quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Revolução em Portimão - 25 de Abril de 2017


14:00 Mail do raridades (Nelson Fonseca) - Limicola falcinellus na ETAR da companheira
14:01 SMS para Pedro Ramalho - Comeke vamos ao falcinellus agora?
14:02 SMS de resposta - Qual falcinellus?

 
Assim começou mais um twitch memorável (mítico, nas palavras do Pedro Ramalho).
A angariação com tão pouca antecedência não correu muito bem e seguimos para Portimão com uma equipa reduzida de dois elementos, eu e o Pedro.
Saímos de Lisboa por volta das 15h30. Durante a viagem ficou claro que não iria ser um twitch fácil por várias razões. A maré estava baixa, os acessos ao local eram complicados, para dizer o mínimo, e teríamos pouco tempo para procurar o bicho. Mesmo assim, após uma última deliberação, decidimos avançar. Quem não arrisca, não petisca.
Falta dizer que o joelho continuava a não estar recuperado e que saí de casa preocupadíssimo e com a minha mulher preocupada pelas mesmas razões. Seria desta que acabava com o joelho de vez?



Limicola falcinellus (foto Nuno dos Santos)

Durante a viagem contactámos o Nelson Fonseca, descobridor da ave, e o Nuno dos Santos, um birder/twitcher algarvio que chegou ao local antes de nós. Cada vez estava mais claro que não iria ser fácil. Os acessos mais próximos estavam vedados e iríamos ter de caminhar cerca de dois quilómetros para chegar ao local onde a ave tinha sido avistada. E nem um portimonense que encontrámos no local conseguiu ajudar muito. O atalho que ele propôs e nós seguimos era mais um trabalho do que um atalho. Pobre joelho...
Ao fim de meia-hora de caminho, lá chegámos ao tanque pretendido. Como previsto, já lá estava o Nuno dos Santos, acompanhado do Lars Gonçalves, outro birder algarvio. Da ave nem sinal. Procurámos, procurámos e nada. Uns albas em muda ainda deram para assustar, mas faltava o o pequeno pormenor do supracílio em V. Começou a pairar no ar a sensação de fracasso. O ambiente estava pesado. Entre outras pérolas, ouviu-se "estamos f***dos... Uns mais que outros!", "então? vamos embora?".
Passada uma hora, resolvemos voltar para trás e verificar a vaza do rio, para procurar nos bandos de limícolas e ver se o falcinellus estaria com eles. Ao fim de umas centenas de metros, e dada a pouca abundância de aves, o Pedro Ramalho saíu-se com a frase "ainda temos meia-hora de luz, vou voltar para trás e procurar uma última vez". Também sugeriu que eu ficasse para trás, para não esforçar ainda mais a minha articulação doente. Eles avisavam-me em caso de haver novidade.



Limicola falcinellus (foto Nuno dos Santos)
E pronto. Foi assim, sem mais nem menos, que entrámos na twilight zone.
Eu fiquei a vê-los ir andando, e liguei à minha mulher a contar-lhe do fracasso. Eles cada vez mais longe e eu cada vez mais só. Comecei a lembrar-me de outro twitch mítico, o do abelharuco-persa, em que foi precisamente quando nos separámos que o bicho resolveu aparecer. E qualquer coisa na minha cabeça me disse, exactamente nesse momento, que não ia sair de Portimão sem o bicho. De repente fiquei convencido que iria, de alguma maneira, ver um Limicola falcinellus nesse dia.
As aves do rio eram poucas e resolvi ir vendo o que eles faziam com os binóculos.
Durante uns dez minutos vi o Pedro Ramalho e o Nuno dos Santos irem espreitando pelos telescópios e o Lars a olhar alternadamente pelos binóculos e para o rio. Tudo indicava que não havia ave à vista.
Até que, de repente, os vejo mais concentrados e o Pedro a pegar subitamente em qualquer coisa, que assumi ser um telemóvel. O meu telefone tocou, dizia "Pedro Ramalho". Quando atendi, só ouvi uma palavra "CORRE!!!".
Correr, não corri, mas andei bastante rápido. Quando cheguei ao pé deles, o bicho não estava à vista. Ainda soltei um mais que adequado "f***a-se!!!", mas o bicho portou-se bem e reapareceu passado dois minutos. E o resto é história.
Com o sol a pôr-se não conseguimos grandes fotos nem filmes mas, lá está, o óptimo nem sempre é possível.
Já com a barriga cheia, fomos jantar num shopping local. Seguimos para cima tarde e a más horas. Nesse dia dormi descansado. Todos os malandros têm sorte. E o joelho? Esse também sobreviveu...


Deixo aqui um agradecimento ao Nuno dos Santos pelas fotos. Abraço!