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02 outubro 2021

Como fazer Fortuna nos Açores

Agosto de 2021 - Ilha Terceira

Já há uns cinco anos que tinha posto uma pelágica nos Açores na lista de desejos. Foi o Carlos Pereira que me falou no Banco da Fortuna pela primeira vez. É um local entre as ilhas Terceira e Graciosa, que se tornou quase mítico desde que, há uns anos, aí foram avistadas algumas aves de sonho como o painho-de-swinhoe, freira da trindade ou a freira-de-barrete.

Painho-de-monteiro (oceanodroma monteiroi)
Mas as aves referidas são o Euromilhões. Se descermos à terra e formos realistas, o grande objetivo numa ida ao Bando da Fortuna é, obviamente, o painho-de-monteiro. É uma ave endémica dos Açores e que só há meia dúzia de anos adquiriu estatuto de espécie. Em 1999 a população estava calculada em cerca de 300 casais, o que sublinha a preciosidade e dificuldade de se observar.

O problema principal, ainda antes de pensarmos em aves é, sobretudo, como ir ao Banco da Fortuna. O tema é sempre o mesmo nas pelágicas: não existem, e muito menos em tempos de Covid.
 
Painho-de-monteiro (oceanodroma monteiroi)
Foto Ruben Coelho
 Foi assim que me fui mentalizando que tão cedo não iria fazer Fortuna. 
Só já em 2020, numa das minhas três idas aos Açores, é que soube que o Ruben Coelho andava a tentar organizar uma saída. Claro que o Covid foi deixando tudo em águas de bacalhau.
Depois de muita conversa virtual nesse ano conheci, finalmente, o Ruben pessoalmente em Março de 2021 - ver Limpeza na terra dos Impérios. É sempre melhor assim, para se perceber com quem estamos a falar. Entusiasta das aves, terceirense de gema e, ainda por cima, com idade para ainda ter joelhos e costas a cem por cento. Qualidades não faltam.
Foi por isso que lhe disse para contar comigo, caso conseguisse organizar a pelágica ao Banco.

Cachalote (physeter macrocephalus)
Foto Carlos Ribeiro
 
A logística é sempre complicada. Há o barco, o engodo, arranjar gente suficiente, e sabe-se lá mais o quê. 
Aqui, ainda havia a agravante da distância. O Banco é a cerca de 20 milhas náuticas do oeste da Terceira e a 10 milhas náuticas da Graciosa. Há poucos operadores disponíveis para fazer o frete e, muito menos a partir da Terceira. Historicamente, as poucas idas ao local partiram sempre da Graciosa. Vinte milhas é muita fruta.

O tempo foi passando e já estávamos em Junho de 2021. Pessoalmente, já tinha abandonado a ideia mas, um belo dia recebo uma chamada do Ruben a dizer que a viagem estava confirmada para o final de Agosto. E esta, hein!?
Fosse lá como fosse ele tinha conseguido ultrapassar todos os obstáculos e concretizar a saída. Às vezes o impossível torna-se possível. O homem sonha, a obra nasce...

Pardela-de-barrete (puffinus gravis)
Agora era só uma questão de arranjar alojamento, carro e voos para o final de Agosto, mas há com certeza coisas piores. 
Até ao dia da partida, ainda dei uma pequena ajuda na organização do evento, ao arranjar maneira de termos um dos componentes essenciais do engodo. Fiquei contente por sentir que aquela viagem também era minha, mesmo que fosse só um bocadinho de bocadinho de nada.


Cachalote (physeter macrocephalus)
 Dia 27 de Agosto finalmente chegou. A viagem para a Terceira decorreu sem incidentes e, depois de um almoço tardio, ficámos muito bem instalados em Angra do Heroísmo, a cinco minutos da marina.
O dia não podia, obviamente, acabar sem uma visita a Meca, como já lhe chamaram. Fomos ao Paul do Cabo da Praia. Aquilo parecia o Colombo ao fim de semana, mas em versão light, ou seja, estavam lá umas oito pessoas. 
Além dos donos do local, Carlos Pereira e Ruben Coelho, estavam presentes quase todos os participantes na pelágica do dia seguinte. Terceira, S. Miguel e Pico estavam bem representados. Não me senti nada deslocado por ser o único continental. A Sandra fez de repórter e a reunião ficou bem documentada. Foi um fim de tarde tranquilo, com dois pilritos-de-colete a abrilhantar a ocasião.
O jantar foi excelente mas comedido, que isto de encher a barriga no jantar antes da pelágica dá mau resultado. De qualquer forma, as lapas não podiam faltar. Era o que mais faltava!

Casquilho (oceanites oceanicus)
E foi assim que chegámos ao dia D, 28 de Agosto. 
Ainda era de noite - 6h15 - quando nos encontrámos na marina. É dura a vida de um profissional da passarada. O grupo era pequeno. Poucos mas bons. Além do já referido pessoal da Terceira, S. Miguel e Pico, havia apenas um continental e um estrangeiro verdadeiro. Já contando com a tripulação, não chegávamos a dezena e meia de almas. Já se sabe que nestas organizações há sempre muita gente interessada mas, na hora da verdade, é complicado meter o preto no branco. No meio dos preparativos, registei a frase do Carlos:
-Hoje vamos fazer história. Pode ser só uma nota de rodapé mas, vamos fazer história. 
Oxalá conseguíssemos. Era a primeira vez que alguém iria ao Banco da Fortuna a partir da Terceira. Iríamos, no fundo, dar novos mundos ao mundo da observação de aves. 

Por volta das 6h30 saímos do porto. O tempo estava manhoso mas, quem vem aos Açores para ter um tempo certinho vem ao sítio errado. Quatro estações num dia, não é o que dizem?
O barco era muito confortável e espaçoso, para semi-rígido. Nas cerca de duas horas de caminho apanhámos chuva, sol, céu nublado e céu limpo. O que não estava à espera de apanhar foram algumas baleias-de-bico e um cachalote. Duas estreias para mim. Também se viu, ao longe, uma alma-negra. O dia prometia. 

Painho-de-cauda-forcada (Oceanodroma leucorhoa)
Chegámos ao primeiro ponto de engodagem ainda frescos. A chuva no caminho tinha sido pouca e quem se molhou já tinha a roupa seca. A pouca ondulação quase nem se notou.
Era a hora da verdade. O Ruben tinha aquilo bem preparado. Calçou as luvas e meteu mãos à obra. Começámos a engodar e, quase de seguida, começaram a aparecer os painhos. Logo num dos primeiros reparei que havia uma falhas nas asas. A muda era evidente. Dei logo conta disso ao pessoal. Era bom sinal. Era sinal de painho-de-monteiro, o objetivo principal da viagem. 
Rapidamente começámos a ver as fotos back of the camera dos muitos painhos que foram aparecendo e em vários era clara a cauda bifurcada, a cor acastanhada e a muda nas asas. Nem dez minutos tinham passado e o stress já tinha acabado. Painhos-de-monteiro há muitos, seu palerma!
Fosse da qualidade do engodo, fosse de haver muitos por lá, o frenesim dos painhos continuou quase ininterruptamente, nos diversos pontos por onde andámos.

Painho-de-monteiro (oceanodroma monteiroi)
Só passada a primeira emoção e adrenalina é que reparei que a alegria no barco não era generalizada. Não vou dizer nomes, mas houve alguém da passarada que esteve a viagem toda a engodar por conta própria. Como a crueldade humana não tem limites, o pessoal foi gozando com ele a perguntar se estava bem. A resposta foi sempre a mesma;
-Impecável!
E o resto da malta ria a bandeiras despregadas.  
Mais aborrecido ainda foi constatar que havia um elemento da tripulação que estava nas mesmas condições. Apareceu esverdeado, com ar desesperado quando ainda estávamos a começar:
-Falta muito?
Deitou-se várias vezes. Andou num desassossego para cá e para lá. Será que escolheu a profissão errada? Outro dia falaram-me de pessoal que vai para a marinha e enjoa. Até me disseram que, por causa disso, acabam por escolher os submarinos. Acho que, neste caso, não deve haver essa hipótese. 

