quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Inaudita Pelágica de Dezembro

03/12/2017
Técula e Selfie, mais dois novos amigos

Este ano, a habitual pelágica organizada pela SPEA foi sofrendo adiamento atrás de adiamento devido ao mau tempo. Ao longo dos anos, fui aprendendo que este negócio das idas ao mar não é nada fácil. Finalmente, dia 3 de Dezembro, os astros lá se alinharam e a saída aconteceu.
Entre participantes, organizadores e tripulantes, o barco levava menos de vinte pessoas. Número pequeno para um barco enorme e com excelentes condições para a observação, e para ver a natureza que, tal como estou sempre a dizer, é muito bonita.

Alcatraz-pardo (Sula leucogaster)

Quase todos os presentes eram habituais das pelágicas e observadores experientes. Experientes o suficiente para saber, por exemplo, que com a náusea não se brinca. Quem brinca e não toma a droga do costume, Vomidrine, acaba quase sempre por sofrer as consequências. Em rigor, isso até é bom para a expedição no seu conjunto, uma vez que significa mais engodo para as aves.
Outra questão é o mês de Dezembro propriamente dito. Normalmente o mar não permite sair. Por outro lado está frio e, por último, há menos aves. Ou, pelo menos, é o que se diz. Por tudo isto, não se realizam pelágicas em Dezembro. O que iria resultar de tão ousada aventura?
No meu caso levei cinco camadas de roupa em cima e três pares de calças por baixo. Barrete e luvas. Mal conseguia levantar os binóculos ou mexer na câmara. Mas enfim, antes ter calor do que frio, é o lema que tento aplicar nestes casos.
Pouco depois das sete da manhã, saímos do porto. Frio, mas não muito, ondas assim-assim. Para animar a malta, o Pedro Ramalho disse logo "Não vamos ver nada!".

Papagaio-do-mar (Fratercula arctica) - foto Pierre Lemos Esteves

Como fui com a esperança de ver um papagaio-do-mar, fiquei a pensar na frase. Apesar de tradicionalmente pessimista, optei por continuar a acreditar que tinha possibilidade de ver esse bicho, que já me tinha fintado algumas vezes em Peniche. De qualquer maneira, dentro do barco já estava. Era melhor pensar que estava lá a fazer alguma coisa.
Fomos diretos aos Farilhões. Na primeira hora pouco se viu. Gaivotas, claro, e pouco mais. Uma pardela-balear, um ou outro alcatraz, um skua e um alcídeo sp, que foi anotado como uma provável torda.
Chegados ao primeiro objectivo, esquadrinhámos cada metro das falésias à procura de algo diferente. Um Oceanodroma Castro, por exemplo. Ou talvez o Alcatraz-pardo, o Sula que tem sido regularmente visto por lá. Nada de nada. Comecei a pensar que se calhar o Pedro tinha razão. 
Passámos os Farilhões e seguimos para mais longe, para perto da auto-estrada dos cargueiros. As coisas continuavam muito calmas. A dada altura, estava sentado à frente, com o Pedro Nicolau ao meu lado. Vemos três "mosquitos" a passar ao longe. Eram alcídeos. "Parecem-me tordas!", disse eu. O Nicolau permaneceu em silêncio e limitou-se a apontar e disparar. É um dos mais rápidos que conheço a fazer esse gesto. Uma espécie de Lucky Luke da fotografia. Acerta quase sempre no alvo e, neste caso, também acertou. Quando vamos ver as fotos no monitor da máquina, ele diz-me:

Os três "mosquitos" que eram tordas, que afinal eram papagaios-do-mar 
(foto Pedro Nicolau)

-Eh pá, acho que são papagaios!
-Papagaios? Vê-se mal. - digo, eu.
Dito isto, virámo-nos para trás, para mostrar a foto ao Pedro Ramalho. Estava já ele a dizer:
-Papagaios? Olhe que não! Olhe que não!
Vê a foto de seguida e diz:
-Olhe que sim! Olhe que sim!
Olho outra vez para o monitor e lá vejo o colar em duas das três aves. Eram mesmo.
Não sei se mais alguém além de nós dois viu esses três mosquitos. Pelo menos as caras indicavam que não. Entre os nossos gestos de regozijo e expressões de alegria o Nicolau deixa escapar um "Estavas sentado ao lado do gajo certo!". E estava. 
Objetivo cumprido! Virei-me para trás, para o capitão e disse:
-Chefe, por mim está feito! Pode voltar para trás!

