Já há uns cinco anos que tinha posto uma pelágica nos Açores na lista de desejos. Foi o Carlos Pereira que me falou no Banco da Fortuna pela primeira vez. É um local entre as ilhas Terceira e Graciosa, que se tornou quase mítico desde que, há uns anos, aí foram avistadas algumas aves de sonho como o painho-de-swinhoe, freira da trindade ou a freira-de-barrete.
Crónicas do Xofred - Um blogue de histórias de birding. Peripécias, twitches e comentários.
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02 dezembro 2020
Especial nos Mosteiros
08/11/2020 - S. Miguel - Corvo-marinho-d'Orelhas
Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Em 2020 - ano espetacular a não recordar - fui a S. Miguel em Janeiro, em trabalho e fui a S. Miguel em Julho, em trabalho, com Covid. Como não há duas sem três, fui a S. Miguel em Novembro, em trabalho, com Covid. Nos dez dias previstos desta última viagem, consegui meter um dia para o conhaque. Tomaram muitos!
Com partida a 4 de Novembro, comecei logo no início de Outubro a seguir o que se passava na Ilha. Isto, claro, no que respeita ao conhaque, ou seja, a passarada. Os Açores são sempre uma caixinha de surpresas. Apesar do Outono estar no fim, há sempre uma ou outra estrela que vai aparecendo. A maioria aparece e desaparece passado uns dias.
Lá fui vendo o que se passava e comecei a seguir o influxo de corvos-marinhos-d'orelhas (phalacrocorax auritus) nas ilhas. Neste caso, até era um bom ano para um influxo destes, sobretudo porque podia ser que sobrasse algum para mim.
Então mas não é só um corvo-marinho? Por um lado sim, mas este é Americano e tem o bico coberto de ouro.
Foram pingando um pouco por todo o lado. Faial no dia um, Terceira no dia cinco, Corvo dia oito. Obviamente que, quanto mais longe da América, menor a probabilidade. Será que S. Miguel tinha hipótese? "Bingo!" Foi o que li no Facebook no dia quinze. Um dos poucos observadores residentes descobriu um nos Mosteiros, noroeste da ilha. A adrenalina começou a fluir. Só no dia oito de Novembro, três semanas depois, é que ia ter a minha oportunidade mas, os ilhéus dos Mosteiros nunca mais me saíram da cabeça. O influxo continuou, com mais aves a aparecer, um pouco por todo o lado. Até houve mais outra ave nos Mosteiros no dia 25.
Será que alguma se aguentaria até dia oito? Havia histórico de invernada da espécie no arquipélago, inclusivamente nos Mosteiros mas, é como dizem no futebol, o histórico vale pouco. O que interessa é o jogo em questão.
Dia oito nunca mais chegava. Antes da partida contactei o Ruben Coelho. É sempre bom avisar a malta da zona, quando vamos aos seus domínios. Sempre disponível, foi com ele que fui partilhando e discutindo as minhas ideias para o pouco tempo livre que teria no dia D.
Tardou, mas chegou. O plano era apostar tudo nos Mosteiros. Não havia mais nenhuma estrela para mim naquela ilha. Era all-in nos Mosteiros. O risco era claramente elevado. Não havia notícia dos corvos há uns quinze dias. S. Miguel tem poucos observadores. Seria apenas um caso de ninguém mais lá ter ido? Em breve saberia.
O vídeo possível a 320m de distância
Achei que não seria necessário madrugar muito, e tomei mais um pequeno-almoço de luxo no hotel, antes de ir. O dia ia ser longo e o que é bom é para se aproveitar.
De Ponta Delgada aos Mosteiros ainda é quase uma hora de carro. Fiz a viagem cheio de esperança. Dei por mim a pensar que era um privilegiado. O percurso é panorâmico, e a descida para os Mosteiros de cortar a respiração. Foi muito bem disposto que liguei para Lisboa a dar os bons dias. A hora H aproximava-se. As ruas eram estreitas. Manobrei o carro com cuidado até à ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Por volta das nove horas estava a estacionar.
Foi com o coração aos saltos que me sentei num banco de pedra a olhar para o rochedo. Mais de um mês a pensar neste momento.
A verdade, verdadinha, é que só vi gaivotas e pombos. Voltei a olhar para todo o lado. Gaivotas e pombos, pombos e gaivotas. Não é possível... Não havia corvo para ninguém. De nada adiantaram as vinte vezes que voltei a olhar para lá. Nada! Esperei mais uma meia hora. Já que estava ali...