Os painhos continuaram a dar espetáculo. Além dos muitos monteiros, vimos painho-da-madeira, dos Açores e muitos casquilhos. A surpresa só surgiu depois ao vermos as fotos em casa, quando reparámos que também tinham aparecido dois painhos-de-cauda-forcada. Esses são complicados de apanhar, uma vez que não gostam de vir ao engodo. Pessoalmente nunca tinha visto nenhum numa pelágica. 
No que toca a pardelas, vimos algumas de barrete e a omnipresente cagarra, ou cagarro, como lhe chamam nos Açores.

Resumindo, ninguém se podia queixar da vida. Quer dizer, ninguém exceto os dois elementos já referidos.

Angra do Heroísmo
Quando achámos que a barriga já estava cheia que chegasse, começámos a viagem de volta, com paragens nas múltiplas jangadas de cagarros que encontrámos. 
O regresso também teve o seu encanto, sobretudo a partir do momento que a Terceira começou a aparecer no horizonte. De noite todos os gatos são pardos. De dia a coisa tem outro encanto. A costa sul é lindíssima, vista do mar, culminando com a entrada na baía de Angra. Aí até eu tirei o telemóvel do seu refúgio, para registar o momento. É a minha baía preferida.  
Por volta das duas já estávamos no porto. Saímos do barco e tirámos as fotos da praxe. A alegria reinava, sobretudo para os dois que tinham virado o barco. Ou seria alívio? O gozo continuava mas, o nosso companheiro disse logo "Ia já amanhã outra vez!”.  É esse o espírito. 

O convívio da pelágica só acabou no café da marina. Tinha prometido pagar uma imperial a quem quisesse e o prometido é devido. Uma estreia do valor do painho-de-monteiro merece isso e muito mais.
 
A foto para a posteridade.
Agradeci ao Ruben múltiplas vezes durante a viagem e volto a agradecer aqui. É mais do que justo. Não há dúvidas que esta aventura só aconteceu graças ao empenho que ele colocou na causa. Oxalá possamos repeti-la muitas vezes. 





















01 agosto 2021

Laranja no Raso

18/07/2021 Cascais

As últimas visitas aos locais do costume tinham rendido pouco. Julho não é propriamente conhecido por ser um bom mês para observação de aves. Foi por isso que programei ir ver marítimas para o Cabo Raso no Sábado e Domingo (17 e 18). Na observação de marítimas, mesmo que não apareça nada, pelo menos vê-se o mar, e toda a gente sabe que a Natureza é muito bonita.

Garajau-real-africano (Thalasseus albididorsalis)

Sábado não se viu nada de especial. Teoricamente, domingo seria melhor. O vento crescia um pouco e virava ligeiramente para terra. A teoria vale o que vale. Como os bichos fazem sempre o que bem lhes apetece, domingo estava a ser ligeiramente pior que sábado. As horas iam passando e os poucos bichos também. Oito horas, nove horas, nove e meia. Já se começava a olhar para o relógio. Nesse dia estava acompanhado de outro frequentador assíduo da zona, o Hugo Blanco. A observação esteve assim assim, mas a conversa esteve boa. Quando há poucos bichos costuma ser assim. 

Por volta da nove menos um quarto, começámos a falar em arrumar o estaminé e ir embora. Eu, sentado na cadeira com os binóculos, a minha posição preferida. O Hugo estava ao telescópio.
-Damos mais uma volta antes de ir embora. -disse o Hugo.
-Vês tu ao longe e eu ao perto - da cadeira é que eu não ia sair. 

Dei mais uma volta prolongada com os binóculos. 
-Bolas, nem uma gaivota! - que é como quem diz, vamos mas é andando. 
Olhei para o Hugo a ver se ele se mexia, que isto para ir embora, ou vai toda a gente ou é melhor não ir ninguém, não vá o diabo tecê-las.

Lá voltei a levantar os binóculos. De repente, vejo pelo canto do do olho esquerdo um bicho solitário fazer a sua aparição no Anfiteatro do Raso, relativamente perto. Era uma gaivina. Reparei no bico claro e, mentalmente, tentei encaixá-la em tudo o que conhecia. Ainda me veio à cabeça uma chilreta mas, essa é pequena e esta era grande, do tamanho de uma gaivota. O raio atingiu-me uma fração de segundo depois e fez-se luz. Era um unicórnio! Uma gaivina de bico laranja. Qualquer que ela fosse era dinheiro em caixa. Nunca tinha visto nenhuma. 
Não consegui pensar em mais nada. O resto foi feito por instinto. Levantei-me da cadeira de um salto, como se tivesse vinte anos e, em menos de nada, cobri o metro e e meio que me separava do coldre onde estava a máquina. Peguei nela e comecei a disparar como um louco. Ao mesmo tempo, fui gritando para o Hugo:
-Olha ali! Olha ali! Olha! Olha! Olha! Chefe! Chefe! Chefe! Chefe! Chefe!
Só parei quando tive a certeza que ele também já estava a ver a ave. Tchac! Tchac! Tchac! Tchac! Tchac! Nunca tirei o dedo do gatilho e a máquina nunca se engasgou. Foi disparar como se não houvesse amanhã. Quando já só se via um pontinho branco ao longe, na direção do Cabo da Roca, levantei o dedo.
-Vê lá não gastes a bateria toda! - ainda ouvi ao fundo.

Garajau-real-africano (Thalasseus albididorsalis)

-Mostra lá as fotos! - disse o Hugo.
Só nesse momento é que reparei que estava todo a tremer, da adrenalina. 
-Calma aí! Deixa-me encostar aqui um bocado. 
Encostei-me à parede do farol uns segundos, para recuperar. O instinto voltou a dar, lentamente, lugar à razão. Respirei fundo umas quantas vezes e lá arranjei forças para levantar a máquina.

Bom, vamos lá ver as fotos, pensei. Deu para perceber que, por sorte, a máquina estava mais ou menos bem regulada, e que os brancos não estavam "rebentados". Ali no Raso é muito fácil isso acontecer, porque o sol da manhã bate diretamente nos bichos, com a agravante de também ser refletido pela água. Em relação à ave é que era mais complicado. À partida, o mais provável seria o garajau-bengalense mas, olhando para as fotos e pensando no que tínhamos visto, não estávamos convencidos. Um bicho muito grande, com voo possante. Cheirava a algo mais. A única conclusão possível era que tínhamos de ir para casa estudar e usar a rede de contactos.
Reparei que o Hugo já tinha enviado uma foto "back of the camera" para um dos grupos de whatsapp da tribo. Tudo, apenas em nome da rápida divulgação, claro. 
Os telemóveis já fervilhavam com a conversa. Toca a andar para casa a todo o gás.

No caminho, continuavam os "tlins" do whatsapp. Nos quarenta minutos de caminho, tive de me concentrar na condução e resistir à tentação de ler o que se passava. Maldita máquina diabólica. Às vezes dá-me vontade de partir o telemóvel. O Conan, é que tinha razão. Sim, o Osíris e não o Rapaz do Futuro.

Finalmente, quando me consegui sentar em frente ao computador vi que, só contando as focadas, tinha mais de duzentas fotos. Já dizia o outro, focadas qualquer um tira mas, menos mal, não seria por falta de fotos que o bicho não ia ser identificado. 
E o raio do telemóvel continuava a tilintar. E manda fotos assim e manda fotos assado e mais isto e aquilo. "Tenham calma que tenho mais de duzentas fotos para ver." 
Pressa para quê? O importante estava feito.  

