sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Marfim na Nazaré

18/11/2014
Marfim na Nazaré

No dia 17/11/2014, Segunda-feira, ao fim da manhã, surge a informação de que tinha sido avistada uma gaivota-marfim no porto da Nazaré.
O local está, normalmente, fora do radar dos birders Portugueses. Sendo a espécie que é, o anúncio soava ainda mais estapafúrdio. Era impossível. Apesar de me lembrar frequentemente de uma frase de um dos meus professores nesta vida de observador, o João Jara, que é “Aqui não há impossíveis!”, custava mesmo a acreditar.
A fonte era o sítio dinamarquês netfugl.dk, que foi citado no espanhol reservoirbirs.com. Os observadores eram desconhecidos por cá. Jens Röw e Franziska Güpner que, vim a saber mais tarde, eram Alemães, faziam inclusivamente referência a que era já o segundo dia em que a gaivota era observada. Toda a comunidade ficou em sobressalto. Será? Não será? Enfim, a chamada "conversa de chacha". Rapidamente apareceu uma foto  que desfez todas as dúvidas. Estava uma Pagophila eburnea na Nazaré, ou pelo menos teria estado, algures no tempo. Um primeiro registo para Portugal e para a Península Ibérica. "É disto que o meu povo gosta!"

Gaivota-marfim na Nazaré (foto Manuel Lemos)

O coração disparou e o nervoso miudinho instalou-se. E agora?!
Segunda-feira. Estava no emprego novo há relativamente pouco tempo. Pouco mais de um mês. Férias ainda não tinha. Não podia começar já a “gastar” parentes, e dizer que ia ao funeral do primo, da tia. Porque é que não nasci irresponsável?
A conclusão a que cheguei, ainda durante a tarde de trabalho foi a de que iria lá no fim-de-semana. Era um risco gigantesco – de segunda a sábado ainda é uma grande distância - mas, qual era a alternativa? Quando me perguntaram o que iria fazer, foi isso que respondi. “Vou lá no sábado”. Estava decidido.
Mas as coisas não foram assim tão simples.
O Pedro, que estava perto e é quase sempre rápido, foi lá quase de seguida e viu-a logo às 16h. Nem teve de a procurar. O update que fez para a lista raridades só serviu para espicaçar ainda mais os ânimos. Era linda, é um adulto, vale mesmo a pena, vi-a desde as 16 horas até ao pôr-do-sol, blá blá blá. Difícil de ler. A angústia instalava-se.
Cheguei a casa, contei à Sandra. “Vou lá no sábado”, disse.
E continuaram a surgir mails de todo o lado. No dia seguinte ia haver uma “invasão” na Nazaré.


Gaivota-marfim - pose para as selfies (foto Manuel Lemos)

Continuei a falar com a Sandra. “Olha! Vem malta do Algarve.”. “Olha! Vem pessoal de Espanha.” “Vou lá no sábado!”, dizia eu. O Pedro Ramalho ainda lançou, por email, a hipótese de estar lá às 7h e voltar para Lisboa. “Vou lá no sábado”, respondi.
Ao fim de umas horas, ela sai-se com um “Tu tens de lá ir! Eu vou contigo!”.
A verdade é que fizemos rapidamente umas contas e verificámos que, se estivéssemos lá ao nascer do sol e, tendo eu que estar a trabalhar mais ou menos até às 10h, havia uma janela de 30, 40 minutos para tentar ver a ave. Era direto da ave para o trabalho. Afinal era possível. Tinha de acordar por volta das cinco, mas era possível! Ainda por cima, pensei, a gaivota estava logo perto do parque de estacionamento. Ia ser fácil…
Engraçado como o estado de espírito muda em segundos. De repente, desapareceu a angústia e instalou-se a excitação. Mal dormi nessa noite.  


