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| Batuíra-de-bando ou borrelho-semipalmado (charadrius semipalmatus) A foto não está grande coisa, mas permite ver a membrana |
Crónicas do Xofred - Um blogue de histórias de birding. Peripécias, twitches e comentários.
Mr Fred's Chronicles - A blog with birding stories. Twitches, mishaps and comments.
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28 maio 2021
Limpeza na Terra dos Impérios
02 dezembro 2020
Especial nos Mosteiros
08/11/2020 - S. Miguel - Corvo-marinho-d'Orelhas
Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Em 2020 - ano espetacular a não recordar - fui a S. Miguel em Janeiro, em trabalho e fui a S. Miguel em Julho, em trabalho, com Covid. Como não há duas sem três, fui a S. Miguel em Novembro, em trabalho, com Covid. Nos dez dias previstos desta última viagem, consegui meter um dia para o conhaque. Tomaram muitos!
Com partida a 4 de Novembro, comecei logo no início de Outubro a seguir o que se passava na Ilha. Isto, claro, no que respeita ao conhaque, ou seja, a passarada. Os Açores são sempre uma caixinha de surpresas. Apesar do Outono estar no fim, há sempre uma ou outra estrela que vai aparecendo. A maioria aparece e desaparece passado uns dias.
Lá fui vendo o que se passava e comecei a seguir o influxo de corvos-marinhos-d'orelhas (phalacrocorax auritus) nas ilhas. Neste caso, até era um bom ano para um influxo destes, sobretudo porque podia ser que sobrasse algum para mim.
Então mas não é só um corvo-marinho? Por um lado sim, mas este é Americano e tem o bico coberto de ouro.
Foram pingando um pouco por todo o lado. Faial no dia um, Terceira no dia cinco, Corvo dia oito. Obviamente que, quanto mais longe da América, menor a probabilidade. Será que S. Miguel tinha hipótese? "Bingo!" Foi o que li no Facebook no dia quinze. Um dos poucos observadores residentes descobriu um nos Mosteiros, noroeste da ilha. A adrenalina começou a fluir. Só no dia oito de Novembro, três semanas depois, é que ia ter a minha oportunidade mas, os ilhéus dos Mosteiros nunca mais me saíram da cabeça. O influxo continuou, com mais aves a aparecer, um pouco por todo o lado. Até houve mais outra ave nos Mosteiros no dia 25.
Será que alguma se aguentaria até dia oito? Havia histórico de invernada da espécie no arquipélago, inclusivamente nos Mosteiros mas, é como dizem no futebol, o histórico vale pouco. O que interessa é o jogo em questão.
Dia oito nunca mais chegava. Antes da partida contactei o Ruben Coelho. É sempre bom avisar a malta da zona, quando vamos aos seus domínios. Sempre disponível, foi com ele que fui partilhando e discutindo as minhas ideias para o pouco tempo livre que teria no dia D.
Tardou, mas chegou. O plano era apostar tudo nos Mosteiros. Não havia mais nenhuma estrela para mim naquela ilha. Era all-in nos Mosteiros. O risco era claramente elevado. Não havia notícia dos corvos há uns quinze dias. S. Miguel tem poucos observadores. Seria apenas um caso de ninguém mais lá ter ido? Em breve saberia.
O vídeo possível a 320m de distância
Achei que não seria necessário madrugar muito, e tomei mais um pequeno-almoço de luxo no hotel, antes de ir. O dia ia ser longo e o que é bom é para se aproveitar.
De Ponta Delgada aos Mosteiros ainda é quase uma hora de carro. Fiz a viagem cheio de esperança. Dei por mim a pensar que era um privilegiado. O percurso é panorâmico, e a descida para os Mosteiros de cortar a respiração. Foi muito bem disposto que liguei para Lisboa a dar os bons dias. A hora H aproximava-se. As ruas eram estreitas. Manobrei o carro com cuidado até à ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Por volta das nove horas estava a estacionar.