Garajau-real-africano (Thalasseus albididorsalis)
 
A verdade é que, processadas as fotos e lida alguma literatura, as conclusões teimavam em não aparecer. Gaivinas de bico laranja há muitas, seu palerma. Peguei numa dezena e meia de fotos e partilhei o álbum. Quanto mais cabeças a pensar, melhor. 
Ao fim de umas horas, já com muito estudo e várias opiniões recolhidas tínhamos, ainda, quatro espécies candidatas, ou seja, todas. O já referido garajau-bengalense, o garajau-real-americano, o garajau-real-africano e o garajau-elegante. Não era um grande cenário mas, é a vida.
No quartel-general virtual, a minha opinião e a do Hugo, tendo também em conta o que tínhamos visto no terreno era de que se tratava, muito provavelmente, do garajau-real-africano mas, como descartar, sobretudo, o irmão americano?

As horas transformaram-se em dias. Fomos fazendo o caminho das pedras, saltando de contato em contato. Só na quarta-feira, dia 21, é que tivemos a resposta detalhada de que precisávamos. Sempre era o garajau-real-africano e o texto explicava o porquê, com todos os pormenores. 
Nada melhor que falar com quem tem trabalho publicado precisamente sobre o assunto que estamos a pesquisar. A internet abre possibilidades que há uns anos eram ficção científica. E não foi assim há tanto tempo que só havia telefones de discar e, há que lembrar que nem todas as casas tinham um.

E foi assim que ao terceiro dia pude descansar. Os meus piores receios tinham sido afastados. Esta gaivina não ia ficar no "Túmulo das gaivinas sp.",  também conhecido pelo "Túmulo das Gaivinas Desconhecidas".

 








25 junho 2021

A Cornuda do Patinha

13/06/2021 Vagos

O Domingo começou cedo. Às seis já estava de pé e às sete estava na Ponta da Erva. Ia ser uma manhã calma, com a minha outra metade. A ideia era sair de lá às onze e estar em casa, no sofá, às onze e meia. Ia ser um domingo mais ou menos descansado, portanto.
Não podia estar mais enganado. 
Pouco antes das dez horas, estávamos a dar meia volta ao carro em 38 Moios, já depois do café, quando toca o telefone. Pedro Ramalho? Isto não pode ser nada de bom, pensei. 
   -Então? Já estás a caminho?
   -Caminho? Mas o que é que apareceu?
   -Não sabes? Então tchau!
É o que dá não olhar para o telemóvel durante uns minutos. Já não se pode estar descansado.
   -Peraí! Diz lá o que é que se passa!
   -O Patinha descobriu uma calhandra-cornuda em Aveiro. 
Pronto. Estava o caldo entornado. Os planos iniciais foram todos metidos rapidamente no lixo. 

Calhandra-cornuda (eremophila alpestris)

Era a primeira Calhandra-cornuda (eremophila alpestris) que aparecia em Portugal e, pelos vistos, era possível ir vê-la. No meio dos nervos ainda consegui ter uma conversa mais ou menos racional. Sim, ia para lá. Sim, podíamos ir juntos. A Sandra decidiu que desta vez também ia, uma vez que já estava ali. Combinámos um ponto de encontro em Santarém. 
No caminho ainda liguei ao Vasco Valadares, que tinha ido passar o fim de semana por lá.  Foi apanhado um bocado desprevenido, mas resolveu alinhar.

O esquema parecia complicado, mas o certo é que, ainda antes das onze estávamos a sair da Capital do Gótico.
Pouco mais de hora e meia de conversa e condução depois, estávamos a estacionar na Praia do Areão, em Vagos. A viagem não teve grande história. Das conversas que fomos tendo, retive a parte do Pedro ter falado várias vezes que queria mesmo ver este bicho, que tinha falhado na Holanda. Também retive a parte em que vi a minha vida a andar para trás, quando disseram que se tinha que andar meia hora na praia até chegar ao ponto. 
-Meia-hora na areia?! - para quem não tem joelhos é complicado de conceber.
O Vasco ainda tentou por água na fervura - "Não é nada meia hora!" - mas o medo já estava instalado. Era desta que os joelhos acabavam.

Calhandra-cornuda (eremophila alpestris)
Foto Vasco Valadares
 
Estacionámos no acesso mais próximo possível que, mesmo assim, era tipo em Marte, ou mesmo Namek. Isto, claro, relação ao ponto onde estava o bicho. Estava, é como quem diz, tinha sido visto pela última vez.
Era meio dia e meia, uma linda hora para ver aves. Já havia alguns banhistas a abandonar o barco ou, neste caso, a praia. Para nela entrar havia dois passadiços. Um para a esquerda e um para a direita. A nossa quadrilha estava um bocado espalhada. A Sandra estava uns dez metros atrás e o Pedro e o Vasco para aí a uns cinquenta. Um dó li tá, escolhi o caminho da esquerda. Ainda ouvi a Sandra gritar para trás:
   -Esquerda ou direita?
Esperava uma resposta do Pedro ou do Vasco aos gritos mas, espantosamente, o que se ouviu foi a voz de uma banhista que estava encostada ao corrimão, logo ao lado. 
   -É para a esquerda! Os outros foram todos para lá.
E esta, hein?! Afinal toda a praia já sabia que se passava um evento extraordinário qualquer.  "Os outros" quereria dizer exatamente o quê? Os outros que estavam vestidos como vocês? Os outros com câmaras e telescópios? Os outros marcianos? Enfim, o que interessa é que ajudou. Lá segui a toda a velocidade pelo passadiço, ainda a tempo de ouvir a Sandra agradecer.

Calhandra-cornuda (eremophila alpestris)

Nem cem metros se andava, até atingir a praia. Cheguei ao outro lado e espreitei imediatamente pelos binóculos. Além das muitas banhistas em biquini vi, bem lá ao fundo do lado esquerdo, o que me pareceu à primeira vista ser uma fila de postes na areia. Olhei uma segunda vez, com mais calma e comecei a entrar em pânico. Afinal os postes eram pessoas, com os respectivos telescópios. E estavam a mais de um quilómetro, isso era mais que certo. Ora bolas! A história de andar meia hora na praia era mesmo verdade.
 
Os veraneantes olhavam para nós como se fôssemos alienígenas, o que no fundo, até era verdade. Como o que não tem remédio, remediado está, não pensei mais na vida e comecei a andar. Assim que passei o grosso dos banhistas, fui para a zona da areia molhada e acelerei o passo. Assim sempre era mais fácil. Os joelhos, e o corpo em geral não deram sinal e fui andando. Só ao fim dos primeiros dez minutos é que comecei a procurar o grupo que tinha visto ao longe, quando entrei na praia. Já deviam estar à vista, pensei. O certo é que nem ia a meio. Só ao fim de mais um quarto de hora é que comecei a vislumbrar o grupo. 

O vídeo possível

Rapidamente percebi que o bicho não estaria à vista. Quando vês um a olhar para aqui outro para ali e o grupo espalhado entre a duna e o areal, nunca é um bom indicador. Os receios confirmaram-se quando, quase ao chegar, vejo um dueto a bater em retirada. Ao passar dizem, com o que na altura achei ser um prazer disfarçado, "Ah e tal, já não se vê há dez minutos". 
Conversas destas já eu conheço de ginjeira. Não fiquei contente, mas também não era isso que me ia desmoralizar logo nos primeiros cinco minutos. Já que estava ali, agora era aguentar. Preparei-me psicologicamente para um dia de inferno. Calor, longe de tudo, o dia inteiro à procura do bicho, com a sede e a fome a apertar.
Cheguei ao local e cumprimentei a malta. Quase todos eram conhecidos, e quase ninguém tinha ainda visto o bicho. A exceção era o duo de descobridores, Samuel e Pedro, e pouco mais.