Nada de nada! Havia que aceitar. Esta estava perdida.
Era uma possibilidade. Infelizmente, a pior de todas mas, havia que aceitá-la e seguir em frente. Ainda pensei que os corvos podiam simplesmente andar à pesca e, que poderia valer a pena voltar passado algum tempo. Na verdade, já não acreditava nisso mas, a probabilidade existia e não era negligenciável.
Passava pouco das dez horas quando assumi a derrota. Levantei-me, peguei no carro e segui para as piscinas naturais, um ou dois quilómetros mais a norte. A Natureza é muito bonita... Explorei-as a todas com passo de condenado, cabisbaixo e de ombros caídos. As aves observadas foram poucas. Uma rola-do-mar, uma garça, alguns estorninhos. A depressão instalava-se a toda a velocidade.
Um pouco depois das 11h o telemóvel começou a tilintar. Era o Ruben a saber se tinha tido sorte:
-Nem por isso...
-Tens de ter paciência. Os das outras ilhas ainda estão.
-Ainda lá vou voltar, pode ser que ele estivesse a pescar (nem eu próprio acreditava nisso).
E o bom filho a casa torna. Eram cerca de 11h30 quando me voltei a sentar, sem esperança, no banco de pedra na ponta mais próxima do ilhéu mais próximo. Com os binóculos em riste, lá comecei a ver o pequeno quadrado inclinado lá no cimo.
Gaivota, gaivota, pombo, gaivota, pombo, gaivota, coiso, gaivota. Coiso? 'Pera, volta para trás. Ataque cardíaco. Coiso preto? Dois coisos pretos granditos? Hum?! Dois corvos marinhos, bico dourado. Bum!!! Não era um, eram dois auritus.
Só comecei a acalmar-me quando tirei as primeiras fotos e gravei o primeiro vídeo. Afinal era possível, um twitch a cinco semanas e 1500km de distância, atravessando meio oceano.
Senti a adrenalina nas veias. Tinha conseguido.
Comecei o rescaldo. Primeiro telefonei para casa. Depois voltei a falar com o Ruben:
-Uhu!!! Dois corvos!
Tinham passado vinte minutos desde a última troca de mensagens. Do inferno ao céu, como as coisas mudam em vinte minutos...
Restava o restante, ou seja, comemorar. Voltei a olhar para a barraquinha de couratos que tinha visto chegar no início da manhã.
-Tem cerveja?
-Sim, tenho Super Bock e imperial Especial.
-Então venha lá uma Especial... - nos Açores sê Açoreano.
Era a barraquinha certa no lugar certo. Estava a pagar quando, para meu espanto, o dono começa a discorrer sobre a temática do momento, pelo menos para mim:
-Sabe, estão dois pássaros pretos no ilhéu, que vieram da Índia.
-Da Índia?
-Sim, estão lá sempre a apanhar sol. São giros.
E esta, hein?!
Realmente havia uma pequena incorreção, uma vez que até podem vir da Índia, mas é da Índia Ocidental e não da "nossa" Índia que é a Oriental mas, pelos vistos, em vez de ter andado cabisbaixo durante duas horas, bastava ter perguntado ao dono da zona. Sabia lá eu disso, quando vi o homem a armar a barraca duas horas antes.
Dizem que a definição de um alcoólico é quem bebe sozinho. Foi com isso em mente que troquei algumas palavras com o senhor da barraquinha, para disfarçar e não parecer um bêbado. "Deixe-se estar à vontade!". A hospitalidade dos Açores sempre presente. E eu assim fiquei. À vontade...
Acabei a manhã a ouvir o mar, a olhar para os bicos de ouro e a beber uma Especial. Esta era mais que merecida.
Resta-me agradecer ao Ruben Coelho, sempre atento, pela ajuda e paciência.
18 maio 2020
A Trombeta do Desconfinamento
O vírus maldito e a obrigação de confinamento em plena época de migração primaveril, atingiu o pequeno mundo dos arroladores Portugueses de forma profunda. A depressão instalou-se em força. As notícias eram poucas ou nenhumas e, desta vez, nem os ventos de Espanha serviram para nos ir animando. Os nuestros hermanos ainda estavam pior que nós. Nem de casa os deixavam sair.