Afinal ela existe - Gaivota-Marfim
o filme possível

Lá seguimos para o destino, numa viagem sem história. Quando chegámos, ainda era noite escura. O Pedro Ramalho já lá estava. “Tomaste juízo!”, disse-me.
Lá foi chegando mais um ou outro carro. Mais um ou outro maluco como nós. A luz começou a aparecer, a pouco e pouco começavam a ver-se os contornos do porto. Mais uns minutos, já se conseguiam ver as gaivotas no porto. Começou a busca. Ao fim pouco tempo já se tinha percebido que o objetivo não estava à vista. Alargou-se a busca a todo o porto. Nada feito. Gaivotas sim, mas não a nossa. Começou a sentir-se o medo no ar. “Querem ver que o bicho já não está cá?”
A busca intensificou-se. Já estariam cerca de vinte pessoas no local. Nem sinal em todo o porto. O desespero começou a instalar-se. Começaram a formar-se grupinhos. Uns foram dar uma volta mais alargada nos arredores do porto, outros foram para a praia do lado sul. Há também o caso do Pedro Nicolau, que resolveu ir verificar todas as mais de mil gaivotas da praia a Norte. Como atleta que é, rapidamente se afastou mais de um quilómetro. Pela minha parte estudei o terreno e resolvi ficar num mini-pontão que existe à entrada. Daí consegue ver-se a entrada e o interior do porto, bem como a praia norte e o cimo da duna da praia sul. "Daqui vê-se a maior área possível", pensei.


Gaivota-marfim (foto Manuel Lemos)
E o tempo foi passando. Já só faltavam vinte minutos para a hora limite em que teria de me ir embora. Nada de gaivota. Do meu posto conseguia ver o pessoal em movimento por todo o lado, quais formigas em pânico. Quinze minutos…
Entra no porto um barquito pequeno com um pescador. Trazia duas ou três gaivotas com ele. Fiquei a olhar para os bichos, sem usar os binóculos. De repente ouço a voz da Sandra, que estava ao meu lado, aos gritos “Está ali! Está ali!”. E estava mesmo. Era uma delas. Lá levei os binóculos aos olhos, e lá estava ela em todo o seu esplendor. Bum!!!!

A chegada do "Pessoal".
O Pedro Nicolau ainda com o pé no ar.
(Foto Manuel Lemos)


Aí começou a parte mais cómica desta história, quando começámos os dois a chamar o pessoal, que estava espalhado. Era vê-los a correr o mais rápido que conseguiam, em desespero. Ao fim de algumas – poucas – dezenas de segundos lá chegaram os primeiros, espavoridos, ofegantes. “Está onde? Mas está à vista? Não vejo!”. É espectacular ver o desenrolar da situação do alto do conforto de já ter o tick no bucho ou under the belt como dizem os Ingleses. O último a chegar foi o Pedro Nicolau, claro. Deve ter batido o recorde nacional dos 1500 metros. Há fotos que mostram precisamente estes dois minutos divertidos. Registo também uma saída espectacular do Pedro Ramalho “#!%&, não sei porque é que este gajo não traz sempre a mulher para estas m**das!”. Leia-se, “Bolas, não sei porque é que este homem não traz sempre a mulher para estes eventos”.
 

A chegada e a alegria da vitória
(Foto Manuel Lemos)
A partir daí foi tudo fácil. Até à hora de saída tirei fotos, filmei, deu para tudo. Foram quinze minutos especiais. A luz não era perfeita, mas já tive muito pior. Há sempre um crítico, como estou sempre a dizer. Resultado final de um a cinco, quatro e meio.
Durante o dia, fui seguindo à distância o acontecimento. Houve um corrupio de gente a ir e vir. O bicho deu show. Até deu para umas selfies.
Resta dizer que a gaivota desapareceu na sexta mais ou menos pela hora de almoço. “Foi vista a sair do porto a boa altitude”, comunicaram. Quem foi lá no sábado saiu de mãos a abanar e até houve quem viesse da Galiza. Fiquei a pensar como é que iria gerir mentalmente a situação, se não tivesse ido lá logo. Teria sido muito complicado. Tive sorte? Exatamente em quê? É daqueles labirintos onde o pensamento entra e de onde nunca mais sai. 

Resta-me agradecer ao Manuel Lemos pelas fotos. Alguém que teve o sangue frio de além da gaivota, fotografar a "invasão".