Calhandra-cornuda (eremophila alpestris)
 
Instalei o telescópio e preparei a máquina. Começou a espera. Nos primeiros minutos ainda estava a tremer e suar do esforço. No caminho nem notei mas, agora, com a seca que se perspetivava, estava tudo a vir ao de cima. 
Um ou outro borrelho ainda deu para assustar mas, da calhandra-cornuda nem sinal. O pessoal olhava para todo o lado mas, não estava fácil. Reparei que o mais ativo do grupo era o descobridor, o Samuel Patinha. Já tinha o olho treinado, quer para o bicho, quer para o local. 
Entre uma ou outra espreitadela no telescópio, comecei a pensar na vida. Quando o sol espreitava por trás das nuvens, o calor apertava. Será que a garrafinha de água ia chegar? E quando a fome apertar, como vai ser? E se o bicho aparece quando estivermos a comer? Esta praia é quase daqui até à lua. Se o bicho se mexe cem metros estamos lixados, etc., etc.
Enfim, coisas de quem já deu umas voltas nesta vida complicada de arrolador de aves.

Parecia que já tinha passado mais de uma hora mas, nem um quarto ainda ainda tínhamos em cima quando se ouviu a voz da esperança. Ou, no caso, a voz do Patinha, que era quase a mesma coisa. É mesmo assim. Os milagres acontecem a horas incertas.
   -Está ali, na base da duna!
Para variar, não vi logo onde ela andava. Ainda por cima ela aparecia e desaparecia para dentro da duna. Ainda demorou um ou dois minutos mas, a um após outro, toda a gente que ali estava foi vendo a estrela, neste caso personificada numa calhandra de cara amarela e máscara preta, com uns corninhos cómicos de lado.
A pouco e pouco, ela tornou-se mais afoita e mostrou-se cada vez melhor. A melhor parte foi quando resolveu dar um passeio à beira-mar. Com as conchas na areia à frente e o mar azul por trás, a visão encheu-me as medidas. 
Deixei-me estar sentado, a tirar as fotos possíveis, enquanto a Sandra foi filmando. Nem uma coisa nem outra ficaram espetaculares, o que era de esperar, sendo duas da tarde, num dia cada vez mais quente. 
Há sempre um crítico mas, neste caso ninguém teve a lata de assumir esse personagem. De zero a cinco, a observação foi um cinco. Fotos, é outra conversa.

Marcha triunfal na Praia do Areão

O regresso aos carros foi mais lento. Uma espécie de marcha triunfal. Não havia orquestra à vista, mas eu fui sempre a ouvi-la.
A verdade é que às duas e meia estávamos junto aos carros, de barriga cheia. Só faltava ir almoçar. 
Nem nas previsões mais otimistas tinha imaginado este cenário. Nem ao Purgatório tínhamos necessitado de ir, quanto mais ao Inferno. A Cornuda, além de gira foi simpática e relativamente pontual.

Apercebemo-nos que nos podíamos dar ao luxo, quase inaudito nestas ocasiões, de ir almoçar como deve de ser. Rapidamente o Pedro Ribeiro, um dos donos da zona - o outro era, obviamente, o Samuel - sugeriu um restaurante perto, em Mira. A hora era tardia. Íamos chegar por volta das três, mas quando liguei isso pareceu não ter importância, nem quando lhes disse que éramos um pequeno grupo de sete. Às vezes, o que parece complicado acaba por ser extremamente simples. Obviamente que ficou decidido logo ali que o protagonista do dia - Samuel Patinha - não pagava. 
O almoço foi excelente, mas o mais cómico foi o Samuel querer pagar a parte dele, mesmo depois de lhe dizerem mais de vinte vezes para guardar o dinheiro. Insistir uma ou duas vezes até se considera normal mas, vinte nunca tinha visto. Finalmente, lá aceitou, a contragosto.
 
O repasto de luxo
(foto Vasco Valadares)

 

 
Não há muitos dias assim, mas há que aproveitar quando aparecem. Entre transbordos e paragens, às sete já estava em casa, a descansar no sofá. Ou seja, a minha previsão concretizou-se. Teve foi um pequeno atraso de sete horas.

Epílogo:  
A calhandra só foi vista nesse dia e às sete da manhã do dia seguinte. Depois desapareceu sem deixar rasto. Às vezes, ter calma não nos ajuda nada.










28 maio 2021

Limpeza na Terra dos Impérios

Março de 2021 - Ilha Terceira

Há já alguns anos que tinha na cabeça um regresso à Ilha Terceira. No meu caso, tenho sempre a ilha na cabeça e no coração, por razões óbvias mas, a verdade é que já há vinte anos que não tinha o prazer de aterrar nas Lajes.

Um dos residentes mais célebres da ilha, ornitologicamente falando - Carlos Pereira - já tinha falado comigo várias vezes ao longo dos últimos anos sobre as virtudes da mesma e, em particular, do Paul do Cabo da Praia. Desde aí, meti a viagem na lista.  

Império do Divino Espírito Santo da Vila de S. Sebastião

Os longos meses de pandemia foram, cada vez mais, restringindo as viagens, física e psicologicamente. Contudo, as três deslocações profissionais a S. Miguel em 2020 acabaram por tornar cada vez mais claro que os Açores eram um oásis no meio do Atlântico. O risco de se ficar preso nas ilhas é real, e já nem estou a considerar a meteorologia. Pode acontecer ter um teste covid positivo antes de ir ou, pior, ter um teste positivo ou contacto de risco, estando lá. Todas estas hipóteses são possíveis e implicam perda de dinheiro mas, haja saúde, que é o mais importante.

A verdade é que decidi, já muito em cima da hora, ir à Terceira no final de Março. Além dos já "residentes" batuíras-de-bando (borrelho-semipalmado - charadrius semipalmatus), andavam por lá um maçariquinho (pilrito-anão - calidris minutilla) e uma garça-real-americana. Americanada não faltava. Apressa-te, disse o Carlos, esta bicharada costuma sair toda de cá em meados de Abril. E eu fui com pressa. Só tinha 3 dias. Era apertado mas não queria fazer o teste covid do sexto dia. Quanto menos complicado melhor. 

Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)

Dia 27 de Março aterrámos no destino. Ainda estávamos a acabar de alugar o carro quando o Carlos Pereira fez a sua aparição. No seu estilo simpático e expansivo estendeu-me a mão imediatamente. Já tinha vivido esta cena na minha cabeça e pensado como havia de reagir. Há mais de um ano que não apertava a mão a ninguém. Obviamente, estendi a mão e apertei a de quem a estendia para mim com toda a confiança. Em Roma, sê Romano. Nessa altura a Terceira tinha exatamente zero casos ativos. Andava tudo à vontade. As máscaras também desapareceram rapidamente, e lá seguimos juntos para o primeiro destino, o Paul da Praia da Vitória. 

"Os borrelhos e o minutilla são garantidos.", disse ele no caminho.  "Está bem, está bem, pá. Mas eu quero é ver os bichos e depois digo-te.", pensei.

Era nesse Paul, inserido em plena cidade que a garça-real-americana costumava fazer as suas aparições. A questão era que ela já não era vista, ou pelo menos, reportada, há mais de 10 dias. Podia ser apenas uma questão de ser um local pouco visitado, para um otimista, ou o bicho já ter ido à sua vida, para um pessimista. A verdade é que, dos três objetivos da viagem, era neste que tinha menos fé.
Saímos do carro, dei uma volta rápida com os binóculos e a primeira impressão foi que não estava grande coisa à vista. Uma ou duas garças, um bocado longe, uns quantos galeirões e pouco mais. "Bom, vamos lá montar o telescópio." 
Olhei para a primeira garça e a achei que era muito arruivada. "Carlos vê lá esta. Parece-me arruivada". "É ela é!". 
Exultei. Uma onda de adrenalina encheu-me as veias. O mais difícil estava feito e o resto do fim-de-semana ia com certeza correr bem. O Carlos olhou para mim, com cara de gozo quando me viu fazer um gesto parecido com o que fazem os futebolistas ao marcar golo. Cada um é como é...
Ainda deu para a vermos alguns segundos mais mas, ela deve ter-se sentido observada e levantou voo pouco depois. Ainda demos a volta ao paul, mas ela tinha mesmo ido para ouras paragens. Como fez ela, assim fizemos nós.

