sábado, 28 de outubro de 2017

Algarve 2017 - O Amigo Necas - Parte I - O Início

Este ano, as férias de birding no Algarve foram memoráveis. Talvez as melhores de sempre. Quase três semanas completas, que tiveram direito a duas lifers, um novo amigo, posts no Facebook e muitas aves de qualidade. Muitas peripécias, emoção e, sobretudo, diversão com fartura. Os acontecimentos desenrolaram-se em crescendo de dia para dia. Nada fazia prever o que se passou e ainda por cima começou tudo muito mal. Logo ao fim de três dias, o meu bem-amado Leica levou um chuto do vento e caiu ao chão. A óptica sobreviveu, mas partiu-se uma peça importante. Catástrofe! Já ia entrar em despesa. Fiquei aborrecido mas, curiosamente, a fúria não se instalou e, melhor ainda, não entrei em depressão. Não é que um telescópio seja essencial na actividade, mas ajuda muito, sobretudo em locais como os Salgados e a Cabranosa. Com alguma arte e engenho e sorte, claro, passadas 48 horas tinha na mão um Opticron Travelscope. Leica, até já.
Mas tristezas leva-as o vento. Adiante com as férias. A partir de certo ponto, quase tudo o que se passava era tão inusitado que resolvi escrever um relato.
Aqui está o que se passou, pelo menos em alguns dos dias. E juro, é tudo verdade!

22/09 Salgados
Cegonha-Preta!


Mais um dia de birding onde tudo se parecia encaminhar para a normalidade.
Contudo, desta vez o Lars tinha combinado ir ter comigo à tarde. É sempre bom contar com reforços.
A volta foi a do costume. Primeiro no observatório, que estava fraco. Eu sugeri que fossemos para o passadiço. Sempre se via mais qualquer coisa…
E lá fomos observando e conversando. De repente, o Lars solta um “cegonha-preta!” Terei achado que ele estaria a falar de uma cegonha-preta em geral? Penso que o meu cérebro não processou a informação por ser demasiado estranha. A verdade é que não reagi. Então ele repete “está ali uma cegonha-preta!”. E estava.





“Onde?” – perguntei. “Ali em voo!” – respondeu. Com os nervos, ainda demorei alguns segundos a perceber as indicações. Vi-a em voo e a pousar na margem da lagoa. Alguns alemães curiosos quiseram saber do que se tratava, e nós lá mostrámos. Até em alemão falei, para chamar uma senhora para ver no meu telescópio. O Lars avisou o Tiago Guerreiro e o Carl Hawker. O Carl – que eu não conhecia - demorou cerca de dez minutos a chegar. Conseguiu ver o animal sem dificuldade. Já o Tiago teve mais problemas. Chegou meia hora antes de escurecer, e o bicho já tinha ido à sua vida. Ele lá ficou, com o seu braço partido e cara desconsolada. Eu ainda tentei animá-lo ao dizer que, uma vez que a cegonha já tinha desaparecido de vista por uns minutos e reaparecido uma vez, podia ser que voltasse a fazer o mesmo. E fez. Toda a gente ficou contente, com boas observações de um juvenil de cegonha-preta.




Esta foi a minha primeira observação desta espécie nos Salgados. Terá sido aí que comecei a perceber que estas férias não iriam ser iguais às outras?
A verdade é que fiquei entusiasmado e fiz o meu primeiro post no Facebook do que viria mais tarde a ser chamada a “série mete-nojo” por alguns amigos. Nada de especial, apenas um lacónico “Cegonha-preta, Salgados. Apenas uma foto de registo. Não se vêm muitas no local”.