terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Odisseia do Sula - Sete Meses de Sofrimento


O Sula leucogaster ou Alcatraz-pardo era, desde há uns anos, uma ave do topo da minha lista de desejos.
Acabei por a conseguir ver no Brasil em 2016, em Ubatuba, mas bastante longe e em voo, o que só aumentou o meu desejo de a observar com mais qualidade.

No dia 26/07/2016, uma terça-feira - é sempre durante a semana - caiu do céu aos trambolhões a notícia de um Sula em Sesimbra, numa zona bastante inacessível, a Cova do Calhau. Observado no Sábado anterior por alguns praticantes de caminhada como o José Pedro Calheiros, Pedro Sousa, que o fotografou, e outros. Segundo consta, terão achado o bicho esquisito, e resolveram averiguar. Apareceu a foto no grupo do Facebook "Aves de Portugal" e o resto é história. 

De imediato, começaram as movimentações por parte dos aficionados para tentar ver o animal. Os esforços iniciais dos mais afoitos começaram logo no dia seguinte, quarta-feira, mas foram infrutíferos. Além disso, também ficou mais que confirmada a inacessibilidade do local. 

Do sucedido resultou uma ideia do Luis Gordinho, de tentar localizar o sula por mar. Achei a ideia interessante, e disponibilizei-me de imediato para participar nesse esforço. No domingo 31, lá fizemos essa tentativa. Eu,  o Luis e o Pedro Inácio, que se juntou ao grupo.
A verdade é que não tivemos sucesso. Seja por não termos ido à melhor hora, ou por não nos termos concentrado numa zona específica, ou por realmente ele não estar por lá, ou porque resolveu estragar-se os planos, do bicho nem sinal. Nem por terra nem por mar. Aparentemente já teria ido à sua vida.
E assim, com os dias a passar um após o outro, o Sula foi caindo no esquecimento. Longe da vista, longe do coração. 


Mas, como com bichos as previsões saem quase sempre furadas, no dia 25/09/2016, um domingo à noite, surge a notícia, via José Frade, de que o bicho estava de volta ao local. Teria sido avistado no sábado por alguém de uma empresa de mergulho que passou de barco perto das rochas referenciadas como pouso habitual. Dois meses depois da notícia inicial.
Como parêntesis, há que referir que eu tinha ido de férias para o Algarve precisamente no dia 24/09, e que só planeava voltar domingo, dia 08/10. A vida de um twitcher nunca é fácil. Lá fiquei eu no Algarve a roer as unhas enquanto a malta ia vendo o Sula cá em cima.
No dia seguinte, uma segunda, o Pedro Ramalho e o Luis Gordinho conseguem finalmente o tick. O José Frade e outros conseguem fotos espetaculares a partir de um barco. E a lista continuou, comigo a assistir de longe, em sofrimento. Nem a minha observação de uma felosa-boreal, a segunda de sempre em Portugal, em conjunto com o António Gonçalves, me conseguiu fazer esquecer o “Sula de Sesimbra”.
As observações continuaram a bom ritmo. Com mais ou menos dificuldade, a certa altura já toda a gente tinha visto o bicho. Menos eu. Resolvi vir para cima um dia mais cedo, para poder tentar o bicho no domingo. A última observação conhecida na altura era a do Miguel Berkemeier, na quarta dia 5/10. Havia, portanto, uma boa possibilidade. Ele já se tinha aguentado lá tanto tempo…
E dia 9/10 eu, a Sandra, o José Frade e a Ana Isabel Frade combinámos ir em conjunto. Quando chegámos ao posto de observação cá de cima, nada. Esperámos meia hora, nada. Resolvemos descer a ravina, uma autêntica descida aos infernos. Chegámos lá abaixo, nada. Esperámos duas horas, nada. Havia que dizê-lo com frontalidade, estávamos à vista de um falhanço. Os trinta quilómetros de regresso a casa pareceram trezentos. Esta doeu, mesmo fisicamente.
Não satisfeito, e como a esperança é a última a morrer, ainda lá voltámos no sábado seguinte, dia 15. Nada feito. Dessa vez, ficámos cá em cima a observar e esperámos notícias por parte de outros observadores – João Tomás e Francisco Fernandes - que desceram lá abaixo. Nada de nada. Novo dip. Novo regresso a casa penoso.
Custou, mas mais vale de Sesimbra do de que Esposende…

E foi com todo este histórico que chegámos a 22 de Fevereiro de 2017, dia em que o Gonçalo Elias, via grupo raridades, passa a notícia de que o Paulo Catry, de barco, teria avistado o sula no sítio do costume. Realmente não se pode estar descansado, nem há previsão que resista à imprevisibilidade dos bichos. Mais uma vez a notícia surge durante a semana, numa quarta à noite. Até sábado havia uma longa espera. Será que o Sula podia esperar?  