Garça-real-americana (Ardea herodias) - descolagem

Ainda não eram onze horas e, esperava eu ir dali direto para Meca - como alguém já lhe chamou. A verdade é que não foi assim que o guia entendeu. "Ah e tal, vamos ali passar no porto de pesca. Ah e tal, vamos ali ao Paul do Belo Jardim." Tudo com uma calma incrível. Do meu lado o stress ia aumentando. Só pensava no maçariquinho e nos batuíras-de-bando. "Oxalá ainda lá estejam os bichos. Oxalá não estejamos a perder tempo". Ia a conduzir, mas já não via nada à frente.

Só às 11h30 é que chegámos, finalmente, ao Paul do Cabo da Praia. A ansiedade foi aumentando à medida que nos aproximávamos. Quando pousei a tralha e comecei a observar o que nos rodeava logo me apercebi que o local não tinha nada a ver com tudo o que tinha visto até ali nos Açores. O Paul estava cheio de limícolas. Não era uma aqui e outra ali. Eram mesmo muitas. Com o telescópio fomos dando nome ao que víamos. Perna-vermelha, combatente, seixoeira, e mais umas quantas espécies. Tudo boas aves para a região, mas para mim é que era demasiado pouco ou nada. Lá se viu um ou outro borrelho, mas não eram os almejados batuíras, e muito menos a jóia da coroa, o maçariquinho. "Sempre a mesma coisa", pensei, "isto comigo nunca é fácil". 
Entretanto, o Carlos viu o que achou ser um batuíra. As diferenças para um borrelho dos nossos são muito subtis e, por isso, ninguém  estava muito convencido. Vimo-lo no telescópio uns segundos, até que levantou, fazendo o chamamento característico. "É mesmo!", diz o Carlos, acostumado a ouvi-los todo o ano. 
 
Batuíra-de-bando ou borrelho-semipalmado (charadrius semipalmatus)
A foto não está grande coisa, mas permite ver a membrana

 
Um já estava. Mal e porcamente, mas estava. Maçariquinho é que nada. Continuei a espreitar para todo o lado, sem sucesso. Estava cada estava vez mais ansioso, e cada vez mais espantado com a tranquilidade do Carlos. Pelos vistos, os nervos estavam todos do meu lado.
Às tantas, ao fim de uns bons vinte minutos, uma luz ao fundo do túnel:
 -Ele costuma estar ali para trás. Vamos lá.
"Bolas, este tempo todo a ver a Natureza, e o bicho à nossa espera lá para trás?", pensei. "Vamos mas é para lá e em força".

Nem cinco minutos se demora a chegar a esse segundo ponto de observação. É mais tranquilo e resguardado, e até tem um banco muito confortável, em basalto. Tipo um calhau da calçada, mas com trinta centímetros de lado.
Ainda estava a montar o telescópio quando ouço a palavra da salvação. "Está ali!". Cinco ou seis passos e já estava com os binóculos apontados. A pergunta do costume, "Onde?" ainda me saiu, mas mais uma indicação ou duas e lá estava ele. "Vês, aquele mais escuro?". E era. Era escuro e minúsculo. As pernas amarelas ainda demoraram a aparecer, porque ele estava atrás de um montinho de terra, mas estava feito. Bem bonito, o bicho.

Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)

Ainda não era hora de almoço do primeiro dia, e o fim de semana estava mais que ganho.  Under the belt before lunch...
Melhor era impossível e ficou provado que, às vezes, é possível ser otimista. Nunca será o meu caso, mas fica a nota. 
Veio-me à cabeça a música, "Os milagres  acontecem horas incertas", apesar de claramente, não se tratar de um milagre e até ter tido, praticamente, hora marcada. 
Estava explicada a calma do Carlos. 

Como o local é espetacular, com os bichos muito perto, ainda ficámos por lá pelo menos mais uma hora. Foi fotografar e filmar e filmar e fotografar. 

Saímos sem pressa, para ir almoçar. Já era quase hora de almoço em Espanha - 14h - quando começámos a pensar onde é que se havia de ir comer qualquer coisa. O dia, para nós, tinha começado às duas da madrugada, hora dos Açores e a fome apertava.  
Aceitámos a sugestão do guia e fomos comer uma sandes de alcatra a uma espécie de padaria. Não sei se era da fome, mas pareceu claramente a melhor sandes de alcatra que tinha comido na vida, quanto mais não fosse, por ser a primeira. 

O intervalo na passarada foi curto. Passado menos de uma hora seguimos caminho.

Galinhola (Scolopax rusticola)

Durante o resto da tarde, fomos a campos agrícolas, a miradouros, eu sei lá. Demos quase a volta à ilha, para ver o que lá andava. As espécies residentes iam aparecendo. Foi especial ouvir a vocalização nupcial das narcejas, que apenas tinha experienciado numa outra ocasião, no leste da Europa. Assim é muito fácil perceber que o nome popular, cabra-do-ar está muito bem escolhido.
Por volta das 17 horas, as pernas pesavam. Já sonhava com um banho e com o hotel. Mas o Carlos estava incansável. Queria incluir uma ida às galinholas antes do jantar que, estava mais que acertado desde há dias que seria em casa dele. 

Cabra-do-ar (gallinago gallinago)

O cansaço era muito, mas quem se pode atrever a recusar um possível avistamento de galinhola? 
Lá teve de ser. Fomos pousar as coisas ao hotel e combinámos um encontro ao anoitecer, algures no meio de nada, tipo agentes secretos. 
Ainda deu para um duche rápido e chegámos pontualmente, quase como novos, ao nada que era o ponto de encontro. Já lá estava o Carlos à espera. 
A luz ia escasseando. O silêncio imperava, apenas entrecortado pelo som dos melros, piscos e estrelinhas da zona. 
Mais uma vez, contra a minha espetativa, as galinholas começaram a passar quase de seguida. Uma e outra e outra e outra. Algumas bem perto. Até deu para fazer uns borrões com a máquina fotográfica. Só sei que, na hora que lá estivemos, entre avistamentos e audições, registámos 22 contactos. Foi mais uma experiência incrível! 

Galinhola (Scolopax rusticola)

Restava ir jantar, o que não era pouco. Migas de espargos crescidos na própria quinta. 
A receção foi calorosa. A anfitriã Cecília, o filho Alexandre, os cães e os gatos. Toda a família nos veio receber. Nem senti o cansaço. O repasto estava muito bom e a conversa também. Nem se deu pelo tempo a passar. 
Só chegámos ao hotel por volta da uma da madrugada. Quase vinte e quatro horas sem dormir, mas tinha valido a pena. Não há muitos dias assim.

No dia seguinte começámos mais devagar. Depois de um excelente pequeno almoço, fomos buscar o Carlos a casa e demos mais umas voltas. Não faltou uma ida ao Queijo Vaquinha, um dos ex-libris da ilha. O pessoal do Continente não sabe o que perde...
Foi mais uma manhã bem passada. À hora de almoço, o Carlos foi às sua vida, e nós à nossa.
 