Técula, o Fratercula (foto Pierre Lemos Esteves)

Ao fim de mais de oito anos lá vi o meu primeiro Fratercula arctica em Portugal. Há coisas piores...
O episódio também serviu para perceber duma vez por todas que isto das pelágicas é fotografar - Nicolau dixit. Quando os problemas de identificação apertam, o melhor é ficar com evidência, em vez de andar com a "conversa da treta" do "acho que" e do "tenho quase a certeza que".
O dia estava feito e ainda eram nove da manhã. Agora era só desfrutar...
Passado uns dez ou quinze minutos começam a aparecer papagaios e mais papagaios, para alegria de todos. Não há fome que não dê em fartura. Baptizei o que apareceu mais perto de Técula, o Fratercula. Deu para a foto, mas é como digo, "há sempre um crítico". Houve alguém que disse que o bicho apareceu sempre do lado errado do barco, esteve sempre de costas, etc. Pobre Técula.

Rissa Tridactyla (foto Pierre Lemos Esteves)

No total da pelágica, entre grupos, grupinhos e indivíduos devemos ter visto para aí uns vinte e tal. Começaram também a aparecer rissas, primeiro uma ou outra, mas depois em alguma quantidade. Até uma jangada de vinte acabámos por avistar ao longe.
Já quem esperava ver um airo não teve tanta sorte. De alcídeos, "só" papagaios e a tal sp inicial, que podia ser uma torda, mas também podia ser um papagaio. Temos pena!
O engodo não funcionou muito bem, mas ainda vimos um painho de cada, no caso um Oceanites e um Hydrobates.
Golfinhos, viram-se muitos. Alguns vieram investigar o barco em detalhe. A maioria golfinhos-comuns, mas as estrelas foram os golfinhos-riscados que resolveram fazer uma breve aparição. O Nicolau, mesmo com os nervos de estar a ver uma lifer, ainda os conseguiu apanhar. "Mais rápido que a própria sombra!", não é o que diz na contracapa? 

 
Golfinho-riscado (foto Pedro Nicolau)

Fomos regressando, tendo como objetivo passar nas Estelas e tentar encontrar o tal sula que nos andava a fugir.
Lá chegados, tirei umas fotos à paisagem. Ainda não tinha acabado a última há um minuto, já estávamos rodeados de gaivotas. Ouve-se a voz do Pedro Ramalho, "Olha o gajo ali!". Lá estava ele, no meio das gaivotas. Veio com elas investigar o barco e já não nos deixou. Começámos a largar sardinhas. O bicho dava uma volta ao barco e vinha apanhar o peixe, sempre perseguido pelas gaivotas. Cada volta, cada sardinha. E a vocalização é  muito cómica.

 Sula leucogaster ataca as sardinhas e grasna
(Vídeo smartphone - João tomás)

Ao fim de uns minutos, lá resolveu pousar numa ilhota. Fomos ter com ele e o espetáculo repetiu-se. Sai sardinha, volta ao barco, vocaliza, come sardinha, foge das gaivotas, volta ao barco. Sei que houve fotógrafos que nem tinham distância suficiente para conseguir focar. O Pierre, com o seu canhão, por exemplo. 

Selfie, o Sula (Sula Leucogaster)

Quando resolveu voltar a pousar, parámos com as sardinhas. O sula era tão simpático que até deu para as selfies. O João Tomás veio mostrar um vídeo que fez com o telefone (!). Realmente, às vezes é mesmo tudo ou nada. 
Foi assim que arranjei um novo amigo, Selfie, o Sula.

Nós e o Selfie lá ao fundo (foto Pedro Ramalho)

Melhor era impossível. Um regresso de barriga cheia, que terminou no café com um excelente convívio.  
Foi um dia mítico, como diria alguém. Afinal sempre se vê qualquer coisa em Dezembro...


Selfie, o Sula (foto Pierre Lemos Esteves)
Resta-me agradecer ao Nuno Oliveira e à SPEA, pelo passeio, e ao João Tomás, Pierre Lemos Esteves, Pedro Nicolau e Pedro Ramalho pelas fotos e vídeo.  Por último, a todos os participantes pela excelente companhia.