Foi com o coração aos saltos que me sentei num banco de pedra a olhar para o rochedo. Mais de um mês a pensar neste momento.
A verdade, verdadinha, é que só vi gaivotas e pombos. Voltei a olhar para todo o lado. Gaivotas e pombos, pombos e gaivotas. Não é possível... Não havia corvo para ninguém. De nada adiantaram as vinte vezes que voltei a olhar para lá. Nada! Esperei mais uma meia hora. Já que estava ali...
Nada de nada! Havia que aceitar. Esta estava perdida.
Era uma possibilidade. Infelizmente, a pior de todas mas, havia que aceitá-la e seguir em frente. Ainda pensei que os corvos podiam simplesmente andar à pesca e, que poderia valer a pena voltar passado algum tempo. Na verdade, já não acreditava nisso mas, a probabilidade existia e não era negligenciável.
Passava pouco das dez horas quando assumi a derrota. Levantei-me, peguei no carro e segui para as piscinas naturais, um ou dois quilómetros mais a norte. A Natureza é muito bonita... Explorei-as a todas com passo de condenado, cabisbaixo e de ombros caídos. As aves observadas foram poucas. Uma rola-do-mar, uma garça, alguns estorninhos. A depressão instalava-se a toda a velocidade.
Um pouco depois das 11h o telemóvel começou a tilintar. Era o Ruben a saber se tinha tido sorte:
-Nem por isso...
-Tens de ter paciência. Os das outras ilhas ainda estão.
-Ainda lá vou voltar, pode ser que ele estivesse a pescar (nem eu próprio acreditava nisso).
E o bom filho a casa torna. Eram cerca de 11h30 quando me voltei a sentar, sem esperança, no banco de pedra na ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Com os binóculos em riste, lá comecei a ver o pequeno quadrado inclinado lá no cimo.
Gaivota, gaivota, pombo, gaivota, pombo, gaivota, coiso, gaivota. Coiso? 'Pera, volta para trás. Ataque cardíaco. Coiso preto? Dois coisos pretos granditos? Hum?! Dois corvos marinhos, bico dourado. Bum!!! Não era um, eram dois auritus.
Só comecei a acalmar-me quando tirei as primeiras fotos e gravei o primeiro vídeo. Afinal era possível, um twitch a cinco semanas e 1500km de distância, atravessando meio oceano.
Senti a adrenalina nas veias. Tinha conseguido.
Comecei o rescaldo. Primeiro telefonei para casa. Depois voltei a falar com o Ruben:
-Uhu!!! Dois corvos!
Tinham passado vinte minutos desde a última troca de mensagens. Do inferno ao céu, como as coisas mudam em vinte minutos...
Restava o restante, ou seja, comemorar. Voltei a olhar para a barraquinha de couratos que tinha visto chegar no início da manhã.
-Tem cerveja?
-Sim, tenho Super Bock e imperial Especial.
-Então venha lá uma Especial... - nos Açores sê Açoreano.
Era a barraquinha certa no lugar certo. Estava a pagar quando, para meu espanto, o dono começa a discorrer sobre a temática do momento, pelo menos para mim:
-Sabe, estão dois pássaros pretos no ilhéu, que vieram da Índia.
-Da Índia?
-Sim, estão lá sempre a apanhar sol. São giros.
E esta, hein?!
Realmente havia uma pequena incorreção, uma vez que até podem vir da Índia, mas é da Índia Ocidental e não da "nossa" Índia que é a Oriental mas, pelos vistos, em vez de ter andado cabisbaixo durante duas horas, bastava ter perguntado ao dono da zona. Sabia lá eu disso, quando vi o homem a armar a barraca duas horas antes.
Dizem que a definição de um alcoólico é quem bebe sozinho. Foi com isso em mente que troquei algumas palavras com o senhor da barraquinha, para disfarçar e não parecer um bêbado. "Deixe-se estar à vontade!". A hospitalidade dos Açores sempre presente. E eu assim fiquei. À vontade...