Maçariquinho ou Pilrito-anão (Calidris minutilla)
 
Depois de almoço, era obrigatório ir a Meca outra vez. Lá estava o meu amigo maçariquinho e os batuíras. Uma espécie mais rara que lá conseguiu aparecer foi o Ruben Coelho. Depois de tanta conversa virtual, conseguimos finalmente estar face a face. Pensado bem, era difícil conceber um local melhor para esse evento que o Paul do Cabo da Praia. Tinha mesmo de ser aí. 
Entre as minhas atividades de realização e fotografia, conseguimos encaixar uns dedos de conversa. Já calculava, mas constatei rapidamente que é um defensor do Paul e da Terceira. Há destinos piores, isso mais que certo.

O fim de semana passou depressa. No dia seguinte já era dia da partida. Ligámos o modo turista e fomos a Angra, ao Monte Brasil, onde quase fomos atropelados por um gamo e, finalmente, a S. Sebastião, ver o império da freguesia. O Carlos já tinha avisado que era bonito. E é mesmo. Este e a igreja valem bem um desvio. 
O ponto alto do dia foi o almoço com a família Pereira num dos restaurantes mais conhecidos da ilha. Lapas e peixe do mar Açoreano, com sabor a triunfo. Desta vez, até me lembrei de registar o momento para a posteridade.


Almoço em família

O almoço acabou tarde mas, antes de seguir para o aeroporto ainda voltámos ao Paul da Praia, para rever a garça-real-americana. Mais uma vez, mostrou-se tímida. Não se deixou filmar e levantou vôo assim que se sentiu observada. Apesar de tudo, achei que não me podia queixar muito. "Tomaram muitos!", pensei. Não se pode abusar da sorte.

Ao final da tarde, seguimos para casa. A Terceira, e os Açores tinham sido generosos. Foi uma limpeza, na Terra dos Impérios.

Império da Caridade - Praia da Vitória

Resta-me agradecer ao Carlos pela ajuda incansável, estendendo o agradecimento à família pela hospitalidade. 
Deixo também um abraço ao Ruben. Obrigado pela ajuda.
As viagens são ainda melhores quando nos sentimos em casa. 


02 dezembro 2020

Especial nos Mosteiros

08/11/2020 - S. Miguel - Corvo-marinho-d'Orelhas

Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Em 2020 - ano espetacular a não recordar - fui a S. Miguel em Janeiro, em trabalho e fui a S. Miguel em Julho, em trabalho, com Covid. Como não há duas sem três, fui a S. Miguel em Novembro, em trabalho, com Covid. Nos dez dias previstos desta última viagem, consegui  meter um dia para o conhaque. Tomaram muitos!

Com partida a 4 de Novembro, comecei logo no início de Outubro a seguir o que se passava na Ilha. Isto, claro, no que respeita ao conhaque, ou seja, a passarada. Os Açores são sempre uma caixinha de surpresas. Apesar do Outono estar no fim, há sempre uma ou outra estrela que vai aparecendo. A maioria aparece e desaparece passado uns dias.
Lá fui vendo o que se passava e comecei a seguir o influxo de corvos-marinhos-d'orelhas (phalacrocorax auritus) nas ilhas. Neste caso, até era um bom ano para um influxo destes, sobretudo porque podia ser que sobrasse algum para mim. 

Corvo-marinho-d'orelhas

Então mas não é só um corvo-marinho? Por um lado sim, mas este é Americano e tem o bico coberto de ouro.

Foram pingando um pouco por todo o lado. Faial no dia um, Terceira no dia cinco, Corvo dia oito. Obviamente que, quanto mais longe da América, menor a probabilidade. Será que S. Miguel tinha hipótese? "Bingo!" Foi o que li no Facebook no dia quinze. Um dos poucos observadores residentes descobriu um nos Mosteiros, noroeste da ilha. A adrenalina começou a fluir. Só no dia oito de Novembro, três semanas depois, é que ia ter a minha oportunidade mas, os ilhéus dos Mosteiros nunca mais me saíram da cabeça. O influxo continuou, com mais aves a aparecer, um pouco por todo o lado. Até houve mais outra ave nos Mosteiros no dia 25. 

Será que alguma se aguentaria até dia oito? Havia histórico de invernada da espécie no arquipélago, inclusivamente nos Mosteiros mas, é como dizem no futebol, o histórico vale pouco. O que interessa é o jogo em questão. 

Dia oito nunca mais chegava. Antes da partida contactei o Ruben Coelho. É sempre bom avisar a malta da zona, quando vamos aos seus domínios. Sempre disponível, foi com ele que fui partilhando e discutindo as minhas ideias para o pouco tempo livre que teria no dia D. 

Tardou, mas chegou. O plano era apostar tudo nos Mosteiros. Não havia mais nenhuma estrela para mim naquela ilha. Era all-in nos Mosteiros. O risco era claramente elevado. Não havia notícia dos corvos há uns quinze dias. S. Miguel tem poucos observadores. Seria apenas um caso de ninguém mais lá ter ido? Em breve saberia.

Corvo-marinho-d'orelhas
O vídeo possível a 320m de distância

Achei que não seria necessário madrugar muito, e tomei mais um pequeno-almoço de luxo no hotel, antes de ir. O dia ia ser longo e o que é bom é para se aproveitar.

De Ponta Delgada aos Mosteiros ainda é quase uma hora de carro. Fiz a viagem cheio de esperança. Dei por mim a pensar que era um privilegiado. O percurso é panorâmico, e a descida para os Mosteiros de cortar a respiração. Foi muito bem disposto que liguei para Lisboa a dar os bons dias. A hora H aproximava-se. As ruas eram estreitas. Manobrei o carro com cuidado até à ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Por volta das nove horas estava a estacionar. 

Foi com o coração aos saltos que me sentei num banco de pedra a olhar para o rochedo. Mais de um mês a pensar neste momento. 

A verdade, verdadinha, é que só vi gaivotas e pombos. Voltei a olhar para todo o lado. Gaivotas e pombos, pombos e gaivotas. Não é possível... Não havia corvo para ninguém. De nada adiantaram as vinte vezes que voltei a olhar para lá. Nada! Esperei mais uma meia hora. Já que estava ali...
Nada de nada! Havia que aceitar. Esta estava perdida. 

Era uma possibilidade. Infelizmente, a pior de todas mas, havia que aceitá-la e seguir em frente. Ainda pensei que os corvos podiam simplesmente andar à pesca e, que poderia valer a pena voltar passado algum tempo. Na verdade, já não acreditava nisso mas, a probabilidade existia e não era negligenciável. 

Corvo-marinho-d'orelhas

Passava pouco das dez horas quando assumi a derrota. Levantei-me, peguei no carro e segui para as piscinas naturais, um ou dois quilómetros mais a norte. A Natureza é muito bonita... Explorei-as a todas com passo de condenado, cabisbaixo e de ombros caídos. As aves observadas foram poucas. Uma rola-do-mar, uma garça, alguns estorninhos. A depressão instalava-se a toda a velocidade. 

Um pouco depois das 11h o telemóvel começou a tilintar. Era o Ruben a saber se tinha tido sorte:

-Nem por isso...
-Tens de ter paciência. Os das outras ilhas ainda estão.
-Ainda lá vou voltar, pode ser que ele estivesse a pescar (nem eu próprio acreditava nisso).

E o bom filho a casa torna. Eram cerca de 11h30 quando me voltei a sentar, sem esperança, no banco de pedra na ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Com os binóculos em riste, lá comecei a ver o pequeno quadrado inclinado lá no cimo.
Gaivota, gaivota, pombo, gaivota, pombo, gaivota, coiso, gaivota. Coiso? 'Pera, volta para trás. Ataque cardíaco. Coiso preto? Dois coisos pretos granditos? Hum?! Dois corvos marinhos, bico dourado. Bum!!! Não era um, eram dois auritus.

Só comecei a acalmar-me quando tirei as primeiras fotos e gravei o primeiro vídeo. Afinal era possível, um twitch a cinco semanas e 1500km de distância, atravessando meio oceano. 
Senti a adrenalina nas veias. Tinha conseguido. 