Pelo meu lado, andei a explorar o meu "quintal", como lhe chamo, sem grandes novidades além dos residentes habituais.
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Vasco Valadares) |
A esperança é sempre a última a morrer e, não há mal que sempre dure mas, neste caso, se alguém me tivesse vindo com provérbios destes, eu tê-lo-ia mandado a um certo sítio. Andava muito animado, por estes dias. O desconfinamento do início do mês não ajudou muito, apesar de ser, teoricamente, um pequeno passo do início do fim do princípio deste drama. Uma "once in a lifetime experience", e que experiência.
A verdade é que os provérbios servem para alguma coisa. Bem do fundo do buraco negro onde estamos enfiados surgiu, sem aviso, um raio de esperança em forma de fénix. Neste caso uma fénix com o bico rosa e sem chamas a acompanhar.
Contrariamente ao que tem sido costume, desta vez a notícia apareceu no melhor dia possível. Foi no Sábado, dia 9 de Maio de 2020, já noite muito adiantada, que o Hélio Batista colocou um pedido de identificação no fórum aves. Perguntava ele se estaria a sonhar com um Bucanetes githagineus. Rapidamente recebeu a resposta. Nessa tarde, no Cabo Espichel, ele e os amigos tinham mesmo visto e fotografado um Pintarroxo-trombeteiro. A foto que acompanhava a pergunta não era má de todo e deixou toda a tribo a salivar. Aquele bico não enganava ninguém. Vim a saber mais tarde que a foto era do Paulo Diva.
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| Pintarroxo-trombeteiro - A foto que lançou o caos (foto Paulo Diva) |
Voltando à vaca fria ou, neste caso, ao trombeteiro, tratava-se do quinto registo para Portugal e, curiosamente, do terceiro para o Espichel.
Agora, impunha-se a pergunta, fica ou não fica? O histórico mais recente - 2013 e 2017 - mostrava que essas aves não costumam ficar. Fosse por isso ou pelo local onde apareceu, não tinha esperança nenhuma de ver a ave no dia seguinte.
Talvez por isso mesmo, dormi descansadíssimo as quase quatro horas disponíveis até à hora H. Nas vezes em que isso acontece normalmente o resultado é bom como, por exemplo, no caso do sula de Sesimbra - ver A Odisseia do Sula - mas nem essa lembrança me fez mudar de opinião. Às 5h45, saí de casa sem grande ansiedade. Não me passava pela cabeça ter o bicho na lista no final do dia. Não ia ver, mas lá que ia picar o ponto, ia. Não ia ser por meia dúzia de quilómetros e cinquenta minutos para cada lado que deixava de lá ir. Apanhei o Vasco no caminho e às 7h, mais coisa menos coisa, estávamos a estacionar junto à barreira da estrada, a um quilómetro do santuário. A barreira foi só mais uma má novidade trazida pelo vírus. Já lá estava também o Audi do Pedro Marques. A silhueta homem tripé, inconfundível, ia uns bons 100 metros lá à frente. Pegámos no material e seguimos caminho. O sol brilhava. Pelos vistos as previsões de chuva estavam enganadas, pensei.
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Pedro Marques) |
Mais uma meia-hora e chegam mais três desconfinados. O Rogério Rodrigues e o José Frade e a Ana Isabel. Pela falta de entusiasmo com que foram recebidos, rapidamente perceberam que o Trombetas não estava à vista. Lá continuámos todos a olhar em volta, sem sucesso, a meias com a amena cavaqueira do costume.
Por volta da oito e um quarto, pareceu-me sentir uns pingos ligeiros a cair na roupa. Ouço a voz da Ana Isabel, "Vem aí chuva da grossa!". Nem cinco segundos tinham passado e parecia que estávamos debaixo de uma cascata. E assim ficámos sete desgraçados no meio do (quase) nada, sem sequer uma árvore para nos abrigar. E agora!? Alguns, ainda tinham impermeável, outros nem isso. As arcadas do Santuário ainda estavam a umas boas duas centenas de metros. Podia ser na Lua, que era igual. Estávamos condenados.
Fui o mais rápido que pude e encostei-me a um arbusto junto ao muro da mãe d'água, a umas dezenas de metros. Escusado será dizer que, quando lá cheguei já havia pouco a fazer. O impermeável ainda protegeu a parte de cima mas, da cintura para baixo era como se tivesse entrado numa piscina. Parece que outros terão tido uma outra opção, bem mais arriscada nos tempos que correm, de aproveitar a oferta generosa do Pedro Marques, e ficar a partilhar uns centímetros quadrados de um guarda-chuva minúsculo. Lá se foi o distanciamento social...