O dia 23 e 24 mais pareceram ter 24 dias em vez de 24 horas cada um, mas lá acabaram por passar. E enfim chegámos ao dia 25, à minha quarta tentativa para ver “o desejado”.
Após uma noite mal dormida - mais uma - acordámos às 6 da manhã, com o objetivo de sair às 6h30.
Senti-me calmo e descontraído. Não estava nervoso nem stressado. Não tive muita pressa, o que acabou por resultar numa saída por volta das 6h40. Já na garagem lembrei-me que me faltava a água e as bolachas. Voltei a casa. Mais cinco minutos de atraso.
Seguimos para Sesimbra numa viagem sem história e estacionámos no início do trilho. Seria desta? Teria de voltar a descer aquela ravina infernal?
Começámos a andar. Ao fim de cinco minutos lembrei-me que tinha deixado os sticks de treking no carro. E desta vez iria mesmo precisar deles, uma vez que o joelho não estava muito contente. Durante a semana tinha havido ida ao ginásio, inúmeras escadas no Estádio da Luz, metro, enfim...
Mais dez minutos de atraso. Decididamente, não estávamos a começar bem.
Aí veio-me à cabeça um dos últimos twitches, então que o Pedro Nicolau adormeceu, esqueceu-se de quase tudo excepto da cabeça, estava coxo, etc. Tivemos um atraso de mais de uma hora em relação ao previsto. Mas, a verdade, é que no final vimos o bicho. E nem sequer foi no final, foi logo à chegada.
Seria um sinal para o Sula?

Lá regressei com os sticks. A meio caminho ouvi o que me pareceu ser uma felosinha-ibérica. Parei para confirmar e tirar uma foto. Mais um atrasozito. A Sandra, mais tarde, disse-me que na altura pensou se eu estaria parvo, ao parar para uma felosinha.
E lá chegámos ao posto de observação de cima, com vista sobre o rochedo, por volta das 8h15, uma hora depois do nascer do sol.
Que surpresa! O Sula não estava lá, ou pelo menos não estava à vista. Só os corvos-marinhos e as gaivotas do costume. Ou seja, o meu pensamento na altura foi "onde é que eu já vi este filme?"
Começámos a fazer contas para decidir a que horas começar a descida, no caso do bicho não aparecer enquanto estivéssemos ali em cima, no "anfiteatro". Decidimos que, pelo menos até às 9h30 não nos íamos mexer. E lá nos instalámos, no "conforto" do monte de pedras. Começámos a espera. Leia-se, "a seca". Nas duas tentativas anteriores tinha sido mesmo uma grande "seca", com o bónus de uma descida aos infernos.

Não se passou nada de especial durante um bocado. O movimento do costume. Corvo para cá, gaivota para lá. Corvo no rochedo levanta a cabeça, gaivota poisa no rochedo. Então, por volta das 8h30 ouvimos um grasnar esquisito, que não reconhecemos. Vinha de lá. Mais uma volta com os binóculos e sem saber muito bem como, o Sula materializou-se. Lá estava ele, tal e qual como uma cópia do desenho do guia. Nessas alturas, temos de olhar várias vezes e voltar a olhar, para finalmente acreditarmos no que estamos a ver. Mas não, não era uma miragem. O bicho continuava lá. "Olha! O bicho está ali!", disse eu à Sandra. Sim. Nada de muito lapidar, "o bicho está ali! " foi só o que saiu. E lá começou a fase dois, de ver bem, e a três, de documentar. Felizmente, conseguimos fazer isso tudo. O único senão foi o bicho estar distante. Mas, como dizia alguém "tomaram muitos!". O ótimo é inimigo do bom.
O Sula esteve à vista até às 8h55, altura em que resolveu ir para o outro lado do rochedo. Ah malandro! Então foi daí que apareceste?! Estava explicada a materialização meia hora antes.

Vitória!!!
Ele ainda resolveu voar em redor por uns instantes, mas pousou sempre fora da vista, do "lado negro" da rocha.
Ainda esperámos até às 11h, para ver se ele resolvia aparecer, mas nada. Nem barcos nem mergulhadores. Nada o moveu.
Confesso que ainda hesitei a pensar se descia outra vez lá abaixo pela ravina do inferno, mas foi só por uns segundos. Desta vez o joelho podia descansar. Não convém abusar da sorte.

A grande lição desta aventura é que, pelos vistos, o melhor é estar descontraído. Os bichos fazem o que bem lhes apetece.

--Xofred