Comecei o rescaldo. Primeiro telefonei para casa. Depois voltei a falar com o Ruben:

-Uhu!!! Dois corvos! 

Tinham passado vinte minutos desde a última troca de mensagens. Do inferno ao céu, como as coisas mudam em vinte minutos...
Restava o restante, ou seja, comemorar. Voltei a olhar para a barraquinha de couratos que tinha visto chegar no início da manhã.
-
Tem cerveja?
-Sim, tenho Super Bock e imperial Especial.
-Então venha lá uma Especial... - nos Açores sê Açoreano.

Uhu! Dois Corvos!

Era a barraquinha certa no lugar certo. Estava a pagar quando, para meu espanto, o dono começa a discorrer sobre a temática do momento, pelo menos para mim:

-Sabe, estão dois pássaros pretos no ilhéu, que vieram da Índia.
-Da Índia?
-Sim, estão lá sempre a apanhar sol. São giros.

E esta, hein?!

Realmente havia uma pequena incorreção, uma vez que até podem vir da Índia, mas é da Índia Ocidental e não da "nossa" Índia que é a Oriental mas, pelos vistos, em vez de ter andado cabisbaixo durante duas horas, bastava ter perguntado ao dono da zona. Sabia lá eu disso, quando vi o homem a armar a barraca duas horas antes. 

Dizem que a definição de um alcoólico é quem bebe sozinho. Foi com isso em mente que troquei algumas palavras com o senhor da barraquinha, para disfarçar e não parecer um bêbado. "Deixe-se estar à vontade!". A hospitalidade dos Açores sempre presente. E eu assim fiquei. À vontade... 

Acabei a manhã a ouvir o mar, a olhar para os bicos de ouro e a beber uma Especial. Esta era mais que merecida. 

Resta-me agradecer ao Ruben Coelho, sempre atento, pela ajuda e paciência.

 

#canaldoxofred 

18 maio 2020

A Trombeta do Desconfinamento

10/05/2020 - Cabo Espichel - Pintarroxo-trombeteiro

O vírus maldito e a obrigação de confinamento em plena época de migração primaveril, atingiu o pequeno mundo dos arroladores Portugueses de forma profunda. A depressão instalou-se em força. As notícias eram poucas ou nenhumas e, desta vez, nem os ventos de Espanha serviram para nos ir animando. Os nuestros hermanos ainda estavam pior que nós. Nem de casa os deixavam sair.  
Pelo meu lado, andei a explorar o meu "quintal", como lhe chamo, sem grandes novidades além dos residentes habituais. 

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Vasco Valadares)
Entrámos em Maio. A primeira semana já lá ia. Por esta altura, já alguém tinha apelidado esta de "a pior Primavera da História". O cenário era negro e as perspectivas também não eram animadoras. 
A esperança é sempre a última a morrer e, não há mal que sempre dure mas, neste caso, se alguém me tivesse vindo com provérbios destes, eu tê-lo-ia mandado a um certo sítio. Andava muito animado, por estes dias. O desconfinamento do início do mês não ajudou muito, apesar de ser, teoricamente, um pequeno passo do início do fim do princípio deste  drama. Uma "once in a lifetime experience", e que experiência.

A verdade é que os provérbios servem para alguma coisa. Bem do fundo do buraco negro onde estamos enfiados surgiu, sem aviso, um raio de esperança em forma de fénix. Neste caso uma fénix com o bico rosa e sem chamas a acompanhar. 
Contrariamente ao que tem sido costume, desta vez a notícia apareceu no melhor dia possível. Foi no Sábado, dia 9 de Maio de 2020, já noite muito adiantada, que o Hélio Batista colocou um pedido de identificação no fórum aves. Perguntava ele se estaria a sonhar com um Bucanetes githagineus. Rapidamente recebeu a resposta. Nessa tarde, no Cabo Espichel, ele e os amigos tinham mesmo visto e fotografado um Pintarroxo-trombeteiro. A foto que acompanhava a pergunta não era má de todo e deixou toda a tribo a salivar. Aquele bico não enganava ninguém. Vim a saber mais tarde que a foto era do Paulo Diva.

Pintarroxo-trombeteiro - A foto que lançou o caos 
(foto Paulo Diva)
Desta vez fui, literalmente, apanhado a dormir. Não estava de pijama, mas estava no sofá, em frente à televisão, a fingir que via um filme. Escusado será dizer que não vi as múltiplas mensagens que me enviaram a partir das 23h. Só acordei quando me ligaram, já perto da meia-noite. Era o Vasco Valadares, que achou estranho a ausência de resposta no whatsapp durante minutos a fio. Vou já ver, disse. Então vê lá e diz qualquer coisa. O qualquer coisa foi que saíamos às 6h em direcção ao santuário. Lá ia ter de me levantar pouco depois das 5h. Não posso dizer que estivesse com saudades. Quem corre por gosto não cansa (lá vem mais um provérbio para eu mandar a certo sítio).

Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao trombeteiro, tratava-se do quinto registo para Portugal e, curiosamente, do terceiro para o Espichel. 
Agora, impunha-se a pergunta, fica ou não fica? O histórico mais recente - 2013 e 2017 - mostrava que essas aves não costumam ficar. Fosse por isso ou pelo local onde apareceu, não tinha esperança nenhuma de ver a ave no dia seguinte. 
Talvez por isso mesmo, dormi descansadíssimo as quase quatro horas disponíveis até à hora H. Nas vezes em que isso acontece normalmente o resultado é bom como, por exemplo, no caso do sula de Sesimbra - ver A Odisseia do Sula - mas nem essa lembrança me fez mudar de opinião. Às 5h45, saí de casa sem grande ansiedade. Não me passava pela cabeça ter o bicho na lista no final do dia. Não ia ver, mas lá que ia picar o ponto, ia. Não ia ser por meia dúzia de quilómetros e cinquenta minutos para cada lado que deixava de lá ir. Apanhei o Vasco no caminho e às 7h, mais coisa menos coisa, estávamos a estacionar junto à barreira da estrada, a um quilómetro do santuário. A barreira foi só mais uma má novidade trazida pelo vírus. Já lá estava também o Audi do Pedro Marques. A silhueta homem tripé, inconfundível, ia uns bons 100 metros lá à frente. Pegámos no material e seguimos caminho. O sol brilhava. Pelos vistos as previsões de chuva estavam enganadas, pensei.

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Pedro Marques)
Dez minutos de caminhada e já estávamos no ponto do encontro imediato do dia anterior. Olha para aqui, olha para ali. Nada de especial à vista. Os pardais e pintarroxos das redondezas não davam, sequer, para assustar. Por volta das 7h15 toca o telemóvel. Era o inevitável Pedro Ramalho. As questões foram as do costume. Onde é que vocês estão, quem está aí, já viram o bicho. À minha pergunta se estava na barreira da estrada, pareceu-me ouvir qualquer coisa do tipo "Vi os carros, ainda não vi foi o bicho". "Nem vais ver!" foi a minha resposta pronta. Segundo o próprio, não foi exatamente isso que ele disse mas, a verdade é que foi o que o meu cérebro processou. O Alzheimer não perdoa.