Acabei a manhã a ouvir o mar, a olhar para os bicos de ouro e a beber uma Especial. Esta era mais que merecida.
Resta-me agradecer ao Ruben Coelho, sempre atento, pela ajuda e paciência.
18 maio 2020
A Trombeta do Desconfinamento
O vírus maldito e a obrigação de confinamento em plena época de migração primaveril, atingiu o pequeno mundo dos arroladores Portugueses de forma profunda. A depressão instalou-se em força. As notícias eram poucas ou nenhumas e, desta vez, nem os ventos de Espanha serviram para nos ir animando. Os nuestros hermanos ainda estavam pior que nós. Nem de casa os deixavam sair.
Pelo meu lado, andei a explorar o meu "quintal", como lhe chamo, sem grandes novidades além dos residentes habituais.
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Vasco Valadares) |
A esperança é sempre a última a morrer e, não há mal que sempre dure mas, neste caso, se alguém me tivesse vindo com provérbios destes, eu tê-lo-ia mandado a um certo sítio. Andava muito animado, por estes dias. O desconfinamento do início do mês não ajudou muito, apesar de ser, teoricamente, um pequeno passo do início do fim do princípio deste drama. Uma "once in a lifetime experience", e que experiência.
A verdade é que os provérbios servem para alguma coisa. Bem do fundo do buraco negro onde estamos enfiados surgiu, sem aviso, um raio de esperança em forma de fénix. Neste caso uma fénix com o bico rosa e sem chamas a acompanhar.
Contrariamente ao que tem sido costume, desta vez a notícia apareceu no melhor dia possível. Foi no Sábado, dia 9 de Maio de 2020, já noite muito adiantada, que o Hélio Batista colocou um pedido de identificação no fórum aves. Perguntava ele se estaria a sonhar com um Bucanetes githagineus. Rapidamente recebeu a resposta. Nessa tarde, no Cabo Espichel, ele e os amigos tinham mesmo visto e fotografado um Pintarroxo-trombeteiro. A foto que acompanhava a pergunta não era má de todo e deixou toda a tribo a salivar. Aquele bico não enganava ninguém. Vim a saber mais tarde que a foto era do Paulo Diva.
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| Pintarroxo-trombeteiro - A foto que lançou o caos (foto Paulo Diva) |
Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao trombeteiro, tratava-se do quinto registo para Portugal e, curiosamente, do terceiro para o Espichel.
Agora, impunha-se a pergunta, fica ou não fica? O histórico mais recente - 2013 e 2017 - mostrava que essas aves não costumam ficar. Fosse por isso ou pelo local onde apareceu, não tinha esperança nenhuma de ver a ave no dia seguinte.
Talvez por isso mesmo, dormi descansadíssimo as quase quatro horas disponíveis até à hora H. Nas vezes em que isso acontece normalmente o resultado é bom como, por exemplo, no caso do sula de Sesimbra - ver A Odisseia do Sula - mas nem essa lembrança me fez mudar de opinião. Às 5h45, saí de casa sem grande ansiedade. Não me passava pela cabeça ter o bicho na lista no final do dia. Não ia ver, mas lá que ia picar o ponto, ia. Não ia ser por meia dúzia de quilómetros e cinquenta minutos para cada lado que deixava de lá ir. Apanhei o Vasco no caminho e às 7h, mais coisa menos coisa, estávamos a estacionar junto à barreira da estrada, a um quilómetro do santuário. A barreira foi só mais uma má novidade trazida pelo vírus. Já lá estava também o Audi do Pedro Marques. A silhueta homem tripé, inconfundível, ia uns bons 100 metros lá à frente. Pegámos no material e seguimos caminho. O sol brilhava. Pelos vistos as previsões de chuva estavam enganadas, pensei.