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| Pintarroxo-trombeteiro (Bucanetes githaneus) (foto Pedro Marques) |
Voltei para junto da malta só para ver que já estavam a começar a arrumar a trouxa. Com a chuva e a molha a moral tinha descido em flecha. Às nove já estávamos junto aos carros, não sem nos livrarmos de levar com mais um aguaceiro no caminho.
Estava cada vez mais convencido que tinha razão. Não ia haver Bucanetes para ninguém mas, o vício é assim, não nos larga. Pouco antes das dez respirámos fundo e seguimos, sem pressa.
Estávamos a chegar. Vimos o Márcio, a uns cinquenta metros. Nem liguei quando vi o Vasco a atender o telemóvel, nem reparei que o Márcio, ao longe, também estava com o telemóvel na mão, nem perguntei ao Vasco quem tinha ligado. Ainda passou um ou dois segundos até o Vasco dizer com um sorriso ligeiro e com uma calma despropositada:
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| Ah e tal, vocalizou e foi para o fio... A foto que o Márcio nos mostrou quando chegámos (foto Márcio Cachapela) |
-E descobri-o porque ele vocalizou.
Está bem, está bem, mas eu quero é ouvir com os meus ouvidos, pá - pensei - eu depois logo te digo.
Ainda ficou lá uns segundos até me lembrar de pegar na bridge. Quando apontei ao fio já ele estava no chão junto a uma poça. Ainda disparei mas já ele ia a levantar na direção do terreiro em frente ao santuário. Típico. Podia ter esperado mais uns segundos, mas não quis. O que é certo é que o tick já não me tiravam e que as minhas previsões de sofrimento tinham sido manifestamente exageradas.
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| Pintarroxo-trombeteiro - mais corpulento que os pardais (foto Vasco Valadares) |
Pensei um bocado e coloquei-me onde achei que dominava mais terreno, no extremo do terreiro, de costas para o santuário, a olhar para o jardim murado da mãe d'água. Nem cinco minutos tinham passado quando ouço algo parecido como uma daquelas cornetas de plástico dos miúdos. Pensei logo no Trombetas. O som vinha precisamente do lado oposto ao que me encontrava, do outro lado da mãe d'água.
-Alguém está a chamar o bicho? - perguntei.
Não houve resposta. Mais um minuto e ouve-se a voz do Pedro Ramalho:
-Não é ele em cima do muro?
Era mesmo. Tinha voltado e estava em cima do muro.
A partir daqui foi meia-hora de fartar vilanagem. No telescópio foi encher o olho. Quem quis fotografar fotografou, quem quis filmar filmou. Não estava muito perto mas, a vida é assim. A minha P610 fez o que pôde mas, os filmes ficaram fracos e as fotos fracas ficaram. A observação foi cinco estrelas. As fotos e os filmes nem três. Isto de escolher o material que se leva tem destas coisas. Como não contratei um caddy, optei pelo mínimo de peso possível e por dar prioridade à observação, em detrimento do registo. Neste caso resultou...
Quando se deu a debandada ainda houve um momento caricato. Íamos a sair quando o bicho pousa no muro, dois metros ao lado do Márcio sem ele se aperceber. Provavelmente reconheceu-o e veio despedir-se.
-Márcio! Olha aí!
Vi-o aflito a pegar na P1000 e a tentar apanhar o Trombetas. As bridge levam uma eternidade a ligar, fazer zoom e focar. A verdade é que ainda se aproveitou qualquer coisa.
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| Quando pousou a 2 metros(foto Márcio Cachapela) |
O confinamento tinha definitivamente terminado com estrondo. Não foi um estrondo monumental e nem sequer foi um estrondo mas, nenhum dos envolvidos se irá certamente queixar de só ter ouvido o som de uma trombeta de plástico.
Resta-me agradecer ao Hélio Batista pelo aviso pronto, e ao Márcio Cachapela, Paulo Diva, Pedro Marques e Vasco Valadares pelas fotos que ajudam a ilustrar a crónica.
#canaldoxofred