Mais uma meia-hora e chegam mais três desconfinados. O Rogério Rodrigues e o José Frade e a Ana Isabel. Pela falta de entusiasmo com que foram recebidos, rapidamente perceberam que o Trombetas não estava à vista. Lá continuámos todos a olhar em volta, sem sucesso, a meias com a amena cavaqueira do costume.
Por volta da oito e um quarto, pareceu-me sentir uns pingos ligeiros a cair na roupa. Ouço a voz da Ana Isabel, "Vem aí chuva da grossa!". Nem cinco segundos tinham passado e parecia que estávamos debaixo de uma cascata. E assim ficámos sete desgraçados no meio do (quase) nada, sem sequer uma árvore para nos abrigar. E agora!? Alguns, ainda tinham impermeável, outros nem isso. As arcadas do Santuário ainda estavam a umas boas duas centenas de metros. Podia ser na Lua, que era igual. Estávamos condenados. 
Fui o mais rápido que pude e encostei-me a um arbusto junto ao muro da mãe d'água, a umas dezenas de metros. Escusado será dizer que, quando lá cheguei já havia pouco a fazer. O impermeável ainda protegeu a parte de cima mas, da cintura para baixo era como se tivesse entrado numa piscina. Parece que outros terão tido uma outra opção, bem mais arriscada nos tempos que correm, de aproveitar a oferta generosa do Pedro Marques, e ficar a partilhar uns centímetros quadrados de um guarda-chuva minúsculo. Lá se foi o distanciamento social...

Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus)
(foto Pedro Marques)

Nem cinco minutos durou o dilúvio. Chegou sem avisar e partiu sem dar cavaco. 
Voltei para junto da malta só para ver que já estavam a começar a arrumar a trouxa. Com a chuva e a molha a moral tinha descido em flecha. Às nove já estávamos junto aos carros, não sem nos livrarmos de levar com mais um aguaceiro no caminho. 
Tinha acabado de chegar o Márcio Cachapela. É um actor recente destas andanças, com uma figura fácil de recordar. Uma espécie de bom gigante. Nesta história acabou por se tornar no grande protagonista, como se verá.

Pois, já estamos de saída. Não, não vimos nada. O pessoal foi desistindo a conta-gotas. Vou andando, diz um. Vou para Pancas, diz o Frade. Até à próxima, diz outro. Eu e o Vasco já tínhamos decidido que íamos a uma segunda volta, assim que ganhássemos coragem e o tempo permitisse. Fomos para o carro  pensar na vida. O Márcio, mesmo com o pessoal a desmobilizar, terá seguido a máxima do "já que estou aqui..." e disse que ia lá ver se via alguma coisa. 

Estava cada vez mais convencido que tinha razão. Não ia haver Bucanetes para ninguém mas, o vício é assim, não nos larga. Pouco antes das dez respirámos fundo e seguimos, sem pressa. 
Estávamos a chegar. Vimos o Márcio, a uns cinquenta metros. Nem liguei quando vi o Vasco a atender o telemóvel, nem reparei que o Márcio, ao longe, também estava com o telemóvel na mão, nem perguntei ao Vasco quem tinha ligado. Ainda passou um ou dois segundos até o Vasco dizer com um sorriso ligeiro e com uma calma despropositada:
-Bora! O Márcio tá a ver o bicho! 
-Hã?!
Teve de repetir, a frase, para eu finalmente acreditar que tinha mesmo ouvido o que tinha ouvido. Acelerámos o passo e dois minutos depois já lá estávamos. Ah e tal, apareceu no fio, vocalizou e depois foi para ali para o terreno de cima, com uns pintarroxos. Dito isto, abre a P1000 e mostra a jóia da coroa. Não deixava dúvidas a ninguém. Escusado será dizer que agora não estava à vista. Bolas, pensei, agora vou ter de estar aqui o dia todo! Só me saem duques! 
-Bom pelo menos está cá! - disse.

Ah e tal, vocalizou e foi para o fio...
A foto que o Márcio nos mostrou quando chegámos
(foto Márcio Cachapela)

Fraco consolo. Passavam uns dez minutos das dez. Rapidamente ligámos aos sofredores que tinham desistido. O Pedro Ramalho que, vim a saber, já estava no Meco, o Pedro Marques que se não estava, devia estar lá perto, o Frade, estou em Alcochete agora já não volto e o Rogério já estou em cima da ponte hoje já não vou. Os dois primeiros voltaram a correr e, dez minutos depois já estávamos cinco juntos outra vez.
Nesta segunda iteração a tensão era de cortar à faca. As palavras eram poucas ou nenhumas. Junto aos pardais e pintarroxos das redondezas não andava. Raio do bicho!
-A cor é muito clara. Nota-se logo. - diz o Márcio.
Está bem, está bem, mas eu quero é ver com os meus olhos, pá - pensei - eu depois logo te digo.
-E descobri-o porque ele vocalizou.
Está bem, está bem, mas eu quero é ouvir com os meus ouvidos, pá - pensei - eu depois logo te digo.

Foi às 10h25. Passam uns dois ou três bichos em por cima das nossas cabeças, ao mesmo tempo que se ouve a voz do Pedro Marques:
-Vejam lá esse!
Quase de seguida diz o Márcio:
-É esse!
Vi um bicho mais corpulento que um pardal, cor de areia clara, com uma barra escura na cauda. Pousou no fio e consegui logo pôr-lhe os binóculos em cima. Já está! 

Ainda ficou lá uns segundos até me lembrar de pegar na bridge. Quando apontei ao fio já ele estava no chão junto a uma poça. Ainda disparei mas já ele ia a levantar na direção do terreiro em frente ao santuário. Típico. Podia ter esperado mais uns segundos, mas não quis. O que é certo é que o tick já não me tiravam e que as minhas previsões de sofrimento tinham sido manifestamente exageradas.

Pintarroxo-trombeteiro - mais corpulento que os pardais 
(foto Vasco Valadares)
Depois deste primeiro contacto, tendo o bicho desaparecido de vista, começámos rapidamente a espalhar-nos pelas redondezas, um aqui, outro ali. 
Pensei um bocado e coloquei-me onde achei que dominava mais terreno, no extremo do terreiro, de costas para o santuário, a olhar para o jardim murado da mãe d'água. Nem cinco minutos tinham passado quando ouço algo parecido como uma daquelas cornetas de plástico dos miúdos. Pensei logo no Trombetas. O som vinha precisamente do lado oposto ao que me encontrava, do outro lado da mãe d'água. 
-Alguém está a chamar o bicho? - perguntei.
Não houve resposta. Mais um minuto e ouve-se a voz do Pedro Ramalho:
-Não é ele em cima do muro?
Era mesmo. Tinha voltado e estava em cima do muro. 

A partir daqui foi meia-hora de fartar vilanagem. No telescópio foi encher o olho. Quem quis fotografar fotografou, quem quis filmar filmou. Não estava muito perto mas, a vida é assim. A minha P610 fez o que pôde mas, os filmes ficaram fracos e as fotos fracas ficaram. A observação foi cinco estrelas. As fotos e os filmes nem três. Isto de escolher o material que se leva tem destas coisas. Como não contratei um caddy, optei pelo mínimo de peso possível e por dar prioridade à observação, em detrimento do registo. Neste caso resultou...

Quando se deu a debandada ainda houve um momento caricato. Íamos a sair quando o bicho pousa no muro, dois metros ao lado do Márcio sem ele se aperceber. Provavelmente reconheceu-o e veio despedir-se.
-Márcio! Olha aí!
Vi-o aflito a pegar na P1000 e a tentar apanhar o Trombetas. As bridge levam uma eternidade a ligar, fazer zoom e focar. A verdade é que ainda se aproveitou qualquer coisa.

Quando pousou a 2 metros(foto Márcio Cachapela)
O regresso aos carros foi mais um desfile triunfal, com o pessoal a ocupar toda a largura da estrada, em linha. Quinze minutos de êxtase. 
O confinamento tinha definitivamente terminado com estrondo. Não foi um estrondo monumental e nem sequer foi um estrondo mas, nenhum dos envolvidos se irá certamente queixar de só ter ouvido o som de uma trombeta de plástico. 

Resta-me agradecer ao Hélio Batista pelo aviso pronto, e ao Márcio Cachapela, Paulo Diva, Pedro Marques e Vasco Valadares pelas fotos que ajudam a ilustrar a crónica. 

#canaldoxofred