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Pedro Marques) |
Mais uma meia-hora e chegam mais três desconfinados. O Rogério Rodrigues e o José Frade e a Ana Isabel. Pela falta de entusiasmo com que foram recebidos, rapidamente perceberam que o Trombetas não estava à vista. Lá continuámos todos a olhar em volta, sem sucesso, a meias com a amena cavaqueira do costume.
Por volta da oito e um quarto, pareceu-me sentir uns pingos ligeiros a cair na roupa. Ouço a voz da Ana Isabel, "Vem aí chuva da grossa!". Nem cinco segundos tinham passado e parecia que estávamos debaixo de uma cascata. E assim ficámos sete desgraçados no meio do (quase) nada, sem sequer uma árvore para nos abrigar. E agora!? Alguns, ainda tinham impermeável, outros nem isso. As arcadas do Santuário ainda estavam a umas boas duas centenas de metros. Podia ser na Lua, que era igual. Estávamos condenados.
Fui o mais rápido que pude e encostei-me a um arbusto junto ao muro da mãe d'água, a umas dezenas de metros. Escusado será dizer que, quando lá cheguei já havia pouco a fazer. O impermeável ainda protegeu a parte de cima mas, da cintura para baixo era como se tivesse entrado numa piscina. Parece que outros terão tido uma outra opção, bem mais arriscada nos tempos que correm, de aproveitar a oferta generosa do Pedro Marques, e ficar a partilhar uns centímetros quadrados de um guarda-chuva minúsculo. Lá se foi o distanciamento social...
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Pedro Marques) |
Voltei para junto da malta só para ver que já estavam a começar a arrumar a trouxa. Com a chuva e a molha a moral tinha descido em flecha. Às nove já estávamos junto aos carros, não sem nos livrarmos de levar com mais um aguaceiro no caminho.
Estava cada vez mais convencido que tinha razão. Não ia haver Bucanetes para ninguém mas, o vício é assim, não nos larga. Pouco antes das dez respirámos fundo e seguimos, sem pressa.
Estávamos a chegar. Vimos o Márcio, a uns cinquenta metros. Nem liguei quando vi o Vasco a atender o telemóvel, nem reparei que o Márcio, ao longe, também estava com o telemóvel na mão, nem perguntei ao Vasco quem tinha ligado. Ainda passou um ou dois segundos até o Vasco dizer com um sorriso ligeiro e com uma calma despropositada:
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| Ah e tal, vocalizou e foi para o fio... A foto que o Márcio nos mostrou quando chegámos (foto Márcio Cachapela) |
-E descobri-o porque ele vocalizou.
Está bem, está bem, mas eu quero é ouvir com os meus ouvidos, pá - pensei - eu depois logo te digo.
Ainda ficou lá uns segundos até me lembrar de pegar na bridge. Quando apontei ao fio já ele estava no chão junto a uma poça. Ainda disparei mas já ele ia a levantar na direção do terreiro em frente ao santuário. Típico. Podia ter esperado mais uns segundos, mas não quis. O que é certo é que o tick já não me tiravam e que as minhas previsões de sofrimento tinham sido manifestamente exageradas.
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| Pintarroxo-trombeteiro - mais corpulento que os pardais (foto Vasco Valadares) |
Pensei um bocado e coloquei-me onde achei que dominava mais terreno, no extremo do terreiro, de costas para o santuário, a olhar para o jardim murado da mãe d'água. Nem cinco minutos tinham passado quando ouço algo parecido como uma daquelas cornetas de plástico dos miúdos. Pensei logo no Trombetas. O som vinha precisamente do lado oposto ao que me encontrava, do outro lado da mãe d'água.
-Alguém está a chamar o bicho? - perguntei.
Não houve resposta. Mais um minuto e ouve-se a voz do Pedro Ramalho:
-Não é ele em cima do muro?
Era mesmo. Tinha voltado e estava em cima do muro.
