena de metros. Comigo, além da Sandra estavam o António Gonçalves e o Flávio Oliveira. 
Ainda pensei por um segundo que aquilo podia não correr bem, mas não deu para pensar muito na vida. Ainda estava a olhar para os pilritos ordinários, quando passa em voo um pequeno bando de cerca de dez limícolas. Vi onde pousaram e, assim que consegui pôr-lhes os binóculos em cima, a primeira ave que vi foi um pilrito com a projeção das primárias muito longa. Novo olhar e vi o escamado de lado. Já não tinha grandes dúvidas quando exclamei: "Vejam lá se não é este aqui!!". Não tirei os olhos dos binóculos mas ouvi a voz do António "Só vejo um Alpina" (pilrito-comum). Continuei a insistir que estava a ver o bicho perante a negativa do António, até que ouço a voz do Flávio a dizer, "Peraí. Acho que é o gajo que está ali!" seguido do António "Eh pá! Estava a olhar para outro bicho. É o gajo!". Só aí e que pude relaxar um bocado, "Vocês...Eu a dizer que era o bicho e não acreditaram!". Se a conversa não foi assim, foi parecida.
Às vezes dava jeito ter um gravador no cérebro. O que é certo é que a primeira foto que tenho na máquina foi às 7h53, onze minutos depois do nascer do sol.


"Está ali o gajo!"
Uma das primeiras imagens recolhidas.
Comecámos a abanar os braços freneticamente e o pessoal começou a encaminhar-se para o nosso posto a toda a velocidade, quais tubarões a cheirar o sangue da vítima. Pelo menos, desta vez não fui eu que tive de me pôr a correr. Em poucos minutos estava tudo com o bicho na mira. Desta vez não houve muito sofrimento. Nem deu para meia hora de busca. O pessoal que chegou um pouco depois como, por exemplo, a dezena que veio do norte, só teve, praticamente, de estacionar e sair do carro.

Rapidamente o calidris bairdii se transformou no amigo Bairdi, tão simpático era o animal. Aproximou-se várias vezes e esteve calmamente a alimentar-se por longos períodos. Voou algumas vezes, mas logo regressou à procedência.
Foi a alegria do povo. Uma observação cinco estrelas. Foi fotografar e filmar como se não houvesse amanhã. O colar cor de mel, o corpo achatado. Deu para ver calmamente todos os detalhes.
A cena mais cómica foi a do Carlos Patrício. Chegou de canadianas, com a namorada a carregar o canhão. Aí está uma coisa que não se vê todos os dias, canadianas num arrolamento. Às tantas começamos a ouvi-lo a gritar as instruções. Ele encostado ao poste e ela a fazer o melhor que podia, junto dos outros fotógrafos. "Vai para ali!", "O bicho está ali", "É aquele! É aquele!", tudo a culminar num "Vai para o pé do Pedro Marques!".
Deixo aqui um abraço ao Carlos, e desejos de rápidas melhoras! 


A multidão no Sizandro
foto Sandra Meneses
Quem se deu ao trabalho de contar cabeças na altura de maior afluência diz que eram cerca de duas dezenas. Se não foi o maior twitch de sempre no Continente, foi de certeza o segundo, o que não é coisa pouca.

A festa continuou por largos minutos. A última foto que tenho foi às 9h, altura em que o grupo resolveu levantar voo e seguir para fora de vista. Nós fizemos o mesmo. Foi mais de uma hora de observação. Tomaram muitos!

Borrelho-ruivo (Charadrius morinellus) em Peniche
foto Vasco Valadares
A verdade é que o dia foi um dia entre dias.
Depois do amigo Bairdi e, como nem só de aves vive o homem, tínhamos de almoçar em qualquer lado. Fomos a Peniche. Como Peniche é fixe, aproveitámos e fomos ver o borrelho-ruivo que lá anda a passar férias. Daí seguimos para o Samouco, onde acabámos por ver, não um, mas dois falaropos-de-bico-grosso. 


Falaropo-de-bico-grosso (Phalaropus fulicarius)
Samouco
O fim de tarde foi num bar na praia, em Alcochete, com Lisboa aos pés, o sol a descer, e a luz refletida pelo Tejo. As imperiais foram mais que merecidas. A "Força" tinha estado connosco.
Não fomos a Sagres, mas também não se perdeu tudo.

Epílogo: Vim a saber, no dia seguinte, de um boato a dizer que já estaríamos na área de serviço de Grândola quando saiu a notícia do Bairdii. Como se pode verificar ao ler a crónica, esse boato é manifestamente infundado. E juro que disse a verdade, e nada mais que a verdade. 


Resta-me agradecer ao Vasco Valadares e à Sandra Meneses pelas fotos que ajudam a ilustrar mais uma crónica.

#canaldoxofred