A partir daqui foi meia-hora de fartar vilanagem. No telescópio foi encher o olho. Quem quis fotografar fotografou, quem quis filmar filmou. Não estava muito perto mas, a vida é assim. A minha P610 fez o que pôde mas, os filmes ficaram fracos e as fotos fracas ficaram. A observação foi cinco estrelas. As fotos e os filmes nem três. Isto de escolher o material que se leva tem destas coisas. Como não contratei um caddy, optei pelo mínimo de peso possível e por dar prioridade à observação, em detrimento do registo. Neste caso resultou...
Quando se deu a debandada ainda houve um momento caricato. Íamos a sair quando o bicho pousa no muro, dois metros ao lado do Márcio sem ele se aperceber. Provavelmente reconheceu-o e veio despedir-se.
-Márcio! Olha aí!
Vi-o aflito a pegar na P1000 e a tentar apanhar o Trombetas. As bridge levam uma eternidade a ligar, fazer zoom e focar. A verdade é que ainda se aproveitou qualquer coisa.
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| Quando pousou a 2 metros(foto Márcio Cachapela) |
O confinamento tinha definitivamente terminado com estrondo. Não foi um estrondo monumental e nem sequer foi um estrondo mas, nenhum dos envolvidos se irá certamente queixar de só ter ouvido o som de uma trombeta de plástico.
Resta-me agradecer ao Hélio Batista pelo aviso pronto, e ao Márcio Cachapela, Paulo Diva, Pedro Marques e Vasco Valadares pelas fotos que ajudam a ilustrar a crónica.
#canaldoxofred
31 janeiro 2020
Fim de Semana com o Morto
22/12/2019 - Belém - Garajau-de-dorso-castanho
Domingo, dia 22 de Dezembro estive o dia todo no "trabalho". Traduzindo, estive o dia todo na passarada. Foi um dia bem passado com o Pedro Nicolau, em Lisboa e arredores. Sempre achei fascinante a forma como este hobby aproxima gerações.
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| Garajau-de-dorso-castanho Foto Jorge Fernandes |
A verdade é que às cinco e pouco da tarde eu já estava no sofá, meio sonolento.
Eram 17h37 quando o smartphone do diabo emite o aviso sonoro do WhatsApp. Como um cão obediente condicionado por Pavlov, agarro nele quase no segundo seguinte. Era o Carlos Pacheco a mandar uma foto para um dos grupos sobre raridades que hoje pululam por todo o lado. Na foto estava uma gaivina que parecia um garajau-de-dorso-preto (Onychoprion fuscatus). Aí os olhos saltaram-me das órbitas e a começou a volta na Space Mountain.
Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao WhatsApp, além da já referida foto, estava apenas uma curta mensagem a informar o local: “Agora mesmo no Parque das Nações”. Aguenta coração. Uma bomba daquelas no meu quintal. A informação foi rapidamente complementada com a referência de que a ave estava muito debilitada e com um apelo para que se procedesse à recolha, para entrega em Monsanto.
Logo de seguida vieram as coordenadas.
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| Garajau-de-dorso-castanho |
Limitei-me a articular um “Tenho de sair! Preciso duma lanterna!”. Vendo os meus nervos, a Sandra só disse “Respira!!!”. Bem que tentei, mas estava difícil.
Saí a correr, com uma caixa de papelão, uma toalha e a lanterna.
Entrei no carro, coloquei as coordenadas no telemóvel, e segui sem olhar para trás. O WhatsApp não parava de tilintar.
Dois ou três minutos depois, cheguei ao destino. Era perto do Pingo Doce, ao lado da estrada. “Que raio! Isto não faz sentido. Não há aqui nada que se pareça com as pedras da foto.”
Toca o telemóvel. Era o Pedro Marques a perguntar se eu já estava no local. “Ainda não. Estou a tentar perceber onde é!”.
Lá começo a olhar outra vez para as mensagens. Afinal as coordenadas eram perto da antiga FIL, e não na Expo.
-Ora bolas!
Voltei a colocar as coordenadas no Maps e realmente aquilo era entre Alcântara e Belém. Isto de faltar oxigénio no cérebro tem destas coisas. Não sei bem como, tinha posto o destino errado na App. Devia ter respirado fundo, em vez de sair desalvorado. Das duas uma, ou as coordenadas estavam erradas, ou o bicho não estava no Parque das Nações.
Mais um ou dois telefonemas ao Carlos Pacheco e, finalmente, lá chegou a confirmação de que as coordenadas estavam certas. Eram mesmo na antiga Feira das Indústrias, a cerca de vinte minutos.
Fui o mais rápido que consegui, sem desrespeitar (muito) os limites de velocidade. O Nicolau tentou ligar-me várias vezes sem sucesso. O raio do Bluetooth estava a fazer das suas outra vez. Lá conseguimos falar, para aí à décima tentativa, apenas para chegar à conclusão de que não sabíamos bem onde é que aquilo era. O telefonema foi rápido.
Dei-lhe as referências que me tinham dado a mim.
Quando desliguei é que tentei, finalmente, respirar fundo. “Ainda falta mais de um quarto de hora de condução. Tenho de ter calma.” Até ali tinha-me limitado a agir por instinto.
Lá comecei a perceber qual era o caminho que ia seguir e, ao fim de um percurso que me pareceu da Terra à Lua, cheguei. Ou, melhor dizendo, quase. Faltavam trezentos metros e não era possível avançar mais de carro. “Só acesso ao parque” dizia o sinal de sentido proibido. Estacionei o melhor que pude e segui a pé. Trezentos metros são três minutos. Há males piores.
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| Garajau-de-dorso-castanho |
Chegámos juntos ao destino. Era “numa árvore ao pé do viaduto em frente à antiga FIL”. Liguei a lanterna e começámos a busca. Ao fim de trinta segundos já tínhamos passado a pente fino as oito árvores que correspondiam à descrição. Nada! Comecámos a ver a relva, os buracos na relva, o passeio, o alcatrão junto ao rio. Nada! O pânico começava a instalar-se. “Acho que estamos f****!”, disse o Nicolau.
Entretanto começo a ver lá ao fundo alguém com uma lanterna a fazer sinais de luzes. Eram o Pedro Marques e o António Gonçalves. Tinham chegado uns minutos antes e também andavam a bater a zona sem sucesso. Como eu disse já há alguns anos, “Isto são sempre os mesmos!”.
A busca continuou. Estávamos cada vez mais longe do ponto original, e a expressão “baratas tontas” servia que nem uma luva. Às 18h28 o Pedro Marques liga-me. “Está aqui. Já morreu!”. O registo de chamadas não mente e a chamada só durou dez segundos. É assim na montanha russa. A diversão acaba de repente.
18 outubro 2019
Sagres pode esperar - Bairdii no Sizandro
As férias de Setembro deste ano não permitiram usufruir dos dias que tinha planeado em Sagres. Infelizmente, acabaram mais cedo e os dias na península não se concretizaram. Por isso, planeámos um fim de semana por lá, em jeito de compensação. Era coincidente com o Festival das Aves mas, mesmo com o bulício esperado, resolvemos avançar.
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| Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii) Foto Vasco Valadares |
A semana foi passando lentamente e, confesso que nunca estive completamente descansado em relação ao fim de semana. Havia qualquer coisa, lá bem no fundo, um aperto no coração que me dizia que Sagres não estava completamente seguro. Por isso, fiquei sempre um pouco mais tranquilo por ter feito os planos de forma a poder cancelar tudo literalmente no segundo anterior à saída.
Planos feitos e malas arrumadas, saí do trabalho a correr, para seguir em direção a sul o mais rápido possível. Sagres estava à espera. Já me imaginava na Cabranosa a ver rapinas, acompanhado da cadeira, por estes dias já convertida em imagem de marca.
É uma pena não conseguirmos prever o futuro. Já dizia o mestre verde: “Difficult to see. Always in motion is the future...”
A sexta feira tardou, mas chegou. Saída prevista para as 18h30, e estava tudo a correr dentro do plano.
18h17. O Vasco Valadares, que ia connosco, ligou para confirmar que estava a dez minutos de distância. Tudo nos conformes. "Everything is proceeding as I have foreseen..."
Planos e mais planos para quê? A verdade é que tudo descambou às 18h23.
Um novo mail no telemóvel faz-se anunciar com um “pop”. Como escravo que sou dessa máquina infernal, fui imediatamente verificar do que se tratava. Era um mail da lista “Raridades”. “Ui!!!” – pensei. O assunto era “[raridades] Calidris bairdi no Sizandro” e no corpo dizia apenas um seco “Na parte sul”. Mais curto era impossível. O coração disparou. Mais ainda quando vi quem era o autor do email, Pedro Ramalho.
| Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii) |
O pilrito-de-bico-fino - calidris bairdii - tinha apenas um registo anterior em Portugal Continental, já no distante ano de 2004. Sendo este o segundo, tratava-se mesmo de uma grande bomba. Uma raridade entre raridades.
Com o bicho a mais de uma hora de distância, não dava para usar a meia hora de luz que restava. Não havia alternativa. Teria mesmo de se fazer um raid à Foz do Sizandro no dia seguinte.
"Então já falamos". Acabou por demorar quase meia hora a corrigir o erro, e a chegar finalmente. Pelo meio cancelei a pelágica, que era o único compromisso fixo que tinha marcado.
Para não se perder tudo, fomos jantar. As notícias foram chegando a conta gotas. O observador tinha sido o próprio Pedro Ramalho, e a notícia divulgada logo no local. Fartei-me de rir a ouvir algumas mensagens gravadas em pleno transe, a meio da observação.
| Pilrito-de-bico-fino (Calidris Bairdii) |
Quando a Sandra disse que ia connosco fiquei logo com mais confiança no sucesso da expedição, ou não fosse ela o meu amuleto da sorte.
Dormi mais ou menos descansado, o que costuma ser bom sinal. Às 6h já estávamos a caminho. Eu a Sandra e o Vasco. Os dados estavam lançados. Chegados à margem sul do Sizandro à hora prevista, estava escuro como breu. Vimos imediatamente duas silhuetas, que rapidamente identificámos, o Pedro Marques e o António Gonçalves. Que surpresa...
Connosco já éramos cinco. Era apenas a testa de ponte da invasão que certamente iria acontecer nas horas seguintes. O termo invasão, claro, utilizado tendo em conta a monumental dimensão do birdwatching no nosso país.
A claridade foi-se infiltrando lentamente. Ouvem-se alguns sons de limícolas. "Menos mal!", pensei. Assim que a luz permitiu começámos a perscrutar os campos, que estavam muito mais alagados do que o costume. Lembrei-me logo da frase do Pedro Ramalho, no dia anterior. "Tragam galochas!". Olho para o lado, já estava o pessoal a equipar-se com as ditas. "Bolas, vão mesmo usar isso?". Lá peguei também nas minhas. Nos twitches não podemos ter tiques de moda. Mas lá que esse calçado é feio e desconfortável, é.
Nos telescópios começou a surgir um outro borrelho, nada que fizesse soar alarmes. Avançámos mais um bocado, já bem para o meio da lama. Nada de especial à vista. O António vê dois ou três pilritos na borda de uma poça. Um deles parecia prometedor, com o escamado de lado e a cabeça arruivada. Ao fim de uns minutos de suspense, lá se levantaram e conseguimos perceber que era apenas mais um pilrito-comum.
Como a estrela não estava à vista, os presentes já estavam dispersos por todo o lado. Alguns a bem mais de uma centena de metros. Comigo, além da Sandra estavam o António Gonçalves e o Flávio Oliveira.
Ainda pensei por um segundo que aquilo podia não correr bem, mas não deu para pensar muito na vida. Ainda estava a olhar para os pilritos ordinários, quando passa em voo um pequeno bando de cerca de dez limícolas. Vi onde pousaram e, assim que consegui pôr-lhes os binóculos em cima, a primeira ave que vi foi um pilrito com a projeção das primárias muito longa. Novo olhar e vi o escamado de lado. Já não tinha grandes dúvidas quando exclamei: "Vejam lá se não é este aqui!!". Não tirei os olhos dos binóculos mas ouvi a voz do António "Só vejo um Alpina" (pilrito-comum). Continuei a insistir que estava a ver o bicho perante a negativa do António, até que ouço a voz do Flávio a dizer, "Peraí. Acho que é o gajo que está ali!" seguido do António "Eh pá! Estava a olhar para outro bicho. É o gajo!". Só aí e que pude relaxar um bocado, "Vocês...Eu a dizer que era o bicho e não acreditaram!". Se a conversa não foi assim, foi parecida.
Às vezes dava jeito ter um gravador no cérebro. O que é certo é que a primeira foto que tenho na máquina foi às 7h53, onze minutos depois do nascer do sol.
| "Está ali o gajo!" Uma das primeiras imagens recolhidas. |
Rapidamente o calidris bairdii se transformou no amigo Bairdi, tão simpático era o animal. Aproximou-se várias vezes e esteve calmamente a alimentar-se por longos períodos. Voou algumas vezes, mas logo regressou à procedência.
Foi a alegria do povo. Uma observação cinco estrelas. Foi fotografar e filmar como se não houvesse amanhã. O colar cor de mel, o corpo achatado. Deu para ver calmamente todos os detalhes.
A cena mais cómica foi a do Carlos Patrício. Chegou de canadianas, com a namorada a carregar o canhão. Aí está uma coisa que não se vê todos os dias, canadianas num arrolamento. Às tantas começamos a ouvi-lo a gritar as instruções. Ele encostado ao poste e ela a fazer o melhor que podia, junto dos outros fotógrafos. "Vai para ali!", "O bicho está ali", "É aquele! É aquele!", tudo a culminar num "Vai para o pé do Pedro Marques!".
Deixo aqui um abraço ao Carlos, e desejos de rápidas melhoras!
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| A multidão no Sizandro foto Sandra Meneses |
A festa continuou por largos minutos. A última foto que tenho foi às 9h, altura em que o grupo resolveu levantar voo e seguir para fora de vista. Nós fizemos o mesmo. Foi mais de uma hora de observação. Tomaram muitos!
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| Borrelho-ruivo (Charadrius morinellus) em Peniche foto Vasco Valadares |
Depois do amigo Bairdi e, como nem só de aves vive o homem, tínhamos de almoçar em qualquer lado. Fomos a Peniche. Como Peniche é fixe, aproveitámos e fomos ver o borrelho-ruivo que lá anda a passar férias. Daí seguimos para o Samouco, onde acabámos por ver, não um, mas dois falaropos-de-bico-grosso.
| Falaropo-de-bico-grosso (Phalaropus fulicarius) Samouco |
Não fomos a Sagres, mas também não se perdeu tudo.
Epílogo: Vim a saber, no dia seguinte, de um boato a dizer que já estaríamos na área de serviço de Grândola quando saiu a notícia do Bairdii. Como se pode verificar ao ler a crónica, esse boato é manifestamente infundado. E juro que disse a verdade, e nada mais que a verdade.
Resta-me agradecer ao Vasco Valadares e à Sandra Meneses pelas fotos que ajudam a ilustrar mais uma crónica.
#canaldoxofred



















